Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 19 de dezembro de 2015

Contos Populares do Tibete (De como Asanga chegou a ver o Buda Futuro)

Asanga, o douto filósofo, de todo o coração decidido a realizar a sabedoria interior, meditou em solidão durante muitos anos. O objeto de sua meditação era Champa (Maitreya), o Buda do futuro, que reside no céu Tushita aguardando a sua descida à terra. Asanga sempre fora perseverante em seus esforços, mas, depois de tantos anos de fervorosa meditação, ele mesmo já começava a sentir-se frustrado em seu empenho por alcançar a sabedoria a que aspirava.

Certo dia, quando passeava pelo exterior de sua caverna, Asanga se fixou nuns quantos pássaros que pousavam numa rocha proeminente que ficava próxima. Justamente onde as asas dos pássaros, ao pousarem, roçavam a rocha, Asanga notou uma profunda fenda. Isto o levou a refletir sobre os incontáveis anos que deveriam ter sido necessários para que, pelo único efeito do roçar suave das asas dos pássaros, se produzisse uma cavidade como aquela.

Ao voltar à sua cova, Asanga, com os sentidos aguçados pela meditação profunda, ouviu o brando gotejar da água sobre a pedra. Examinando-o mais de perto, percebeu um pequenino regato que seguia rocha adentro: com os anos, o delicado gotejar da água havia aberto uma profunda passagem na rocha. "Se as asas dos pássaros e o gotejar da água podem perfurar a rocha — pensou Asanga —, então também eu, com a meditação, posso perfurar as distintas camadas da consciência, e alcançar, dessa maneira, a sabedoria."

E assim, Asanga continuou meditando, mas meditando sem resultado algum. Parecia-lhe que, quanto mais ardentemente buscava obter a sabedoria, e quanto mais apaixonadamente tratava de invocar a Champa, mais impossível isso se tornava.

Um dia, Asanga deixou sua caverna para ir à busca de comida. No caminho, encontrou um homem que esfregava uma barra de ferro maciço com um pedacinho de algodão. Asanga perguntou-lhe o que estava pretendendo obter com aquilo, e ele respondeu que ia fazer uma agulha. Asanga se surpreendeu muito por achar possível fazer uma agulha apenas esfregando uma grossa barra de ferro com um pouquinho de algodão macio; mas, quando expressou isso ao homem, este respondeu:

"Se alguém está realmente resolvido a fazer uma coisa, não fracassará em seu empenho, mesmo quando a tarefa possa parecer impossível."

Asanga recobrou novas forças, ao considerar que a sua tarefa não era mais difícil do que a daquele homem, e voltou à sua caverna animado a continuar a sua meditação.

Depois de haver estado meditando durante doze anos, Asanga decidiu-se, finalmente, a abandonar seu retiro e deixar de meditar sobre Champa, pois este não se lhe apresentara nunca, nem mesmo depois de tanto tempo de esforços.

Ao deixar seu retiro, Asanga encontrou um cachorro ganindo de dor por causa de uma ferida no dorso — um dorso infestado de vermes. Asanga sentiu uma grande compaixão pelo cachorro e desejou aliviar-lhe os sofrimentos. Sabia, porém, que se lhe tirasse os vermes, estes iriam morrer, pois não teriam de onde comer. Para salvar o cão, Asanga decidiu tirar-lhe os vermes, e, quanto a estes, iria colocá-los em sua própria carne, para que pudessem continuar vivendo. Asanga já se dispunha a retirar os vermes com a mão, mas deteve-se e pensou: "Se os tirar com os dedos, poderia esmagá-los". De modo que, fechando os olhos, inclinou-se para retirar os vermes lambendo a ferida. No mesmo instante em que a sua língua tocava o cachorro, este desapareceu, e, em seu lugar submerso numa bolsa de deslumbrante luz, apareceu Champa, o Buda futuro.

Tomado de emoção, Asanga assim falou a Champa:

— Durante tantos anos e de tantas formas, tentei vê-lo, sem que o senhor se mostrasse a mim, e agora, quando meu anseio desapareceu, por que se mostra diante de mim?

Champa respondeu:

— Porque somente agora é que, através do seu grande ato de compaixão, a sua mente está realmente pura e, portanto, apta para ver-me. Na verdade, eu sempre estive aqui.

Então, Champa ordenou a Asanga que o levasse sobre os ombros até a cidade para que outras pessoas pudessem vê-lo. Assim o fez Asanga, mas o povo, com a consciência obscurecida por pensamentos impuros, não pôde ver a Champa, e acreditou que Asanga estivesse louco quando proclamava que levava Champa sobre seus ombros. Mas uma anciã conseguiu ver um cachorrinho sobre as costas de Asanga, e foi imediatamente acumulada de riquezas. E um pobre carroceiro de mulas chegou a entrever os dedos do pé de Champa, e, desde aquele momento, teve poder e paz interior.

Champa levou, então, a Asanga ao céu Tushita, onde pôde receber o ensinamento e obter a sabedoria que, durante tantos anos, o havia evitado.

Nota
1. Asanga natural de Purusapura (a atual Peshawâr, no Paquistão), não tibetano, pois, mas hindu, é um dos maiores filósofos do budismo. É considerado o criador, junto com seu irmão Vasudandhu, do sistema Vijnânavâda ou Vijnâptimâtra, base doutrinai da escola Yogâcâra (Hossô, no Japão); e, também, junto com o sistema Mâdhyamika, de todo o budismo mahâyâna.
Tradicionalmente, o seu ensinamento é considerado como sendo "o samadhi (a meditação criativa) de Maitreya", e assim, seu suposto irmão, Maitreyanâtha ("nâtha" significa "senhor"), não seria senão o próprio Buda futuro, como fica claro em nosso relato.
Maitreya, em tibetano Champa (Byams-pa), é o nome que recebe o bodhisattva que aparecerá, um dia, como o novo Buda em nosso mundo, e que, da mesma forma que Sâkyamuni, "fará girar a roda do Dharma, quando esta se houver detido".
É considerado uma emanação do Dhyâni Budda Amoghasiddhi, e seu nome deriva de maitrí, que significa a simpatia universal para com todos, a infinita benevolência e o amor.

Fonte:
Jayang Rinpoche. Contos Populares do Tibete. (Tradução: Lenis E. Gemignani de Almeida).

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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