Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Contos Populares do Tibete (O Castelo do Lago)

Na terra do Tibete havia um belo lago rodeado de colinas e montanhas. Era tão belo e de águas tão claras, que os que passavam perto dele ficavam boquiabertos de admiração. Alguns diziam que, quando o sol estava alto e projetava sobre a tranquila massa de água as sombras dos picos das montanhas, parecia como se houvesse um castelo no lago, um castelo de proporções tão enormes que tomava toda a água. Assim, pois, o lago passou a ser conhecido como "o lago do castelo".

Criaram-se muitas histórias sobre o lago e seu castelo. Às vezes se dizia que, quando a lua tremeluzia e as estrelas refulgiam como diamantes na água, se podia ver uma estranha gente sair do lago, gente com olhos de fogo e cabelos soltos que caíam como folhas molhadas ao redor de seus rostos. Ou, então, dizia-se, também, apareciam ferozes cães, que estraçalhavam as carnes dos viajantes solitários que caminhavam incautamente por suas praias.

Mas, como costuma ocorrer com as lendas, o pai conta à filha e a mãe ao filho, e, assim, durante gerações e gerações, até que as histórias se ampliam cada vez mais e mais, e acabam por dizer muito mais do que pretendeu quem as contou pela primeira vez. E aconteceu que, logo, foi aceito por todos que havia, mesmo, um castelo no lago, e que o castelo tinha um rei. Este rei, dizia-se, possuía muitos servidores, homens que, por alguma desgraça, haviam caído no lago, ou que haviam sido capturados enquanto caminhavam sozinhos por suas margens, e que depois, foram obrigados a permanecer a serviço do rei.

Certo dia, um jovem pastor estava guardando seus iaques no lado oriental do lago, quando sentiu vontade de comer algo; por isso, deixou o seu rebanho e desceu até a margem do lago. Depois de ter molhado o rosto com água fresca, sentou-se apoiado contra uma grande rocha; tirou um queijo e um pão de cevada do surrão, acendeu um pequeno fogo para esquentar seu chá com manteiga, e se pôs a comer.

Enquanto comia, Rinchen — que assim se chamava, o pastor começou a pensar em sua vida. Sua mãe era uma mulher cruel, que sempre o havia forçado a trabalhar muito, a fim de que ela pudesse comprar vestidos novos e comer bem. E, quanto a ele, tinha de contentar-se com uns poucos farrapos e com as sobras de comida que a mãe não queria mais. Considerando a vida que levava, Rinchen se pôs a chorar. As lágrimas lhe escorriam pela face e os soluços agitavam todo o seu corpo. Não conseguiria trabalhar mais do que já vinha fazendo, e, entretanto, sua mãe continuaria a querer mais e mais.

O jovem pastor já começava a guardar as suas coisas, quando, ao levantar os olhos, viu um homem de pé junto à margem do lago. Era um homem alto e vestia uma chuba1 negra da qual jorrava água — o que dava a impressão de que havia acabado de sair do lago. Recordando as histórias que tinha ouvido sobre o lago do castelo e os servidores do rei, Rinchen se sentiu tomado de pânico, e já se ia embora correndo, quando o homem falou:

— Por que você estava chorando daquele modo?

Rinchen se voltou para o homem e percebeu que ele possuía uma expressão bondosa e afável. A sua voz era doce e melodiosa. Todo o medo que o pastor sentira antes pareceu abandoná-lo, e ele se aproximou do homem alto, de chuba negra, que estava na margem do lago. Este repetiu a pergunta. Rinchen contou-lhe, então, sobre sua mãe e sobre como esta o obrigava a trabalhar cada vez mais para mantê-la e seus gostos exigentes.

— Entre comigo no lago — disse o homem —, pois o rei é um homem bom e talvez possa ajudá-lo a resolver o seu problema.

O jovem pastor sentiu que o medo lhe voltava, pois estava certo de que se entrasse no lago jamais poderia sair dele. O homem alto percebeu o medo do rapaz e, num tom suave, que era como música para os ouvidos, convenceu-o de que não havia nada a temer.

— Sou um dos servidores do rei — disse o homem. Eu vou levá-lo diante do rei e cuidarei para que aqui volte são e salvo.

O jovem pastor pensou por um momento: "Que posso eu perder? Minha mãe é tão cruel, que até a morte me seria melhor do que passar o resto da minha vida como o seu escravo". E, assim, afastando o medo, Rinchen seguiu o servidor do rei e entrou no lago.

A água era morna e acolhedora, e o rapaz se surpreendeu de que pudesse respirar com a mais completa liberdade. O servidor do rei pediu-lhe que fechasse os olhos enquanto o conduzia pela água até o castelo. Quando pararam e Rinchen abriu os olhos, viu que se encontrava numa grande sala, primorosamente enfeitada com ouro, prata reluzente e madrepérola. No fundo da sala havia um trono, e, neste, estava um homem: o rei.

O rei fez sinal ao jovem pastor para que se aproximasse. Ao fazê-lo, Rinchen percebeu que não estava sozinho, na sala, com o servidor e o rei, mas que a cada lado do trono havia mais servidores, todos eles vestidos com chubas negras como a do homem alto que lhe havia falado à beira do lago. Quando chegou aos pés do trono do rei, um dos servidores se aproximou e colocou um tamborete baixo diante do trono, para que o rapaz se sentasse nele. Timidamente, Rinchen se sentou e ficou observando os lacrimejantes olhos azuis do rei.

— Por que você está aqui? perguntou o rei com uma voz profunda que mais parecia o distante reboar de um trovão. O pastor contou, então, a sua história, tal como a relatara ao servidor, à beira do lago.

O rei foi escutando o que o jovem lhe contava e, quando Rinchen terminou o seu relato, voltou-se para o seu corpo de servidores e fez sinal a um deles para que se aproximasse. O servidor se aproximou do rei e se inclinou diante dele, enquanto este lhe sussurrava algumas instruções. O jovem pastor aguçou o ouvido, mas não pôde ouvir o que o rei dizia. O servidor abandonou a sala e voltou depois de alguns minutos trazendo um cão.

— Tome este cão — disse o rei ao pastor —, mas cuide para sempre dar-lhe de comer antes que você mesmo o faça. Isto é muito importante.

Rinchen pegou o cão e, com os olhos fechados, deixou-se conduzir até a beira do lago. Quando abriu os olhos, estava sozinho com o animal.

O jovem pastor foi embora para casa e com ele seguiu o cão. A partir daquele dia, tudo o que Rinchen desejava sempre aparecia diante dele. Ao despertar pela manhã, descobria que havia posto cevada na caixa da cevada, manteiga na caixa da manteiga, e dinheiro na caixa do dinheiro. Inclusive, apareciam roupas novas em seu guarda-roupa. Era muito feliz e sempre cuidava muito bem do cão, seguindo as instruções do rei de dar de comer ao animal antes que ele mesmo comesse.

A mãe de Rinchen, que andava muito intrigada com a súbita e inexplicável riqueza do filho resolveu, um dia, sair ela mesma com o rebanho de iaques, para ver se podia descobrir a fonte de tanta fartura. E enquanto a mãe se achava fora, o jovem pastor decidiu observar o cão, pois também estava curioso por saber como o animal conseguia obter o dinheiro e a comida. Escondendo-se na casa, observou o cão: este entrou, aproximou-se da lareira e, depois, se pôs a sacudir-se violentamente.

Imediatamente, a pele do cão caiu ao chão, deixando a descoberto uma formosa mulher a quem Rinchen jamais havia visto. Ela andou até a caixa da cevada, levantou a tampa e pôs dentro a cevada, que não se via de onde saía. Depois, fez o mesmo com a gaveta da manteiga, a do chá e a do dinheiro, tirando do nada tudo o que o rapaz e a mãe necessitavam.

Rinchen não se pôde conter. Agarrou a pele do cão e a lançou ao fogo. A formosa mulher tentou impedir que o fizesse, mas já era tarde, pois a pele ardeu rapidamente e logo não foi mais do que um grande monte de cinzas.

Temeroso de que o filho do chefe visse a mulher e a quisesse por esposa, para ocultar a sua beleza, Rinchen cobriu o rosto dela com fuligem e a reteve em casa, longe dos olhares do povo.

Em pouco tempo, o jovem pastor tornou-se muito rico, e a sua riqueza foi-o deixando excessivamente ousado. "Por que me preocupo? — perguntou-se. Tenho muito dinheiro, e o filho do chefe não se atreverá a roubar-me esta mulher, pois posso pagar-me armas e homens". Pensando desse modo, Rinchen limpou a fuligem do rosto da bela mulher e a levou à cidade para mostrá-la ao povo, pois se orgulhava da sua beleza.

O filho do chefe estava na cidade e viu a mulher. Cativado por ela, tomou a firme determinação de fazê-la sua esposa e enviou homens para buscá-la. Muito aflito, o jovem pastor pediu ajuda aos homens da cidade, mas nem um só quis atendê-lo.

Muito triste, Rinchen foi à margem do lago, sentou-se junto à grande rocha e se pôs a chorar. Como na vez anterior, apareceu o servidor do rei.

— Por que está chorando desta vez? — perguntou.

— Porque perdi a minha mulher —, respondeu o rapaz. E contou ao servidor toda a história de como havia lançado ao fogo a pele do cão e mantido escondida dos olhares do povo a formosura da mulher.

Contou, também, que, por se ter tornado imprudente e demasiado seguro, havia lavado o rosto da jovem, descobrindo-lhe, assim, a beleza para o filho do chefe; e, com isso, a havia perdido para sempre.

O servidor pediu a Rinchen que o seguisse de novo ao lago, pois o rei tinha de conhecer essa história.

— Talvez o rei possa ajudá-lo outra vez, disse ao jovem pastor, e este logo se encontrou ante o trono e aos pés do rei do lago.

Depois de escutar a história de como Rinchen havia perdido a bela mulher, o rei estendeu-lhe uma caixinha e disse:

— Leve esta caixa — e o pastor a pegou. Agora, vá ao alto de uma colina e chame à guerra o filho do chefe. Quando este tiver congregado as suas tropas na base da colina, abra a caixa e grite: A luta!

Assim fez o pastor. E quando abriu a caixa e gritou:

— À luta! —, milhares de homens saíram dela e avançaram sobre os soldados do filho do chefe e os derrotaram.

Rinchen recuperou sua bela mulher e a tomou por esposa. Enriqueceu ainda mais com a metade das terras do chefe e se converteu num chefe rico e benévolo. O jovem pastor devolveu a caixa ao rei do lago, agradecendo-lhe, e viveu em proveitoso contato com ele pelo resto de sua vida.
_______________________________________________
Nota
1. A chuba, palavra da mesma origem que as espanholas "juba", "jubón" ou "chupa" (e o francês "jupe" recebidas do árabe, é a roupa típica dos povos tibetanos. É um roupão de lã, como uma espécie de túnica ou toda cruzada, de cor ver-melho-escura, que se amarra na cintura, formando uma bolsa (ambac) sobre o peito, na qual se transportam os objetos mínimos necessários aos deslocamentos de lugares. As mangas da chuba, quando não são levadas recolhidas, ultrapassam as mãos pelo menos um palmo.


Fonte:
Jayang Rinpoche. Contos Populares do Tibete. (Tradução: Lenis E. Gemignani de Almeida).

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to