sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Eduardo Martínez (Amigo imaginário)

Maria Luiza corria pelo gramado, enquanto os pais sorriam, surpresos que estavam com o crescimento da filha.

— Gente, como tá enorme!

— É verdade. Ontem mesmo era tão pequenina.

O pai de última viagem, não tardou, foi brincar com a menina, cuja energia parecia ser infinita. Pelo menos era assim que o corpo envelhecido do homem imaginava. Seja como for, tratou de aprumar a coluna e deu aquela esticada, o que fez as juntas estalarem como ranger de porta de filme de terror. 

Enquanto o marido tentava acompanhar o ritmo frenético da cria, a mulher aproveitou para colocar em dia a leitura. Apaixonada que era por Drummond e Pessoa, há quase seis meses se deliciava com as poesias dos livros "O diagnóstico do espelho", de Sarah Munck, e "A verdade nos seres", de Daniel Marchi. 

De tão entretida com aqueles versos, não percebeu quando um homem se sentou em um dos bancos da praça. Se tivesse notado, talvez não lhe daria importância, mesmo porque o sujeito parecia interessado em algo ao seu lado. Não que houvesse algo ali, pelo menos não perceptível à primeira vista.

Enquanto pensava sobre a última estrofe lida, a mulher foi interrompida pela voz do estranho.

— Desculpe.

— O quê?

— Desculpe.

— Não entendi.

— Quero me desculpar com a senhora.

— Desculpar? Como assim?

— Desculpa pelo zum-zum-zum.

— Zum-zum-zum? Que zum-zum-zum?

— O zum-zum-zum de agora há pouco. Mas pode ficar tranquila, que a pessoa que estava aqui conversando comigo já foi embora.

Instintivamente, ela olhou para todos os lados, mas não havia ninguém por ali, a não ser o marido e a filha, que continuavam brincando. Em seguida, o gajo se levantou e foi embora gesticulando, como se estivesse reencontrado o amigo imaginário.
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

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Vereda da Poesia = Wanda de Paula Mourthé



Olavo Bilac (A Pátria)

O pai, velho soldado que a vida das guerras alquebrara, gostava de lembrar, à noite, quando toda família se reunia na sala de jantar em roda da grande mesa antiga, os episódios das campanhas que vira.

A mulher não ouvia com prazer aquelas histórias de cargas de cavalaria, de emboscadas, de assaltos, tão cheias de sangue e de horror. Quando o velho recordava aquele tempo, com os cotovelos na mesa e o cigarro no canto da boa, — ela revivia a angústia dos dias passados na solidão, sem notícias do marido que lá andava no Paraguai. Via toda a agonia daqueles seis anos de sobressalto e choro, daquelas noites em que não podia dormir sem ver em sonhos o marido estendido, retalhado de golpes, numa poça de sangue, sem confissão e sem um carinho, entre os montões de cadáveres, sobre os quais passavam, sem respeito, as patas dos cavalos, no ardor da batalha. Lembrava-se da ansiedade e do medo com que esperava o correio, naquelas amaldiçoadas tardes de desespero. Quando não vinham cartas, logo a sua alma adivinhava desgraças. Imaginava o marido prisioneiro, entre os paraguaios, sofrendo tratos duros, chorando lágrimas de vergonha e de raiva. Quando o carteiro lhe entregava um envelope fechado, — quantos minutos ficava ela a mirar e a revolver nas mãos aquele pedaço de papel que vinha do querido ausente, e que tinha recebido os seus beijos e as suas lágrimas de saudade!

Por fim abria a carta. A princípio não podia ler.

As letras se embaralhavam, atrapalhadas. Tremia-lhe nos dedos o papel. Tinha de repousar um pouco: e, quando conseguia terminar a leitura, ficava abatida e sem consolo diante daquelas notícias que não variavam nunca. Era sempre a mesma coisa: não se sabia quando acabaria a guerra; mas Deus velava por ele; era preciso assegurar, conquistando um bom posto, um futuro feliz para os filhos; além disso a Pátria estava acima de tudo...

Ela amarrotava a carta... a Pátria! Que era a Pátria, para valer mais do que ela, mais do que aquelas duas crianças, que dormiam ali, estreitamente unidas, num só berço pequeno, — pobres inocentes que talvez a essa mesma hora já estivessem sem pai? Ficava então a contemplar os filhos, e ali ficava chorando, horas inteiras...

Quando o pai voltou da guerra, vinha major. Fora ferido. Perdera uma perna. A mulher abençoou essa desgraça. Ao menos, assim mutilado, ficava ele posto à margem, dispensado de voltar à mesma existência de perigos e canseiras. Podiam viver modestamente com seu soldo. Qualquer outro trabalho leve de que se pudesse encarregar, dar-lhe-ia o suficiente para educar os filhos. Carlos, o mais velho, preparar-se-ia para qualquer profissão honrosa e tranquila (nunca a profissão do pai): — e Alice, a mais moça, casaria, seria feliz... e a boa mãe já sorria, prevendo para sua velhice essa felicidade absoluta: toda família reunida, calma e livre de desgostos, numa vida sem luxos mas sem privações...

Agora, porém, quando o velho major, durante os serões domésticos, começava a contar os seus episódios de campanha, a mulher estremecia. Recordava-se dos sofrimentos passados, e ansiosamente olhava o filho, Carlos, já mocinho de anos, que escutava o pai, abrindo muito os olhos, em que o prazer de ouvir aquelas façanhas acendia um brilho de febre.

O velho falava. Contava como, um dia, surpreendidos por mais de cem paraguaios em uma emboscada, ele e mais dezenove brasileiros se tinham defendido como leões, conseguindo, por um milagre de intrepidez e de calma, destroçar os inimigos. No entusiasmo da narração, o velho transfigurava-se. O seu braço, estendido no ar, indicava os golpes de espada. A sua voz imitava, ora o ruído contínuo e seco da fuzilaria, ora o estrondo rouco dos canhoneiros. Diante dele, Carlos, também transfigurado, bebia as suas palavras, com inveja, respirando a custo, agitando-se na cadeira. Alice, que tinha então dez anos, admirava o pai e o irmão: e os seus olhos espantados, dilatados pelo medo que lhe faziam essas coisas de guerra, iam do velho ao menino e do menino ao velho. E a mãe quase arrebentava em soluços, vendo a alegria do filho.

Era aquele, há muito tempo, o seu maior receio... Pobre mãe! Desde o tempo em que, o pequenino, Carlos, como as outras crianças, apenas devia pensar em bonecos, — o menino manifestava uma grande predileção pelas coisas da vida militar.

Ficava horas inteiras contemplando as fardas do pai: e, à noite, deixando de estudar, fechando sobre a mesa as suas gramáticas e os seus dicionários, era ele o primeiro a pedir ao velho mais uma daquelas narrações que o embriagavam. Às vezes ia a mãe surpreendê-lo, na sala de visitas, extasiado diante do pequeno armário envidraçado, onde o major guardava as relíquias de sua glória: a espada, as dragonas, as medalhas de outro e bronze, as condecorações esmaltadas, e, entre esses atestados da sua coragem, a bala que lhe atravessara a perna, no combate de Humaitá.

Quando foi preciso escolher uma carreira, Carlos, sem hesitação, declarou que queria ir para a Escola Militar. O velho exultou. A mulher, resignada, não teve protesto.

Os anos correram. Alice, já moça, casou com um militar. E a boa senhora viu assim toda sua família submetida àquela existência que odiava.

Uma noite, conversavam os dois velhos, sós, naquela mesma sala de jantar em que tinham feito explosão os primeiros entusiasmos de Carlos. Falavam do filho. — Não te aflijas, mulher! — dizia o major. — Hoje, anda tudo em paz. O Brasil nunca mais terá guerras: isto é uma geração de molengas. Que perigo corre o nosso rapaz? Formar-se-á em engenharia militar, terá bons empregos, e morrerá de velhice. Não te aflijas, que o Brasil nunca mais terá guerras!

Neste momento, bateram à porta. Vinham dizer à família que Carlos morrera, vítima de um desastre, na Escola. Experimentava uma espingarda. Puxou o gatilho, julgando que a arma estivesse descarregada. Havia dentro uma bala, que lhe varou o peito.

O major sobreviveu pouco a esse desastre. Morreu um ano depois. E a viúva concentrou toda a sua afeição num neto, filho de Alice. E um dia, vendo esse pequenino brincar, fingindo de soldado, com uma barretina de papel e uma espada de pau, a velha murmurou:

— Também este ama a vida de soldado!... Será o que Deus quiser!
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Olavo Bilac, nasceu em 1865, no Rio de Janeiro/RJ. Cursou Medicina, abandonou o curso, tentou estudar Direito, também não concluiu, e passou a escrever para jornais cariocas. Em 1888, publicou seu primeiro livro — Poesias. No entanto, Bilac era firme em seus posicionamentos políticos e discordava do governo de Floriano Peixoto. Por fazer críticas a ele, foi preso em 1892 e também em 1894. O início do regime republicano, portanto, não foi muito agradável para o poeta. Em 1897, fundou, com outros intelectuais, a Academia Brasileira de Letras e ocupou a cadeira de número 15, cujo patrono é o escritor romântico Gonçalves Dias (1823-1864). No ano seguinte, passou a trabalhar como inspetor escolar. A partir daí, o escritor empreendeu uma campanha em prol do nacionalismo, e, inclusive, escreveu a letra do Hino à Bandeira, além de ter defendido o serviço militar obrigatório. Morreu em 1918, no Rio de Janeiro, deixando certo mistério sobre sua vida íntima. Nunca se casou. Um poeta parnasiano, crítico e nacionalista, mas, ao mesmo tempo, boêmio e libertário. Um homem rigoroso e prático, mas que tinha, possivelmente, uma alma romântica. Enfim, um indivíduo complexo, detentor de uma genialidade que o consagrou como Príncipe dos Poetas. 

Fontes: Coelho Neto e Olavo Bilac. Contos pátrios para crianças. Publicado em 1931. Disponível em Domínio Público.
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Estante de Livros ("Volpone" ou "A Raposa", de Ben Jonson)

"Volpone", escrito por Ben Jonson em 1605, é uma comédia satírica que explora a avareza, a ambição e a moralidade da sociedade. A peça se passa em Veneza e gira em torno de Volpone, um rico e astuto comerciante que finge estar à beira da morte para enganar os que o cercam e se apropriar de suas riquezas.

ENREDO

Volpone, cujo nome significa "raposa" em italiano, é um personagem extremamente astuto e manipulador. Ele vive com seu criado, Mosca, que é igualmente astuto e serve como seu cúmplice. Para se divertir e aumentar sua fortuna, Volpone finge estar gravemente doente, atraindo a atenção de vários herdeiros que esperam herdar sua riqueza.

Cada um dos pretendentes traz presentes para Volpone, acreditando que seus esforços os farão merecedores de sua fortuna. Enquanto isso, Mosca manipula a situação, alimentando as esperanças dos herdeiros e aproveitando-se de sua avareza.

A trama se complica quando Celia, a esposa de Corvino, entra em cena. Ela é desejada por Volpone, que, ao vê-la, decide que quer possuí-la. Mosca percebe a oportunidade e, com promessas de recompensas, tenta seduzir Corvino a permitir que Volpone encontre um "cuidado" para sua saúde, insinuando que a presença de Celia seria benéfica.

Celia, no entanto, se recusa a ceder aos desejos de Volpone e, ao perceber o plano traiçoeiro, acaba sendo alvo de assédio. A situação se intensifica quando Corvino, enciumado e manipulador, se torna cada vez mais controlador e violento.

O clímax ocorre quando Volpone, em um ato de pura avareza, decide revelar sua verdadeira identidade. Ele organiza uma cena onde todos os pretendentes se reúnem, e, ao invés de conceder a herança a um deles, expõe suas verdadeiras intenções e a hipocrisia que permeava suas ações. A revelação se torna um espetáculo, e o público é levado a rir da audácia de Volpone e da tolice dos herdeiros.

No entanto, a comédia não termina sem consequências. A avareza e a traição têm um custo. Volpone, que acreditava estar no controle, é finalmente punido. As autoridades de Veneza, alertadas sobre suas fraudes, o condenam. Mosca, que inicialmente parecia ser seu aliado, acaba sendo traído e se vê em apuros.

Celia e seu verdadeiro amor, que é um jovem chamado Bonario, acabam por se unir, enquanto a moral da história sublinha os perigos da avareza e da manipulação.

TEMAS CENTRAIS

Avareza e Consequências: 
O tema da avareza é central em "Volpone". A peça mostra como a busca desenfreada por riqueza leva à degradação moral e ao colapso das relações humanas. Volpone, ao manipular os herdeiros, não apenas se coloca em um caminho de autodestruição, mas também revela a hipocrisia e a corrupção da sociedade veneziana.

Manipulação e Engano: 
A manipulação é um elemento crucial na trama. Volpone e Mosca, em suas artimanhas, demonstram como o engano pode ser uma ferramenta poderosa. A peça questiona a moralidade da manipulação e sugere que, em um mundo onde as aparências são enganosas, a verdade é frequentemente subjugada pelo desejo.

Moralidade e Justiça: 
Jonson utiliza a história para questionar as normas morais da sociedade. Embora Volpone e Mosca inicialmente pareçam estar no controle, suas ações têm consequências. O final da peça, com a punição dos protagonistas, sugere que a justiça pode finalmente prevalecer, mesmo em um mundo corrupto.

Hipocrisia Social: 
"Volpone" critica a hipocrisia da sociedade veneziana, onde a aparência e o status social são valorizados acima da integridade. Os herdeiros, em sua busca por riqueza, revelam a superficialidade de suas relações e a falta de princípios que permeia suas ações.

ESTILO E ESTRUTURA

Jonson utiliza uma estrutura de comédia clássica, com elementos de sátira. O uso de diálogos ágeis e espirituosos, combinado com uma rica variedade de personagens, cria uma narrativa envolvente. A linguagem é repleta de trocadilhos e jogos de palavras, refletindo a inteligência e a astúcia dos personagens.

A peça é dividida em cinco atos, cada um intensificando o conflito e a tensão entre os personagens. A construção da trama é habilidosa, levando o público a rir das situações absurdas, enquanto também provoca reflexões sobre a moralidade e a natureza humana.

CONTEXTO HISTÓRICO

"Volpone" foi escrita em uma época em que a avareza e a corrupção estavam em evidência na sociedade. A Inglaterra do século XVII enfrentava profundas mudanças sociais e econômicas, e Jonson, como dramaturgo, estava atento a essas questões. A peça reflete as tensões da época, utilizando a comédia para criticar a moralidade da elite e as instituições sociais.

PERSONAGENS

Volpone: O protagonista astuto, Volpone, é um rico comerciante que finge estar à beira da morte para enganar os herdeiros que desejam sua fortuna. Ele representa a avareza em sua forma mais pura, mostrando como a busca incessante por riqueza pode levar à degradação moral. Sua inteligência e manipulação o tornam uma figura fascinante, mas também repulsiva.

Mosca: O criado de Volpone, Mosca, é um cúmplice que se destaca por sua astúcia e capacidade de manipulação. Ele é o verdadeiro arquétipo do "servo astuto", que, apesar de sua posição subserviente, exerce grande influência sobre os eventos da trama. A dinâmica entre Mosca e Volpone revela uma complexa relação de poder, onde ambos se utilizam um do outro.

Os Herdeiros Voltore, Corbaccio e Corvino representam diferentes facetas da avareza e da ambição. Cada um deles, em busca da fortuna de Volpone, revela suas verdadeiras intenções e a moralidade duvidosa que os caracteriza:

Voltore: um advogado ambicioso que está disposto a fazer qualquer coisa para herdar a fortuna de Volpone.

Corbaccio: um velho avarento que, em sua cegueira por riqueza, decide deserdar seu próprio filho em favor de Volpone.

Corvino: um comerciante ciumento que tenta ganhar a favor de Volpone oferecendo sua esposa, Celia, em troca da herança.

Celia e Bonario: Celia, a esposa de Corvino, é uma figura de pureza e virtude em contraste com os outros personagens. Sua resistência aos avanços de Volpone a torna um símbolo de integridade, enquanto Bonario, seu amante, representa a juventude e a esperança. Juntos, eles oferecem uma contraposição à corrupção que permeia a vida dos outros personagens.

CONCLUSÃO

"Volpone" é uma obra rica em complexidade e significado, que transcende seu contexto histórico. Ben Jonson utiliza a comédia para explorar temas universais como avareza, manipulação e justiça, criando uma narrativa que ressoa com o público contemporâneo. A peça não apenas diverte, mas também provoca reflexões profundas sobre a natureza humana e a moralidade, consolidando seu lugar como um clássico da literatura.

Fonte: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Luiz Poeta (Nuvens de Sonhos) 05

 
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Luiz Gilberto de Barros, registrado como Luiz Poeta, nasceu em 1950, no Rio de Janeiro/RJ. Escritor, Poeta, Contista, Cronista, Ensaísta, Trovador, Aldravianista, Sonetista, Músico, Compositor, Produtor Musical, Artista Plástico, Gestor Educacional e Docente Aposentado  de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Destacou-se no meio artístico como produtor fonográfico, violonista, guitarrista, compositor, poeta e artista plástico. Acadêmico da AVLBL membro da UBT, é Verbete do Dicionário de Música Popular Brasileira Antônio Houaiss e detentor de  relevantes títulos acadêmicos. Fundador de diversas entidades culturais Nacionais e internacionais. Autor premiadíssimo em inúmeros concursos no Brasil e no Exterior. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “O Coruja“, de circulação universitária. Membro da Confraria Brasileira de Letras, Academia Luso-Brasileira de Letras; Academia Paulista de Letras; Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix; Divine Academie Française de Letters y Arts; Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras; Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais; Inbrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, entre outros. Sua obra artística é eclética e engloba mais de 10.000 trabalhos (músicas, poesias, ensaios contos, novelas, textos dramáticos e crônicas – além de telas e trabalhos artesanais ). Tem CDs e DVDs gravados, tendo publicado mais de 100 obras publicadas entre livros-solo, antologias, CDs, DVDs, jornais e revistas.

José Feldman (Aventuras e Desventuras nos Céus. Oh, céus!)

Viajar é uma das experiências mais emocionantes da vida, até você se deparar com a realidade dos aeroportos. 

O dia começa com aquela adrenalina gostosa: você acorda mais cedo do que gostaria, como se estivesse indo para um exame importante. A primeira missão é garantir que tudo esteja na mala. Você checa e re-checa: passaporte? Check. Bilhetes? Check. O carregador do celular? Ah, essa é sempre uma questão delicada. E, claro, você leva um livro. Não porque vai ler, mas porque viajar sem um livro dá a impressão de que você é uma pessoa despreparada.

Chegando ao aeroporto, você percebe que está em um microcosmos da sociedade. A fila do check-in é uma verdadeira competição. O “Senhor que Não Lê as Instruções” está tentando entender como funciona o autoatendimento, enquanto a “Mãe com Crianças” tenta manter a calma enquanto seus filhos são verdadeiros pequenos furacões. A tensão no ar é palpável. Você se vê envolvido em um drama da vida.

Depois de atravessar o check-in, você chega à segurança, onde a experiência se transforma em um verdadeiro filme de ação. Você tira o cinto, os sapatos, a jaqueta e, por último, a dignidade. Enquanto isso, o “Tio do Laptop” tenta passar com sua imensa mochila que poderia facilmente ser confundida com uma mala de viagem. Ele se estica como um contorcionista, tentando encaixar tudo na esteira, enquanto você se pergunta se ele realmente precisa de todas aquelas coisas.

Ufa! Finalmente, você chega ao portão de embarque. Mas aí é que a variedade de personagens da aventura que ainda está por vir, que você participa, se faz presente. Há o “Viajante Frequente”, que já conhece todos os atendentes pelo nome e parece ter um passaporte com mais carimbos do que alguns países têm. Em contraste, a “Turista Desavisada” está olhando confusa para o painel de voos, como se tentasse decifrar um enigma.

O momento do embarque é um espetáculo à parte. Após o chamado para os passageiros da primeira classe, a fila começa a se formar. Você rapidamente se dá conta de que as pessoas têm uma habilidade incrível em ignorar as instruções. O “Apressado” se junta à fila, como se estivesse prestes a perder o voo, enquanto o “Sabichão” já começa a abrir a bolsa e a procurar algo, mesmo antes de ser chamado. A cena é digna de um filme.

Dentro do avião, a verdadeira aventura começa. Você encontra seu assento, e lá está o “Companheiro de Viagem” ao seu lado, que parece ter uma habilidade inata para invadir o seu espaço pessoal. Ele ocupa o braço do assento como se estivesse reivindicando território, e você se pergunta se deveria ter trazido uma bandeira para marcar seu território. Ao seu redor, a “Mãe com Bebê” tenta acalmar seu filho, enquanto ele se transforma em um pequeno maestro, regendo uma sinfonia de choros.

Assim que o avião decola, você sente aquela leve turbulência que faz seu estômago dançar uma valsa. “Nada como um pouco de adrenalina”, você pensa. Mas logo percebe que a turbulência não é nada em comparação com a “Comida do Avião”. O “Menu Gourmet” oferecido a bordo é uma combinação de ingredientes que você nunca soube que existiam. O cheiro é uma mistura de mistério e aventura, e você se pergunta se deveria mesmo experimentar. Mas, claro, você se arrisca e acaba numa jornada gastronômica que pode ser descrita como uma “experiência de sabores”.

Enquanto isso, o “Passageiro do Fundão” tenta se levantar para ir ao banheiro no meio da turbulência. Ele se equilibra como um acrobata do circo, e você está prestes a aplaudir sua performance. Quando consegue chegar ao banheiro, a porta se fecha, e você se pergunta se ele vai voltar.

A viagem continua. 

Você tenta assistir a um filme, mas o “Cinéfilo Ao Lado” está comentando cada cena como se estivesse assistindo a um clássico. “Olha, essa parte é ótima, mas você já viu a versão original?” A cada frase, você se pergunta se deve rir ou chorar. E quando você finalmente consegue desligar-se do mundo externo e se concentrar na tela, o avião começa a balançar novamente. Você se agarra com unhas e dentes à poltrona como se fosse um salva-vidas em um naufrágio.

Após horas, finalmente, a aterrissagem se aproxima. Você sente uma mistura de alívio e cansaço. O avião toca o solo, e você aplaude — não porque é uma prática comum, mas porque a sobrevivência merece ser celebrada. Ao desembarcar, você observa as pessoas se espremendo para pegar as malas, como se houvesse um prêmio para quem conseguir primeiro.

Assim, ao deixar o aeroporto, você percebe que viajar é uma experiência cheia de altos e baixos, risadas e percalços. A comédia da vida se desenrola em cada esquina, e, apesar das aventuras e desventuras, você sabe que cada viagem traz histórias para contar.
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JOSÉ FELDMAN nasceu na capital de São Paulo. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais; membro da Casa do Poeta “Lampião de Gás”. Foi amigo pessoal de literatos de renome (falecidos), como Artur da Távola, André Carneiro, Eunice Arruda, Izo Goldman, Ademar Macedo, e outros. Casado com a escritora, poetisa, tradutora e atualmente professora pós-doutorada da UEM, mudou-se em 1999 para o Paraná, morou em Curitiba e Ubiratã, morando atualmente em Maringá/PR em 2011. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Virtual Brasileira de Trovadores, etc, possui o blog Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria. Assina seus escritos por Floresta/PR. Publicou mais de 500 e-books. Premiações em poesias no Brasil e exterior.

Fontes 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Luís da Câmara Cascudo (Almofadinha de Ouro)

Era uma vez uma menina muito bonita e graciosa, filha única, e que teve a infelicidade de ficar órfã de mãe. Seu pai ficou ainda moço e casou novamente, com uma viúva que tinha uma filha, pondo-se mocinha e muito feia e orgulhosa. 

A madrasta, na presença do marido, tratava a enteada bem, mas como esse vivia viajando, vingava-se, obrigando-a em trabalhos pesados, como lavar roupa, limpar a estrebaria, o galinheiro, a casa inteira, etc. A mocinha começou a viver amargurada e sofrendo toda a espécie de privações e insultos. De tanto padecer, perdeu a paciência e achou que o remédio era fugir daquele purgatório.

Antes de tomar essa decisão, a moça rezava todas as noites à Nossa Senhora, que era sua madrinha, pedindo que lhe ensinasse os caminhos do bom proceder. 

Nossa Senhora virou-se numa velhinha e falou com ela no caminho do rio, explicando tudo. Abençoou-a e lhe deu uma almofadinha de ouro que era encantada. Quando precisasse de alguma coisa, pedisse à almofadinha de ouro, que fora dotada por Deus com poderes.

Deixando a casa, a moça andou muitos dias, com fome e sede, e acabou encontrando uma ocupação num palácio vistoso, residência de um príncipe solteiro e muito agradável.

A moça, para não causar suspeitas e despertar maldades, sujou o rosto e andava tão imunda que só lhe deram o serviço de tratar das galinhas e dos porcos, dormindo no fundo do quintal, num quartinho escuro e isolado do palácio.

Dia vai e dia vem, anunciaram três dias de festas e toda a gente ficou influída para esse divertimento preparando as roupas novas, encomendando os arranjos e fazendo cálculos. O príncipe era um dos mais alegres e as moças da cidade desejavam que ele se engraçasse de uma delas e casasse, por ocasião das festas.

Chegando o primeiro dia, o príncipe foi para o baile e os empregados do palácio fugiram para ver as luzes e a entrada das pessoas que iam dançar. A princesa velha, mãe do príncipe, foi também.

Ficando sozinha, a moça tomou banho, penteou-se e pediu à almofadinha de ouro que lhe desse um vestido cor do campo com suas flores e uma carruagem com criados.

Apareceu, incontinenti, o pedido, e a moça vestiu-se e compareceu à festa, causando um assombro pela sua formosura e beleza do traje. O príncipe largou todas as outras e só dançou com ela. 

Como lembrança do encontro, fez-lhe presente de um anel. Perto da meia-noite a moça desapareceu, fugindo para casa onde trocou a roupa; o vestido e o carro sumiram.

No segundo dia aconteceu a mesma coisa. A moça levou um vestido cor do mar com todos os seus peixinhos e o príncipe ficou encantado por ela, dançando, servindo-a e conversando. Deu-lhe uns brincos. Antes da meia-noite a moça não foi encontrada em parte alguma. Já estava em casa, suja e feia como habitualmente parecia aos olhos de todos.

No terceiro dia, o mesmo sucedido. Desta vez o vestido era da cor do céu com todos os seus astros, e a moça encandeava (deslumbrava) a vista pelo brilho das joias. O príncipe só faltava gritar de contente. Presenteou-lhe com um colar e ficou triste quando ela desapareceu, antes da meia-noite.

Passados os três dias, só se falava na cidade naquele assunto da moça desconhecida, com os três vestidos mais bonitos do mundo. O príncipe procurou-a como um cego procura a luz e não a encontrou em parte alguma. 

Estava tão apaixonado que adoeceu de cama, trancou-se no quarto e só deixava entrar sua mãe. Todo mundo lastimava a doença do príncipe e os médicos não tinham mais remédio para aconselhar nem receita que servisse. O príncipe nem queria comer e a princesa velha fazia as maiores promessas para que o filho se alimentasse, fosse como fosse.

Um dia a moça disse à princesa velha que queria fazer um bolo para o príncipe doente. A princesa achou graça no atrevimento, mas tanto a moça pediu e rogou que obteve o consentimento. Preparou-se, foi para a cozinha e fez um bolo dourado, colocando dentro da massa o anel que o príncipe lhe dera na primeira noite do baile.

O príncipe nem queria ver a comida, mas sua mãe tanto pediu que ele cortou um pedaço do bolo e, ao levar à boca, reparou num objeto que aparecia na parte restante no prato. Puxou com o bico da faca e reconheceu o anel. 

Comeu todo o bolo, melhorando, e declarou que queria outro bolo feito pela mesma pessoa. 

A moça fez o outro bolo e neste mandou o brinco, que o príncipe achou e ficou certo de que a moça estava por perto. 

Pediu outro bolo e neste veio o colar. Então, sem ter mais dúvida, disse à princesa velha que mandasse ao seu quarto quem fizera os três bolos. 

A princesa obrigou a moça a mudar de roupa, perfumar-se para tirar o mau cheiro do galinheiro, e disse que se apresentasse ao seu filho.

A moça subiu a escada, com a almofadinha de ouro na mão, e, assim que bateu na porta, pediu que lhe aparecesse no corpo o vestido do terceiro dia da festa, dos pés à cabeça. Quando a porta se abriu e ela entrou, o príncipe deu um grito de alegria, levantou-se da cama bonzinho de saúde, chamando pela mãe e mostrando a moça que estava mais bonita do que nas noites passadas.

Casaram-se imediatamente, contando a moça sua história, e foram felizes até a morte.
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Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal/RN, em 1898 falecendo na mesma cidade em 1986. Foi um historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome. Deixou obra volumosa e de grande relevância, em particular sobre história, folclore e cultura popular. Recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, em 1956, pelo conjunto de sua obra.

Fontes> Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil. Publicado originalmente em 1946. Disponível em Domínio Público.
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Vereda da Poesia = Darly O. Barros (São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP)




Antonio Brás Constante (Deboche)

O deboche é a uma cruel brincadeira inventada pelo homem em sociedade. Apesar de querer ser exatamente isto: “uma brincadeira”, muitas vezes se transforma em um torturante jogo de palavras e insinuações, onde a vítima passa pela agonia de se tornar o foco da atenção de determinado algoz.

Apesar de ser bem normal nos dias de hoje. O deboche é um ato desumano. A pessoa que debocha acaba infligindo ao seu semelhante o veneno de suas frases, recheadas de ironia. Levando a outra pessoa ao ridículo de se tornar o alvo das risadas de um determinado grupo, que pode ser de amigos, colegas de serviço, de colégio, etc.

O que mais magoa o debochado, é que o autor do deboche em muitos casos, é alguém intimo a ele. Seu marido, irmão, filho, progenitor, entre outras pessoas próximas de si. Ou seja, alguém que deveria protege-lo. Um ente amado, que lhe fere com palavras maquiadas em tons de brincadeira.

Quem sofre estas zombarias tem duas saídas. Ou aceita aquela situação e sua triste sina, ficando cada vez mais isolado em sua amargura, achando que aquilo que dizem de si é verdadeiro e que nada pode ser feito para mudá-lo. Abrindo a cada gargalhada alheia, novas e profundas feridas em seus sentimentos, tornando-se uma pessoa profundamente infeliz.

Ou pode utilizar todas aquelas pedras jogadas no âmago de seus sentimentos, como degraus para sair do poço de sofrimento em que se encontra, deixando de ficar posando de pobre-coitado, para ir rumo ao seu lugar ao sol.

A partir dessa decisão, levanta a cabeça e passa a enfrentar e superar as deficiências que lhe colocam na mira dos gozadores, se aprimorando cada vez mais sobre aquilo que não dominava, até conseguir vencer suas limitações.

Quando isto acontece, acaba-se o combustível das criaturas que se divertem às suas custas. E sem poderem mais lhe ridicularizar, perdem o próprio brilho de sua maldade.

Isto não acontece de uma hora para outra, é uma luta árdua que deve ser travada principalmente de forma interna contra sua própria insegurança, pois esta é a sua pior inimiga, deixando a mostra suas incertezas. Fruto que alimenta os tais “brincalhões de plantão”.

Mas o melhor de tudo, é que os “espertos” por estarem sempre se achando os maiorais, não percebem esta mudança, e ao tentarem lhe acertar com suas farpas verbais, acabam se deparando com uma nova pessoa, que consegue jogar por terra suas insinuações, fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro.

E então, enquanto as nuvens flutuam, as flores desabrocham, a Terra gira e os pássaros cantam, a justiça poética se faz prevalecer e um sorriso de vitória passa a iluminar seus lábios com o doce sabor desta conquista.
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Antonio Brás Constante é natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bacharel em computação, bancário e cronista de coração, escreve com naturalidade, descontraída e espontaneamente, sobre suas ideias, seus pontos de vista, sobre o panorama que se descortina diferente a cada instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).

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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Terminou em pizza”

Essa é uma expressão idiomática genuinamente brasileira. E por ser brasileira, sintomaticamente teve origem no mundo do futebol em terras paulistanas, haja vista que a pizza foi introduzida na nossa culinária com os imigrantes italianos que aqui chegaram desde o final do século XIX, sendo São Paulo conhecida como a capital nacional da pizza e na pauliceia, o Bixiga, a Mooca e o Brás são bairros que se destacam pela cultura vibrante, histórias fascinantes e rica culinária, com seus restaurantes, pizzarias famosas e padarias inigualáveis.

Remonta ao ano de 1874 a chegada dos primeiros colonos italianos ao Brasil a bordo do veleiro “La Sofia”, que atracou em Vitória (ES), a partir de onde a maioria se estabeleceu nos estados do Sul e Sudeste, especialmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul, estados onde a forte influência italiana é percebida também na arquitetura, nos eventos culturais e na vida social. 

E a pizza, inicialmente consumida apenas pela comunidade italiana, aos poucos foi conquistando paladares brasileiros, até que na década de 50 foi inaugurada a “Casa Vêneta” em São Paulo (SP), considerada a primeira pizzaria do país, a partir da qual o consumo de pizza se popularizou de maneira irreversível, e aos poucos chegou a todos os Estados brasileiros. E o que tem a ver o costume de comer pizza com essa expressão famosa?

Para os desavisados, ela foi criada pelo jornalista e apaixonado torcedor palmeirense Milton Peruzzi, que trabalhava na radio e TV Tupi como locutor e comentarista esportivo, titular da coluna “Periscópio” no jornal A Gazeta Esportiva. E por causa do seu incondicional amor pelo clube, o Palmeiras, muitos anos após sua morte, a Diretoria Palmeirense colocou em 2008 seu nome na sala de imprensa do famoso clube, que nos primórdios chamava-se Palestra Itália, nome abolido durante a 2.ª Guerra Mundial, na qual o Brasil lutou contra as potências do Eixo, integrado por Alemanha, Itália e Japão.  

Conta-se que na década de 1960, quando uma grave crise se instalou entre os dirigentes da Sociedade Esportiva Palmeiras, foi marcada uma reunião para estabelecer diretrizes para equacionar e encerrar um amontoado de problemas que estavam inviabilizando o clube e o próprio time de futebol, conclave que se estendeu por mais de mais de quatorze horas, chegando a um ponto em que os participantes foram vencidos pelo cansaço e pela fome.

Sendo a maioria dos “cartolas” descendentes de italianos, fizeram eles uma pausa nas discussões e encomendaram nada menos que 18 pizzas gigantes, chope, vinho e acepipes diversos, para que, assim alimentados, pudessem prosseguir naquela jornada de acusações e debates, em busca de alguma solução para tantos problemas, que pela complexidade, se afigurava difícil.

Ao fim do bate-boca, dos dedos em riste e daquela pantagruélica comilança, chegou-se a um acordo por via do qual ninguém seria diretamente considerado culpado de nada ou responsável pela caótica situação que provocou a própria reunião. Mercê desse desfecho inesperado, o inteligente e criativo jornalista esportivo Milton Peruzzi, antes citado, publicou a notícia em sua prestigiada coluna, com o seguinte título: “CRISE DO PALMEIRAS TERMINA EM PIZZA”.

Foi o que bastou para que assim passassem a serem conhecidas todas as crises ao fim das quais, por força do corporativismo profundamente entranhado nas instituições brasileiras, “não pega nada para ninguém” ou “tudo termina numa boa”, ficando tudo sem qualquer punição, com os comprovadamente culpados saindo absolutamente incólumes de seus deslizes.

E de tanto ser utilizada no cotidiano, tal expressão chegou à política, mas esse tipo de cambalacho não se limita ao futebol e à política, seus laboratórios prediletos. Atualmente, em qualquer instituição que se possa imaginar, surgem espertalhões que concebem manobras escusas, com o único fito de tirar proveito pessoal e quando o escândalo vem à tona, entram em cena os apadrinhadores, esgrimindo enfáticos argumentos para não deixar prosperar a apuração, capaz de desmascarar e punir o autor da fraude ou do engodo.

Talvez por isso o saudoso Milton Peruzzi, falecido em 21/02/2001, nos deixou sabendo que a expressão idiomática por ele definitivamente criada, nesses mais de 50 anos se tornou sinônimo de compadrio, de conchavo, de arranjo, de ação entre amigos em prol da impunidade, apostando no “deixa tudo como está para ver como é que fica”...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

José Feldman (Guirlanda de Versos) Soneto Natalino

 

Carlos Leite Ribeiro (Um conto de Natal)

Naquela véspera de Natal, o senhor Freitas regressava a casa, sozinho como sempre, pois, já há muito tempo que não convivia com ninguém, pois tinha um feitio muito especial que afastava os amigos.

Um saco de plástico na mão esquerda, chapéu-de-chuva no braço direito, uma gabardina muito comprida e muito usada; botas gastas e a “comerem” a bainha das calças já muito coçadas; óculos encarrapitados no seu grosso nariz, e uma boina muito velha na cabeça. Corpo vergado pelo peso de muitos anos – era assim o senhor Freitas!

O dia estava a findar e, o movimento nas ruas era enorme, pois, toda a gente queria chegar a casa o mais cedo possível, com os presentes para os seus familiares e amigos. Chuviscava.

Ninguém parecia reparar naquela personagem, nem este, parecia notar a presença de outros.

Uma criança se abeirou dele:

– Senhor, uma esmolinha por favor… Senhor, uma esmolinha por favor…

– Eu não dou nada a ninguém – vai-te embora daqui!” – Respondeu-lhe com maus modos o velhote.

Mas a pequena insistia

– Hoje é Natal – dê-me uma esmolinha por favor…

– O Natal é só para os outros, garota! O Natal para mim é um dia igual aos outros… … Ai, ai que eu caio, ai…aiii…

E o senhor Freitas escorregou numa casca de banana e caiu mesmo. Logo a criança, muito aflita, gritou-lhe:

– Cuidado, senhor…

– Ai…ai, meu braço. Maldita casca de banana!…

– O senhor machucou-se? Terá algum osso partido? Coitadinho… – Não se cansava de perguntar, muito aflita, a garotinha.

O velhote parecia que nem a ouvia:

– Ai, o meu braço que me dói tanto… Ó garota, apanha-me essas maçãs e também o pão. Ajuda-me a levantar. Mas cuidado, cuidado… Ai, ai o meu braço…

– Tenha calma, eu ajudo o senhor a levantar-se… Vá lá, com muito cuidadinho; vá, vá, pronto. Agora, vou levá-lo ao hospital.

O senhor Freitas, teimosamente, tentava prescindir dos seus préstimos:

– Não preciso de nada, garota! Eu vou sozinho… Mas, ai, ai… O meu braço…

Carinhosamente, a garota tentava convencê-lo a ir tratar-se:

– Está a ver?… o senhor precisa da minha ajuda. Não seja teimoso, nem mauzinho. O senhor até tem cara de homem bom!

– Eu cara de homem bom? Eu bom? Tu estás enganada – ou pretendes enganar-me… Ai…

– Olhe que é preciso ter uma grande paciência para lidar consigo! Você tem cara de homem bom e pronto – é a minha opinião!

Como sempre, o senhor Freitas estava desconfiado:

– Deixa-te disso garota, que a mim não me consegues convencer com essa cara de anjo. Tu queres é o meu dinheiro, nada mais. Ai, o meu rico braço que cada vez me dói mais!

Já revoltada, a garota respondeu-lhe:

– Sou muito pobrezinha e não tenho ninguém que me dê de comer, mas juro que não quero o seu dinheiro, como diz…

– Tretas! É só lérias, pois todos que de mim se abeiram, só querem o meu dinheiro! E vens tu agora, com falinhas mansas, a dizeres que não o queres! E isto só por eu ter cara de homem bom!… Ai… O meu braço que me dói tanto…

A garota revoltada e já com lágrimas nos olhos, retorquiu-lhe:

– O senhor está a ser injusto para comigo!… Por acaso nunca ouviu falar em solidariedade humana?

Embora com muitas dores, o senhor Freitas não desarmava:

– Puuff, sei lá o que é que isso! A única coisa que conheço é o valor do dinheiro!

Mas não ficou sem resposta:

– Então, meu senhor, enrole todo o seu dinheiro em volta do seu braço que deve estar partido, e, talvez assim fique sem dores e com o braço curado! Por acaso o senhor não compreende o significado do Natal?!

– Lá jeito para discursos, tens tu, garota! – comentou o velho “resmungão”.

– Vou-me embora. Como vê, eu não quero o seu dinheiro. Simplesmente, estava a tentar ajudá-lo.

Dando meia-volta, ia-se a afastar, deixando o senhor Freitas muito estupefato.

– Como assim?! Vais-te embora? Tens coragem de me deixares aqui sozinho? Finalmente tu és como os outros que por aqui passam, sem repararem neste pobre velho – que até tem um braço partido…

Ao ouvir isto, a garota parou e respondeu-lhe:

– Mas o senhor é que não quer a minha ajuda!

O velhote ouviu e “engoliu em seco”. Mas, logo continuou:

– Aonde está a tal tua solidariedade que ainda há pouco apregoavas? Sim, aonde é que ela está? Ao deixares aqui sozinho um pobre velho, doente e com um braço partido? Ai, ai que me dói tanto!

A garota sorriu e já mais confiante, retorquiu-lhe:

– Meu senhor, enrole todo o seu dinheiro em volta do seu braço. Talvez assim se cure…

Já em tom quase suplicante, o velhote pediu-lhe:

– Mas o dinheiro não me vai curar! Preciso da tua ajuda! Eu pago-te o que tu quiseres, mas, por favor, ajuda-me a ir ao hospital! Pois preciso de me curar. Ajuda-me, garota!… Por favor!

– Dê cá o saco e o guarda-chuva: Agora, encoste-se ao meu ombro e vamos ao hospital…

E era bonito de ver.

Um velho sovina, curvado pelo peso de muitos anos, encostado ao corpo frágil de uma criança, a caminho do hospital onde ia ser tratado.

Naquela noite de Natal, o senhor Freitas, finalmente, devia de ter compreendido a mensagem de Deus: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”
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Carlos Leite Ribeiro nasceu em Lisboa/Portugal, em 1937 e faleceu em Marinha Grande/Portugal, em 2018.

Fonte:
Texto enviado pelo autor
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José Feldman (O Menino e o Natal)

Numa cidade pequena, a véspera de Natal trazia consigo um misto de alegria e consumismo. As lojas estavam repletas de pessoas, as vitrinas decoradas com presentes brilhantes e árvores de Natal exuberantes. Enquanto a cidade se enchia de luzes e risos, um garoto de rua, chamado Lúcio, caminhava pelas calçadas, observando tudo com um olhar distante.

Ele tinha apenas doze anos e, desde muito pequeno, aprendera a sobreviver nas ruas. A vida não lhe oferecera muitas opções; a família se desfez e ele se viu sozinho, enfrentando a frieza do asfalto e a indiferença de quem passava. No entanto, o espírito do Natal ainda conseguia penetrar em seu coração, mesmo que de forma tímida.

Naquela tarde, enquanto caminhava pela rua principal, Lúcio parou em frente a uma loja de brinquedos. A vitrine estava repleta de jogos, bonecas e carrinhos, todos brilhando sob a luz artificial. Ele se lembrou de quando era pequeno e sonhava em ter um carrinho de controle remoto, um presente que nunca pôde ter. Observando as crianças rindo e escolhendo presentes, sentiu uma pontada de tristeza, mas também um fio de esperança.

Enquanto pensava nisso, um grupo de crianças ricas passou perto dele, rindo e falando sobre suas expectativas para o Natal. Lúcio tentou não ouvir, mas as palavras chegaram até ele como um eco distante. "Eu quero uma bicicleta!", disse uma menina. "Eu quero o último modelo do console!", gritou outro. Ele apenas suspirou, lembrando-se de que, para ele, o Natal era apenas mais um dia, a não ser pelo cheiro de comida que emanava das casas.

Decidido a não se deixar abater, se afastou da loja e caminhou até a praça central, onde um grande pinheiro estava enfeitado. As luzes piscavam, e havia um ar de celebração no ar. Ele se sentou em um banco, observando as pessoas que passavam, algumas com sacolas cheias de presentes, outras abraçando seus entes queridos. O menino se sentiu um intruso, mas algo dentro dele não queria sair dali. Queria, pelo menos, sentir um pouco da magia do Natal.

Enquanto estava ali, uma mulher idosa se aproximou. Ela carregava um grande saco de presentes e parecia estar em busca de algo. Ao vê-lo sentado sozinho, parou e sorriu.

— Olá, meu jovem! — disse ela com uma voz suave. — O que faz aqui sozinho na véspera de Natal?

Lúcio hesitou, mas a bondade daquela mulher o encorajou a falar.

— Eu só estou... olhando — respondeu ele, tentando esconder a tristeza.

A mulher percebeu a sinceridade e a tristeza em seus olhos. Com um gesto gentil, ela se sentou ao seu lado.

— Sabe, querido, o Natal é uma época de compartilhar. Você não gostaria de ter um presente? — perguntou, com um brilho nos olhos.

Lúcio ficou surpreso. Para ele, a ideia de ganhar um presente parecia um sonho distante. A mulher, percebendo sua hesitação, continuou.

— Todos merecem um pouco de alegria nesta época. Venha, vamos encontrar algo para você. 

Ela se levantou e puxou Lúcio, que, após um momento de dúvida, a seguiu. Juntos, eles foram até uma pequena barraca que vendia doces e lanches. A mulher comprou um pacote de bolachas e um suco para o garoto.

— Aqui, isso é para você! — disse ela, com um sorriso caloroso.

Lúcio agarrou o pacote, os olhos brilhando de gratidão. Nunca pensou que alguém faria algo tão gentil por ele. Enquanto comia, a mulher começou a contar histórias sobre seus Natais passados, sobre a importância da generosidade e do amor. Ele ouvia atentamente, sentindo-se acolhido por aquelas palavras.

Após um tempo, a mulher olhou para ele e disse:

— Você sabe, meu querido, o Natal é mais do que presentes. É sobre estar junto, sobre compartilhar momentos e espalhar amor. Você tem alguém com quem passar o Natal?

Lúcio balançou a cabeça, sentindo a solidão pesar sobre ele. A mulher sorriu com tristeza, mas logo teve uma ideia.

— Que tal você passar o Natal comigo e minha família? Nós sempre temos um lugar à mesa para alguém que precisa de companhia.

Lúcio ficou sem palavras. Aquela oferta era um presente que jamais esperava ganhar. Ele nunca imaginou que poderia ter um Natal com uma família. O coração dele se encheu de esperança e alegria.

Naquela noite, Lúcio foi para a casa da mulher. Ele se encontrou cercado por uma família calorosa, onde as risadas e as histórias fluíam. A mesa estava cheia de comida deliciosa, e ele se sentiu parte de algo muito maior do que ele mesmo. 

Os presentes foram trocados, mas o que mais tocou Lúcio foi a sensação de fazer parte de algo. Ele percebeu que, mesmo na solidão, havia esperança. O amor e a generosidade daquela mulher mudaram seu Natal para sempre.

Ao final da noite, Lúcio olhou para o céu estrelado e fez um pedido silencioso: que aquele espírito de amor e união pudesse acompanhá-lo não apenas no Natal, mas em todos os dias de sua vida. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que não estava sozinho. O Natal, para ele, havia se transformado em um símbolo de renovação e esperança.
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José Feldman escreve por Floresta/PR

Fontes 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul 
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