domingo, 17 de maio de 2026

Camilo Castelo Branco (Uma paixão bem empregada)


O meu amigo Valadares, em uma tarde formosa, passeando comigo no Penedo da Saudade, sentou-se, acendeu um cigarro com perfeição acadêmica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um ano antes, me recitara em Alpedrinha.

— Lembras-te? — disse ele.

— Perfeitamente. Prometeste contar-me então uma história.

— Vou cumprir a promessa.

— E disseste que o teu conto prendia muito com aquela casa.

— Disse, e vais ver porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te para uma narração simples, e clara. Não pertenço à escola dos nossos lapidários de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as cenas cômicas de Moliere. A minha história, se tal nome lhe cabe, é uma tragédia com muitas cenas de farsa. Ainda que me não vejas rir, tens a liberdade da gargalhada. Ai vai:

“Em 1843 fui a feira do Santo Antônio a Vila-Real. Encontrei ai uma família que mora uma légua distante de minha casa. Compunha-se de uma senhora idosa, que era mãe de um cavalheiro, e este cavalheiro era pai de uma bonita mulher, que teria dezoito anos. Gostei dela, ou antes confirmei a simpatia que ela me tinha presa desde que a vi, pela primeira vez, dois anos antes, numas férias grandes. Não lhe disse quase nada. Eu era rapaz de dezoito anos, e aos dezoito anos, um moço de aldeia tem o coração acanhado, e cora facilmente, quando encontra os olhos de uma mulher, suposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo que nunca supus poder pronunciar este nome sem lágrimas... O que é o tempo!…

“Combinamos partir juntos de Vila-Real. Não recordo na minha vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a dizer algumas palavras daquelas que nunca exprimem senão a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as rédeas do cavalo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes. Teríamos andado légua e meia, quando o macho em que vinha montada a velha tomou susto de um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.

“Encontramos-lhe uma fratura profunda na cabeça, e uma perna quebrada. Perguntamos se dali perto haveria uma casa onde nos recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me encontras-te. O acolhimento que nos deram foi excelente. Encontrei ai o irmão do abade que era meu contemporâneo em Coimbra. Os facultativos disseram que era impossível continuar jornada, e aí ficamos vinte dias.

“Neste espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não existe a realidade desses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta, idealizei a sombra de Miquelina coisas e pessoas que nunca tiveram senão matéria vilíssima para as aspirações do poeta. Enfim, meu caro, cheguei a recuperar a fé perdida nas coisas da Providência, porque me parecia impossível tanta felicidade sem consentimento especial da Providência.

“Disse a Miquelina tudo que humanamente pode dizer-se. Traduzi-lhe em palavras os êxtases, que as não tinham. Interessei-a na compreensão da minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos lábios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ela me disse “amo-o” se não endoideci de contentamento, e porque a disposição do meu cérebro é invulnerável aos golpes da demência. Hoje rio-me disto, e tu, se te não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua cabeça, passados alguns anos.”

— Por que? 

— Porque das duas uma: ou doido, ou cínico. Tomar a sério a sociedade e endoidecer. Viver com ela em boa paz e escarnece-la. Ou doido ou cínico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escárnio, que indistintamente volto a tudo, e a negação da piedade para todas as dores nobres, e a do ódio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada. Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça. Recebo todos os desaforos como fatos consumados. Não dou dez réis pela virtude dos missionários do Japão, nem daria cinco de volta se eles me trocassem a sua fé pela minha ilustrada impiedade. Eu e eles somos bons, ou maus: como quiserem. Eu acho que todos somos excelentes filhos de Deus, e Deus, que nos conserva, la sabe a razão porque o faz...

— Tu não sentes o que dizes...

— Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o que está dentro deste homem, nem podes ainda ajustar a face do cadáver a máscara que o retrate...

— Mas é possível ser-se o que tu és?!

— Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras, perco-me em abstrações, que te hão de parecer pretensiosas, e lá vai a história...

— Palavra, que não te interrompo...

— Quando saímos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram já suspeitas ao pai, que não se entremetia paternalmente no negócio. Sabes que eu tenho uma sofrível casa, e Miquelina não era muito mais rica. Era possível, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se neste assunto em casa do padre, e eu fui consultado por ele.

“Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram coisas da velha, que quebrara a perna, mas ficara com a alma inteira para seguir o caminho reto, a lógica implacável do namoro, banhos, casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarro, cangalhas no nariz, e reumatismo.

“Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do oficioso abade, respondi que me casaria um ano depois, porque não queria dar tal passo sem o consentimento de um tio, que fora receber ao Brasil uma herança, que viria aumentar consideravelmente a minha casa. Ficamos nisto. Três vezes por semana, durante os dois meses de férias, visitei Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que fogem quanto mais fáceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e enquanto a cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-ei que as seduções eram tantas, e tão a propósito que nunca tive ocasião de me sentir de uma ilusão desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi patética. Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o entusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão trêmula, como prenda, o lenço com que enxugara as lágrimas, e retirei-me com o coração partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.

“Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram vinte folhas de papel, escritas em todas as estalagens onde pernoitei, e fechadas com uma espécie de hino de lágrimas, em que se me foi tudo o que a minha alma podia dar de superior aquilo que todos os homens sabem dizer numa carta de namoro.

“Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros... pareciam-no... via-se ali a mulher que escreve a primeira carta, o coração tímido que balbucia os sons de uma selvagem inocência, que e a felicidade do homem que primeiro os tira do coração de uma virgem.

“Três meses assim, três meses de uma vida fantástica. Ânsias insaciáveis das suas cartas. Tristezas doces quando me faltavam num correio. Zangas sem ódio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata... três meses assim... e no fim de três meses... adivinha o que aconteceu...

— Eu sei cá... morreu?

— Não.

— Veio cá ter contigo?

— Não.

— Abandonou-te?

— Abandonou.

— Isso é incrível!

— Acredita. Agora adivinha por quem eu fui preferido.

— Eu só te conheço na tua terra...

— Imaginas que algum dandi a requestou de modo que a frágil criatura sucumbiu as seduções invencíveis?

— Só assim.

— Ora adeus! Tu não adivinhas, porque não sabes nada de mulheres...

— Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

— Também não...

— Diz lá isso, que estou impaciente...

— Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu hálito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia ressequir-se a míngua dos meus carinhos... sempre queres que te diga?

— Pois então?

— A minha prometida esposa... fugiu com um... digo?

— Acaba, homem!

— Com um lacaio da casa!... Olá! Não fiques assim atordoado! Ri-te, como eu...

— Isto e inconcebível!... E depois?

— Depois... que queres que eu te diga?

— Que fim teve essa mulher?

— Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabuzado sumariamente para não dar que fazer à justiça.

— E ela... vive?

— Creio que sim.

— Na companhia da família?

— Não... Tu não me disseste que virás no Porto... Fiquemos aqui...

— Isso de modo nenhum... Hás de concluir...

— Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer donde era, nem como viera aquela vida?...

— Disse... mas não se chamava Miquelina...

— Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... e a minha prometida esposa, e o anjo dos meus primeiros amores, e a pomba alvíssima da inocência que encontrei em Alpedrinha... É ela... Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quiseres embriagar comigo, vamos ao Paço do Conde, e beberemos à saúde da excelentíssima Miquelina Alpoim e Malafaia, vítima de uma paixão pelo infeliz lacaio, que desceu ao túmulo... das ilustres vítimas. Já sabes como se faz um cínico? A esses parvos, que por ai andam a gaguejar um ceticismo que cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria.

E não tornou a falar-me nesta mulher.

Fontes:
Camilo Castelo Branco. Cenas contemporâneas. Publicado originalmente em 1862.
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Dicas de Escrita (Crônica x Conto: O Instantâneo vs. O Universo Construído) 2


2. A Crônica Argumentativa: Como transformar um fato cotidiano em uma opinião política ou social.

A Crônica Argumentativa é o ponto onde a leveza do cotidiano encontra o peso da opinião. Diferente da crônica poética (que foca na emoção), ela usa um evento banal como "isca" para discutir um problema estrutural da sociedade.

Aqui está o passo a passo de como essa transformação acontece:

1. O Ponto de Partida: O Fato Banal
Tudo começa com uma cena comum que qualquer pessoa reconheceria.

Exemplo: Você observa uma pessoa idosa tentando usar um aplicativo de banco e falhando.

2. A Ponte: A Generalização
Neste estágio, o cronista para de descrever "aquela pessoa específica" e passa a ver o fato como um sintoma de algo maior.

Transformação: O problema do idoso com o celular não é apenas falta de jeito; é um exemplo de exclusão digital.

3. A Argumentação: A Opinião Política ou Social
Aqui entra a tese. O autor utiliza o fato para criticar uma estrutura ou comportamento social.

Argumento: A sociedade moderniza seus serviços visando apenas o lucro e a agilidade, descartando gerações inteiras que não acompanham o ritmo tecnológico. Isso é uma forma de invisibilidade social.

4. A Linguagem: Persuasão com Proximidade
Diferente de um editorial de jornal (que é rígido e formal), a crônica argumentativa mantém o tom de conversa. O autor usa a primeira pessoa ("Eu vi", "Eu penso") para gerar empatia no leitor antes de convencê-lo de sua tese política.

Exemplo Comparativo:

-  Fato: O preço do feijão subiu no mercado do bairro.

-  Crônica Comum: Uma narrativa engraçada sobre como o autor teve que trocar o feijão por lentilha e a reação da família no jantar.

-  Crônica Argumentativa: Uma crítica sobre a prioridade do agronegócio para exportação em detrimento da segurança alimentar das famílias brasileiras. O feijão caro é o símbolo de uma política econômica falha.

Dica:

Para transformar o cotidiano em opinião, pergunte-se: "O que este pequeno incidente diz sobre o país ou o mundo em que vivemos?"
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continua…

Referência: 

Fonte: JFeldman. Dissecando a magia dos textos. Floresta/PR: A.I. Dola. Biblioteca Sunshine
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sábado, 16 de maio de 2026

Asas da Poesia * 186 *


Trova Humorística de
MARIA HELENA CALAZANS DUARTE
São Paulo/SP

"Mas que preguiça'' e, no escuro,
o pau-d'água, chave à mão,
espera, encostado ao muro,
que ali passe o seu portão!
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Solau* de
DARIO VELLOZO
(Dario Persiano de Castro Vellozo)
Rio de Janeiro/RJ, 1869-1937, Curitiba/PR

Solau a Nestor de Castro

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Loura de olhos monacais;
Eu rezo salmos a Dona Morte,
Sou o coral das Catedrais;
Nos meus idílios flavesce a morte,
A morte, — vinho das bacanais.

Volvei os olhos de esperança
A um cavaleiro Rosa-Cruz;
Os vossos olhos de esperança
São liras de ouro, alvas de luz;
São pulvinários de esperança,
Valquíria astral da Rosa-Cruz.

 Nos cinerários de meus sonhos
Arderam Silfos e Quimeras;
Em que sepulcro andam meus sonhos,
Ó Peregrina de outras eras?!...
Noiva, — sepulcro de meu sonhos,
Crisoberil das primaveras!

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Entre castelos e solares;
Seguindo os passos de Dona Morte,
Subi a torres de sete andares,
Os belvederes de Dona Morte
Andam suspensos de meus olhares.

Andam suspensos de minha boca
Os nove arcanos da Alquimia;
Nos setiais de minha boca
Rezaram monjas noite e dia;
Jamais oscules a minha boca,
Estrela d´alva da Nostalgia!...

 Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura, de olhos monacais,
A Morte embala meus sonhos mortos
Nas absides das Catedrais.
A Morte é a noiva dos sonhos mortos,
A Morte é círio das bacanais.

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura, de olhos monacais!
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* Solau - Composição bem antiga, da época anteclássica renascentista, de caráter melancólico e habitualmente acompanhada por música. Autores que a cultivaram: Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Jorge de Vasconcelos, Gonçalves Dias, Almeida Garret, Carlos D. Fernandes (simbolista brasileiro). Poetas modernos como Manuel Bandeira e Mário Quintana, também, escreveram poemas com o título de Solau.
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Soneto de
JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

Silêncio

Quando eu pensei que tudo estava certo...
eis que você, na calma de serpente,
virou meu mundo assim tão de repente
numa miragem plena de um deserto.

Meu pensamento sóbrio, tão presente,
não alertou-me como estava perto
um coração fechado... e bem aberto
à pequenez de um sopro tão latente!

Me refazendo aos poucos, fui olhando
nas passarelas de um mundo nefando
desfiles frágeis, quem olha e não vê.

Hoje agradeço sua insensatez
silenciando o vazio de vez
feliz por mim e triste por você!
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Trova de
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP

Nossa Língua Portuguesa
bem menos rica seria
se não tivesse a riqueza
deste teu nome - Maria!
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO
(Rómulo Vasco da Gama Carvalho)
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
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Quadra Popular de 
MINAS GERAIS

Vou tirar o teu retrato,
na beira do poço fundo;
estando com ele na mão,
estou com a joia do mundo.
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Soneto de
ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA
Sete Barras/SP, 1929 – 2018, São Paulo/SP

Amor que não tem preço

Depois que te perdi, só depois, mãe querida,
notei que me fugira um bem que não tem preço,
o maior bem do mundo, o melhor desta vida,
e, se um dia existiu igual, não o conheço.

Ternura ardente e casta, oculta em manto espesso
de preocupações, quando não, diluída
nesse olhar, cujo certo e único endereço
é seu filho, que a fez vaidosa ou mais sofrida.

Depois que te perdi, só depois... (como forço
o espírito a afastar a constante tortura!...)
é que a mente me invade um dorido remorso

de não ter, junto a ti, quando então me fitavas,
com mil beijos provado esta minha ternura,
num reflexo do amor imenso que me davas!
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Trova de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Cada verso que dedico
para os tristes, na ilusão,
mais alegre, sim, eu fico,
pois sou eles, coração...
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Poema de
WILLIAM CARLOS WILLIAMS
Rutherford/New Jersey/ Estados Unidos, 1883 – 1963

Prelúdio ao Inverno 

A mariposa sob as goteiras
 com asas como
 a casca de um tronco, estende-se

e o amor é uma curiosa
 coisa suavemente alada
 imóvel sob as goteiras.
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Haicai de
MÁRIO ZAMATARO
(Mário Augusto Jaceguay Zamataro)
Curitiba/PR

Nas asas imóveis
da borboleta pousada:
as cores mais vivas.
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Soneto de
ARISTHEU BULHÕES
Maceió/AL, 1909 – 2000, Santos/SP

Novo alento

Encontrei-te na estrada do Destino,
e tuas mãos fidalgas me levaram
pelos campos do amor, num desatino
que meus próprios sentidos estranharam.

Novo horizonte, agora, descortino...
As paisagens sombrias se alegraram.
Sou, de novo, feliz, como em menino,
pois meus anseios já se realizaram.

Antes, na vida, conduzido a esmo,
compartindo o pesar comigo mesmo,
via o meu sonho transformar-se em pó.

Hoje, alentado pelo teu carinho,
tenho flores brotando em meu caminho,
e já não sofro e nem sorrio só!
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Trova de
RENATO BENVINDO FRATA
Paranavaí/PR

Beber desse seu sorriso
é algo mais que sublime:
vale dessa vida o riso
que a felicidade exprime.
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

MOTE:
Vai, riozinho, sem pressa...
Lembra ao mar, sem raiva ou mágoa,
que ele é grande, mas começa
num modesto olhinho d’água!
A. A. de Assis 
(Maringá/PR)

GLOSA:
Vai, riozinho, sem pressa...
desliza tranquilamente,
não há nada que te impeça
de ser puro e transparente!

Quando chegares ao mar,
lembra ao mar, sem raiva ou mágoa,
que nesse teu desaguar
existe um amor em frágua!

Que do orgulho, se despeça
esse mar tão envolvente...
Que ele é grande, mas começa
numa pequena vertente!

Sangas correm para o rio,
o rio, no mar deságua,
mas nasce a correr ...vadio,
num modesto olhinho d’água!
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Aldravia de
GORETH DE FREITAS
Ipatinga/MG

O
trem
vai
o
tempo
passa
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Soneto de
BELMIRO BRAGA
Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG

Risália

Se ouvires, a sonhar, uns vãos rumores,
não são as aves festejando o dia:
— São os últimos gritos que te envia
meu triste coração, morto de amores...

Se sentires uns tépidos olores,
não penses que é o rosal que te inebria:
— É minha alma nas ânsias da agonia
que, só por te beijar, se muda em flores...

Se vires baloiçar as níveas gazas
do docel de teu leito, não te afoites,
nem te assustes, querida! São meus zelos

que vão, de leve, sacudindo as asas,
carinhosos, beijar, todas as noites,
teus olhos, tua fronte e teus cabelos...
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Trova de
ONILDO DE CAMPOS
Cachoeira/BA, 1924 – 2002, Rio de Janeiro/RJ

Maria, sem coração,
encontra-se em demasia...
Mas, quase nunca se encontra
um coração sem Maria.
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Poema de
RELVA DO EGYPTO 
(Relva do Egypto Rezende Silveira)
Belo Horizonte/MG

Ao encontro do sol-posto

Não quero me entregar ao desencanto,
depois de superar tantas mazelas!...
Do sofrimento
vou fazer meu canto,
pois sei que ainda existem
muitas coisas belas.
Não pretendo afastar de mim o encanto
da esperança, sempre, a abrir suas janelas.
Também não quero apagar mágoas
com desvarios... prantos,
mas preciso ter fé
e ter cautelas.
Quando o sorriso me ilumina o rosto,
é parte deste “jogo do contente”, pois, em solidão,
vou ao encontro do sol-posto.
Mas tento disfarçar o meu sofrer,
seguir minha vida, olhar em frente,
buscando, na partilha, no afeto, renascer
para, enfim, harmonizar todo o meu ser.
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Triverso de
MARCELO DE ANDRADE BRUM
Santa Maria/RS

Noite de inverno
a lua brilha despida
na face do lago
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Chego à velhice, contente
e o meu ocaso é bem-vindo,
ao ver que o sol, no poente,
faz o entardecer mais lindo!
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Hino de 
Foz do Iguaçu/ PR

Somos Filhos da terra querida
que é famosa, onde quer que se vá
Natureza imponente e garrida
que, no mundo, mais bela, não há

Nestes rios se confundem nações,
num abraço de mútuo fervor;
somos porto de mil corações,
Foz de eterno, ameríndio vigor!

Três fronteiras de pátrias amigas
Iguaçu-Paraná...que emoção!
suas águas que entoam cantigas,
rumo ao sul, irmanadas, se vão!

Quadro eterno que os olhos fascina
eis o sol o horizonte a romper;
catadupas! surgi da neblina,
para o mundo, outra vez, surpreender!

Sob o imenso dossel destas matas,
Sim! Palpita lembrança tupi;
Tarobá, no fragor das cascatas
ainda chama, saudoso, Naipi.

Sim, mil graças por tanta beleza,
Ó Senhor! Sempre mais progredir,
que um passado de heroica nobreza,
seja o aval de um fecundo porvir!

Honra eterna aos ingentes pioneiros
deste solo, onde é grande o labor;
aqui estão corações brasileiros,
palpitando co' idêntico amor!

Estribilho:
Foz do Iguaçu! Foz do Iguaçu!
Quem tua glória negará?
Onde achar maior que tu,
Esplendor do Paraná!!!
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A Grandeza e Beleza de Foz do Iguaçu: Um Hino de Orgulho e História
O 'Hino de Foz do Iguaçu - PR' é uma celebração poética e musical da cidade de Foz do Iguaçu, localizada no estado do Paraná. A letra exalta a beleza natural e a importância histórica da região, destacando suas características únicas e a união entre diferentes nações que se encontram nas suas fronteiras. A cidade é famosa mundialmente pelas Cataratas do Iguaçu, uma das maravilhas naturais mais impressionantes do planeta, e o hino faz questão de enaltecer essa grandiosidade.

A letra menciona a fusão de nações e culturas que ocorre em Foz do Iguaçu, onde os rios Iguaçu e Paraná se encontram, simbolizando um abraço de fervor mútuo. Essa união é um reflexo da convivência pacífica entre Brasil, Argentina e Paraguai, que compartilham as Três Fronteiras. A música também faz referência à rica herança indígena da região, mencionando figuras lendárias como Tarobá e Naipi, personagens de uma famosa lenda tupi-guarani que explica a origem das cataratas.

Além de celebrar a natureza e a história, o hino também expressa um desejo de progresso e desenvolvimento contínuo, agradecendo a Deus pela beleza da região e pedindo por um futuro fecundo. A letra presta homenagem aos pioneiros que desbravaram e trabalharam arduamente para construir a cidade, ressaltando o amor e o orgulho dos habitantes de Foz do Iguaçu. O estribilho finaliza com uma exaltação à glória e esplendor da cidade, afirmando que não há lugar mais grandioso no Paraná. 
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Poetrix de
PEDRO CARDOSO
Brasília/DF

fome

o abismo
entre a mão e a boca,
tem nome…
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Soneto de
CARLOS GUIMARÃES
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997

Último soneto

Este soneto — o último que faço —
põe um ponto final em nossa história,
que, hoje, termina de maneira inglória,
sem um beijo de adeus, sem um abraço.

Peço, apenas, que guardes na memória,
qual de nós teve culpa do fracasso;
quem primeiro deu mostras de cansaço,
reduzindo a farrapos nossa glória...

Pedes que eu parta e eu cedo. Indiferentes,
teus lindos olhos nem me seguirão...
Trilharemos caminhos diferentes,

porque temos destinos desiguais:
— Tu vais feliz, em busca de ilusão,
e eu carregando um desengano a mais!
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Trova de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Uma caneta… Um papel…
– foste escritor sem igual! -
Nome?... Nilto Maciel.
Livro da Vida: - IMORTAL!

(Tributo ao amigo, escritor cearense Nilto Maciel, falecido em 2014)
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem e a cobra

«Morre, animal virulento,
Emblema da ingratidão!»
Dizia Agrário a uma cobra
Que pedia compaixão.

«Na ponta deste cajado
Hás de teus dias findar,
És duma raça de ingratos
Que se não deve poupar.

Um homem viu uma cobra
Pelo frio entorpecida,
Teve dó dela, e no seio
Lhe volveu calor e vida;

Porém assim que a traidora
O movimento cobrou,
No peito do benfeitor
Os feros dentes cravou!»

Nisto, um chuveiro de golpes
Descarregou na serpente,
Que entre os arrancos da morte
Replicou com voz tremente:

«Nossas crônicas referem
Como o caso aconteceu;
O homem foi o culpado,
A serpe bem procedeu:

Não lhe acudiu por piedade,
Mas por lhe a pele tirar,
E ela somente o matou
Por não deixar-se esfolar.»

Há muitos que, por mal pagos,
Choram benefícios seus,
Porém se as partes se ouvissem,
Seriam eles os réus:

Dando pouco, exigem muito,
E até mesmo a escravidão;
Quem faz bem por seu proveito,
Perde o jus à gratidão.
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