quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Mensagem na Garrafa 208 = A Porta

Imagem: IA Microsoft Bing

Yak Baba estava procurando o País dos Tolos. Depois de muitos meses perguntando a quantos 
transeuntes aparecem em seu caminho, alguém soube indicar-lhe a estrada e por ela ele seguiu. 

Ao entrar no País dos Tolos viu uma mulher carregando uma porta sobre as costas:

- Por que fazes isto, mulher? - perguntou.

- Porque hoje de manhã meu esposo, antes de ir para o trabalho, disse que havia deixado coisas valiosas em casa e que eu não deixasse passar ninguém pela porta. Por isso estou carregando a porta comigo; assim, ninguém pode passar.

– Quer que eu lhe diga algo que tornará desnecessário levar esta porta a toda parte? - perguntou o dervixe Yak Baba.

– De jeito nenhum - disse a mulher. - Só quero que me diga como fazer para que a porta não pese tanto...

- Isto não posso - disse o dervixe. 

E cada qual seguiu seu caminho.
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O conto acima mostra que tentar aliviar o peso de um erro ou de uma obrigação mal compreendida é inútil. O verdadeiro problema não é o esforço físico que a ignorância exige, mas a falta de entendimento que impede a pessoa de aceitar uma solução real e abandonar sua tolice. Querer facilidade para um erro absurdo é pior do que corrigir o erro em si.

(Do Mestre Sufi Murad Shami, falecido em 1719)

Aparecido Raimundo de Souza (Havia um sol naquele céu... )


HAVIA UM SOL, naquele céu, meu Deus! Era um sol bonito, diferente, grandioso, mavioso, aconchegante, e trazia em sua pele macia algo desvairado e excepcional de todos os outros. Não era um sol agressivo do meio-dia à pino que queimava a nuca e fazia a gente correr para a sombra mais próxima, mas aquele sol, uau!... 

Ele se mostrava dourado, e aos finais de todas as tardes, derramava sobre toda a extensão do terreiro uma incandescência inebriante, como se alguém tivesse virado, tipo um balde de mel sobre o meu mundinho que não ia além do portão de madeira que separava a rua e as demais residências da nossa. 

E o mais importante: ele não cegava. Acariciava. Pairava sobre as folhas da mangueira nos fundos do quintal, brilhava soberbo como se fosse de papel laminado, a parede de barro da casa do meu avô João Raymundo ganhava um tom indescritível, e até o pó que levantava, quando o vento passava, parecia flutuar e o fazia leve, ensejando no ar uma mesura incandescente que se estendia e se alongava além de meus olhos ávidos de garoto sapeca. Eu tinha, nessa época, onze anos. Nesses dias do sol sempre bonito, eu teimava em usar uma camiseta que ficava grande em mim. 

Viera herdada de tio José, (irmão de meu avô) e houve um dia especial, em que eu devorava uma manga que vovô tinha colhido minutos antes. O suco da fruta doce escorria pelo meu pulso até secar nos espaços do cotovelo, deixando uma marca engraçada tipo assim, uma coisa meio grudenta. Vovô João Raymundo estava sentado na cadeira de madeira perto da porta da cozinha, consertando uma rede que tinha se rasgado na semana anterior quando ele saíra para pescar com alguns vizinhos. Seus dedos grossos e cheios de calos passando a agulha de ponta fina entre os fios de náilon se acomodavam com uma delicadeza que eu nunca tinha visto em ninguém. O radinho de pilha, encostado nos pés do fogão de lenha, tocava Milionário e José Rico, a voz do Milionário parecia vir de muito longe, misturada ao canto de um bando de passarinhos que pousavam nos galhos mais alto do vergel que se perdia para as bandas do Rio.

— Esse sol é dos bons — ele dizia sem parar de costurar, sem levantar os olhos da rede. Deixa a gente lembrar dos dias que ainda vão chegar, e dos que já se foram para bem longe no distante longínquo que agora se divorcia diante de nossas vistas.

Nesse tempo, eu não entendia nada do que ele falava. Só queria acabar de chupar a manga para correr atrás dos meus brinquedos e do Carnaval, um gato com o semblante de animal pesaroso que dormia no telhado onde ficava o poço de água, para jogar o caroço no mato ou qualquer outra coisa desusada para ver se acertava um formigueiro que florescia a olhos vistos. Mas guardei essa frase de meu avô, escondi bem escondidinho dentro de um lugar secreto que guardei a sete chaves numa das gavetas de um criado mudo, uma correntinha de ouro com a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que certo dia encontrei na beira da barranca do rio, deixada, talvez por alguém (uma menina) que viera de fora para tomar banho. 

Vovô João Raymundo dizia que o meu achado não servia para nada, mas o "trocinho" tinha peso, tinha textura, tinha um brilho que fazia a gente não querer jogar fora. Era, a meu entendimento de moleque, o brilho inquestionável da Santa que viera de roldão. O sol com o passar das horas, ia baixando devagar, como quem procura se esconder, como quem não quer incomodar. Ele pintava o céu de rosa claro no alto, de laranja queimada perto da linha do horizonte, e as sombras do quintal, aos bocados poucos iam se esticando, ficando compridas e finas, até, que a mangueira alta e imponente chegasse quase à porta rangente da cozinha. 


Meu avô parou de costurar, limpou as mãos na calça jeans surrada e me chamou para eu me aninhar ao seu lado. Eu subi correndo, e embora afastado a poucos metros, senti o cheiro de seu fumo de corda e também o sabor do café com leite e os pães quentinhos que ele sempre tinha ao alcance da minha fome. Esses pães, era a vovó Martinha que fazia com carinho e esmerado cuidado. Vovô, a certa altura, me apontou com o dedo para um pontinho branco e fraco que já aparecia meio assustado no céu ainda azul, do lado onde o sol sempre escolhia para desaparecer de vez e sumir do mapa. E falava, num tom engraçado que não demonstrava tristeza:

— Quando eu não estiver mais aqui — ele argumentava quase em um sussurro, como se estivesse contando um segredo muito importante só para o ar ouvir — quando eu não estiver mais aqui, você se sentará no lugar onde estou agora e olhará demoradamente para esse sol mole, tranquilo, calmo e dourado, que deixa tudo bonito ao redor, sem fazer esforço algum. E eu estou e estarei sempre aqui também, lembra sempre disso.  Estarei do mesmo modo, moldado na sua imaginação. Me farei vivo e pulsante no calor que bate na sua nuca e se agiganta abarcante na sua testa. Não se esqueça jamais das palavras de seu velho avô, também estarei na luz que entra pela janela do seu quarto, no jeito que esse mesmo sol faz as frutas ficarem mais doces como a manga que acabou de devorar. Ei, venha cá. Não precisa chorar. É só olhar para o seu velho avô e me escutar...

Nessas horas eu me encolhia em seu colo, me estreitava chupando o polegar esquerdo, atarracado em seu peito, sem entender direito o que ele queria dizer, mas dentro de mim, sentia um aperto incomum que não era fome, nem medo, nem de nada que eu conhecesse até então. 

O sol se pôs finalmente, se transformou em um clarão vermelho que durou alguns segundos e a noite lenta, meio que capengando, veio devagar, chegou trazendo o cheiro de jasmim que a minha vó Martinha tinha plantado num vaso enorme perto da varanda que acessava a porta da sala. Hoje, “trocentos” anos depois, vovô João não está mais por aqui. Nem a vó Martinha. 

A casa onde passei boa parte da minha infância, foi vendida. A mangueira foi cortada para alargar a plenitude do quintal, a rua foi asfaltada, virou avenida, a rede que meu avô consertou, rasgou de vez e foi jogada fora, num lixão enorme que a comunidade fundou para dispensar coisas que não se usam mais.  Entretanto, sempre que posso, venho aqui, lembranças trazidas pelo tempo que não me deixam. No meio da rua onde ficava a calçada e o portão de acesso a casa, vejo claramente um sol bonito naquele céu outrora dourado, naquele céu calmo, que segue silencioso, sem pedir nada a ninguém. Um sol hoje de aparência triste e melancólica, obscurecido por alguma dor não revelada, um sol que não quer nada, a não ser iluminar e me fazer voltar ao passado distanciado que se foi sem ao menos dizer tchau.  

Fecho os olhos por um breve instante e viajo. Sinto, de novo, o suco de manga no pulso. Ouço Milionário e José Rico cantando no radinho de pilha imaginário, e também a mão calosa de meu avô João Raymundo passando levemente os dedos trêmulos sobre meus cabelos. E do nada, do nada, o cheiro dos pães de vovó Martinha, como ainda o sabor do seu café com leite feito na hora, uma bebida quentinha e com gosto temperado de uma imensa saudade que se perpetuou. Aos setenta e três anos, entendo que as pessoas se vão. Partem. As casas mudam de donos. Os quintais que antes alimentavam lembranças desaparecem, viram asfalto, se transformam em lojas e armazéns, enfim, viram um amontoado de nada. 

Todavia, acreditem, dentro de mim, aqui em meu peito envelhecido pela idade, aquele sol do meu tempo de menino de onze anos não se põem nunca. Não se esconde. Ele fica guardado dentro de meu “eu”. Se faz pequeno e quente, como aquela correntinha com a medalha de Nossa Senhora Aparecida que um dia achei por acaso. Ainda trago comigo, como um amuleto de um dia bonito que se foi.  Se eu pudesse entrar na casa que não está mais em pé, se pudesse ao menos correr pelo corredor comprido, e se me fosse possível abrir a janela do que um dia foi meu quarto, eu me encantaria, voltaria no tempo. 

Regressaria aos meus onze anos, reviveria o velho avô, minha avó, o Carnaval, e todo o meu ser se perpetuaria naqueles tempos de ontem, ou dito de forma mais abrangente, se emoldaria naquelas outroras que se desmantelaram, que se decompuseram... mas eu sempre levarei comigo, a certeza perene de que lá em cima havia um sol. Decerto havia um sol naquele céu. Morrerei dizendo isso, afirmando categoricamente aos meus filhos e netos.  Cá entre nós, a vocês, caros leitores, que me leem agora: havia, de fato, naquele céu, igualmente em meu infinito que nunca se cobrirá de nuvens negras, nem desaparecerá definitivamente dos meus olhos: havia um sol naquele céu que em tempo algum deixou ou deixará de aparecer, nem que seja só para meu próprio encantamento perene e inextinguível.
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Aparecido Raimundo de Souza (73), é jornalista, paranaense radicado em Vila Velha/ES. Resumo Biográfico do autor , clique AQUI.

(Texto enviado pelo autor)

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 8: Guerra e (Paz?)


No mundo, em que há injustiça,
que o ser humano propaga,
empatia é uma premissa
para viver nova saga.
José Feldman – PR

Na antinomia entre guerra e paz parece que o primeiro termo sobreleva-se extraordinariamente! Infelizmente! O mundo nunca teve um dia de paz, A história da humanidade é a história das guerras. Não conheço nenhum livro dedicado à paz, mas inúmeros dedicados à guerra. Talvez porque a paz seja um estado natural, normal, enquanto a guerra é um fato provocada pela estupidez do homem. Apesar disso, a paz é um ideal a ser buscado, mesmo que ela se nos apresente como uma utopia!

Sem os horrores da guerra,
feliz o mundo seria.
É pena que Paz na Terra
ainda seja utopia.
João Costa - RJ

Trovadores - renitentes -
tenhamos este ideal:
- Fazer das trovas sementes
para a Paz universal!
Alberto Fernando Bastos - RJ

O que eu mais quero na vida
é a paz remando na Terra,
mas não a paz confundida
com mera ausência de guerra...
Newton Vieira - MG

O bom senso é que lhes faz
o apelo nobre e profundo;
- Um beijo branco de paz
na face rubra do mundo!
Batista Soares - CE

A paz que tanto se exorta
há de encontrar o seu clima;
o mundo já não comporta
novas versões de Híroshima!
José Overney - SP

Num tempo em que tanta guerra
enche o mundo de terror,
benditos os que, na Terra,
semeiam versos de amor!
A. A. de Assis - PR

No passado e no presente,
pelo mal que sempre fez,
é a guerra - infinitamente -
a suprema insensatez!
Waldir Neves - RJ

Por trás das guerras estão quase sempre os interesses econômicos, principalmente o dos interessados em vender armas. A indústria de armamento é um dos setores mais poderosos e ricos do mundo, graças à miséria das guerras, espontâneas ou incentivadas.

Se os povos querem que a paz
reine sempre em toda a terra,
por que é que cada vez mais
fabricam armas de guerra?
Roosevelt da Silveira - ES

Faz vergonha nesta terra
ver gente brigar por óleo
e nações fazerem guerra
por um barril de petróleo.
Rodrigues Neto - RN

O que mais nefasto existe,
em qualquer parte da Terra,
é o quadro horrível e triste
da violência da guerra.
Reinaldo Moreira de Aguiar - RN

Sinto que a vida na terra,
com a guerra se desfaz!
Só se faz arma de guerra,
com a terra pedindo paz!
Prof. Garcia - RN

Por razões, às vezes fúteis,
corre o sangue numa guerra.
Eis as sangrias inúteis
que envergonham nossa terra.
Miguel Russowsky - SC

Algumas vezes tem-se o cinismo de fazer guerra em nome da paz, fato que devemos denunciar com veemência.

Um grito de pacifismo
há de ecoar sobre a terra,
denunciando o cinismo
de quem, pela paz, faz guerra!
Gonzaga da Silva - RN

Esta violência me aterra,
este cinismo é demais:
- Dizer-se que se faz guerra
em benefício da Paz!
Luiz Rabelo - RN

Quem meditar por instantes
certos conceitos refaz:
o mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!
Ederson Cardoso de Lima - RJ

Os homens maus desta terra
de forma vil e falaz,
promovem, no mundo, a guerra,
em nome da própria paz!
Ademar Macedo - RN

Irônica hipocrisia
dos poderosos da terra:
com promessas de harmonia
pregam paz e fazem guerra.
Wanda de Paula Mourthé - MG

A triste realidade é que a guerra segue assolando a humanidade. O trovador a denuncia, mas quando será ouvida a sua voz?

Nesta mensagem se encerra
o que o mundo sempre faz:
- acata as ordens da guerra,
nega as mensagens de paz.
Luiz Carlos Abrita - MG

É o desvario do mundo
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!
João Freire Filho - RJ

Quando há morte programada
pelos quadrantes da terra,
homens que não valem nada
sentem paz plantando guerra.
Nilton Manoel Teixeira - SP

Com ódio, o homem na Terra,
a tudo faz e desfaz…
Que bom, se ao invés de guerra,
pensasse apenas na Paz!
Nilci da Silva Guimarães - MG

Vive o mundo em que vivemos
gemendo, pedindo paz,
mas a resposta que temos
mais sofrimento nos traz.
Angélica Villela Santos - SP

O mundo está mergulhado
num cauda! de violência,
oprimido, fustigado,
pelo furor das potências.
Aristeu Bulhões - SP

A paz seria o roteiro,
o caminho natural
para unir o mundo inteiro
num abraço universal!
Aristeu Bulhões - SP

Infelizmente, a paz tão desejada ainda permanece uma utopia. Só nos resta continuarmos a lutar por ela, com os recursos de que dispomos, a nossa sensibilidade de poeta. O nosso anseio pela paz é tão intenso e legítimo que muitas vezes ela se transforma em sonho e fantasia.

A Paz - bandeira alvadia
que pelo espaço se embala,
tanta guerra concilia
que a violência se cala.
Sebastião Soares - RN

Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!
José Lucas de Barros - RN

Minha luta se agiganta,
pois vivo pregando a paz,
cantando-a por quem não canta,
fazendo-a por quem não faz.
Rodrigues Neto - RN

A paz, virtude fugaz,
que todos querem buscá-la,
só com atitude audaz
poderemos alcançá-la!
Gonzaga da Silva - RN

Mas a guerra, além da devastação e do sofrimento em geral, tem um triste e mais doloroso aspecto, o das famílias que veem seus filhos partirem para a guerra e são mortos nas batalhas.

Beija a mãe, filho querido
convocado para a guerra!
Não há um adeus mais doído
em toda a face da terra!...
Hélio Azevedo de Castro - PR

Morreu na guerra. Que brilho!
Tem mais um herói a história.
E a mãe, chorando o seu filho,
amaldiçoa essa glória.
Lilinha Fernandes - RJ

Da guerra, entre os seus horrores,
não há glória que compense,
para os Pracinhas, as dores
de quem perde ou de quem vence!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

E finalmente, nunca é demais enfatizar:

Pela guerra não há glória:
- Perder, vencer, tanto faz!
- A verdadeira vitória,
só se alcança pela paz!
Orlando Woczikosky - PR
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Luiz Gonzaga da Silva é médico, de Natal/RN. Resumo biográfico, clique AQUI.

(Luiz Gonzaga da Silva [org.]. Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor. )

Contos das Mil e Uma Noites (História de Bulukya)

Imagem: IA Microsoft Bing
Havia certa vez no reino de Israel um soberano muito sábio que, no seu leito de morte, recomendou a seu filho e herdeiro, Bulukya, fazer um inventário completo de tudo que o palácio continha. 

Após a morte do pai, Bulukya, já rei, seguiu a sugestão paterna e, ao abrir uma certa caixa de ouro, encontrou nela um pergaminho no qual leu: “Quem deseja ser senhor e dono dos homens, gênios, pássaros e animais, precisa apenas usar o anel que o profeta Soleiman tem no dedo, na Ilha dos Sete Mares onde está sepultado. É o anel que ornava o dedo de Adão, pai dos homens, no Paraíso. Para atingir a Ilha dos Sete Mares, não adiantam navios. Quem quer chegar lá deve localizar o vegetal mágico cujo sumo, esfregado na planta dos pés, torna o homem capaz de andar sobre a superfície do mar. Essa planta só cresce no reino subterrâneo da rainha Yamlikha.” 

Após ler esse pergaminho, o rei reuniu os sacerdotes, mágicos e sábios de Israel e perguntou-lhes se havia entre eles quem conseguiria guiá-lo até o reino da rainha Yamlikha. Todos apontaram para Affan, que possuía as chaves da magia, astronomia, alquimia e feitiçaria. 

Perguntou-Ihe o rei: “Ó Affan, és mesmo capaz de guiar-me até a terra dessa rainha escondida?” 

“Sou “ respondeu Affan. 

Imediatamente, os dois cobriram-se com capas de peregrinos e foram até o deserto. Num determinado ponto, disse Affan: “Chegamos.” 

Desenhou um círculo na areia, fez as invocações dos rituais, e logo a terra se abriu e revelou um caminho que ia descendo. Seguindo o caminho, os dois chegaram a essa lagoa que vês aí, ó Hassib. Recebi-os com minha cortesia costumeira. Quando me expuseram o objetivo de sua visita, conduzi-os ao jardim onde as plantas desataram a falar, cada uma na sua língua própria, exaltando seus vários poderes. No meio dessa sinfonia perfumada, ouvimos uma planta cantar em harmonia com a brisa que a acariciava: 

“Aquele que esfregar os pés com meu sumo maravilhoso, poderá andar sem se molhar sobre todos os mares de Alá.” 

- Esta é a planta que procurais, disse a meus visitantes. E deixei Affan colher todas as flores que quisesse, esmagá-las e recolher o suco num grande frasco que eu lhe dera. Depois, perguntei a Affan e ao rei por que queriam atravessar os mares. Contaram-me. 

Disse-lhes: “Não sabeis que é impossível a qualquer mortal depois de Soleiman possuir aquele anel? Acreditai em mim. Desisti desse projeto e colhei, antes, as plantas que asseguram uma juventude eterna a quem as comer.” 

Mas não consegui convencê-los. Despediram-se de mim e partiram. Tomaram o caminho da ilha que fica do outro lado dos sete mares. Quando chegaram às margens do primeiro mar, esfregaram as solas dos pés com o suco que levavam. Depois, entraram com precaução na água; mas quando se deram conta de que podiam caminhar sobre a água mais facilmente que sobre a terra, adquiriram confiança e andaram mais rapidamente. 

No quarto dia, chegaram a uma ilha que pensaram ser o paraíso de tão bela que era com suas flores, rouxinóis e árvores. Passaram naquela ilha o dia todo e, à noite, subiram numa árvore para dormir. Mas antes de fechar os olhos, sentiram a ilha tremer e viram um monstro desmedido chegar com as ondas, segurando nas mandíbulas uma pedra preciosa que iluminava como um archote. Atrás dele, vinha uma multidão de outros monstros iguais, segurando também na boca pedras luminosas. Ao mesmo tempo, do interior da ilha surgiram tantos leões, tigres, leopardos e outros animais selvagens que só Alá poderia avaliar-lhes o número. Os monstros do mar e os monstros da terra encontraram-se na praia e passaram a noite conversando. Com os primeiros raios do dia, separaram-se e voltaram cada qual para sua morada. 

Bulukya e Affan, que não haviam conseguido fechar os olhos toda a noite, desceram rapidamente da árvore, correram até a praia, esfregaram os pés com o suco mágico e entraram no segundo mar. Atravessaram-no sem problemas até que chegaram a uma ilha coberta de árvores frutíferas, e cujos frutos tinham uma particularidade inédita: cresciam na árvore já preparados com açúcar. 

Os dois viajantes ficaram na ilha sete dias, para deleite do jovem soberano que gostava excessivamente de frutas cristalizadas. Depois, entraram no terceiro mar, que atravessaram em quatro dias e quatro noites. 

No quinto mar, chegaram a uma ilha cujas montanhas eram de cristal com grandes veios de ouro. Suas árvores tinham flores amarelas lustrosas. De noite, cintilavam como estrelas. 

Disse Affan a Bulukya: “Esta é a Ilha das Flores de Ouro. Quando essas flores murcham e caem das árvores, viram pó e se transformam em ouro. Esta ilha é um pedaço do sol que caiu na terra nos tempos antigos.” 

No sexto mar, Affan e Bulukya passaram por outra ilha coberta de árvores. Mas lá as frutas das árvores eram cabeças humanas, umas rindo, outras chorando. Fugiram com horror desse espetáculo e entraram no sétimo mar. 

Era um mar imenso. Dias e noites, eles andaram sem descansar, comendo peixes crus apanhados ao acaso e aguentando a sede. Finalmente, avistaram uma ilha que esperavam ser a que procuravam. Entraram nela e acharam-na cheia de árvores carregadas de frutos. Bulukya estendia a mão para apanhar uma maçã, quando uma voz terrível saiu de dentro da árvore, gritando: “Se tocares nesta fruta, serás cortado em pedaços.” 

Ao mesmo tempo, um gigante apareceu-lhes, ao qual Bulukya, aterrorizado, disse: 

“Ó chefe dos gigantes, estamos morrendo de fome e sede. Por que nos impedes
de tocar nessas maçãs?” 

- Como ousas alegar que ignoras o motivo, ó rei sem memória? Esqueces-te que Adão, o pai de tua raça, rebelou-se contra Deus e comeu a fruta proibida? Desde então, tem sido minha missão guardar esta árvore e matar quem tenta apanhar-lhe as frutas. Procura teu alimento alhures.” 

Deixaram-no e começaram a procurar o túmulo de Soleiman. Depois de terem vagueado na ilha um dia ou dois, chegaram a uma colina de âmbar nos flancos da qual abria-se uma gruta magnífica cujo teto e paredes eram de diamantes. Estava iluminada dia e noite. Entraram nela e foram caminhando, e à medida em que avançavam, a claridade aumentava e a abóbada alargava-se. 

De repente, chegaram a uma sala imensa cavada no diamante. No meio da sala, havia uma cama de ouro maciço, sobre a qual jazia o corpo de Soleiman Ibn Daud. O anel mágico estava no dedo anular da mão direita. 

Affan aproximou-se do trono e pediu a Bulukya que repetisse as palavras esotéricas que lhe ensinara para que o anel deslizasse do dedo real. Mas Bulukya equivocou-se e recitou as palavras na ordem inversa. O erro foi fatal para o sábio Affan. Uma gota de diamante líquido caiu sobre ele e o queimou, reduzindo-o a um pouco de cinza. 

Bulukya fugiu daquela gruta e correu até a praia, onde quis passar o suco mágico nos pés para iniciar a marcha de volta. Mas lembrou-se de que o frasco tinha sido queimado com Affan. Teria morrido lá, abandonado e desesperado, rememorando amargamente os meus conselhos, não fosse pela aparição repentina de um exército de Afarit, Marids e Ghuls que dominavam aquela ilha e a inspecionavam naquele momento. 

Bulukya solicitou-lhes que o ajudassem a voltar para seu reino. Mas eles só podiam levá-lo até seu próprio rei, o poderoso Sakhr, senhor da Terra-Branca onde outrora reinou Chedad Ibn Aad. 

Bulukya aceitou e, num piscar dos olhos, foi levado por cima de mares e montanhas até o palácio do rei Sakhr. O rei o recebeu com todos os refinamentos da hospitalidade árabe e, após contar-lhe a história de seu povo, mandou levá-lo até a entrada de seu país. E o anel de Soleiman, que permite a quem o possuir dominar os mundos e adquirir a imortalidade, continua na Ilha dos Sete Mares. E lá ficará, protegido pelos gênios, até o fim dos tempos.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.
O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

(As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 7)

(curso ministrado por José Feldman)

7. GUIA DE COMPOSIÇÃO DA CRÔNICA

Aqui está um guia sobre como compor diferentes tipos de crônicas, incluindo crônicas filosóficas, românticas, do cotidiano, de exposição de situações e de recordações, com exemplos.

7.1. CRÔNICAS FILOSÓFICAS

7.1.1. Tema Central: 
Questões existenciais ou reflexões sobre a vida, a morte, a felicidade etc.

7.1.2. Estilo Reflexivo: 
Prosa introspectiva que provoca a reflexão do leitor.

7.1.3. Estrutura: 
Introdução ao tema, desenvolvimento de ideias, conclusão que muitas vezes não oferece respostas definitivas.

7.1.4. Exemplo:
Uma crônica pode começar com a observação de uma árvore solitária em um parque. O autor poderia refletir sobre a solidão e a busca por significado nas pequenas coisas da vida, questionando o que realmente traz felicidade.

7.2. CRÔNICAS ROMÂNTICAS

7.2.1. Tema Central: 
Relacionamentos, amor, perda ou saudade.

7.2.2. Estilo Emocional: 
Linguagem sensível que evoca sentimentos e sensações.

7.2.3. Estrutura: 
Histórias vividas ou imaginadas que exploram momentos de amor ou desamor.

7.2.4. Exemplo:
A crônica pode descrever um encontro em um café, onde olhares se cruzam. O autor pode explorar os pensamentos e sentimentos que surgem durante essa interação, tocando em memórias de amores passados.

7.3. CRÔNICAS DO COTIDIANO

7.3.1. Tema Central: 
Situações comuns e simples do dia a dia.

7.3.2. Estilo Descritivo e Humorístico: 
Linguagem leve e acessível, com toques de humor para retratar a banalidade da vida.

7.3.3. Estrutura: 
Observações sobre eventos diários, transformando o ordinário em interessante.

7.3.4. Exemplo:
Uma crônica sobre a rotina de ir ao mercado, onde o autor narra suas interações com outros clientes e o caixa. Pequeninas ocorrências, como esquecer a lista de compras, podem ser usadas para refletir sobre a agitação da vida moderna.

7.4. CRÔNICAS DE EXPOSIÇÃO DE SITUAÇÕES

7.4.1. Tema Central: 
Questões sociais ou situações que requerem uma análise mais profunda.

7.4.2. Estilo Crítico: 
Abordagem analítica e reflexiva sobre um tema relevante.

7.4.3. Estrutura: 
Apresentação da situação, análise crítica, e conclusão que sugira um caminho a seguir.

7.4.4. Exemplo:
Uma crônica sobre a desigualdade social em uma grande cidade, onde o autor descreve a diferença entre dois mundos: um bairro abastado e uma comunidade carente. A crônica pode incluir dados, depoimentos e reflexões pessoais.

7.5. CRÔNICAS DE RECORDAÇÕES

7.5.1. Tema Central: 
Memórias pessoais que evocam nostalgia ou lições de vida.

7.5.2. Estilo Nostálgico: 
Linguagem rica em sentimentos, que puxa o leitor para experiências passadas.

7.5.3. Estrutura: 
Narrativa que conecta o passado ao presente, muitas vezes concluindo com uma aprendizagem.

7.5.4. Exemplo:
Uma crônica que relata as memórias de uma visita à casa da avó, descrita com detalhes vívidos sobre o ambiente, os cheiros e momentos especiais. O autor pode refletir sobre como essas lembranças moldaram sua identidade.

7.6. CONSIDERAÇÕES

Cada tipo de crônica tem seu próprio foco e estilo, mas todas têm a capacidade de envolver e provocar reflexão. Ao explorar temas relevantes e utilizar um estilo condizente, o autor pode criar crônicas que ressoem com os leitores e ofereçam novas perspectivas sobre a vida.
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Continua…
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JOSÉ FELDMAN (71), paulistano radicado no Paraná, escreve pela cidade de Floresta, escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Resumo biográfico AQUI.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 30 *


 A renúncia corresponde,
muita vez, a muito amar;
como quando o Sol se esconde
para que brilhe o luar!
A. A. de Assis
Maringá/PR
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Lá, muito além das estrelas,
moram minhas ilusões,
e eu, por medo de perdê-las,
transformei-as em canções.
Abia Dias
Itaperuna/RJ
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Nos poemas encontrei
a real identidade
dos vazios que deixei
nos meus versos de saudade!
Agnes Izumi Nagashima
Londrina/PR
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Trovadores, versejando,
em dom divino e fecundo,
e suas mãos derramando,
Beleza e paz pelo mundo...
Almir Pinto de Azevedo
Rio de Janeiro/RJ
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Na mesa do meu irmão,
toda noite e todo dia,
haja café, haja pão,
muita prosa e poesia!
Antônio Rosélio Nunes Pacheco
Itaperuna/RJ
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Se o filho, na luta ingente
da vida, vence com brilho,
o pai o triunfo sente
igual ao que empolga o filho.
Barreto Coutinho
Limoeiro/PE, 1893 – 1975, Curitiba/PR
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Caminha com segurança
quem leva à vanguarda, erguida,
a bandeira da esperança
que impulsiona a sua vida!
Carolina Ramos
Santos/SP
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Não tema a estação de agora,
não tema o inverno, querida.
Que importa o frio lá fora
se dentro a alma está aquecida?
César Augusto Sovinski
Curitiba/PR
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Discreta, naturalmente,
minha ternura se trai,
ante um tiquinho de gente
que me chama de “Papai”!
Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP
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Porque o tempo vem, não tarda,
não espera, não vacila,
quem nasce para vanguarda
chega sempre antes da fila.
Cipriano Ferreira Gomes
São Paulo/SP
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Um tesouro brasileiro
é feijoada e caipirinha.
E se houver samba e pandeiro
vira festa na cozinha.
Denivaldo Piaia
Campinas/SP
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Se teu rosto, pai, confessa
o cansaço das jornadas,
quanta ternura se expressa
em tuas mãos calejadas!
Elen Novais Félix
Barra do Piraí/RJ, 1946 - 2015, Niterói/RJ
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Neste momento, calado,
de gestos e olhar bisonhos,
penso em você ao meu lado
nos “amanhãs” do meu sonho.
Ester Figueiredo
Rio de Janeiro/RJ
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Mundo cheio de emoções
é o que desperta o artista,
mexendo com corações
indo além do que se avista.
Fátima Almeida
Recife/PE
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Será um manancial
de fraternidade e amor,
viver a paz mundial
e extinguir todo rancor.
Flora Malta Carpi
Itaperuna/RJ
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O artista traz alegria
traz riso, felicidade
traz ao mundo poesia
e gera bela irmandade.
Giselda Camilo
Recife/PE
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Um belo sonho que eu tive
foi ser uma professora,
grande desejo eu obtive,
na profissão sou doutora.
Giselda Pereira
Recife/PE
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Sonho que estou visitando
o lugar que desejei
e ficar só relembrando
foi tudo como esperei
Idalina Felix
Recife/PE
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Na imensa feira da vida,
as barracas da ironia:
a das culpas - concorrida!...
a dos remorsos - vazia...
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
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O pesar desaparece,
no romper de cada aurora,
quando elevo a minha prece...
Deus abranda a dor de outrora!
Janete Francisco Sales Yoshinaga
São Paulo/SP
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Uma coisa muito boa
numa só frase resumo:
andar com você à toa
sem objetivo e sem rumo.
Janske Niemann Schlenker
Curitiba/PR
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Movimentos de vanguarda
mudam textos na aparência,
mas todo artista resguarda,
quando escreve, sua essência.
Jerson Lima de Brito
Porto Velho/RO
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Bem-te-vis cantando estão ,
a enfeitar o amanhecer...
Regozijo ao coração,
e inspiração ao viver.
José Luiz Ribeiro
Itaperuna/RJ
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Todos sentados à mesa,
com histórias a tecer,
é o cultivo e a riqueza
da amizade a florescer.
Kamila Hecht
Itaperuna/RJ
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Os horrores de uma guerra,
têm as cores da tristeza;
enchendo de sangue a terra,
é um tormento com certeza.
Karem dos Santos da Silva
Curitiba/PR
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Eu gosto de comer pão
também como vatapá
vez por outra o bom feijão
mas, bom mesmo é mungunzá.
Leices Xavier
Recife/PE
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Sem saber quem era eu,
sem norte, luz ou guarida,
teu amor me devolveu
a identidade perdida.
Lilia Souza
Curitiba/PR
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Nesta manhã, chega o inverno
nos renovando a esperança
e mostrando que de eterno
temos só nossa lembrança.
Lucas Bisoni
Curitiba/PR
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Aos que com delicadeza
trazem os grãos da ternura,
ofertamos gentileza
e as benesses da brandura.
Luciana P. Pires
Rio de Janeiro/RJ
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Perdi-me nesta saudade
dos rastros, que atrás deixei,
mas preservo a identidade
nos sonhos que realizei!
Lucilia A. T. Decarli
Bandeirantes/PR
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O que sou, ou quero ser,
não é fruto de barganha.
No meu simples entender,
é sombra que me acompanha.
Lucrécia Welter
Toledo/PR
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Vanguarda é estar mais à frente
do próprio tempo... e insistir
em trazer para o presente,
o semblante do porvir!
Luiz Antonio Cardoso
Taubaté/SP
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Me recordo com saudade
do meu tempo de criança,
eu tinha felicidade,
amor e muita esperança.
Madalena Castro
Recife/PE
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No inverno de noite fria,
tem ares de eternidade;
sem você, sem alegria,
bebo o vinho da saudade.
Madalena Ferrante Pizzatto
Curitiba/PR
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O amor não tem estação,
Vem no inverno ou primavera,
Num outono ou no verão...
Sorte dessa, quem me dera...
Maria do Rocio Vaz
Curitiba/PR
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Oxalá a identidade,
das nações e os povos seus,
comprove que a humanidade
é filha... do mesmo Deus!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR
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Neste Dia da Cultura,
venho aqui homenagear
com esperança futura,
artistas deste lugar.
Maria Lúcia Spadarotto Neves
Itaperuna/RJ
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Assim é a simplicidade
do homem lá do sertão
que exibe, com vaidade,
os calos da sua mão.
Maria Lúcia F. Rockall
Rio de Janeiro/RJ
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Nossa cidade revela
cultura sem restrição;
seu legado é bela tela
sempre exposta em cada ação.
Marina Caraline de Almeida Carvalhal
Itaperuna/RJ
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O inverno se faz presente,
anda o vivente na rua.
E receba o abraço quente,
calor de Deus perpetua.
Marli Voigt
Curitiba/PR
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Sem o pão, a vida é breve,
seu tempero é a poesia,
ao tecer, bem mais de leve
a beleza que extasia.
Marly Aparecida Carvalho de Mattos
Itaperuna/RJ
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Em qualquer fase da vida,
sempre que a incerteza ocorre,
sem que a fé seja perdida
a esperança nos socorre.
Nei Garcez
Curitiba/PR
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O mundo é uma grande escola
e a vida, mestra exigente;
não seja aluno que enrola,
nem, na lição, displicente.
Nilsa Alves de Melo
Maringá/PR
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Que dolorosa ironia:
a terra muito pisamos,
mas a morte chega um dia...
E sob a terra ficamos!
Paulo Roberto Oliveira Caruso
Niterói/RJ
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Inverno com belo dia,
tem um céu azul brilhante
traz para mim alegria,
fico mesmo radiante.
Pedro Henrique Schewinski Pereira
Curitiba/PR
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Levem-me tudo, no entanto
não levem minha viola;
que essa voz dela, é meu canto
e esse canto me consola!
Professor Garcia
Caicó/RN
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Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser um poeta!
Renato Alves
Rio de Janeiro/RJ
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As "batidas" de emoção,
vêm dos versos sonhadores;
tocam fundo o coração...
Meus irmãos, os Trovadores!
Rô Caron
Curitiba/PR
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O amor quando é verdadeiro
no peito em que faz guarida
principalmente o primeiro
deixa marca em nossa vida.
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
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Colibri em seu labor,
competente bailarino,
com um beijo suga a flor,
depois segue o seu destino.
Sebastião Zulmair Pires
Itaperuna/RJ
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Quando a aurora colorida
prenuncia um dia quente,
tal o parto de uma vida
nasce o sol resplandecente.
Silvio Romero Tavares
Campinas/SP
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Somos almas garimpeiras
nessa vida de perigos,
onde em lavras rotineiras
valem ouro os bons amigos.
Sônia Maria Nuss Teixeira Nogueira da Gama
Itaperuna/RJ
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Tal qual uma joia rara,
toda trova é singular,
a tristeza ela repara,
faz a alegria voltar.
Talita Batista
Rio de Janeiro/RJ
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Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
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Peço a Deus por meus irmãos,
que Ele cure toda dor.
Ergo em trova as minhas mãos:
— Piedade, meu Senhor!
Valber Meireles
Itaperuna/RJ
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Um currículo não diz
das dores, dos sacrifícios,
nem da luta a cicatriz...
Só relata os benefícios.
Vânia Figueiredo
Campinas/SP
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Ao longo da caminhada
em que a vida nos conduz,
vão-se alternando, na estrada,
luz e treva, treva e luz!
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
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