sexta-feira, 26 de junho de 2026

Asas da Poesia * 195 *


Soneto de
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
Niterói/RJ

Soneto 12 aos flamingos 

Ele desperta na savana, bem cedinho, 
aos raios fúlgidos de Febo calorosos,
e logo o bando já se apruma do seu ninho
a mais um dia de momentos valorosos.

Os fachos ricos e doirados têm asinho
desenvolver do seu labor - dos mais valiosos! -
e logo osculam plumas róseas com carinho
em linda cena em rios frescos vigorosos.

Com grão capricho surgem poses caprichadas,
num algarismo pelos ébrios conhecido 
e detestado com firmeza verdadeira.

Em um estouro de repente as revoadas
colorem céus com um pincel envaidecido
e então conquistam nossas mentes parideiras!
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Trova Humorística de
CAROLINE PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Pelado, o fantasma chora,
e ao amigo, lamentou:
- A malvada foi embora,
e até meu lençol levou!
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Soneto de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

Tema antigo

Há teu perfume aqui, há tua imagem
entrando pela porta, alegre e doce,
e enchendo-me de luz, como se fosse
o sol das almas, sobre a paisagem.

Quem me dera, entretanto, aqui chegasses
de fato, ó meu amor, e — bela e calma —
me dissesses aquilo com que a alma
então tu me encherias, mais as faces,

dessa alegria própria de alguns poucos,
tão natural e boa, que eu invejo...
Ah! por que é que sonho eu? não me contento

com teus imaginários passos loucos,
com o teu vulto, próximo de um beijo,
mas que desfaz, de súbito, o vento?...
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Aldravia de
ELISA FLORES
Rio de Janeiro/RJ

olhos
debruçados
molham
rios
que
transbordam
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Soneto de
GONÇALVES DIAS
(Antônio Gonçalves Dias)
Caxias, 1823 – 1864, Guimarães

Doce Amor

Doce Amor — a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n'alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.
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Trova Premiada de
EDUARDO TOLEDO 
Pouso Alegre/MG

Abro a janela e a neblina
lacrimeja na vidraça...
A saudade dobra a esquina,
entra no quarto... e me abraça!
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Poema de
JOSÉ CARLOS MOUTINHO
Maia/ Porto/ Portugal

Os meus poemas

Os meus poemas são pedaços da minha lua,
Que iluminam as palavras que a minha alma escreve;
São as minhas ilusões beijadas pelo papel onde se inserem!
Os meus poemas, são letras levadas no vento,
Para onde me leiam,
Eles levam o meu sentir,
Para além do meu ser;
Nas emoções que se perdem no infinito!
Os meus poemas têm no teu olhar o sentimento,
Do meu beijo da saudade em ti;
A ausência das palavras cantadas,
São a tristeza que os meus poemas choram!
Os meus poemas, são o murmúrio doce,
Das águas que beijam o leito do rio,
Na corrida para o mar;
Os meus poemas podem ser inventados ou vividos
Com musa ou sem ela,
Mas todos brotam,
Do mais profundo da minha alma!
Os meus poemas, podem não ser bons poemas,
Mas são a vibração da minha paixão,
  No amor entre a alma e o coração.
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QUADRA POPULAR

O coração e os olhos
são dois amantes leais,
quando o coração tem penas
logo os olhos dão sinais.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Para Sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Por que Deus se lembra
- mistério profundo - 
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
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Trova de
MARIA HELENA CALAZANS DUARTE
São Paulo/SP

Sem brinquedo, a sós na rua,
pede a criança, baixinho:
"Senhor Deus, me empresta a lua
para brincar um pouquinho".
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Poema de
VLADIMIR MAYAKOVSKY
(Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky)
Geórgia/Rússia, 1893 - 1930, Moscou/Rússia

Voo Noturno

Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!
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Haicai de
JUAREZ MATIAS NASCIMENTO 
Santos/SP

Flores sobre a mesa –
O pouso da borboleta
E o olhar da criança.
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Sextilha de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

Eu feri minhas mãos colhendo rosas,  
mas valeu a alegria de colhê-las,
de aspirar seu perfume delicado
e à mulher bem amada oferecê-las...
Ver depois, em seus olhos, a alegria
e na luz desses olhos, as estrelas. 
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Quantos guris sem infância,
num abandono completo,
rolam no mundo, à distância
do pão, do livro e do afeto!
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO
Fortaleza/CE

MOTE:
Eu sinto a fé me envolvendo
sempre que eu consigo ver
a esperança renascendo 
em um novo amanhecer!
José Feldman 
(Floresta/PR)

GLOSA:
Eu sinto a fé me envolvendo
dando-me força e vigor 
para seguir sempre crendo 
em Deus, e no Seu amor! 

Neste mundo tão horrendo 
sempre que eu consigo ver
um milagre acontecendo,
mais em Deus eu passo a crer!

Deus continua fazendo 
milagres, pra nos mostrar 
a esperança renascendo 
todo dia..., é só esperar! 

Deus agora está dizendo: 
creia em Mim e espere ver 
Meu milagre acontecendo
em um novo amanhecer!
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Aldravia de
ELZA AGUIAR NEVES
Belo Horizonte/MG

o
céu
cinzento
derrama
translúcidos
cristais
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Soneto de
MARTINS FONTES
(José Martins Fontes)
Santos/SP, 1884 – 1937

Existir é sentir

Mais do que à própria vida, deveremos
Amar a Vida em sua plenitude.
A inconstância no amor não condenemos,
Porque esta falta pode ser virtude.

Ser fiel a um amor, se nunca o pude,
Fui ao Amor fiel, nos seus extremos:
Este, sendo imutável, não ilude,
E os desvios daquele são supremos...

Seja a forma de amor que se pressinta,
Por mais tênue, mais tímida e indistinta,
Deve-se bendizer, sem comparar.

Como a ausência produz o desengano,
Sobrenobrece o coração humano
Ser inconstante, sem deixar de amar.
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Trova de
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO 
Vila Nova de Famalicão/Portugal, 1922 – 2004, Rio de Janeiro/RJ

O furor de uma queimada
não queima a mata somente,
queima a terra semeada,
a fauna e a vida da gente!...
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Poema de
AMADEU FELICIANO
Torres Vedras/Portugal

Estrada exata

no meio da estrada
exata e fatal
corpos decepados
estendem as mãos
imploram resposta
adiada sempre

velozmente passa
quem teima passar
procurando ínscios
o fim da estrada
exata e fatal

os motores roncam
daqueles que passam
mudos os outros
daqueles que ficam
no meio da estrada
exata e fatal

ser permanecer ficar
pedem qualquer coisa
relacionada com o sujeito
que ficou sem resposta
no meio da estrada
exata e fatal
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Triverso de
MAHELEN MADUREIRA 
Santos/SP

Manhã de sol –
Na praia os caminhantes
Também as libélulas.
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Setilha de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Com nosso sonho profundo
seremos sempre criança
com nossas almas poetas,
cheias de amor e de esperança
onde nasce, a cada dia,
uma nova fantasia
que deixaremos de herança!
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Trova de
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP+

Bondade!... Bem pouca gente
quer imitar as raízes,
que luta, secretamente,
fazendo as rosas felizes!
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Hino de 
BARRA MANSA/ RJ

Vivo seja teu nome esculpido
No granito das rochas sem par,
E por todos co'amor repetido,
Com preces diante do altar!
Cada lábio o murmure e um hino
Ele seja e o suave penhor
Dum afeto tão grande e divino,
Tão sublime e mais puro que o amor!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

Tua glória, fulgindo brilhante,
Com mais vivo fulgor e mais luz,
Repercute no vale distante,
Vai além desses céus mais azuis!
Vai além desses montes e fala
Da existência de um povo a lutar,
Do teu povo feliz, que se iguala
aos titãs no feroz batalhar!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

O teu nome também nos recorda
Um murmúrio suave, um perdão,
Um carinho que terno transborda
De teus filhos no teu coração!
Ele lembra também a meiguice,
À beleza, a grandeza moral
Das mulheres que tens, a ledice
À pureza sem par de Vestal!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

Do criador, já a mão justiceira
Teu destino no tempo traçou...
Barra Mansa, serás a primeira
Pelos bens que o Senhor te doou!
Cada etapa vencida em peleja
Traga sempre uma glória melhor,
Uma glória mais santa e que seja,
Entre todo o triunfo o maior!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !
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Poetrix de
MARILDA CONFORTIN 
Curitiba/PR

A outra

hoje, uva
amanhã, passa 
Eu, vinha.
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Soneto de
COLOMBINA 
(Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein)
São Paulo/SP, 1882 – 1963

Episódio 

O reflexo do ocaso ensanguentado
dourava ainda aquele fim de dia . . .
De um frasco de cristal, mal arrolhado,
um cálido perfume se esvaía...

Junto ao teu corpo nu, convulsionado,
que de desejo e de volúpia ardia,
o meu corpo, nessa hora de pecado,
uma ânfora de gozo parecia.

Na quietude da tarde agonizante
um beijo prolongado, delirante,
a flama da paixão veio acender...

E toda a minha feminilidade
era uma taça de sensualidade
transbordante de vida e de prazer!
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Trova Humorística de
ZAÉ JR.
(Zaé Mariano Carvalho de Nascimento Júnior)
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Vendo-a grávida, ele diz:
– Homem? Mulher? Que vai ser?
E ela responde... feliz:
– Ele resolve... ao crescer!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O burro vestido com a pele do leão

Quebrando a peia,
Fofo sendeiro
Fugiu ao dono,
Que era moleiro;
Dentro de um bosque,
O fanfarrão
Achou a pele
De alto leão;

Em toda a parte
Dela vestido,
Por leão fero
Era temido;
Homens e brutos
O respeitavam,
Fugiam logo
Que o divisavam:

Mas das orelhas
Uma pontinha
De fora ao burro
Ficado tinha;
Foi vista acaso
Pelo moleiro,
Que julgou logo
Ser o sendeiro;

Indo-lhe ao lombo
Com um cajado,
Puniu o arrojo
Do mascarado;
Do tolo rindo,
Despiu-lhe a pele,
Pos-lhe uma albarda
E montou nele.

Tal entre os homens
Mil se conhecem,
Os quais são uns,
E outros parecem.
Despem-lhe a pele
Que os faz troantes,
Ficam sendeiros
Como eram dantes.
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Colaborações: gralha1954@gmail.com

Mensagem na Garrafa 190 = Haja o que houver

Imagem criada com Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Na Romênia , um homem dizia sempre a seu filho:

– Haja o que houver, eu sempre estarei a seu lado.

Houve, nesta época um terremoto de intensidade muito grande, que quase alisou as construções lá existentes nesta época. Estava nesta hora este homem em uma estrada. Ao ver o ocorrido, correu para casa e verificou que sua esposa estava bem, mas seu filho nesta hora estava na escola. Foi imediatamente para lá. E a encontrou totalmente destruída. Não restou, uma única parede de pé.

Tomado de uma enorme tristeza. Ficou ali ouvindo, a voz feliz de seu filho e sua promessa (não cumprida) "Haja o que houver, eu estarei sempre a seu lado". Seu coração estava apertado e sua vista apenas enxergava a destruição.

A voz de seu filho e sua promessa não cumprida , o dilaceravam.

Mentalmente percorreu inúmeras vezes o trajeto que fazia diariamente segurando sua mãozinha. O portão (que não mais existia), o corredor. Olhava as paredes, aquele rostinho confiante. Passava pela sala do 3. ano , virava o corredor e o olhava ao entrar. Até que resolveu fazer em cima dos escombros, o mesmo trajeto. Portão, corredor, virou a direita e parou em frente ao que deveria ser a porta da sala. Nada! Apenas uma pilha de material destruído. Nem ao menos um pedaço de alguma coisa que lembrasse a classe. Olhava tudo desolado.

E continuava a ouvir sua promessa: "Haja o que houver, eu sempre estarei com você". E ele não estava... Começou a cavar com as mãos. Nisto chegaram outros pais, que embora bem intencionados, e também desolados, tentavam afastá-lo de lá dizendo:

- Vá para casa. Não adianta, não sobrou ninguém.

- Vá para casa.

Ao que ele retrucava: Você vai me ajudar? 

Mas ninguém o ajudava, pouco a pouco, todos se afastavam. Chegaram os policiais, que também tentaram retirá-lo dali, pois viam que não havia chance de ter sobrado ninguém com vida.

Existiam outros locais com mais esperança. Mas este homem não esquecia sua promessa ao filho, a única coisa que dizia para as pessoas que tentavam retirá-lo de lá era :

- Você vai me ajudar ?

Mas eles também o abandonavam. Chegaram os bombeiros, e foi a mesma coisa...

- Saia daí, não está vendo que não pode ter sobrado ninguém vivo?

Você ainda vai por em risco a vida de pessoas que queiram te ajudar pois continuam havendo explosões e incêndios.

Ele retrucava :

- Você vai me ajudar?

- Você esta cego pela dor não enxerga mais nada. Ou então é a raiva da desgraça.

- Você vai me ajudar?

Um a um todos se afastavam. Ele trabalhou quase sem descanso, apenas com pequenos intervalos mas não se afastava dali. 5 h / 10 h/12h/22h /24h /30 h .

Já exausto, dizia a si mesmo que precisava saber se seu filho estava vivo ou morto. Até que ao afastar uma enorme pedra, sempre chamando pelo filho ouviu:

- Pai ...estou aqui!

Feliz fazia mais força para abrir um vão maior e perguntou:

- Você esta bem?

- Estou. Mas com sede, fome e muito medo.

- Tem mais alguém com você?

- Sim, dos 36 da classe 14 estão comigo, estamos presos em um vão entre dois pilares. Estamos todos bem.

Apenas conseguia ouvir seus gritos de alegria .

- Pai, eu falei a eles: Vocês podem ficar sossegados, pois meu pai irá nos achar. Eles não acreditavam, mas eu dizia a toda hora ... Haja o que houver, meu pai, estará sempre a meu lado.

- Vamos, abaixe-se e tente sair por este buraco .

- Não! Deixe eles saírem primeiro... Eu sei; que haja o que houver... Você estará me esperando!

Ferreira Gullar (Quisera ser um gato )


Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde.

Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui.

Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos.

Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama.

Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra.

E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo.

Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha.

E enquanto penso essas tolices, ela — que se chama Gatinha — se levanta, vem até mim e começa a se roçar nas minhas pernas, insistentemente. Só então me dou conta de que está pedindo que eu vá até a cozinha e ponha ração no seu prato. Ela não sabe que é mortal, mas sabe muito bem que necessita comer e que quem lhe providencia a comida sou eu.

A verdade é que vivemos os dois neste apartamento cheio de livros, quadros e móbiles (feitos por mim, não por Calder, ou seja, falsos móbiles) e nos entendemos bem. A Gatinha é diferente do Gatinho, é de outra geração, a geração do pet shop. Por isso mesmo, ela não come carne nem peixe, só come ração.

Consequentemente, ao contrário do Gatito, que subia na mesa para xeretar meu almoço, ela não está nem aí para comida de gente, só quer saber de ração. E tem mais: só pode ser aquela ração; se mudar, ela não come, cheira e vai embora.

Aliás, isso criou um problema sério, quando a ração que Adriana trouxera terminou. Como não entendia de rações, ao ver que a dela acabara, fui a um pet shop aqui perto para comprar e, como não tinha a dela, decidi comprar qualquer outra, mas fui advertido pela dona da loja de que teria que ser da mesma ração.

Fui a outra loja, bem mais longe, e lá também não tinha a tal ração. Pedi a meu neto que a comprasse num pet shop do Humaitá, bairro onde ele mora, e nada, lá também não havia. Desesperado, liguei para Adriana que, imediatamente, me fez chegar aqui em casa dois pacotes com a raríssima ração que a gatinha comia. Respirei, aliviado.

Depois aprendi que para evitar que ela morra de fome, no caso de faltar sua ração exclusiva, há que ter em casa uma ração parecida e ir misturando à sua até que se acostume. Coisas de gatos modernos, muito diferentes daqueles que, outrora, vagabundeavam aqui pelos telhados e pela rua.

Mas, se mudou a ração, não mudou a razão que me fez adotá-la como minha companheira de todas as horas, que me acorda, pontualmente, às seis horas da manhã, vindo cheirar meu rosto sob o lençol. E agora a vejo, ali, a poucos metros de mim, deitada na poltrona, livre da morte, nesta tarde de março, num determinado ponto da Via Láctea, onde moramos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
FERREIRA GULLAR (José de Ribamar Ferreira) foi um dos maiores e mais influentes intelectuais brasileiros do século XX., que marcou a história cultural do país como poeta, crítico de arte, tradutor, ensaísta e dramaturgo. Nasceu em 1930, na cidade de São Luís/MA, e faleceu em 2016, aos 86 anos, no Rio de Janeiro/RJ, em decorrência de problemas respiratórios causados por uma pneumonia.
Trabalhou em diversas frentes da comunicação e das artes Começou na juventude como radialista na Rádio Timbira, em São Luís. Atuou como jornalista, cronista e revisor em veículos de prestígio, como o Diário de São Luís e o Jornal do Brasil. Consagrou-se internacionalmente como crítico de arte, defendendo as vanguardas plásticas no país. Foi um engajado ativista político filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que provocou sua perseguição e posterior exílio (na União Soviética, Chile e Argentina) durante a ditadura militar. A trajetória literária de Gullar foi marcada por profundas transformações estéticas. Iniciou sua poesia dentro dos moldes clássicos da geração de 1945. Na década de 1950, integrou e rompeu barreiras estéticas com a poesia concreta. Descontente com o excesso de rigidez racional do concretismo paulista, liderou e redigiu em 1959 o famoso Manifesto Neoconcreto, priorizando a subjetividade e o dinamismo da palavra. A partir dos anos 1960, uniu o rigor de suas experimentações estéticas a uma forte consciência social, voltada à realidade do povo brasileiro. 
Principais Livros Publicados: Um Pouco Acima do Chão (1949); A Luta Corporal (1954) — Poesia de vanguarda que abriu caminho para o Concretismo; Dentro da Noite Veloz (1975) — Coletânea de forte tom lírico e engajamento político; Poema Sujo (1976) — Escrito na clandestinidade em Buenos Aires, é considerado a sua obra-prima máxima; Muitas Vozes (1999) — Reflexões maduras sobre o tempo, a memória e a própria linguagem; Em Alguma Parte Alguma (2010) — Último livro de poesia lançado em vida.
Foi eleito em outubro de 2014 para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira nº 37. Recebeu também o título de Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Letras da UFRJ. Ganhou o prestigiado Prêmio Camões em 2010 (o maior reconhecimento da língua portuguesa). Conquistou também múltiplos prêmios Jabuti (incluindo Livro do Ano por Em Alguma Parte Alguma) e o Prêmio Machado de Assis concedido pela ABL. Em 2002, chegou a ser formalmente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. 
A relevância de Ferreira Gullar reside na sua capacidade única de equilibrar a inovação estética radical com a emoção humana e a denúncia social. Ele tirou a poesia do plano puramente acadêmico e a levou para as ruas, integrando-a ao debate político do país sem abrir mão do rigor técnico. O seu Poema Sujo se tornou o ápice da literatura de resistência contra a ditadura militar, traduzindo a dor coletiva do exílio e as memórias brasileiras em versos viscerais e inovadores. Gullar transformou a palavra em um organismo vivo, garantindo que o fazer poético estivesse sempre em simbiose com as transformações culturais e históricas do Brasil.

Fontes:
Crônica = Folha de São Paulo. 9 de março de 2014.
Biografia = Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Colégio Recanto, Ebiografia, Universidade Federal do Paraná (acervo digital), Brasil Escola, etc.