JOSÉ ERIGUTEMBERG MENESES DE LIMA nasceu em Fortaleza/CE, radicou-se em Blumenau/SC. Advogado aposentado do Banco do Brasil, com graduação em Ciências Econômicas e Direito pela FURB - Fundação Universidade Regional de Blumenau, dedica-se às letras, escrevendo prosa na forma de crônicas, contos, ensaios, textos jurídicos e poesia, especialmente, sonetos. Publicou “Raptos Líricos” - Sonetos, 2005; Portas da Solidão pela Fundação Cultural de Blumenau, 1996.
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domingo, 26 de janeiro de 2025
Erigutemberg Meneses (Cascata de versos) 08
André Giusti (O Mais Novo Grande Senhor do Tempo)
Por que resolvera, de repente, a caminho dos 40 anos, usar relógio, era para ele mesmo um mistério daqueles encruados nas cavernas das razões desconhecidas. Em toda a vida tivera um único relógio. Em algum natal bem remoto, talvez no princípio da adolescência, o pai dera-lhe um bem vistoso, a pulseira cromada, o fundo azul perolado, os minutos e os ponteiros amarelos que brilhavam com a luz apagada para que fosse possível olhar as horas até mesmo no escuro. Usou um, dois meses se tanto. Um dia foi jogar futebol no intervalo rápido do recreio na escola, uma pelada daquelas bem improvisadas com bola feita de papelão amassado e grudado com durex. Tomou um toco de um moleque maior e o pulso em que estava o relógio foi beijar a fria dureza do chão de cimento. Sobraram apenas os estilhaços do vidro. O ponteiro das horas pulou longe, jamais foi encontrado.
Nunca mais, nunca mais te dou outro, o pai sentenciou sem raiva, embora não disfarçasse a pequena mágoa pelo descaso com o presente. Se aquilo foi trauma de infância, acabou virando peculiaridade bem resolvida de adulto: cresceu com os pulsos livres, vazios daquele peso, aprendendo a calcular as horas pelo sol, feito um índio urbano. Nos dias de chuva, perguntava as horas aos apressados que perseguiam o tempo. As vitrines das joalherias nunca roubaram seus olhos. Com o passar dos anos, não usar relógio afigurou-se como um ato reservado de rebeldia. Enquanto amigos erguiam modelos caros e robustos a prova d’água, a prova de choque, a prova de tudo, ele levantava o braço, deslizava as mãos pelo cabelo, indicava com o dedo um ponto distante, enfim, fazia qualquer movimento que permitisse aos curiosos reparar em seu pulso vazio. De vez em quando pendurava ali um elástico desses de embrulho. Fazia isso para debochar não sabia exatamente do quê. Quando um primo da namorada, sujeito com quem ele não ia muito, apareceu ostentando um modelo dourado desses que valem um carro semi-novo, comprou uma fita do Senhor do Bonfim e usou-a até que praticamente virasse pó.
Portanto, qual não foi o impacto de ver e sentir aquele peso sobre o pulso que julgava fino, que em tempo algum combinou com uma pulseira ateada a uma forma esférica de metal e vidro. Por um instante teve a impressão de que não era dele o próprio braço, e sim que o membro de outra pessoa fora-lhe enxertado às pressas, trazendo de brinde o elegante modelo suíço de pulseira de couro marrom e algarismos romanos. Presente da mulher, que pousava nele uns olhos amorosos, e que no fundo eram também os olhos doces do pai, concedendo-lhe uma segunda chance. Enquanto a esposa risonha estendia-lhe a mão para que saíssem da joalheria, o ponteiro veloz dos segundos deixava cada vez mais longe o rapaz que gastava o dinheiro apenas em livros de sebo e discos de rock. Ficara sozinho - cismado em um mundo triste e apressado - o adulto que adquirira a mania de chegar na hora, encurralado pelo horário de entrar no trabalho e deixar o filho na escola.
Quarenta, cinquenta minutos andaram pelas galerias do shopping. Ele sentindo-se um comunista aceitando ideias liberais, um ateu que tenha recebido provas da existência de Deus. Ia a passos lentos e medrosos ao lado da esposa. Disfarçadamente, sem que ela percebesse, tirou o relógio do pulso esquerdo e colocou no direito para que mesmo dentro do enquadramento social pudesse ainda existir um resto de transgressão. Estranho objeto o relógio, que para ser contrário ao padrão comum precisa estar na direita.
O senhor pode me dizer que horas são? Uma gorduchinha de seus vinte e poucos anos perguntou quando encostaram em um balcão para tomar café. Olhou-a e a princípio pensou que havia engano. Deu-se conta, afinal, e disse as horas sem muita certeza do que via nos ponteiros. Quando saíram dali, ele conferiu as horas, mais calmo, reparando melhor no mostrador, no brilho dos metais e do vidro, e caminhou um pouco mais depressa como um perfeito e grande senhor do tempo.
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ANDRÉ LUIS DE ALMEIDA GIUSTI nasceu em 1968 no subúrbio carioca de Cascadura. Passou a infância, a adolescência e boa parte da vida adulta no eixo subúrbios/zona norte do Rio de Janeiro, universo que levou para seus contos, criando personagens quase sempre filhos da classe média de bairros dessa área da cidade. No começo dos anos 90, começou a escrever contos, o que veio exatamente ao encontro de seus anseios literários. Entre 1992 e 1994, escreveu os contos de seu primeiro livro, Voando Pela Noite (até de manhã). No ano seguinte, o livro foi indicado ao Prêmio Jabuti. Em 1998 mudou-se para Brasília. Impregnado de saudades do Rio, escreveu Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília, uma novela quase autobiográfica de seus primeiros meses na capital do país. Em 2009 seu quarto livro: A liberdade é amarela e conversível. Também é jornalista, com passagens por diversas rádios e TVs do Rio e de Brasília.
Fontes:
http://www.andregiusti.com.br/ . Acesso 01 fevereiro 2010
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Francisco de Morais Mendes (O Homem que Recolhia o Tempo)
Numa velha sacola de feira, ele recolhia o tempo deixado pelos outros. Como fazia isso, não se sabe. Para ele, homem solitário, que vivia entre a casa e o serviço, a palavra “repartição” não designava apenas o local de trabalho. Cabia-lhe, como servidor público, cuidar das horas, repartir o tempo entre os colegas. Havia quinze anos executava com diligência a mesma tarefa: zelar pelo ponto, abonar as faltas justificadas, converter o excedente de horas em pagamento. O tempo era público.
Contudo, sofria de um mal sem remédio. Pressentia o correr dos dias, dos meses, dos anos, como uma subtração da vida. O tempo escapava-lhe enquanto acumulavam-se coisas por fazer. A perda do tempo é individual, lamentava.
À noite, em casa, recostado à velha poltrona de couro, sentia o peso de dois mil livros não lidos. E lia metodicamente. Olhando à esquerda, um infatigável atlas oferecia-lhe países por visitar. E ele mal saíra da cidade. À direita, centenas de obras aguardavam releitura.
Pensando constantemente no tempo, observava que boa parte do que se fala contém essa palavra vaga, sem peso, sem consistência. Certo dia, num corredor da repartição, ouviu de uma grávida que faltavam quatro meses para o bebê nascer. Então ocorreu-lhe que, durante a gravidez, ela deixava sem uso um outro tempo. O que primeiro pareceu-lhe uma brincadeira, uma anedota, tomou a forma de idéia. Depois de algumas noites em que se pegava pensando na grávida, supondo que estivesse assaltado por uma paixão em todos os sentidos inoportuna, o assunto passou de idéia a teoria. Não era a grávida que o atormentava. Era o tempo.
Formulou, então, a teoria dos tempos laterais, que correm simultaneamente na vida das pessoas. Pela última vez voltou a pensar na grávida, para explicar a si mesmo sua teoria. A vida segue num tempo que ele, como todo mundo, chamava de normal, mas qualquer alteração ou acidente põe em funcionamento um tempo dos que correm lateralmente àquele, que ele chamava de tempo outro. Durante o período da gravidez, tomado como uma alteração, o tempo normal continua a passar, mas em desuso, um cão sem dono vagando por aí.
Durante alguns dias, observou o que classificou de amostras da sua teoria. Há um tempo largado aqui fora pelas pessoas que baixam ao hospital. Há um tempo de ócio enquanto trabalham. Esse tempo ocioso fica com unhas e engrenagens à espreita, aguardando que a pessoa deixe o trabalho; acompanha-a até o ponto do ônibus, e enquanto, após um banho quente, a pessoa decide se liga a tevê ou coloca um disco para tocar, ele está pronto para seguir. Em outra circunstância, enquanto a pessoa mergulha a atenção no noticiário do rádio, fica desocupado o tempo da distração. Nenhum deles deixa de correr.
Certa noite, acomodado na poltrona, voltou a refletir. Era preciso recolher o cão sem dono. A outro, não iria fazer falta. A ele, o livraria da aflição.
Na manhã seguinte, mexendo no quarto de coisas abandonadas, encontrou a sacola que passou a carregar. Das grávidas, subtraía o tempo da não gravidez. Dos colegiais em algazarra à saída da escola, recolhia variadas espécies de tempo. Do sujeito que lia no ônibus, tomava o tempo de olhar pela janela. O mais surpreendente eram aquelas pessoas que parecem pensar em coisa alguma, absolutamente desligadas. Dessas, fluíam, ou melhor, jorravam tempos em profusão. E recolhia, recolhia, recolhia.
Voltara a ler sem ansiedade, sabendo que acumulava considerável reserva de tempo. Em pelo menos um momento, levantou os olhos do livro e pensou na imortalidade. Deu um breve sorriso, sem precisar recorrer ao espelho para encontrar o que supunha um rosto rejuvenescido. Voltou a concentrar-se na leitura. O tempo, agora, não passava; vinha até ele. O cão encontrara o dono.
Certa manhã, depois de ler no jornal sobre um sujeito condenado a muitos anos de prisão, foi tomado de grande ansiedade. Ocupado em juntar os tempos dispersos no presente, não lhe ocorrera tocar num tempo futuro. Nem sequer havia pensado nisso. No entanto, vislumbrava que aquele tempo podia ser recolhido de uma única vez. Tenho que capturar o tempo que ele deixa aqui fora, mas onde estará?, pensou, quase faltando-lhe o ar. Saindo às pressas com a sacola, sem saber exatamente onde buscar aquela fatia esplêndida de tempo, distraiu-se numa travessia e, atropelado por um caminhão de mudanças, teve morte instantânea.
Corroída pelo tempo e pelo uso, ficou a sacola jogada num canto da rua. Os que olhavam em seu interior, de algum modo sabiam que vazia não estava; era um engano dos olhos. Afastavam-se ao sentir uma espécie de sufocação. A que não sabiam nomear.
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FRANCISCO DE MORAIS MENDES é jornalista e escritor de Belo Horizonte/MG. Publicou os livros de contos “Escreva, querida” (Mazza Edições, 1996) e “A razão selvagem” (Ciência do Acidente, 2003). Vencedor dos prêmios “Guimarães Rosa”, do governo do Estado de Minas Gerais, “Cidade de Belo Horizonte”, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, e “Luiz Vilela”, da Fundação Cultural de Ituiutaba.
Fontes:
Letras e Ponto. Acesso 28 nov 2011.
http://www.letraseponto.com.br/textos_listar.php?id=23
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Marcia Tiburi (O Desejo do Tempo)
Os antigos gregos tinham em Chronos, deus do tempo, a imagem do pai todo poderoso devorador dos filhos. Ele criava, ele mesmo aniquilava. O tempo cronológico é apenas o tempo que passa. Mas a experiência do tempo não passa tão simplesmente, somos nós que passamos por ela. Nos constituímos, em nossa interioridade, a partir dela. Como dizia Santo Agostinho, o tempo é algo complexo demais, sendo muito difícil para cada um explicá-lo. Tanto quanto é fácil de entender, pois estamos nele desde sempre. O tempo nos possui e não o contrário.
UM DIA DE CADA VEZ
É melhor viver um dia de cada vez? É provável que ouçamos ou pronunciemos esta frase em vários momentos da vida. Quando incertezas e desesperanças se põem em cena é a reflexão sobre o tempo (seja ele dito na forma dos dias, das horas, do tempo ao tempo) que sustenta nossas ponderações. Ou na básica ansiedade que move o cotidiano, quando não compreendemos as próprias direções, quando, sem perspectiva ou foco, parece que não buscamos nada. Ansiosos quando queremos muito, nem sempre sabemos bem o que queremos. E nos angustiamos porque estamos no tempo, medido, e não na eternidade, desmedida. A vida exige solução, mas o tempo é o limite de toda vontade. Por isso, ele também é possibilidade.
A frase traz uma sabedoria básica na forma de um conselho sobre o uso e a compreensão do tempo, do qual depende o desejo, nome que se dá ao modo de nos relacionarmos ao futuro, o nosso e o que compomos junto de outros. A frase nos diz sobre um modo de tratar com a frustração comum na sociedade de hoje: a da ausência do desejo que diz respeito a uma incapacidade de criar projeto de vida. Ou seja, o que fazer da vida dentro de seu limite. “Um dia de cada vez” significa: “vá com calma, aproveite o tempo presente”, mas por outro lado, também diz “esqueça a totalidade da vida”. Aí conhecemos o conflito com a “temporalidade” sobre o qual vivemos cegos. Se pensarmos em termos de vantagens, talvez não seja frutífero ter em mente a vida inteira, o todo do que podemos fazer com o tempo que dispomos, pois não há certeza sobre o que virá. Porém, sem pensar no todo da vida, que é o tempo que temos para viver, talvez fique difícil orientar-se dentro dela. Sem sabermos do nosso tempo, estamos perdidos de nós mesmos, sem futuro. A dimensão do tempo é mais que psicológica e metafísica, ela é também prática. Põe-nos diante de nossa liberdade de decisão, define o destino, ou o tempo, que devemos construir.
A experiência do tempo pode ser uma experiência de angústia, de que algo desconhecido nos espreita. Só o desejo é a cura desta sensação de opacidade da vida. O desejo não é tormento, mas o caminho para sair dele. Ela não vem do nada. Nasce do tempo experimentado em seu limite, do fato de que há a consciência perturbadora da existência que é a morte. Enquanto esperamos seguimos a “viver um dia de cada vez”. No tempo que é sempre medida, a soma dos dias, compõe o sentido da vida, o valor da eternidade.
OS LIMITES DA EXPERIÊNCIA
Assim como damos “limites” às crianças para que possam orientar seus desejos, seus quereres e poderes, nós, mesmo adultos, deveríamos nos reorientar no nosso limite com a vida, a que chamamos tempo. O tempo, todavia, não é a mera duração da vida. A duração é só o tempo do relógio, ela se parece mais com o espaço que percorrem os ponteiros no mostrador. Nosso modo de compreender o tempo é o que nos orienta na vida: o tempo do trabalho, o tempo do lazer, o tempo do conhecimento, do amor, o tempo interior, o tempo domesticado pela vida orientada e administrada que vivemos. O tempo é um radar que nos ensina aonde ir, nossas urgências, os caminhos que precisamos escolher diante da impossibilidade de seguir todos.
A frase sobre o dia a dia a ser vivido de um em um, nos serve de antídoto quando vivemos esta frustração tão específica que é a do tempo que não aprendemos a experimentar em seus dois polos, o do todo fora de nós (a família, a sociedade, a história, o planeta) e o do que se elabora em nossa interioridade. De um lado, vivemos o nosso tempo pessoal, o tempo de cada individualidade, de cada um que experimenta seu corpo, seu sentimento, medos, anseios, possibilidades, e sua noção de morte. O tempo individual é sempre o tempo da insegurança. Buscamos os outros: filhos, maridos, amigos, trabalho, para participarmos do tempo coletivo onde, ao partilharmos a insegurança com as demais individualidades, a eliminamos. Para tudo isso é preciso sempre muita atenção sobre o que estamos vivendo.
A AVAREZA DO TEMPO
Por outro lado, todos aqueles que sabem o valor do tempo, costumam pensá-lo em analogia com o dinheiro: tempo é dinheiro. Quem dispensa tempo, dispensa dinheiro ou, em termos mais técnicos, dispensa lucro. Mas o que é o lucro senão a vantagem que temos em relação aos outros, ao trabalho, à vida? O lucro é um “a mais”, mas a vida não vai nos dar mais tempo. Logo, tempo não é necessariamente dinheiro, mas justamente o que nos logra se a vida não foi bem vivida. Se o avaro economiza dinheiro, quem economizar tempo não poderá ser avarento, a rigor, o tempo é algo que sempre se multiplica. O tempo se multiplica na generosidade. É uma questão de organização. O desejo só surge como mensagem na garrafa àquele que entendeu a função de seu tempo próprio no tempo coletivo.
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MÁRCIA ANGELITA TIBURI nasceu em Vacaria/RS, em 1970. Graduada em filosofia (1990), e em artes plásticas (1996); mestre em Filosofia (1994) e doutora em Filosofia (1999) com ênfase em Filosofia Contemporânea. Publicou diversos livros de filosofia, entre elas as antologias As Mulheres e a Filosofia, O Corpo Torturado, e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero, Seis Leituras sobre a Dialética do Esclarecimento. Em 2008 publicou Filosofia em Comum - para ler junto. Em 2010 publicou o infantil Filosofia Brincante e Diálogo/Desenho, em 2011 Olho de Vidro, a televisão e o estado de exceção da imagem , também os romances Magnólia em 2005 indicado em 2006 ao Jabuti de melhor romance e o segundo volume da série Trilogia Íntima chamado A Mulher de Costas em 2006. Em 2009 finalizou com o romance O Manto, a série intitulada Trilogia Íntima. Escreveu para várias revistas e jornais e desde 2008 é colunista da Revista Cult. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie, professora convidada da Fundação Dom Cabral. Realiza palestras sobre filosofia, ética e educação e temas relacionados.
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sábado, 25 de janeiro de 2025
José Feldman (Guirlanda de Versos) * 15 *
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Renato Frata (Tintas da felicidade)
A Natureza como mãe zelosa, deixou que suas crianças brincassem como se deve: livres, leves, soltas e belas, pelo imenso céu. Eram vários os seus filhos: o Crepúsculo orgulhoso, o Sol majestoso e uma renca de Nuvens multiformes que se espalhavam pelo quintal infinito, pois naquele dia que se ia para a tarde, aproveitaram do acaso que pendia para o ocaso, deixaram de brincar de pega-pega e se puseram, em conjunto, matutar qual seria a próxima brincadeira, quando o Sol sugeriu:
- Vamos brincar de búricas?
- Não, - disse o Crepúsculo - já o fizemos. O tempo está especial para outra brincadeira.
– Que tal se nós - disse a Nuvem próxima do Sol - nos enfeitássemos como a num baile de gala? O Crepúsculo que é sensível, poderá servir de costureiro e o irmão Sol, com sua majestade, poderá nos maquiar... dando-nos aspectos especiais como as mulheres fazem em dia de festa – e riu...
– Eu topo – respondeu o Sol e imediatamente, pegou seu grande estojo de guache, ajeitou a paleta e pincéis e danou a pintar, uma a uma as irmãs Nuvens.
Ele usou de sua arte genial com pinceladas que só ele, o Sol, com sua potência conseguiria, e colocou em umas a tonalidade sombria do azul. Em outras agindo com o mesmo capricho concedeu um esverdeado incomum, resplandecente; àquelas do canto, ele tratou de pintar com um amarelo chamativo esplendoroso e a as que estavam meio espalhadas, aqui e ali, conseguiu avermelhá-las do claro e do escuro puxado para o marrom, deixando-as tão belas, mas tão belas, que se não as olhassem bem, não as reconheceria como as próprias irmãs. E foi tão rápido e tão certeiro com seus pincéis que elas modificadas em sua concepção de nuvens, nunca imaginariam que um dia poderiam se vestir de cores tão lindas.
– Sol, - disseram em coro - você fez maravilha, é um artista, burila as cores como exímio pintor! Obrigada e parabéns, conseguiu nos fazer felizes. Olha, veja como você nos fez belíssimas!
O Crepúsculo, entusiasmado, raspou a garganta limpando-a de um pigarro, e falou: - Concordo. Vocês estão lindas, maravilhosas com a pintura do Sol, mas gostaria de dar um retoque aqui se me deixarem. Posso?
– Claro, - responderam - para melhorar, vale tudo!
Ele então as espalhou pelo céu sem as distanciar do Sol e disse: umas ficarão na parte superior, outras no horizonte e as demais à esquerda e à direita a se perderem de vista na amplidão do céu compondo um conjunto simétrico e constante. Sabem para quê? – antes de que alguém respondesse, continuou: – Assim dispostas ao redor do sol poente darão para quem as olhar um visual tão lindo e espetacular que descobrirão sem o perceber, o significado mágico da palavrinha MARAVILHA, muitas vezes despercebida pelos humanos.
– Que lindo, irmão, - disse o Sol - então daremos a essa brincadeira o nome de Crepúsculo Outonal, e ficaremos por instantes à mercê de olhos que se dispostos a nos olhar, conceberão o conjunto que nós, seres celestes, conseguimos quando bem usamos as tintas da felicidade.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Humberto de Campos (O Rio Purús)
À pequenina mesa de chá que Mme. Peixoto Leroux me reservara naquela primeira reunião dos seus íntimos, sentavam-se, à sombra das mangueiras seculares da sua linda chácara da Tijuca, o desembargador Abelardo, a jovem Mme. Costa Retore e, mais alegre que todos nós reunidos, a encantadora baronesa de São Bonifácio, recentemente chegada de Londres. Risonha, graciosa, inteligente, a loura titular tomou conta, logo, de todos nós, guiando a palestra com a habilidade com que dirige, às vezes, à tarde, pelas estradas da Gávea, o seu grande automóvel de seis lugares. Ligando os assuntos como quem liga, uma a uma, e continuamente, as pérolas do mesmo colar, a baronesa indagou, de repente:
- É verdade, que noticias me dão vocês da Lilita Wilson?
O desembargador, que é entendidíssimo em novidades de salão, alcova e cozinha, acudiu, pronto:
- Casou-se, outra vez. Logo que lhe morreu o primeiro marido, casou-se com o Alberto Manzoni, de São Paulo. Com a morte deste, na guerra, contraiu terceiras núpcias aqui mesmo.
- Com o Alexandre?
- Não; com o Viana Moreira, do Rio Grande do Sul.
A baronesa, sem mostrar espanto, sorriu, e, após um gole de chá e de uma torradinha minúscula, que lhe encheu toda a boca, lamentou, penalizada:
- Coitadinha! Até parece, já, o rio Purús, descrito por Euclides da Cunha!
- O rio Purús? - estranhei, pousando a chávena.
E a minha amiga, perversa.
- Então? Ela tem mudado tanto de leito!...
Uma folha amarela que se despregara da mangueira pôs termo à conversa, caindo, certeira, aos rodopios, como uma flecha vegetal, na xícara vazia da baronesa...
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Fontes:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1925. Disponível em Domínio Público.
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Artur de Azevedo (Um cacete*)
* Cacete = chato, maçante, importuno.
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Uma noite em que o Siqueira saía do Lírico, viu de longe o Rubião, no Largo da Carioca, e quis fugir, mas não teve tempo: O Rubião avistou-o e correu para ele.
- Ó Siqueira! Vem cá! Não fujas! Que diabo! Não te vejo há um século!
- Adeus, Rubíão; como vai isso?
- Parece que fugias de mim!
- Eu?! Que lembrança!
- Não, que, para te falar com franqueza, ando muito ressabiado: o outro dia... quando foi?... terça-feira... ora, espera! foi quarta-feira... não!... enfim, terça, ou quarta-feira, o Honorato viu-me e fugiu!
- Fugiu?!
- Como o diabo da cruz! E tomou um bonde que passava! Bem sei porque isso e... estou pobre... não tenho mais vintém.
O Siqueira teve ímpetos de lhe dizer: "Não, não é porque estejas pobre; é porque és muito cacete", mas conteve-se.
- Mas tu, Siqueira, tu, não creio que fujas de mim pelo mesmo motivo. .
- Mas eu não fugi!
- Antes assim. De onde vens?
- Do Lírico.
- És um homem feliz.
- Porquê?
- Porque podes ir ao Lírico. Tu sabes como eu sou doido por música; pois bem: desde 1871... não! Ora, espera!.. desde 1872... ou 1873... enfim, há trinta e tantos anos, nunca mais ouvi uma ópera!
- Que estás dizendo?
- A verdade. Não sei o que é Tamagno, nem Gayarre, nem Caruso, nem nada! A última ópera que ouvi, ainda no Provisório, no Campo de Sant'Ana, foi a Força do Destino.
O Siqueira estendeu a mão para despedir-se, mas o Rubião agarrou-o por um botão do sobretudo, e continuou:
- Ah! naquele tempo eu não só ia ao teatro, como era amigo dos artistas... Fiz muita amizade com um deles, justamente naquele tempo... 1871 ou 1872... era um baixo, mas que baixo! Não creio que voltasse nunca ao Rio de Janeiro um baixo com uma voz daquelas! Era de primo cartelo!
- Como se chamava?
- Chamava-se... ora espera... Chamava-se...
E o Rubião meditou durante dois minutos, a procurar o nome do cantor sempre agarrado ao botão do Siqueira.
- Bem! depois me dirás... Adeus, Rubião!
- Espera, homem de Deus! Tenho o nome debaixo da língua! Ora, senhor! Um artista com quem eu ceava todas as noites! Por falar em cear: não te apetece agora um chocolate?
- O que me apetece é dormir.
- Ainda é cedo. Vamos ali ao Paris.
O Siqueira não teve remédio senão ir tomar chocolate com o Rubião.
- Ora, que coisa esquisita! - dizia o maçador enquanto bebia. - Não me posso lembrar do nome do baixo!
- Deixa lá o baixo e anda com isso, que são horas.
- Onde estás morando?
- Na Rua da Imperatriz.
- Ainda no mesmo sobradinho?
- Ainda.
Quando acabaram de tomar o chocolate, que o Siqueira pagou, vieram ambos de novo para o Largo da Carioca.
- Bom! Agora adeus, Rubião!
- Que diabo! Eu não queria separar-me de ti antes de me lembrar do nome do baixo. Não imaginas a aflição que isto me causa!
E quis de novo agarrar o outro pelo botão, mas desta vez o Siqueira protestou:
- Deixa o botão!
- Sabes que mais? A noite está fresca... vou levar-te até a porta de casa... Talvez que em caminho eu me lembre do nome do baixo.
Siqueira quis evitar que ele realizasse a ameaça, mas não houve meio, e o pobre rapaz foi cruelmente caceteado até à Rua da Imperatriz.
À porta de casa, já o trinco estava na fechadura, e o Rubião procurava lembrar-se do nome do cantor.
- Eu desespero! Enfim, amanhã mando-te o nome dele num cartão postal... Adeus, Siqueira!
- Adeus, Rubião!.
- Olha!
- Não! Adeus!.
E a porta bateu com força.
O Siqueira suspirou, subiu a escada e foi para o seu quarto, despindo-se, deitou-se, e adormeceu logo, pois estava realmente com sono; mas não se tinha passado talvez meia hora, que despertou sobressaltado com o barulho que faziam, batendo à porta da rua.
- Ó Siqueira! Ó Siqueira! Chega à janela!... – gritava uma voz.
O Siqueira deu um pulo da cama, embrulhou-se num cobertor, abriu a janela e viu no meio da rua o Rubião, que disse:
- Olha, o nome do baixo era Ordinás! Boa noite.
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Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo, jornalista, poeta, contista e teatrólogo, nasceu em São Luís/MA, em 1855, e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1908. Aos oito anos Artur já demonstrava pendor para o teatro, brincando com adaptações de textos de autores. Muito cedo começou a trabalhar no comércio. Depois foi empregado na administração provincial, de onde foi demitido por ter publicado sátiras contra autoridades do governo. Ao mesmo tempo lançava as primeiras comédias nos teatros de São Luís. Aos quinze anos escreveu a peça Amor por anexins, que teve grande êxito, com mais de mil representações no século passado. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, no ano de 1873, e logo obteve emprego no Ministério da Agricultura. Dedicou-se também ao magistério, ensinando Português. Mas foi no jornalismo que ele pôde desenvolver atividades que o projetaram como um dos maiores contistas e teatrólogos brasileiros. Fundou publicações literárias, como A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum. Colaborou em A Estação, ao lado de Machado de Assis, e no jornal Novidades, onde seus companheiros eram Alcindo Guanabara, Moreira Sampaio, Olavo Bilac e Coelho Neto. Foi um dos grandes defensores da abolição da escravatura, em seus ardorosos artigos de jornal, em cenas de revistas dramáticas e em peças dramáticas, como O Liberato e A família Salazar, proibida pela censura imperial e publicada mais tarde em volume, com o título de O escravocrata. Escreveu mais de quatro mil artigos sobre eventos artísticos, principalmente sobre teatro, nas seções que manteve, sucessivamente, em diversos jornais.. Multiplicava-se em pseudônimos: Elói o herói, Gavroche, Petrônio, Cosimo, Juvenal, Dorante, Frivolino, Batista o trocista, e outros. Embora escrevendo contos desde 1871, só em 1889 animou-se a reunir alguns deles no volume Contos possíveis, dedicado pelo autor a Machado de Assis, que então era seu companheiro na secretaria da Viação e um de seus mais severos críticos. Em 1894, publicou o segundo livro de histórias curtas, Contos fora de moda, e mais dois volumes, Contos cariocas e Vida alheia, constituídos de histórias deixadas por Artur de Azevedo nos vários jornais em que colaborara. Suas comédias fixaram aspectos da vida e da sociedade carioca. Teve em vida cerca de uma centena de peças de vários gêneros e extensão encenadas em palcos nacionais e portugueses. Outra atividade a que se dedicou foi a poesia. Foi um dos representantes do Parnasianismo, pelo temperamento alegre e expansivo, não tinha nada que o filiasse àquela escola. É um poeta lírico, sentimental, e seus sonetos estão perfeitamente dentro da tradição amorosa dos sonetos brasileiros.
Fontes:
Artur de Azevedo. Contos publicados em 1897. Disponível em Domínio Público
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025
Daniel Maurício (Poética) 85
O poeta Daniel Mauricio é natural de Jaguariaíva/PR, em 1968, Graduado em Letras - UFPR; Administração de Empresas - FESP; Direito - FARESC; Pós-graduado em Gestão Administrativa e Tributária – PUC/PR; Pós-Graduado em Gestão de Pessoas e Qualidade no Setor Público - SPEI; Pós-Graduado em Gestão Pública de Tecnologia da Informação – PUC/PR; Pós-Graduado em Gestão Pública – FAEL. É Auditor de Tributos Municipais da Secretaria Municipal de Finanças da Prefeitura Municipal de Curitiba. Foi Integrante da Câmara Técnica Permanente da ABRASF – Associação dos Secretários de Finanças das Capitais, atualmente Chefe de Serviços do Setor de Processos Administrativos da PMC, Professor da Rede Municipal de Curitiba; Monitor na área de Linguística na Universidade Federal do Paraná, entre outros. Pertence ao Centro de Letras do Paraná; - Academia de Cultura de Curitiba; Confraria Brasileira de Letras; Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil; União Brasileira de Escritores etc. Publicou livros de poemas: Mosaico de Sentimentos; Cacos e Retalhos; Gotas Poéticas; Origamis de Palavras; Palavras de Cheiro; Miudezas do Coração; Poemininos; Poesias da Madrugada; Leve-me; Alma Lírica; Olhares; e Amar É.
Eduardo Martínez (Coitado, o palhaço infeliz)
José não se recordava de ter tido nem sequer um dia de felicidade. Talvez no tempo de gestação da mãe, que pariu o rebento quase aos dez meses. Seria isso a prova cabal de que o então bebê não queria sair do aconchego do ventre e cair neste mundo? É uma possibilidade, mas que precisaria ser provada e, como o gajo não se recordava de nenhum acontecido antes dos seus dois anos, seria tarefa infrutífera para qualquer pesquisador.
Aos 12 anos, José até pensou em ser mágico, mas lhe faltava talento para tal. Na verdade, tinha a opção de virar trapezista que nem os pais. No entanto, o garoto sofria de vertigens quando tentava se equilibrar até mesmo no meio-fio. Acabou virando palhaço, o palhaço que nunca ri, como se fosse a reencarnação do próprio Buster Keaton, só que numa versão ainda mais tristonha.
A despeito das feições de desânimo, José fazia sucesso e, não raro, era aplaudido de pé pelo público, que, muitas vezes, ia ao circo apenas para ver o palhaço Coitado, cuja fama se espalhou por toda a região, chegando até a capital. O alvoroço era tamanho, que as filas dobravam os quarteirões.
O dono do circo, Don Pedrito, um espanhol domador de leões e tigres, aposentado desde que perdeu um dos braços em uma contenda com as feras, não queria mais saber de animais muito antes de ser proibido por lei. No máximo, Filó, uma cadela poodle de quase 30 anos, que parecia ter encontrado a fórmula da eternidade. No mais, gente de diversos lugares, principalmente dos Bálcãs, sabida região de ciganos.
Aos 30 anos, o famoso palhaço estava com os alforjes abarrotados de dinheiro. Não que não fosse também enganado por Don Pedrito. Todavia, como o empresário juntou fortuna com as apresentações do seu mais ilustre funcionário, não tinha como negar-lhe pagamento acima dos demais empregados.
Certa feita, o circo fez temporada em Samambaia, no Distrito Federal, onde ficou por quase dois meses. O sucesso continuou atraindo o público, que ia para conhecer o famoso palhaço Coitado. E foi justamente em uma dessas apresentações, quando as gargalhadas ecoavam sob a lona, que José, olhar tristonho por detrás da pintura, sorriu pela primeira vez diante de uma bela jovem.
A princípio, a plateia não entendeu aquilo, até que, talvez assustada, a mulher chorou. José, estupefato, ouviu o silêncio do público. Instintivamente, estendeu sua mão para a garota, que retribuiu o gesto. Os dois choraram copiosamente, enquanto a plateia voltou a gargalhar tanto, que chegaram a chorar de tanto rir, para admiração do Don Pedrito.
Com seu tino comercial afiado, o dono do circo, assim que o espetáculo terminou e o público se dispersou, percebeu que José e Luciana, a tal chorona, estavam em um canto trocando olhares tristonhos. Não teve dúvida, propôs um contrato ali mesmo, que a beldade aceitou.
Luciana e José se casaram no mês seguinte e continuam trabalhando no mesmo circo. Aliás, apesar de serem explorados pelo espanhol, são os artistas mais bem-pagos da companhia. E, todas as manhãs, assim que os outros artistas passam pelo casal, costumam cumprimentá-los, enquanto Don Pedrito, que sabe que o espetáculo não pode parar, sempre lança a mesma pergunta:
— E aí, José, qual é o sofrimento de hoje?
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.
Fontes:
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José Feldman (Godofredo)
Era uma noite típica no Condomínio Parque das Flores, e a sala de reuniões estava cheia. Moradores de todas as idades se acomodavam nas cadeiras, ansiosos para discutir as reformas necessárias no condomínio. Mas, como sempre, havia uma nuvem ameaçadora pairando sobre a reunião: Godofredo, o morador do prédio que era um “chato de galochas”.
Dona Rita, a síndica, começou a reunião com um sorriso nervoso.
— Boa noite a todos! Hoje, vamos discutir a reforma da piscina. O que vocês acham de reformá-la e deixar mais agradável?
— Olha, eu não sei se isso é uma boa ideia — interrompeu Godofredo, levantando a mão como se estivesse em sala de aula. — A piscina já é um foco de problemas!
— Como assim, Godofredo? — perguntou Marta, uma mãe de dois filhos. — A piscina é um lugar de lazer!
— Exatamente! E onde tem lazer, tem acidente! — rebateu Godofredo, cruzando os braços. — E quem vai limpar todo aquele cloro?
— A gente contrata alguém, Godofredo! — disse Jorge, o morador mais jovem, com um sorriso cansado.
— E quanto isso vai custar? — Godofredo insistiu. — Aposto que vai aumentar o nosso condomínio!
Marta, já sem paciência, respondeu:
— Godofredo, uma piscina reformada pode aumentar o valor dos apartamentos!
— Ah, mas será que alguém vai querer comprar um apartamento em um prédio com piscina? — questionou Godofredo, provocando risadas nervosas entre os presentes.
Dona Rita tentou mudar de assunto.
— Ok, vamos para o próximo item: a reforma do salão de festas. O que vocês acham?
— Eu sou contra! — gritou Godofredo. — O salão já é um lugar cheio de barulho. Reformar só vai piorar!
— Mas o salão está caindo aos pedaços! — ressaltou Ana, uma adolescente que estava na reunião. — Não dá pra fazer festas lá!
— E quem disse que precisa de festas? — retrucou Godofredo. — As festas só atraem mais gente barulhenta!
Carlos, um senhor simpático, tentou apaziguar a situação:
— Godofredo, também precisamos nos divertir, não acha?
— Divertir-se é só uma forma de gastar dinheiro! — disse Godofredo, com um tom de desdém. — E depois, vem a limpeza!
— Godofredo, você é o único que vê tudo pelo lado negativo! — exclamou Dona Rita, já exasperada.
— Não, não sou! Eu sou o único que vê a verdade! — defendeu-se Godofredo, com um gesto dramático.
Dona Rita, tentando manter a ordem, passou para o próximo tópico.
— Vamos discutir a reforma do elevador. Ele está muito antigo e precisa de melhorias.
— E se ele quebrar durante a reforma? — perguntou Godofredo, levantando a mão novamente. — E se a gente ficar preso lá dentro?
— Godofredo, isso é um risco que corremos com o elevador velho também! — respondeu Jorge.
— Mas a situação atual é familiar. A reforma pode trazer riscos desconhecidos! — insistiu Godofredo.
— Riscos desconhecidos? — riu Marta. — Você assiste muitos filmes de terror, Godofredo?
— E você não deveria subestimar o que não conhece! — retrucou Godofredo, ofendido.
Ana, já cansada, interveio:
— Godofredo, você é como um aplicativo de previsão do tempo que só diz que vai chover! Às vezes, precisamos de sol!
Todos riram, mas Godofredo não se deixou abalar.
— E quem vai pagar a conta das reformas? — continuou ele. — Aposto que vai ser a gente!
Carlos, tentando mudar o clima, sugeriu:
— Que tal fazermos uma vaquinha para as reformas?
— Uma vaquinha? — exclamou Godofredo. — Isso é um plano horrível! E se a vaca não der leite?
— Godofredo, você sabe que isso é uma expressão, certo? — disse Jorge, rindo.
— É, mas eu não gosto de expressões! Elas complicam a comunicação! — respondeu Godofredo, como se fosse o porta-voz da lógica.
Dona Rita, já sem saber como lidar, anunciou:
— Ok, se todos concordam com a reforma do salão, vamos votar.
— Ah, mas eu sou contra! — gritou Godofredo. — E quem vai garantir que a reforma vai ser bem feita?
— Nós vamos acompanhar, Godofredo! — afirmou Marta. — E temos um arquiteto!
— E se o arquiteto não souber o que está fazendo? Estamos todos perdidos! — disse Godofredo, gesticulando dramaticamente.
— Godofredo, você sempre vê o lado ruim de tudo! — exclamou Carlos, já irritado. — A gente precisa de melhorias!
— Com certeza, você é o único que não quer! — respondeu Marta.
Dona Rita, percebendo que a reunião estava se transformando em um debate sem fim, decidiu tomar uma atitude drástica.
— Olha, Godofredo, talvez seja melhor você não participar mais dessa reunião.
— Como assim? — disse Godofredo, perplexo.
— Você está expulso! — anunciou Dona Rita, com um sorriso firme. — Na próxima, vamos deliberar sem você!
Godofredo ficou em silêncio, mas seu olhar demonstrava que ele ainda ia arranjar um jeito de contestar essa decisão.
— Vocês vão se arrepender! — foi a última coisa que ele disse, enquanto saía da sala, deixando os moradores aliviados.
Mas não parou por aí, quando a reunião terminou, com seu ar de resistência, ele se dirigiu ao parquinho onde alguns moradores estavam, e aproximando-se de um grupo.
— Olá, vizinhos! Vocês têm um momento para falar sobre as reformas?
— Godofredo, estamos tentando aproveitar o dia. O que você quer? – Marta balançou a cabeça.
— É só uma conversa rápida. Eu acho que precisamos nos unir contra essas reformas. Elas vão acabar com a tranquilidade do nosso condomínio!
— Como assim, Godofredo? O que há de errado com as reformas? – disse Carlos, curioso.
— Pensem bem! A piscina vai ser mais barulhenta, o salão de festas vai atrair mais gente estranha e, no final das contas, vamos gastar um monte de dinheiro! – Godofredo gesticulava.
— E o que você sugere? Ficar tudo como está?
— Exatamente! O antigo é seguro! O novo é um risco! Vamos preservar a nossa paz!
Jorge interveio.
— Mas Godofredo, a paz que você defende é a mesma que a gente já não tem? O salão está caindo aos pedaços!
— E se a reforma trouxer barulho, e se o elevador quebrar? Vamos ficar presos lá dentro! Olhem, eu sei que vocês pensam que sou chato, mas eu só quero o melhor para todos nós! – Godofredo falou com um olhar dramático
Marta, cruzando os braços, disse: — O melhor é ter um espaço agradável para as crianças brincarem e para a gente se reunir. Não dá para viver no passado!
Godofredo insistiu: — Mas e se essas crianças fizerem barulho? E se os pombos voltarem? Vocês não estão pensando nas consequências!
— Godofredo, você sempre traz os pombos para a conversa! – disse Carlos, sorrindo.
— E quem vai limpar isso? Pensem no trabalho extra!
Ana falou brincando: — Godofredo, você deveria ser advogado. Tem talento para convencer as pessoas a não fazer nada!
— Então, o que me dizem? Vamos juntos? Podemos fazer um abaixo-assinado!
— E colocar “não à diversão” no título? – disse Marta, rindo.
Carlos entrou na brincadeira: — Ou “protetores dos pombos”?
— Não, não! É sério! Precisamos nos unir!
— Godofredo, a verdade é que a maioria já decidiu. Você pode tentar, mas a mudança vai acontecer, com ou sem você.
Godofredo suspirou: — Então, vocês vão me deixar sozinho nessa?
Marta falou com deboche — Não, Godofredo. Você sempre terá a companhia dos pombos!
Os moradores riram, enquanto Godofredo, derrotado, cruzou os braços e observou o grupo se afastar, ainda conversando animadamente sobre as reformas. Ele murmurou para si mesmo, já pensando em seu próximo plano para tentar mudar a opinião dos vizinhos.
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JOSÉ FELDMAN nasceu na capital de São Paulo. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais; membro da Casa do Poeta “Lampião de Gás”. Foi amigo pessoal de literatos de renome (falecidos), como Artur da Távola, André Carneiro, Eunice Arruda, Izo Goldman, Ademar Macedo, e outros. Casado com a escritora, poetisa, tradutora e atualmente professora pós-doutorada da UEM, mudou-se em 1999 para o Paraná, morou em Curitiba e Ubiratã, morando atualmente em Maringá/PR em 2011. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Virtual Brasileira de Trovadores, etc, possui o blog Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria. Assina seus escritos por Floresta/PR. Publicou mais de 500 e-books. Premiações em poesias no Brasil e exterior.
Fontes:
José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: I. A. Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Meus manuscritos,
Panaceia de Textos
Estante de Livros (“Carmilla, a Vampira de Karnstein”, de Joseph Sheridan)
texto enviado por Jaqueline Machado
Laura é uma jovem que vive isolada em um castelo com seu pai e as empregadas, quando uma carroça sofre um acidente em frente ao castelo, e interrompe a viagem de uma intrigante mulher, e sua filha.
Mesmo em condições mais precárias, a senhora decide seguir a viagem devido a um compromisso urgente, mas pede ao pai de Laura para que hospede sua filha Carmilla até que ela volte. Ele, gentilmente hospeda a moça.
Carmilla conserva um ar de mistério. Ninguém sabe de fato quem ela é. E nem quais são suas verdadeiras intenções. Laura e a hóspede desenvolvem rapidamente uma intensa e envolvente amizade.
Esta é a premissa da literatura clássica e vampiresca, publicada em 1872, por Joseph Sheridan.
Na medida em que se conhecem, coisas estranhas começam a acontecer no castelo, na mente e no corpo de Laura. Uma, encanta-se pela outra de maneira a fazer o leitor entender que, embora sejam amigas, uma paixão secreta, cheia de dúvidas e temores as envolve de forma peculiar.
UM TRECHO BELÍSSIMO DA OBRA:
"Verdade seja dita, meus sentimentos em relação à encantadora estranha eram inexplicáveis. Sem dúvida, algo nela me atraía e havia me conquistado, mas sentia uma espécie de repulsa misturada às minhas emoções. No entanto, a ambiguidade desse sentimento era vencida pela afeição que eu tinha por ela, que me cativava e deslumbrava. Era radiante de tão linda, e de uma presença mais arrebatadora do que as palavras poderiam descrever. Sua companhia me deleitava de muitas maneiras. Em uma de nossas conversas, ela admitiu que sentiu um choque semelhante ao meu, quando me avistou pela primeira vez. Agora ríamos juntas desses momentos iniciais de alegria e horror."
Muitas reviravoltas acontecem na história. E o final é surpreendente.
Fonte:
Texto e imagem enviados por Jaqueline Machado
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
Silmar Bohrer (Gôndola de Versos) 08
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
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