Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 26 de setembro de 2009

Gabriella Colombo Machado (Rua sem saída)


A grande avenida, que cruzava a cidade, afunilava-se até se tornar uma singela travessa de paralelepípedos. Quem não conhecesse bem aquele lugar nem diria que aquela abandonada rua estava integrava de qualquer forma a movimentada avenida principal. Naquela manhã em particular, a tal travessa parecia ainda mais deslocada do resto de sua estrutura. Enquanto na parte grande e agitada os primeiros raios de sol já ardiam no asfalto, a pequena e isolada parte experimentava apenas pequenas fagulhas do sol que preguiçosamente se levantava no horizonte.

Um antigo casarão na esquina delimitava o ponto em que a até então imponente avenida transformava-se em ingênua travessa. O exato marco dessa mudança era observável pela abrupta interrupção do asfalto. A maneira como este terminava fazia parecer que os operários responsáveis cansaram-se nesse ponto e desistiram de continuar o serviço, deixando, assim, os últimos paralelepípedos da cidade em desconexão com o presente. Estagnados no tempo é como eles estavam. E acompanhando essa imutabilidade encontravam-se as outras poucas construções da rua.

O casarão da esquina destacava-se das outras construções por ser a maior delas. Nos anos de sua glória, deveria ter sido deveras atraente. Mas agora ele não ostentava mais nenhum charme. Aliás, estava repugnante com seu ar amargo. As suas portas e janelas estavam escancaradas mostrando um interior cheio de nada. As paredes que outrora deveriam ter exibido fotografias de família, hoje se envergonhavam diante dos buracos feitos pelas dezenas de ratazanas que habitavam o local.

Na calçada, em frente ao casebre, o único poste de luz da rua ainda mantinha-se de pé, mesmo que já estivesse entortando para direita. Nele estava fixada uma enferrujada placa amarela com os dizeres: “RUA SEM SAÍDA”. As grandes letras garrafais eram pretas e davam um certo ar de autoridade não encontrado em nenhum outro recanto dessa esquecida parte da cidade.

Chegando ao fim dos irregulares paralelepípedos havia um parque, tão esquecido quanto o resto. Talvez mais. As árvores que ali descansavam eram altas e rebeldes. Seus galhos competiam por um espaço que não lhes era dado. Afinal, ninguém mais recordava de sua existência. Um extenso tapete de folhas secas constituía o piso do parque. O vento encontrava uma maneira de esgueirar-se por entre as árvores e dançava pelo estreito espaço que havia entre uma planta e outra. Os seus movimentos rápidos e alegres por fim faziam com que as folhas no chão se levantassem pesadamente para acompanhá-lo.

Um único som rompia a melodia tecida pela inebriante dança do vento: eram pesadas passadas que faziam as folhas estalarem sob aqueles misteriosos pés.

O labirinto de árvores que constituía o parque abria-se em um círculo para dar lugar a uma inútil fonte. Ela era cinzenta e suja. No seu centro, um golfinho desgastado pelo tempo posava tristemente em uma posição aparentemente desconfortável. De sua boca, não esguichava mais nenhuma gota d’água. A fonte, contudo, tinha ainda alguma água. O que se encontrava ali era o acúmulo das chuvas de verão. Boiando nessa água turva estavam algumas folhas e alguns insetos mortos. No fundo da fonte, escondido pelos entulhos, estava um chaveiro com duas chaves. O chaveiro era um ursinho marrom qualquer. As chaves, por sua vez, eram de um metal barato. Uma delas assemelhava-se a uma chave de carro enquanto a outra deveria ser de uma porta.

Ao lado da fonte, uma pequena bolsa feminina descansava junto ao chão. Parecia ter caído, uma vez que seu conteúdo espalhava-se ao seu redor. Uma entrada de cinema para a última sessão de quarta-feira era a única coisa que não havia caído. A bolsa parecia ser de couro legítimo, mas olhos atentos perceberiam tratar-se de uma bela imitação. O forro já estava rasgado e era possível notar os efeitos do uso na sua aparência externa. Uma carteira vazia, também de couro falso, estava a alguns centímetros da bolsa.

O único banco da praça encontrava-se na frente da fonte. Seu assento era duro. Uma das pernas estava mais curta, tornando-o bambo. A madeira desgastada pelo sol e pela chuva estava já áspera e velha. Ao lado desse banco, diversas baganas de cigarros amontoavam-se, algumas tinham uma discreta marca de batom. Uma garrafa vazia de vinho tentava equilibrar-se do desnivelado banco.

Mais adiante, aconchegado, no meio das folhas, um celular desligava-se sem bateria.
––––––––––-
Gabriella Colombo Machado nasceu em Porto Alegre (RS). É estudante de Comunicação Social e aspirante a escritora. Apesar dos diversos trabalhos na gaveta, nunca teve nenhum deles publicado.

Fonte:
Projeto Releituras (site desenvolvido por Arnaldo Nogueira Junior)
Biografias, contos, poesias. Todos os meses, novidades e novos escritores.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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