quinta-feira, 12 de junho de 2008

Hulda Ramos Gabriel (Casa da Saudade)

Em época não muito distante, uma casa foi construída na esquina de um quarteirão do bairro nobre de uma próspera cidade paranaense. Retratava todo o brilho e imponência do poder aquisitivo da família. A casa era palco do conto da vida real, comum de cada morador, onde crianças brincavam alegres desde o dia da mudança para casa nova, no apossar de cada um do seu aposento.

Carlos o irmão mais velho, de estilingue sempre pendurado no pescoço, representando toda a molecagem existente no bairro. Juntamente com outros moleques, procuravam armar as brincadeiras para depois que chegassem da escola. Como não podia deixar de ser, o Marcos, o irmão mais traquina dos três, engendrava as brincadeiras mais complicadas para se debandar o resto dia.

Logo pela manhã, no aposento de Carlos e Marcos que ficava com a janela virada para o lado do Sol nascente, pela fresta, um raio da luz atravessa o ambiente chegando até a porta. O intenso brilho reflete do piso de madeira ao alto do forro, trazendo beleza e encantamento ao lugar. No vai e vem dos meninos da sala de jantar ao aposento, na pressa de se arrumar para ir à escola, as roupas são espalhadas pelo chão atravessadas entre a luz e a sombra. Ouve-se ao longe a voz da mãe Júlia, recomendando para evitar a bagunça. Enquanto lá fora a passarada fazia a maior festa nos galhos da laranjeira. Da mesma forma que impera o amor na casa nova.

Gisela a bonequinha mais nova dos três irmãos, atrasada como sempre em se arrumar para ir à escola, brinca alheia em seu quarto menor com suas bonecas, não dando a mínima atenção para os chamados aflitos da mãe para se apressar. Em sua mente viaja para um mundo que só ela tem acesso juntamente com seus brinquedos.

Por conseqüência natural da vida, um bando de morcegos vieram morar no sótão da nova casa, entraram por um buraco tão pequeno que mal cabia o corpo macabro daqueles bichos que ao mesmo tempo, parecem pássaros. Pronto! Foi o suficiente para alvoroçar a molecada do bairro. O convite partiu do Marcos, que ao anoitecer viessem atirar pedras, sem parar, fazendo guerra aos morcegos. Sob o olhar de João, para que não quebrassem as vidraças, a perseguição foi tanta que os morcegos desistiram do novo esconderijo, batendo em retirada. Também os pardais eram vigiados para não se apossarem de algum pequeno buraco que pudessem achar na casa, e lá, construíssem seus ninhos.

Tudo era novidade para aqueles meninos cheios de saúde, que chegavam esfomeados das redondezas da Fazenda do Riacho, onde gostavam de ir para caçar tico-tico, causando terror à passarada. Gisela, muitas vezes integrava-se ao grupo de meninos com as demais irmãs dos amigos, realizando peripécias por dentro da rede de esgoto que estava sendo construída, chegando a se perder no túnel escuro. Enfim, achava saída.

A noite a resmungação era generalizada: todos queriam que a mãe ajudasse na tarefa escolar. Enquanto, o pai seu João ficava sentado numa cadeira próximo a porta de entrada, fumava um cigarro, depois de um dia cansativo de trabalho, em silencio observava o burburinho em volta da mesa, sem ajudar no ensino, mas não dava palpites. Todas as noites eram a mesma coisa, a meninada brincavam a tarde e deixava a tarefa para fazer a noite. Porém, durante o dia Júlia não podia ajudá-los pelo trabalho na casa grande.

Por ironia do destino, o tempo passou... os filhos da dona Júlia e do Seu João, cresceram. Já não havia mais ninguém para ensinar a tarefa. Seu João continuava sentado perto da porta todos os dias ao anoitecer. Mas a mesa estava vazia e, o silêncio reinava. E os filhos, onde estão? Partiram. Até a Gisela casou-se e foi embora, só deixou saudades. O Carlos e o Marcos também foram para longe com suas famílias. Vem ver os pais uma vez por ano, quando conseguem férias para viajar com a família. Dona Julia sente muita saudade dos filhos e dos netos. Mas o que fazer, o destino os levou. Ela pediu para Deus abençoar a vida de cada um.

Um dia Seu João também partiu. Ficou a saudade. Dona Júlia olha para o casarão silencioso, parece ouvir o barulho dos filhos, reclamando alguma coisa. Discutindo entre eles... Não. Não há mais ninguém. São apenas lembranças. Dona Júlia se recolheu em sua tristeza... na solidão. Passa os dias em companhia do pequeno Tigre, um cachorro vira-lata que por lá apareceu. É a companhia inseparável, que deita sobre seus pés quando está sentada na cadeira na varanda, vendo o tempo passar, com o pensamento vago no infinito, esperando sua hora chegar.
O casarão imponente do bairro nobre perdeu seu brilho, está envelhecido e abandonado. O silêncio reina absoluto. O tempo passou.

Fonte:
Academia de Letras de Maringá
http://www.afacci.com.br/

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