Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 19 de dezembro de 2015

Silvana da Rosa (A mulher escritora e personagem nos contos de fadas) Parte IX

A partir do Renascimento, em âmbito literário, percebe-se que a mulher começou a ser vista sob um novo prisma, porém, em nível social, ela continuou a ser mero objeto, passiva e obediente a atitudes paternais. Aliás, essa visão social e, diga-se generalizada, ultrapassa a Antiguidade e prolonga-se até fins da Idade Média. E somente com a chegada do Renascimento é que a mulher principia a renascer, transformando-se em sujeito da ação. Novaes Coelho sustenta que:

É só compararmos o registro histórico com o registro literário das relações Homem/Mulher, nas cortes medievais, e compreendermos a enorme distância que ia da realidade dos fatos à idealização dos valores. Ao nível da História, vê-se tais relações marcadas pela violência e pela promiscuidade mais rude, mostrando que o respeito pela mulher era  praticamente nulo, pois ela era apenas uma peça útil ou inútil no jogo dos interesses pelo poder. Enquanto, ao nível literário, se impunha a idealização mais absoluta, que transformava a Mulher, do ser inferior e dominado que era na vida real, em um valor superior e precioso a ser atingido por todo homem que procurasse sua realização humana integral [...] (COELHO,1991, p. 50, grifos da autora)
                     
De outro modo, no século XX, Marina Warner destaca que a personagem feminina, outrora passiva, transformou-se em sujeito de ações más. De certa forma, inclusive Walt Disney, através dos filmes Branca de neve e os sete anões e Cinderela, contribuiu para que a crueldade feminina se acentuasse através da madrasta e da bruxa má, as quais roubaram a cena dos protagonistas príncipes e princesas. Tem-se a impressão de que quem assiste a essas produções artísticas mal pode esperar o momento para que a maldade entre em ação.

Os dois filmes [Branca de Neve e os sete anões e Cinderela] se concentram com prazer exuberante na madrasta perversa e violenta, com seus cabelos negros como as penas de um corvo e as garras de uma ave de rapina; nem mesmo os poderes inventivos de Disney conseguiram salvar os príncipes de uma banalidade sem expressão e as heroínas de um sentimentalismo açucarado. O poder autêntico emana das mulheres más, e a fada-madrinha gorducha e simpática, em Cinderela, parece não ser páreo para elas. A visão de Disney afetou a idéia que todos faziam dos próprios contos de fadas: até que escritores e antologistas reabrissem os olhos, heroínas passivas e infelizes e mulheres mais velhas, vigorosas e perversas,pareciam características genéricas [...] (WARNER, 1999, p. 239)

Em consonância com o aspecto estereotipado da figura feminina, presente nos contos, a mulher era descrita, enquanto malvada, feia, poderosa e representada pela bruxa, pela fada ruim, pelas irmãs invejosas, pela rainha má. Enquanto bondosa, obediente, irresoluta, angelical, bela, era caracterizada como princesa, filha órfã, fada.

Atualmente, as características más da mulher são amplamente discutidas, tanto que o assunto mereceu uma reportagem da revista Época (2004). Nessa reportagem é apresentada a obra de Shelley Klein, uma vez que a autora desvendou o universo das más, perfilando as quinze mulheres mais cruéis do ponto de vista histórico e não ficcional.

Martha Mendonça, a profissional responsável pela reportagem, introduz a temática em questão afirmando que:

Antinatural    ou não, a ficção    está    lotada de vilãs assustadoras,  definitivamente mais marcantes que os homens. Elas povoam os contos de fadas, novelas e clássicos do cinema. As madrastas de Branca de Neve e Cinderela são ícones dessa idéia: aquelas que deveriam estar no lugar da mãe, mas, ao contrário, são perversas e competitivas com suas pobres enteadas. (MENDONÇA, 2004, p. 68-69)

De certa forma, é necessária uma análise mais detalhada quando Martha Mendonça afirma que as vilãs são mais marcantes que os homens na ficção, visto que há narrativas repletas de homens incomparavelmente cruéis, e o Barba-Azul, já citado anteriormente, é um deles.

Mendonça cita ainda o que o psicanalista Lindenberg Rocha salienta sobre a questão:“A madrasta da Branca de neve, linda de um lado e bruxa do outro, é um símbolo fortíssimo desse poder de vida e morte da mulher, essa matriz da humanidade” (2004, p. 69). Além disso, Martha Mendonça acrescenta a visão do Mauro Alencar, uma vez que este acredita que “as más enfeitiçam as platéias, são a mola propulsora da trama, mais que as mocinhas” (2004, p. 70).

De acordo com Marina Warner, o ódio da mulher mais velha em relação à mais jovem – outra característica negativa da mulher - presente nos contos, representa a sua fragilidade e dependência quanto aos cuidados e atenção que a família poderia lhe proporcionar:

o ódio da mulher mais velha e a disputa entre gerações podem ser frutos não apenas da rivalidade, mas também da culpa diante dos fracos e dependentes. O retrato da sogra ou madrasta tirana pode esconder sua própria vulnerabilidade, pode oferecer uma desculpa para os maus-tratos que receberia. (WARNER, 1999, p. 260)
                     
(Nota: Como exemplo, observa-se o retrato apresentado pela França, após a Revolução, uma vez que a sociedade não era nada propícia à mulher que perdia todos os bens após a morte de seu esposo, falecido principalmente em combate na guerra, tendo ela que viver à custa de parentes. Devido a isso, criava-se uma acentuada rivalidade entre mulheres jovens e mais velhas, sendo que as viúvas é que enfrentavam perigos reais, uma vez que se tornavam vulneráveis ao estarem desacompanhadas. A presença masculina era fundamental e indispensável para a constituição familiar e, mais especificamente, para a própria sobrevivência feminina.)

No conto A Bela e a Fera, provavelmente originário de Amor e Psiquê, obra de Apuleio, a figura feminina é testada em sua confiança e obediência, assim como em Barba-Azul, de Perrault. Sendo assim, faz-se pertinente ressaltar que a maldade estava presente, num primeiro momento, na mente masculina, parecendo que qualquer ato feminino era digno de desconfiança. E os contos realmente identificam o que as mulheres vivenciavam em sociedade, ou seja, seus companheiros consideravam-se donos de suas vidas e corpos e as tratavam como suas escravas, tornando-se, às vezes, verdadeiros monstros para elas. Essa temática é evidenciada nas obras de madame d’Aulnoy, Murat e Jeanne-Marie Beaumont, escritoras que vivenciaram esses tempos difíceis, em que essa posição masculina era dominante.

Na versão apresentada pela Walt Disney, a Fera é representada de uma forma mais humana e suas atitudes com a Bela são bastante carinhosas e prestativas. Evidentemente que esse homem-animal mostrou-se impiedoso e cruel ao exigir a filha do mercador como pagamento de dívida.

Por sua vez, o pai de Bela (assim como de Cinderela, de Bela adormecida e de Branca de neve) fez-se ausente, fraco, incapaz de assumir a sua verdadeira paternidade, a ponto de entregar a própria filha à Fera. Nessa situação, tanto a Fera quanto o pai de Bela apresentaram atitudes inquestionáveis quanto à crueldade. De outro modo, até mesmo as figuras femininas assemelham-se em Cinderela e Branca de neve. As heroínas, representadas por mulheres mais novas, são vítimas de inveja e de crueldade de madrastas de mais idade, que ora figuram como bruxas.

Além disso, comprovando-se “a malignidade masculina”, naturalmente traço cultural, observa-se, no conto Pele de asno, de Perrault, que o pai é bastante presente, embora no sentido de assediar sua filha. Tanto que a princesa, vestida de mendiga e usando uma pele de asno, foge das garras do mesmo. É sabido que em povos antigos, que viveram antes da Idade Média, o incesto era permitido, uma vez que a filha mais velha deveria assumir as obrigações do lar e com seu pai, desde que sua mãe tivesse falecido. A partir da Idade Média esse conto passou a revelar e, até certo ponto, condenar, a atitude do pai incestuoso.

continua…

Fonte:
Silvana da Rosa. Do tempo medieval ao contemporâneo: o caminho percorrido pela figura feminina, enquanto escritora e personagem, nos contos de fadas. Dissertação de Mestrado em Letras. Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), 2009

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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