Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Olivaldo Júnior (Pequeno conto não contado)

Pintura de Salvador Dali
Aquele homem não precisava de psicólogo. Era um homem comum. Trabalhava, estudava, cuidava do que devia cuidar, enfim, ninguém jamais diria que ele precisava de psicólogo. Isso talvez ainda ocorra porque as pessoas nem saibam de verdade o que faz um psicólogo. Na verdade, ninguém sabe muito bem o que se faz na profissão de ninguém. É preciso estar na pele do outro para sentir o que ele sente? Nem sempre. Mas o caso é que, se soubessem que aquele homem comparecia às sessões com psicólogo pelo menos quatro vezes por mês, diriam que ele, de fato, não precisava "disso".

Diziam muita coisa sobre aquele homem. Dizem muita coisa sobre todo mundo. Mas aquele homem não era quase nada do que falavam dele. Sabia que era mais ou menos bom, mais ou menos "humano", isto é, mais ou menos capaz de amar. Amar é lição que causa muita repetência, só não se divulga muito por aí. Nas fotos do Face, nas caras da Caras, o que se vê são olhos sorridentes que, por dentro, se desmancham como frágeis flores de dente-de-leão. Leão. Eis um bicho que aquele homem jamais seria. Estava mais para gato, para ave, ou até mesmo para peixe. Só, "nadava" em si mesmo.

O que acontece é que um dia tudo muda. A mandala da vida se desfaz e se refaz pelas mãos do tempo, que é cristão, zen-budista e todas as demais religiões ao mesmo tempo. Tempo que estava naquele homem. Do trabalho para casa, de casa para o trabalho, sem amigos, sem amor, contava com a presença de uma grande e velha amiga a lhe fazer companhia. Era seu anjo na Terra. De repente, entre um e outro movimento desse planeta, o homem se viu diferente do que sempre foi. Primeiro, foi mudando por dentro e, devagar, mudou por fora também. Não foi o cabelo, mas a cabeça.

Aquele homem foi trocando os hábitos que o prejudicavam por outros, que o favoreciam. A carinha dele, de menino, foi ficando ainda mais jovem. A vida é jovem para quem acredita que aprender um pouco a cada dia é a única e verdadeiramente possível fonte da juventude. Perdeu os quilos que precisava perder, mudou a mente, os pensamentos de outrora, e sua alma, seu espírito ficou mais livre, soou mais light, cantou mais firme ao violão que um companheiro lhe dera. Os sonhos repousavam nele e, como pássaros no fio de luz, lá ficavam. Seu psicólogo, contente, o aplaudia muito.

Diziam muita coisa sobre aquele homem. Mas a verdade é que, pela primeira vez, começaria ele mesmo a dizer a que veio, porque existia sob a forma humana nesse mundo de tantas formas diferentes e (in) decifravelmente afins. O que acontece é que um dia tudo muda. Aquele homem não precisava de psicólogo, diziam. Mas foi um deles que lhe deu a mão e o tirou do "mar morto" em que estava para o prenúncio das areias de Ipanema, com guarda-sóis e gente à beça, um sol a pino, brasileiro, como quis Vinicius, com muita música e poesia. Não foi o cabelo, nem a cabeça: foi ele, sabe?

Fonte:
O Autor
Imagem –

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to