segunda-feira, 6 de abril de 2026

Asas da Poesia * 172 *


Poema de
A. M. A. SARDENBERGER
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis/RJ

Travessia

Peguei o rumo da estrada
Marcando firme o compasso
E fui buscar meu espaço
No romper da madrugada.

Atravessei as cancelas,
Saltei valas e valões,
Abri portas e janelas,
Penetrei pelas favelas,
Andei muitos quarteirões.

Busquei fé e esperança,
Dividi o pão que tinha,
Rezei muitas ladainhas,
Pedi a DEUS proteção…
Dei o abraço apertado
No meu tão sofrido irmão!

Passei fome, senti sede,
Pisei em pedras e espinhos,
Nunca fugi dos caminhos
Que pela vida encontrei
Pois quem foge é covarde
E eu nunca me acovardei.

Fui em busca de um amor,
Movido pela paixão.
Machuquei meu coração,
Que tanto tinha pra dar,
Mas fingi não sentir dor
Conjugando o verbo amar.
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

O vento está dormindo na calçada
(Mário Quintana in "A rua dos Cataventos", p. 20)

“O vento está dormindo na calçada”
A tempestade o pôs fora de portas
Já ia alta a noite, a horas mortas
Quando ele entrou no lar de madrugada.

Andou a perseguir uma noitada
Que se agitava amena, em curvas tortas
Pelos campos lavrados, junto às hortas
E nela se enredou, noite fechada.

Não foi, de modo algum, um caso sério
Somente as aparências de adultério
Que agora paga, exposto ao pó da rua.

Em casa todos dormem sem cuidados
Só os raios do luar, sempre acordados
O cobrem com a luz que vem da lua.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Acabou

Fim de romance... nossa despedida.
E os teus olhos nada revelaram...
Nem sequer um instante vacilaram,
Na hora triste da cruel partida!

Chaga imensa se abriu em minha vida
Desde o instante em que se afastaram
Nossas almas que sempre caminharam
Juntas, unidas, numa mesma lida.

Apartaram-se. Fim do nosso amor
... melhor assim...
Sigamos, pois, esse destino enfim,
Sem queixa, lamúria, ou rancor,

Saiba, tudo farei para um dia esquecer
... sem sofrer...
Mas... Não! O que estou a dizer?!
Oh! Não te vás! Não me deixe, meu amor!...
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Quadra do Folclore Português

Todo homem que arrasta asa
à mulher deste ou daquele
merece, perto de casa,
outro homem igual a ele.
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Soneto de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cansaço

No cansaço da noite, entre os cansaços, 
tive um sonho esquisito e diferente,
pois, sonhei abraçado noutros braços,
entre os braços da noite, descontente.

Ante um sonho, outro sonho e, de repente,
eu me sinto algemado noutros laços,
como quem segue a vida loucamente,
controlando as pegadas de outros passos...

E, eu sonhando e sonhando pouco a pouco,
fui ficando no sonho quase louco
nessa louca paixão que não passou...

Se os teus beijos, neguei sem ter ressábios,
quero agora, pagá-los noutros lábios
esses beijos que a vida me negou!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Na banda surrealista
havia um som com falsete;
o bebum clarinetista
pôs pinga no clarinete.
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Idílio de
BOCAGE
(Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage)
Setúbal/Portugal (1765 – 1805) Lisboa/Portugal

Poema dedicado à saudade pelas belezas naturais da cidade ática de Filena

Que terna, que saudosa cantilena 
Ao som da lira Melibeu soltava 
O pastor Melibeu, que por Filena, 
Pela branca Filena em vão chorava! 

Inda me fere o peito aguda pena, 
Quando recordo os ais que o triste dava, 
O pranto que vertia, amargo e justo 
A sombra que ali faz aquele arbusto.
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Idílio, termo de origem grega para uma pequena composição poética de inspiração pastoril, geralmente tratando de assuntos amorosos, religiosos ou utópicos. O lirismo destas composições é marcado pela forte afetação do discurso, repleto de confidências e pensamentos íntimos. 
O primeiro grande cultor deste tipo de poesia foi Teócrito, que nos legou Idílios, mas o modelo clássico mais copiado é sem dúvida o de Virgílio e as suas Bucólicas. Na poesia de Virgílio, o termo reservado para definir este tipo de composição é o de écloga, o que levou a confundir os dois gêneros, bastante semelhantes no tratamento temático, mas diferentes na extensão: o idílio tende a ser mais breve e de versos mais curtos. 
A partir do século XVII e até ao Romantismo, registram-se nas literaturas de expressão portuguesa e castelhana variadíssimos exemplos, que concorrem com inúmeras imitações de Teócrito e Virgílio. Bocage foi um dos cultores portugueses mais encantados pela forma clássica do idílio, escrevendo composições de temas marítimo, pescatório e pastoril. 
O cenário de um idílio obriga à idealização da vida campestre e ao elogio permanente dos seus atributos. O ideal de vida campestre assegura uma paz de espírito e uma serenidade de comportamento que muitos poetas não resistem a cantar, criando cenários mágicos e recorrendo a uma retórica recheada de figuras de pensamento e de linguagem.     (Carlos Ceia. e-Dicionário de Termos Literários)  
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Jaz o ancião na cascata!...
Seu anjo, que é seu abrigo,
já velho e com catarata,
não viu a placa "PERIGO"!
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATTO
Poços de Caldas/MG

A Esperança

Como um cisne a nadar por sobre o lago,
Vejo-te quando friso as águas cristalinas.
Por entre as flores, num espaço vago,
Dando inveja às palmeiras das campinas.
 
Vejo duas pombas, que num doce afago,
No galho balançam quais as bailarinas...
Toca em meu coração o anseio que trago
Que tu desconheces e nem imaginas.

Mas confessar-te eu jamais poderia,
Se nunca me olhas, como ousaria,
Falar de amor a quem só me ignora?

Contento-me a contemplar tua face...
Um dia morre logo outro dia renasce...
A esperança há de voltar com a aurora.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Os meus momentos felizes,
logo o vento os dissipou...
Trago, porém, cicatrizes,
que nem o tempo apagou.
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Poema de
MARCELO RICARDO
Rio de Janeiro/RJ

Seria loucura pura 
Dar apenas razão 
Ao próprio poder

De pensar? Pensar estar certo 
O tempo todo é colocar
Sempre a mesma capa. Ser
Ou não ser termina soando 
Como uma coisa a perecer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Do conquistador, a lábia,
terminou em um relance,
quando a moça, muito sábia
exigiu casto romance...
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Soneto de
ALINE BRITTO SOARES
Rio de Janeiro/RJ

Cântico do nordeste

Já não ouvem as palmas dos coqueiros
doces palavras vindas de além-mar;
não lhes sussurram cânticos brejeiros
trêfegos ventos vindos de ultramar.

Onde andarão os vendavais arteiros
que suas folhas vinham estalar,
pelas noites sem fim, dias inteiros,
nuvens de areia levantando ao ar?

Já outras nuvens que, rolando ao léu,
bailavam, céleres, no azul do céu,
não sombreiam os belos coqueirais.

O árido solo de cuidados urge.
Torna-se agreste a cada sol que surge.
Secam-se os rios nos mananciais!
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Indriso de
SÔNIA DE FÁTIMA MACHADO SILVA
Coromandel/MG

Tardes de abril
 
 Escancaro a janela ...  sinto o ar ainda morno
filtrado pela brisa já quase despida de sol
a soprar as leves folhas amarelas...
 
Meu pensamento rodopia ao longo da rua
misturado às folhas e saudades
sob um  ocaso luminoso e outonal...
 
Dançam as folhas dos arvoredos...
 
Recolho-me às minhas lembranças…
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Trova de
BELMIRO BRAGA 
Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG

As almas de muita gente
são como o rio profundo:
- A face tão transparente,
e quanto lodo no fundo!…
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Doa-se um Coração

Doa-se um bom coração...
Muito afoito e destemido!
Já viveu tanta paixão,
apesar de ter sofrido...

Muito afoito e destemido,
um eterno sonhador.
Apesar de ter sofrido
da solidão tem horror.

Um eterno sonhador,
por muitos, manipulado.
Da solidão tem horror;
quer amar e ser amado.

Por muitos, manipulado
mas ainda em condição...
Quer amar e ser amado
... Doa-se um bom coração!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Braços brancos, amarelos,
ou negros, cor de café,
unidos, são fortes elos
que ao futuro dão mais fé!
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Hino de 
ENGENHEIRO BELTRÃO - PR

I
Qual a estrela que a história ocultasse
Entra as sombras do velho sertão
Eis agora a esplender sua face
Minha terra Engenheiro Beltrão
Há em seu nome crescente homenagem
Ao herói que este chão desbravou
E no seio da agreste paisagem
Uma nova cidade plantou.

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.

II
Teu progresso é vibrante mensagem
De trabalho, de amor e de fé.
Que mudou a floresta selvagem
Em perene caudal de café.
Pelas dignas mãos dessa gente
Que o teu alto destino conduz
Qual rosário deslizam sementes
Que germinam searas de luz

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.
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Poetrix de
JUSSARA MIDLEJ
Jequié/BA

Palavras

Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
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Poema de
ANTÓNIO BARAHONA
(António Manuel Baptista Barahona da Fonseca)
Lisboa/Portugal

Naufrágio

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem e o bosque

Um homem por um bosque um certo dia entrou,
E assim com branda frase às árvores falou:
«Propício o céu vos seja, e nunca o rijo vento,
Nos ares combatendo em furacão violento,
Da rama vos despoje, ou faça baquear
Dos vossos um só tronco». E vendo-as exultar
Com suas expressões, o astuto lisonjeiro
Prossegue: «Oh! tende dó de um triste passageiro
Que de pesada marcha em tal cansaço vem,
Que a força o abandona, em pé mal se sustém.
Dai-me um estéril ramo, a que eu possa encostado
Os passos dirigir». E apenas lhe foi dado,
Com muita prontidão da casca o despojou,
E numa extremidade um ferro lhe ajeitou.
Peita a bipene* assim, o bosque foi cortando;
Com hórrido estampido à terra vem rodando
Piramidal cipreste, o teixo carpidor,
O louro, que coroa o vate, o vencedor:
Rui o frondoso ulmeiro, os choupos alvejantes,
O pinho, o roble, o buxo, o mirto dos amantes:
E todos ao cair, diziam a uma voz:
«Para a desdita nossa os meios demos nós!»

Aquele que armas dá da pátria ao inimigo,
Por suas próprias mãos procura o seu castigo.
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* Bípene = machadinha romana de dois gumes.
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Mensagem na Garrafa 168 = O Rei e a Pedra

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO 
 
Em tempos bem antigos, um rei colocou uma pedra enorme no meio de uma estrada. Então, ele se escondeu e ficou observando para ver se alguém tiraria a imensa rocha do caminho.

Alguns mercadores e homens muito ricos do reino passaram por ali e simplesmente deram a volta pela pedra. Alguns até esbravejaram contra o rei dizendo que ele não mantinha as estradas limpas mas nenhum deles tentou sequer mover a pedra dali.

De repente, passa um camponês com uma boa carga de vegetais. Ao se aproximar da imensa rocha, ele pôs de lado a sua carga e tentou remover a rocha dali.

Após muita força e suor, ele finalmente conseguiu mover a pedra para o lado da estrada.

Ele, então, voltou a pegar a sua carga de vegetais mas notou que havia uma bolsa no local onde estava a pedra.

A bolsa continha muitas moedas de ouro e uma nota escrita pelo rei que dizia que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do caminho.

O camponês aprendeu o que muitos de nós nunca entendeu: "Todo obstáculo contêm uma oportunidade para melhorarmos nossa condição".

Muitas vezes desviamos-nos do nosso caminho para não encarar a realidade pela sua dificuldade e com isso não só passamos o problema para outros por não termos assumido a nossa parte da responsabilidade, como também podemos estar nos privando de muitas coisas boas, no mínimo a satisfação de ter realizado um grande feito.

E todos devemos aprender que os obstáculos, somos nós mesmo que colocamos, na maioria das vezes.

Irmãos Grimm (Os dois irmãozinhos)


O irmãozinho tomou a mão de sua irmãzinha e lhe falou assim:

- Desde que mamãe morreu, não tivemos mais uma hora de felicidade; a madrasta nos bate todos os dias e nos trata a pontapés. Como alimento só temos as duras migalhas que sobram do pão, e até o cãozinho embaixo da mesa leva uma vida melhor, pois de vez em quando lhe jogam alguma coisa boa para comer. Que Deus tenha piedade de nós! Se a nossa mãe soubesse disso! Vem, vamos sair daqui e correr mundo.

Caminharam o dia inteiro e, quando começou a chover, disse a irmãzinha:

- É Deus e os nossos corações que choram juntos!

Á noite chegaram a uma grande floresta e, como estivessem cansados de chorar e de tanto caminhar, e ainda por cima com fome, sentaram-se no oco de uma árvore e ali adormeceram.

Na manhã seguinte, ao despertarem, o sol já estava bem alto no céu e seus raios ardentes envolviam a árvore . Queixou-se, então, o irmãozinho:

- Estou com sede, irmãzinha; se soubesse de uma fonte, iria até lá beber. Parece que estou ouvindo um barulhinho de água.

E, levantando-se, pegou a menina pela mão e saíram à procura da fonte. A madrasta malvada, porém, era uma bruxa e percebera que as duas crianças haviam fugido de casa. Disfarçadamente, como fazem as bruxas, saíra atrás delas e enfeitiçara todas as fontes da floresta. 

Quando os dois encontraram um pequeno regato que saltava, alegre, por sobre as pedras, o irmãozinho quis saciar a sede, mas sua maninha ouviu que o regato murmurava:

- Quem bebe da minha água se transforma em tigre!

A menina, então, exclamou:

- Por favor, não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num tigre e me devorarás.

Embora estivesse com muita sede, o menino obedeceu, dizendo:

- Esperarei até a próxima fonte.

Chegaram ao segundo regato e a garotinha ouviu que também esse falava:

- Quem beber da minha água será um lobo, quem beber da minha água erá um lobo!

Novamente ela pediu:

- Por favor, irmãozinho, não beba; senão te transformarás num lobo e me devorarás.

O garoto não bebeu, mas retrucou:

- Vou esperar até encontrarmos outra fonte; aí, então, beberei , digas o que disseres, pois minha sede é grande demais.

Quando chegam ao terceiro regato, a menina ouviu-o murmurar:

- Quem beber da minha água será um cervo, que beber da minha água será um cervo!

A irmãzinha voltou, de novo, a insistir:

- Peço-te que não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num pequeno cervo e fugirás de mim.

Mas o menino já se ajoelhara junto à fonte para beber e, quando as primeiras gotas molharam os seus lábios, transformou-se num pequeno cervo.

A garotinha pôs-se a chorar, vendo seu pobre irmão enfeitiçado e o cervinho chorou também, deitado muito triste aos pés dela. Por fim disse a menina:

- Sossega, meu bonito cervo; eu nunca te abandonarei.

E, desatando uma das suas ligas dourada, colocou-a no pescoço do animalzinho; depois colheu alguns juncos e trançou uma corda bem macia. Com ela prendeu, o pequeno cervo e ambos foram andando cada vez mais para o interior da mata.

Andaram por muitas horas e finalmente chegaram a uma pequena casa. A menina espiou para dentro e, como estivesse vazia, pensou: " poderíamos ficar morando aqui.". 

Com folhas secas e musgos, preparou um leito macio para o cervo. Todas as manhãs saía em busca de frutinhas e nozes para si mesma; quanto ao animalzinho, trazia-lhe capim bem tenro e alegrava-se brincando ao seu redor. Quando à noite, cansada, já havia rezado as suas orações, ela deitava a cabeça sobre o dorso do pequenino cervo; era o seu travesseiro e ali adormecia suavemente. Se o menino tivesse conservado a forma humana, seria uma vida maravilhosa aquela!

Assim ficaram por algum tempo, sozinhos no bosque. Um dia, porém, o rei daquele país organizou uma grande caçada, e por toda a floresta ecoou o som das trombetas, o latido dos cães e o grito alegre dos caçadores. O pequenino cervo, ao ouvir tudo aquilo, sentiu uma vontade irresistível de assistir à caçada.

- Irmãzinha, - disse, - deixa-me acompanhar a caçada, não posso mais conter-me.

E tanto pediu, que ela, por fim, o deixou partir.

- Mas à noite terás de estar de volta, - recomendou a menina. - Fecharei a porta por causa desses caçadores. Para que possa reconhecer-te, deverás bater e dizer: " Irmãzinha, deixa-me entrar. " Se não fizeres assim, não abrirei.

O animalzinho saiu correndo e saltando, feliz com a liberdade. O rei e seus caçadores viram-no, porém, e o perseguiram sem que o conseguissem apanhar. Quando pensavam que já iam alcança-lo, ele saltava por cima das moitas e desaparecia. Ao escurecer, regressou à casinha, bateu à porta e disse:

- Irmãzinha,  deixa-me entrar!

A porta foi aberta e, correndo para dentro, o cervo descansou a noite inteira em seu leito macio. 

Na manhã seguinte a caçada recomeçou, e mal ouviu ele o som das trombetas e o "Hô! Hô!" dos caçadores, não teve mais sossego e pediu:

- Irmãzinha, abre a porta que eu quero sair.

A menina atendeu, recomendado:

- Mas presta atenção, à noite deves estar de volta e dizer as palavras que te ensinei.

Assim que o rei e seus homens avistaram, de novo, o cervo do colar  dourado, saíram todos em seu encalço. O animalzinho no entanto, era mais rápido e ágil do que eles, A perseguição durou o dia inteiro e somente ao anoitecer os caçadores o tinham, finalmente, cercado, sendo que um deles o feriu de leve numa das patinhas. Manco, o pequeno cervo só pode escapar andando muito devagarinho. Um dos homens o seguiu até a casinha e ouviu quando ele gritou:

- Irmãzinha, deixa-me entrar!

Viu que lhe abriram a porta e logo a fecharam. Foi ao rei e contou-lhe o que tinha visto e ouvido. E o rei respondeu:

- Amanhã faremos outra caçada!

A irmãzinha assustou-se muito quando viu que seu querido cervo estava ferido. lavou-lhe a pata suja de sangue, colocou ervas na ferida e disse-lhe:

- Vai para o teu leito, querido, até ficares bem bom.

O ferimento, porém, era tão leve que, na manhã seguinte, o animalzinho nada mais sentiu e, ao perceber de novo, lá fora, a alegre caçada, disse à irmã:

- Não resisto, preciso tomar parte.

A irmãzinha, chorando, exclamou:

- Vão matar-te e ficarei sozinha  na floresta, abandonada por todo o mundo! Não posso permitir que saia.

- Então morrerei de tristeza, - respondeu o cervo.- Quando ouço a corneta de caça, fico doido por sair correndo.

Incapaz de resistir àquela súplica, a garotinha abriu a porta, com o coração pesaroso, e logo o cervo se precipitou, alegre, pelo mato a dentro. O rei, ao avistá-lo, disse a seus caçadores.

- Persigam-no até anoitecer, mas que ninguém lhe cause dano.

Assim que o sol desapareceu no horizonte o rei chamou o caçador e lhe falou:

- Mostra-me, agora, a casinha do mato.

Ao encontrar-se diante da porta, bateu e pediu:

- Deixa-me entrar, irmãzinha querida!

Abriu e o rei entrou. À sua frente apareceu uma jovem tão bela como não vira outra igual. Ela assustou-se quando viu um homem, de coroa de ouro na cabeça entrar na casa, mas o rei olhou amavelmente para ela e, estendendo-lhe a mão, disse:

- Queres vir comigo para o meu castelo e ser a minha esposa?

- Sim. - retrucou a jovem, - mas o cervo terá de acompanhar-me; não me separo dele.

- Ficará contigo enquanto viveres e nada lhe faltará. - concordou o rei.

Nisto, o animalzinho entrou correndo e a irmã tornou a prendê-lo com a corda de juncos. A seguir, abandonaram a casinha da floresta.

O rei colocou a linda moça na garupa e partiram para o castelo, onde foi celebrado o casamento com grande pompa. Ela passou então a ser rainha e durante muito tempo viveram felizes. O pequeno cervo era bem tratado e vivia saltando, alegre, pelos jardins do castelo.

Entretanto, a madrasta malvada, que havia sido a causa de terem eles fugido de casa, pensava que a menina fora devorada pelas feras e seu irmão, transformado em cervo, morto pelos caçadores. Quando lhe chegou aos ouvidos que os dois viviam felizes e satisfeitos, seu coração quase arrebentou de inveja não a deixando em paz. Pôs-se a maquinar uma maneira de desgraçá-los! 

A filha dela, que era feia como a noite e tinha um olho só, espicaçava a mãe, dizendo-lhe:

- Eu é que deveria ser rainha.

- Acalma-te!- retrucou a velha. - Quando chegar a hora, saberei o que fazer.

Passado algum tempo, a rainha deu à luz um lindo menino. Como o rei, nesse dia, se afastara para caçar, a velha bruxa tomou a forma da camareira, entrou no quarto da rainha e disse-lhe:

- O banho está preparado e lhe fará bem; venha depressa antes que esfrie.

A filha da bruxa também estava presente e ambas levaram a rainha, ainda debilitada, ao quarto de banho, onde a meteram na banheira. Fecharam a porta e logo fugiram, pois tinham acendido ali um fogaréu dos diabos, que asfixiou a jovem e bela soberana.

Feito isto, a velha pôs uma touca na cabeça da filha e fê-la deitar-se na cama da rainha. Deu-lhe também a forma e o aspecto desta; só não pode restituir o olho que faltava e, para que o rei não lhe notasse o defeito, ordenou que se deitasse sobre o lado dele. À noite, quando o rei voltou da caça e soube que havia nascido um filho, alegrou-se de todo o coração e dirigiu-se ao leito da sua esposa, com o propósito de vê-la. Mas a bruxa apressou-se a dizer-lhe:

- De modo algum! Deixe as cortinas fechadas, que a rainha não suporta a luz e necessita de repouso.

O rei, então, se retirou, ignorando que na cama havia uma falsa rainha.

Mas aconteceu que, à meia-noite, quando todos dormiam, a ama, que velava sozinha junto ao berço, no quarto da criança, viu a porta abrir-se e entrar a rainha verdadeira. Debruçando-se sobre o bercinho, tomou nos braços o recém-nascido e o amamentou; depois ajeitou-lhe o travesseirinho e, feito isso, deitou novamente a criança. Também não esqueceu o pequeno cervo. Foi ao lugar em que estava deitado e lhe acariciou o pelo. Logo depois, saiu do quarto. 

Na manhã seguinte, a ama perguntou aos guardas se tinham visto alguém entrar no castelo durante a noite, mas eles responderam:

- Não, não vimos ninguém.

A cena repetiu-se ainda muitas noites, sem que a rainha fantasma pronunciasse uma só palavra. E, embora a ama sempre a visse, não se animava a contar o que estava acontecendo.

Decorrido algum tempo, a rainha, numa de suas visitas noturnas, quebrou o silêncio e começou a falar:

"Como vai meu filho? Como vai meu cervo? Virei mais duas noites, depois nunca mais."

A ama ouviu tudo quieta, mas, depois que a rainha desapareceu, foi ao rei e lhe contou o que se passara. Este, surpreso, exclamou:

- Meu Deus! Que significa isso? Amanhã de noite ficarei de guarda junto à criança.

Quando anoiteceu foi ao quarto do principezinho e à meia-noite a rainha apareceu e disse:

" Como vai meu filho? Como vai meu cervo?
Vim mais uma vez, depois nunca mais."

O rei, não podendo mais conter-se, exclamou:

- Não pode ser outra, senão minha esposa querida!

Ao que ela respondeu:

- Sim, eu sou a tua esposa.

Naquele mesmo instante, com a graça de Deus, voltou à verdadeira vida. Estava tão forte, rosada e bem disposta como antes. Contou logo ao rei o crime que a bruxa malvada e sua filha haviam cometido contra ela. 

O rei ordenou então que ambas fossem levadas perante um tribunal. Este as condenou à morte. A filha foi conduzida à floresta, onde as feras a estraçalharam, ao passo que a bruxa, condenada à fogueira, teve morte horrível. 

Depois que ela foi reduzida a cinzas, o pequeno cervo, transformando-se de novo, recuperou a forma humana, e o irmãozinho e a irmâzinha viveram juntos e felizes até o fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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domingo, 5 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 7. O Caçador do Silêncio

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

Lá, ele encontrou um "dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

"Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

"Shukran" (Obrigado), murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Assina seus escritos por Floresta/PR.. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Vinicius de Moraes (Batizado na Penha)


Eu sou um sujeito que, modéstia à parte, sempre deu sorte aos outros (viva, minha avozinha diria: "Meu filho, enquanto você viver não faltará quem o elogie..."). Menina que me namorava casava logo. Amigo que estudava comigo, acabava primeiro da turma. Sem embargo, há duas coisas com relação às quais sinto que exerço um certo pé-frio: viagem de avião e esse negócio de ser padrinho. No primeiro caso o assunto pode ser considerado controverso, de vez que, num terrível desastre de avião que tive, saí perfeitamente ileso, e numa pane subsequente, em companhia de Alex Viany, Luís Alípio de Barros e Alberto Cavalcanti, nosso Beechcraft, enguiçado em seus dois únicos motores, conseguiu no entanto pegar um campinho interditado em Canavieiras, na Bahia, onde pousou galhardamente, para gáudio de todos, exceto Cavalcanti, que dormia como um justo. 

Mas no segundo caso é batata. Afilhado meu morre em boas condições, em período que varia de um mês a dois anos. Embora não seja supersticioso, o meu coeficiente de afilhados mortos é meio velhaco, o que me faz hoje em dia declinar delicadamente da honra, quando se apresenta o caso. O que me faz pensar naquela vez em que fui batizar meu último afilhado na Igreja da Penha, há coisa de uns vinte anos. 

Éramos umas cinco ou seis pessoas, todos parentes, e subimos em boa forma os trezentos e não sei mais quantos degraus da igrejinha, eu meio cético com relação à minha nova investidura, mas no fundo tentando me convencer de que a morte de meus dois afilhados anteriores fora mera obra do acaso. Conosco ia Leonor, uma pretinha de uns cinco anos, cria da casa de meus avós paternos. 

Leonor era como um brinquedo para nós da família. Pintávamos com ela e a adorávamos, pois era danada de bonitinha, com as trancinhas espetadas e os dentinhos muito brancos no rosto feliz. Para mim Leonor exercia uma função que considero básica e pela qual lhe pagava quatrocentos réis, dos grandes, de cada vez: coçar-me as costas e os pés. Sim, para mim cosquinha nas costas e nos pés vem praticamente em terceiro lugar, logo depois dos prazeres da boa mesa; e se algum dia me virem atropelado na rua, sofrendo dores, que haja uma alma caridosa para me coçar os pés e eu morrerei contente. 

Mas voltando à Penha: uma vez findo o batizado, saímos para o sol claro e nos dispusemos a efetuar a longa descida de volta. A Penha, como é sabido, tem uma extensa e suave rampa de degraus curtos que cobrem a maior parte do trajeto, ao fim da qual segue-se um lance abrupto. Vínhamos com cuidado ao lado do pai com a criança ao colo, o olho baixo para evitar alguma queda. Mas não Leonor! Leonor vinha brincando como um diabrete que era, pulando os degraus de dois em dois, a fazer travessuras contra as quais nós inutilmente a advertimos. 

Foi dito e feito. Com a brincadeira de pular os degraus de dois em dois, Leonor ganhou momentum e quando se viu ela os estava pulando de três em três, de quatro em quatro e de cinco em cinco. E lá se foi a pretinha Penha abaixo, os braços em pânico, lutando para manter o equilíbrio e a gritar como uma possessa. 

Nós nos deixamos estar, brancos. Ela ia morrer, não tinha dúvida. Se rolasse, ia ser um trambolhão só por ali abaixo até o lance abrupto, e pronto. Se conseguisse se manter, o mínimo que lhe poderia acontecer seria levantar voo quando chegasse ao tal lance, considerada a velocidade em que descia. E lá ia ela, seus gritos se distanciando mais e mais, os bracinhos se agitando no ar, em sua incontrolável carreira pela longa rampa luminosa. 

Salvou-a um herói que quase no fim do primeiro lance pôs-se em sua frente, rolando um para cada lado. Não houve senão pequenas escoriações. Nós a sacudíamos muito, para tirá-la do trauma nervoso em que a deixara o tremendo susto passado. De pretinha, Leonor ficara cinzenta. Seus dentinhos batiam incrivelmente e seus olhos pareciam duas bolas brancas no negro do rosto. Quando conseguiu falar, a única coisa que sabia repetir era: "Virge Nossa Senhora! Virge Nossa Senhora!" 

Foi o último milagre da Penha de que tive notícia.
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MARCUS VINICIUS DA CRUZ DE MELLO MORAES (1913–1980), conhecido como "O Poetinha", foi um dos artistas mais completos do Brasil, atuando como poeta, dramaturgo, diplomata e compositor. Sua trajetória é marcada pela transição do rigor clássico da poesia para a leveza da música popular, sendo um dos fundadores da Bossa Nova. Nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela UFRJ em 1933 e estudou literatura inglesa em Oxford. Ingressou na carreira diplomática em 1943, servindo em cidades como Los Angeles, Paris e Montevidéu. Foi exonerado do cargo em 1969 pela ditadura militar. Casou-se nove vezes e viveu intensamente a noite carioca, transformando sua vida pessoal em matéria-prima para sua arte. Faleceu em 9 de julho de 1980, no Rio de Janeiro, devido a um edema pulmonar. 
A obra de Vinicius é vasta e abrange diferentes gêneros: 
Literatura/Poesia: O Caminho para a Distância (1933): Sua estreia literária.; Soneto de Fidelidade (1946): Um de seus poemas mais célebres; Antologia Poética (1954): Obra fundamental que reúne seus principais versos; A Arca de Noé (1970): Coleção de poemas infantis que se tornaram clássicos musicais.
Teatro: Orfeu da Conceição (1954): Peça que transpõe o mito grego para as favelas do Rio e deu origem ao filme vencedor do Oscar, Orfeu Negro.
Música: Garota de Ipanema: Composta com Tom Jobim, é uma das canções mais gravadas da história. Parcerias históricas com Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Chico Buarque. 
Suas principais contribuições incluem: 
Renovação do Soneto: Resgatou a forma clássica do soneto, mas com uma linguagem moderna, cotidiana e sensual, tornando-a acessível ao grande público;
União entre Literatura e Música: Foi o elo principal entre a elite intelectual e a música popular, elevando o nível lírico das canções brasileiras;
Fundação da Bossa Nova: Ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, criou a estética musical que projetou o Brasil internacionalmente;
Temática do Amor: É considerado o maior poeta do amor e da paixão na literatura brasileira do século XX. 

Fontes:
Vinícius de Moraes. Para uma menina com uma flor. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1966.
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Risoleta C. Pinto Pedro (O Caderno)

(Este texto/reflexão deriva de uma comunicação/aula/conversa/conferência para alunos de uma escola de medicina holística num passado ano letivo)


Com o caderno cada
Aluno aprende
Enquanto
Recebe
Na medida
Ótima. Oculta.

Do dicionário: na entrada: “Caderno”, a etimologia aparece como remontando ao latim “quaternus”, que significa “de quatro em quatro”. Quádruplos, constante de quatro elementos, porque eram as partes em que se dobrava um “folio” (folhas de impressão com quatro páginas impressas).

O que faz todo o sentido. O quatro é o número da estabilidade e da matéria. O caderno é a matéria na qual nós podemos construir/observar o nosso mapa/processo/estrada. É ele, bem enquadrado no solo, que vai permitir-nos voar. Sem esse solo, poderemos elevar-nos ao sol, mas em breve estaremos no solo. Bem estatelados. Não quadrados, mas esborrachados.

Na música, o compasso quatro por quatro é de uma grande regularidade e equilíbrio. Curiosamente, ou não, também se representa por um “C”.

Enfim, podemos ficar por aqui no que toca a especulações, embora fosse possível continuar assim durante umas horas…

Qual é afinal, a ideia, com esta conversa?

- Não vou dizer como se deve fazer um caderno

- Não vou dizer como se faz um caderno

- Pensei não dizer, tão pouco, como não se faz, porque isso seria dizer como eu faço; mas depois, pensando melhor, decidi fazê-lo, porque pelo menos sempre se fica a saber como é que não se faz, o que é útil, porque pode sempre aparecer quem queira fazer assim, o que também é bastante legítimo… Mas fica adiado mais para a frente…

- O que não vou certamente dizer é como é que acho que se deveria fazer. Primeiro porque não acho nada, segundo porque não sei, terceiro porque não devo.

PORQUE:

- Não está no meu feitio dizer às pessoas como devem fazer as coisas

- Ainda que estivesse no meu feitio, não sei dizer como se deve fazer uma coisa destas

- Ainda que fosse possível dizer uma coisa destas, não o faria, porque o caderno representa acima de tudo uma emocionante DESCOBERTA PESSOAL

O QUE POSSO DIZER:

- Como já fiz…

- Como fui fazendo…

- Como venho fazendo…

- Como gostaria de conseguir fazer…

- Como fazem algumas pessoas que conheço…

Um caderno é como o ADN, como a voz, como as impressões digitais: não existem dois iguais. Se houver, ou um deles está a mentir, ou talvez estejam os dois.

Então, a ideia, é o caderno ser o mais parecido possível com aquele/aquela que eu sou, com a verdade deste meu momento. Mas isso vai mudando, e assim, o caderno irá, certamente registrar uma sucessão de verdades, ele irá ser diferente ao longo do tempo. Se assim não for, é mentira.

DIÁRIO DA LUZ E DA PELE

Foi um caderno que os meus alunos fizeram.

Pensei falar sobre isto porque talvez abra horizontes relativamente ao caderno.

Texto- próprio ou alheio

Escolha da cor que vai acompanhar este processo (uma cor em todos os cambiantes, modulações e tons possíveis) - O tema, que apenas excepcional e justificadamente poderia ser alterado durante o processo

Forma, matéria objetos, texturas, fotografia, desenho, colagem, pedaços de coisas, da natureza, ou não (dar exemplos: pacotes de açúcar, flores, sementes, incensos, fechos eclair, etc.), sempre na cor escolhida.

- O nome pode ser importante; neste caso ele foi dado por mim e era imutável, porque os ajudava a orientarem-se, era a sua bússola.

- Mas dar um nome ao caderno pode ser uma forma de tomar consciência do processo. Seria interessante que houvesse espaço para ir rebatizando o caderno. No final, uma análise dos vários nomes que o caderno foi tendo, pode ser um indicador interessante de muita coisa e pode ensinar muito.

- Em que consistia este caderno:

Alunos de uma escola de ensino artístico (artes plásticas) na disciplina de Português.

- O que se pretendia:

Basicamente, o mesmo que em relação a todos nós: que os alunos tomassem consciência do seu crescimento. Crescer, cresce-se sempre, mas às vezes não se dá por isso e portanto cresce-se menos. Se crescer com um irmão gêmeo, que neste caso é o caderno, sabemos do nosso crescimento através do nosso irmão. Que é a imagem. O caderno é um espelho. E eu posso intervir em mim através do caderno, intervindo nele, porque o espelho funciona nos dois sentidos.

- Para que servia o nome, que também era um tema:

Para não se perderem, para terem um fio condutor

Todos têm um fio condutor, podem é não saber disso, mas se formos ver bem, não anda muito distante da luz e da pele. Se calhar, a pele é o nosso caminho para a luz. Caminhamos sobre a pele com o olhar, com as mãos, com as agulhas, com o olfato, com a pele, com a nossa pele. A luz que procuramos é a que está dentro do corpo e num local secreto que o corpo ilumina. Mas temos de passar pela pele, enterrar, aprofundar, mergulhar nos poros, e penetrando no interior do corpo, retificá-lo, trazer à luz a preciosa pedra unitária.

Quando falo em luz não me refiro àquela luz artificial dos catecismos antigos, mas à luz que realmente ilumina o interior do corpo, a luz de profundidade, a visão do bem estar, da saúde, da compreensão do eu como um ser único, íntegro, indivíduo (in-divíduo), que significa o que não está dividido, porque “in” é um prefixo de negação.

A doença é quando o corpo se encontra fragmentado dentro de si e em relação ao todo, ao mundo, aos outros. No fundo, é isso que se pretende: pelo mapa da pele mas penetrando para lá da pele, mergulhar e percorrer os misteriosos corredores internos.

OUTROS CADERNOS

O CADERNO DOS SONHOS: O lugar dele é sempre à cabeceira, Às vezes debaixo da almofada, às vezes ao lado da almofada, deve ter uma capa resistente para resistir ao corpo dos sonhos. É inseparável da caneta, que nunca deve afastar-se. Um caderno à cabeceira sem uma caneta (já me aconteceu) não serve para nada.

No caderno dos sonhos tanto posso escrever como desenhar, porque há sonhos que são desenháveis, que só podem mesmo ser desenhados…

Mas há O CADERNO DAS ESCRITAS, que deve colar-se ao meu corpo, porque posso escrever a meio da noite à saída de um sonho, na casa de banho, a fazer o jantar, a estender a roupa, a ver um filme, a andar na rua….

Daria jeito ao nosso caderno ter um corpo que lhe permitisse habitar vários meios: da banheira à cama passando pela rua, pelo autocarro ou pelo… cinema.

O fator presença, proximidade, intimidade, é muito importante. Não me serve de nada ter o caderno em casa se estou na rua, ou no carro se estou no teatro, ou na escola se estou a ver uma exposição.

Tenho também O CADERNO DA MEMÓRIA, onde colo coisas: bilhetes de espetáculos, postais que me enviam, moedas encontradas na rua, fotografias que me oferecem, espécies vegetais, cartões de visita, pequenos catálogos de exposições, e um sem número de coisas. (Este aprendi-o com um amigo)

O CADERNO DAS VIAGENS, onde escrevo percursos, sítios, desenho coisas que vi, frases que retive, frases que criei, pessoas que conheci, ideias que surgiram. Nesse caderno preparo as viagens, vivo as viagens e recrio as viagens. (Este aprendi-o com… talvez com Deus)

Um caderno pode ser utilizado como um diário, com a regularidade do sol, mas pode ser quase um horário, se o usarem com a mesma frequência com que eu o faço. E não tenham receio se emudecerem um dia. O caderno, se é quadrado, pelo menos na origem, não tem de ser rígido. Pode ser a quadratura do círculo, e ser flexível, móvel, girar.

É claro que eu posso ser caótica, totalmente indisciplinada e anarquista, porque eu apenas tenho que o mostrar a mim mesma, que foi quem docemente me ordenou que o fizesse.

Quanto ao que se deve lá pôr, eu diria: tudo!

Mesmo que pensem que não sabem desenhar, não devem ter pudor em desenhar, se isso fizer sentido para vós, se o impulso do desenho saltar para a vossa mão

Eu não sou um bom exemplo, porque não tenho um caderno, tenho vários, um em cada sítio: cozinha, quarto, mochila, pasta, ao pé do PC, carro, etc. Nem sei quantos tenho. Se eu tivesse de fazer um caderno por me mandarem fazer, ou teria de grafar os cadernos todos, arquivá-los num dossiê, ou arrancar-lhes as folhas e dar-lhes uma organização. Realmente eu não sou um bom exemplo. Tenho o caderno dos sonhos, o caderno dos exercícios, o caderno de qualquer coisa que ando a escrever (que pode ser romance, cantata, musical, poemas, crônicas, este texto que estou aqui a transmitir-vos hoje, foi escrito assim, aos bocados…), o caderno dos alunos, o caderno das reuniões, o caderno das coisas que ando a estudar, o caderno dos desenhos, o caderno onde colo coisas, e acho que não acaba aqui… Se vocês forem assim pessoas dispersas terão de arranjar um truque para parecer que têm um caderno. Na verdade vocês têm um caderno, e mais outro, e mais outro…

Para as reuniões muito chatas (desde que não estejamos nós a dirigir), à falta de caderno, é sempre possível fazer poemas à margem das notas oficiais. Fiz imensos poemas numas reuniões assim… depois recortei os poemas e colei num caderno… que já não sei por onde anda.

E também podem dobrar em quatro os vossos fólios, à maneira da palavra latina “quaternum”, e fazerem, e até ritualizarem, o momento de criação do vosso caderno. Para quem isso for importante. Não há nada que seja proibido se for para ampliar e crescer.

Alguns cadernos que referi são cadernos parciais: de sonhos, de escrita, mesmo o dos meus alunos, com escrita e objetos e fotografia, mas o caderno é potencialmente, não obrigatoriamente, mas potencialmente, mais amplo, porque como terapeutas holísticos de nós mesmos ( e por extensão, do mundo) que todos deveríamos ser, nada poderá ficar de fora, e, de acordo com as características de cada um, que, naturalmente, dará diferente peso às várias possibilidades, aí poderemos incluir sonhos, reflexões, intuições, citações, revelações, esquemas, grelhas, questionários, listas, argumentações, entrevistas, reportagens, notícias, crônicas, críticas, apontamentos, descobertas, interrogações, dúvidas, possibilidades, bílis, cartas de amor…

Sob as formas de texto, traço, desenho, fotografia, objeto, colagem, corte, rasgão, cheiro, sabor, beijo e até… som (por que não poderá uma gravação num suporte qualquer fazer parte de um caderno assim? Ou um suporte multimídia?)

Enfim… acho que comecei a falar do quadrado e terminei a falar do infinito, porque o “problema” ou o encanto (depende do ponto de vista) do quatro é que pode sempre transformar-se num oito deitado, o sinal do infinito. Cabe-nos a vós decidir se queremos um caderno atado com uma corrente a uma secretária, ou um caderno a voar por aí e nós agarrados a ele a sobrevoarmos o mundo, ao estilo Super-Homem, Mary Poppins, anjo ou folha de árvore em outonal dia de vento e da desarrumação que precede a ordem, o compasso quaternário…
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RISOLETA CONCEIÇÃO PINTO PEDRO nasceu em São Vicente e Ventosa, no concelho de Elvas, em Portugal, em 1954. É uma escritora, poetisa e cronista portuguesa com vasta obra em literatura, teatro e crônicas radiofônicas. Foram-lhe atribuídos dois prêmios de poesia e no drama escreveu O Deserto, o Mar e o Tempo. Assinou uma crônica semanal, Quarta-Crescente, transmitida às quartas-feiras na rubrica O Sentido das Palavras, do Programa “Despertar dos Músicos”, da RDP – Antena 2, entre Janeiro e Setembro de 2003. Escreveu quinzenalmente crônicas para os jornais Cidade de Tomar e Despertar do Zêzere, mantendo-se a colaboração com este último. A partir de Outubro de 2003, iniciou a colaboração regular com a revista O Professor, da Editorial Caminho, que mantém. Registra também participações ocasionais na revista História com crítica de teatro e literatura. Estreou em Outubro de 2003, no Convento de São Paulo, na Serra D’Ossa, o espetáculo Mutações, com base em textos seus, pela Amalgama – Companhia de Dança de Mafra. Espetáculos ainda em Novembro, no Convento de Mafra. Alguns de seus livros: – A Criança Suspensa, Prêmio Ferreira de Castro, de ficção narrativa, da Câmara de Sintra, 1996; – O Corpo e a Tela, 1997; – O Aniversário, Prêmio Revelação APE/IPBL 1994, Ficção, 1998; – A Compreensão da Lua, 1999; – O Arquiteto, 2002; – Venite In Silentio, 2004; – Contos de Azul e Terra, romance, em co-autoria com Raquel Gonçalves, 2004.

Fontes:
http://triplov.com/letras/risoleta_pedro/Caderno/index.htm. 30.04.2008
http://http://www.milliu.com.br/ (imagem)