quarta-feira, 3 de junho de 2026

Asas da Poesia * 188 *


Trova humorística de
JOUBERT DE ARAÚJO E SILVA 
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ

Cegonha é coisa de rico
e não passa de pilhéria...
- Quem trouxe o filho do Chico
foi o urubu da miséria!
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Caminhos

Caminhos… Caminhos!
Cada um com a sua história,
cada um com um destino!…
Caminhos que levam e trazem;
caminhos cruzados, esquecidos, abandonados;
caminhos que se encontram;
caminhos que se perdem!…
Caminhos do medo, da incerteza e da revolta;
caminhos dos enganos e dos desenganos,
onde durante anos aguardei a sua volta!…
Caminho da insensatez, da vaidade;
pelo qual você foi
deixando de vez
um peito angustiado,
sofrendo de saudade.
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Aldravia de
J. B. DONADON-LEAL
Mariana/MG

brigadeiro
cajuzinho
quindim
barrigas
nos
olhos
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Soneto de
JOSÉ RIOMAR DE MELO
Caucaia/CE

Meu verso

 Se meu verso te agrada, te conforta,
 Faz lembrar-te emoções que já viveste,
 Com algum deles talvez te comoveste,
 Ativando a esperança quase morta!

 É sinal que choveu na minha horta,
 Na emoção que a mim tu concedeste,
 Ao sentir que no verso que tu leste
 De euforia e de paz teu peito aborta;

 Entretanto se um deles não ressoa,
 Na fiel sintonia e te magoa,
 Na palavra ou na frase te feriu...

 Eu te peço perdão em tom profundo,
 Porque mesmo agradar a todo mundo,
 Jesus Cristo também não conseguiu...
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Na velhice, idade mestra
já sem forças para o embate,
vem a morte e nos sequestra
sem sequer pedir resgate.
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Pareça e Desapareça

Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parecia mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
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Quadra Popular de
MARIA DE LOURDES GRAÇA CABRITA
Portugal

Já tenho sinal aberto
pra no céu poder entrar,
não sei qual o dia certo,
vou quando Deus me chamar.
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Um narigudo

Homem sério, porém politiqueiro,
De inteligência mais ou menos clara,
É um edil, camarista ou camareiro,
De raro estofo e de feição bem rara.

Mais seco do que arenque de fumeiro,
Todo feito em lasquinhas de taquara,
Sacode em contorções o corpo inteiro
E tem puxos de filme pela cara.

Tem um nariz de cinco ou seis andares.
Se ele o entulhasse, num mister diverso,
De bicha, traques, fogos populares,

Faria uma fortuna, — é incontroverso, —
Pois, naquele nariz, turvem-se os ares!
Cabem todos os traques do universo!
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Trova de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Nascemos com o passaporte
com visto para a partida,
mas só de pensar na morte,
sinto saudade da vida!
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Poema de
LAWRENCE FERLINGHETTI
Bronxville/New York/EUA, 1919 – 2021,  São Francisco/Califórnia/EUA

15

Correndo risco constante
de absurdo e morte
toda vez que atua em cima
das cabeças da audiência
o poeta sobe pela rima
como um acrobata
para a corda elevada que ele inventa
e equilibrado nos olhares acesos
sobre um mar de rostos
abre em seus passos uma via
para o outro lado do dia
fazendo além de entrechats
truques variados com os pés
e gestos teatrais da pesada
tudo sem jamais tomar uma
coisa qualquer
pelo que ela possa não ser
Pois ele é o super-realista
que tem de forçosamente notar
a verdade tensa
antes de ensaiar um passo ou postura
no seu avanço pressuposto
para o poleiro ainda mais alto
onde com gravidade a Beleza
espera para dar
seu salto mortal

E ele um pequeno
homem chapliniano
que poderá ou não pegar
aquela forma eterna e bela
projetada no ar
vazio da existência
(tradução: Leonardo Fróes)
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Haicai de
ÂNGELA TOGEIRO 
Belo Horizonte/MG

Traças nos armários,
destroem qualquer passado,
roendo o inútil.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Iguaçu

Ó rio que nasceu onde nasci, ó rio
Calmo da minha infância, ora doce, ora má,
Belo estuário azul, espelhado e sombrio,
Quanto susto me deu, quanto prazer me dá!

Quantas vezes eu só, nestas manhãs de estio,
Ao vê-lo deslizar, pomposamente, lá,
Pálido não fiquei, tão majestoso vi-o,
Orgulho do Brasil, glória do Paraná!

Companheiro ideal! Durante toda a viagem,
Foi o espelho fiel a refletir a imagem,
Dos mantos e dos céus, discorrendo através

Da floresta, ora assim como um cão veadeiro,
A fugir, a fugir alegre e alvissareiro,
Ora deitado aqui quase a lamber-me os pés!
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES 
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Os noivos fazem questão
de ter as mãos sempre unidas.
- É fácil unir as mãos...
difícil é unir as vidas!
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Glosa de
LUPÉRCIO MUNDIM
Ipameri/GO

Sonhos e ilusões

MOTE:
Quantos sonhos e ilusões
tecemos na mocidade!
Mas, nas cinzas das paixões,
nos resta apenas saudade.
Angela Stefanelli de Moraes 
(Niterói/RJ)

GLOSA:
Quantos sonhos e ilusões
juntamos pela existência,
sendo que as desilusões
do sonho é a desistência.

Milhares de sonhos lindos
tecemos na mocidade!
Muitos deles não são findos,
nos trazendo ansiedade.

Machucamos corações,
tirando-lhes a esperança.
Mas nas cinzas das paixões
encontramos temperança.

Seguimos mesmo feridos,
mantendo a afetividade,
porque dos sonhos perdidos
nos resta apenas saudade.
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Aldravia de
FLÁVIA GUIOMAR ROHDT
Anastácio/MS

seus
olhos
faróis
necessários
nessa
escuridão
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Soneto de
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Mariana/MG, 1729 – 1789, Ouro Preto/MG

Onde estou?

Onde estou? Este sítio desconheço:
quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
e em contemplá-lo, tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
de estar a ela um dia reclinado;
ali em vale um monte está mudado:
quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
que faziam perpétua a primavera:
nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
mas que venho a estranhar, se estão presentes
meus males, com que tudo degenera!
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Trova de
ELISABETE AGUIAR
(Elisabete do Amaral Albuquerque Freire Aguiar)
Mangualde/Portugal

Não quero correr Contigo,
mas a Teu lado correr,
pra correr com o perigo
que corre pra me vencer.
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Poema de
ÂNGELO DE LIMA
Porto/Portugal, 1872 – 1921, Lisboa/Portugal

Olhos de lobas

 Teus olhos lembram círios
Acesos num cemitério...
Dr. Rogério de Barros

 Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris... Incendiados!...
 
Como os clarões finais... - Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados...
— Nas criptas dum jazigo tumular!...

 — Como a luz que na noite misteriosa
— Fantástica - Fulgisse nas ogivas
das janelas de estranho mausoléu!...

 — Mausoléu, das saudades do ideal!...

 — Oh saudades... Oh luz transcendental!
— Oh memórias saudosas do ido ao céu!...

 — Oh perpétuas febris!... - Oh sempre vivas!...
— Oh luz do olhar das lobas amorosas!...
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Haicai de
JEFFERSON HENRIQUE MODESTO
São Paulo/SP

Vovô na varanda
Só tem um pensamento –
Mais uma geada!
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Setilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Quanto sonho o verso opera...
Da Argentina a Portugal,
de Porto Alegre ao Caribe,
da Venezuela a Natal.
Sonho que une as nossas mãos
numa corrente de irmãos
tecendo um lindo ideal.
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Trova de
ELEN DE NOVAES FELIX
Niterói/RJ

As espadas da descrença
não ferem meu coração,
nem há presságio que vença
o poder de uma oração.
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Hino de 
SANTOS/ SP

Santos poema, jardins pela praia
Cidade e porto de mar
Tens a magia de barcos estranhos
Na barra esperando adentrar
Morros, varandas alegres
Suspensas no arvoredo
Santos das ruas antigas
À beira do cais
Que escondem segredos

Tuas paineiras floridas
Salgueiros que choram
Nos velhos canais
Santos, cuidado menina
As tuas belezas
Não percas jamais

Os flamboiãs florescentes
Palmeiras imperiais
Ilha Urubuqueçaba
O verde reduto
Nas ondas do mar

Oh! Santos
És linda demais!
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A Beleza e a Magia de Santos: Um Hino à Cidade
O 'Hino de Santos - SP' é uma celebração poética da cidade de Santos, localizada no litoral do estado de São Paulo. A letra da música destaca a beleza natural e a importância histórica da cidade, que é conhecida por seus jardins à beira-mar, suas ruas antigas e seu porto movimentado. A canção começa exaltando a magia dos barcos que chegam ao porto, trazendo consigo um ar de mistério e aventura. Essa imagem evoca a importância de Santos como um ponto de conexão entre o Brasil e o mundo, um lugar onde culturas se encontram e se misturam.

A música também faz referência aos elementos naturais que compõem a paisagem de Santos, como os morros, as varandas alegres e as paineiras floridas. Esses elementos são apresentados de forma quase nostálgica, como se fossem guardiões dos segredos da cidade. A menção aos salgueiros que choram nos velhos canais adiciona um toque de melancolia, sugerindo que a cidade tem uma história rica e complexa, cheia de momentos de alegria e tristeza.

Além disso, o hino faz um apelo para que a cidade preserve suas belezas naturais e arquitetônicas. A referência à Ilha Urubuqueçaba e às palmeiras imperiais reforça a ideia de que Santos é um lugar único, com uma biodiversidade e uma arquitetura que merecem ser protegidas. A exaltação final, 'Oh! Santos, és linda demais!', resume o sentimento de admiração e amor pela cidade, convidando os ouvintes a valorizar e cuidar desse patrimônio. 
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Poetrix de
CARLOS ALBERTO FIORE
Limeira/SP

dia-a-dia 

Rostos pesados.
Corações ásperos.
As ruas se apressam.
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
Santa Maria/RS, 1923 – 2009, Joaçaba/SC

Outono em meio

O vento desistiu de seus andares,
cansou-se e resolveu dormir mais cedo.
As folhas, nem balançam no arvoredo.
Borboletas...algumas pelos ares.

Nuvenzinhas solteiras e sem medo
buscam no céu seus noivos ou seus pares.
Cá por dentro borbulham os cismares
numa ausência de rumos e de enredo.

(- Ó tardes, de domingo, ensolaradas!...)
O silêncio murmura uma cantiga
para ouvirmos a sós...mas de mãos dadas.

Deixemos, por enquanto o lábio mudo!
E o relógio, deixemos que prossiga...
Conversar?...Para que, se sabes tudo?!.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A andorinha e os passarinhos

Certa andorinha que por esse mundo
Mil viagens fizera,
De muito e muito ver muito aprendera.
Chegara a tal primor, que ainda a tormenta
Nem sequer negrejava,
E já ela às marítimas companhias
A queda anunciava.
Sucedeu que no tempo em que é costume
Começar-se do linho as sementeiras,
Viu que um maltês andava nessa faina
Pelas compridas leiras.
«Mau vai isto — disse ela aos passarinhos —
Causais-me dó; por mim, tenho caminhos
De sobra onde vogar.
Vedes-me aquela mão que diligente
Gira e torna a girar?
Pois não vem longe o dia em a semente
Que hoje essas linhas traça,
Vos cause, pobre gente,
Eu sei, quanta desgraça!
Tereis a cada canto uma armadilha,
Perpétuo susto em horas de canseira;
Que na estiva sazão quando o sol brilha,
Anda perto a gaiola da caldeira.
Devorai-me esse pão já semeado,
E lestes, podeis crer».
Fez-lhe chacota o bandozinho alado:
Tinha mais que comer.
Ao surdir o linhal volta a andorinha:
«Fora com esta planta que é daninha,
Ou perdidos ficais!
Profeta de desastres, tagarela,
Bom feito nos lembrais;
Fora mister para um desbaste desses
Mil pessoas, ou mais!»
Crescera o linho, e a astuta conselheira
Insiste em martelar:
«Vejo que não há forma nem maneira
De vos poder guiar;
Pois, olhai: dentro em pouco o seareiro.
Apenas vir que a messe lhe loureja,
Põe logo mão na rede, e muito arteiro
Convosco entra em peleja
Sem vos deixar a cola;
Não sair do cadoz, e muito tento,
Ou dar asas ao vento
Como sucede ao pato e à galinhola.
Mas vós não podeis tal, não vos é dado
Transpor o monte, o cerro, a extensa onda:
Pois cada qual, prudente e a bom recado,
Na mais profunda toca se me esconda».
Refartos de presságios, os incautos
Rompem a vozear num desatino,
Quais Troianos no tempo em que Cassandra
Lia o porvir nas folhas do destino.
Andaram por igual: da passarada.
Muita se viu prender.

Nós damos peito à nova, se ela agrada,
E só cremos no mal depois de o ver.
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 160

Acordar cedo? Muito bom. Mas nos últimos tempos não tenho a necessidade e levanto um pouco mais tarde. A vida é feita de molas, umas puxam, outras encolhem. E como!

Recentemente fiquei fora de casa por um tempo maior, deixando, digamos, ao abandono os passarinhos sem quirerinha no bosco, os beija-flores sem a aguinha diária, os sabiás sem a ração no prato de vaso de flor.  

Voltei e vi. Vi o bosco triste, sem sons, sem cantorias, sem o casal de sabiazinhos cedinho a comer. Mas... Aquele MAS bom! Passados três dias, eis que acordo cedo e vejo ali os dois queridos cantadores da florestinha, com quem falo e os vejo querendo falar, o gogozinho em movimento, olhar firme, bem presente.

A companhia dos animaizinhos nos torna dependentes mutuamente. Necessitados. Desejados. Carentes na ausência. Uma saudadezinha até. Assim mesmo! Somos todos moradores da mesma casa comum - o planeta mãe-terra - e essa intimidade, aconchego, vivência, nos faz bem, nos faz alegres, é parte da felicidade que procuramos tanto, e está pertinho embaixo das árvores, junto às flores e às melodias canarinhas.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia): “Quem não te conhece, que te compre”

Imagem criada com Microsoft Bing

Quem lida com pessoa falsa, do tipo conhecido como “morde e assopra”, que publicamente simula afeição por outrem que particularmente detesta, nada melhor para defini-la do que essa expressão que remonta aos nossos avoengos e resume o perfil de quem assim se comporta: “Quem não te conhece, que te compre!...

Provérbio de largo emprego na terra de Camões – há quem diga que se originou na Espanha - onde também existe gente escusa, é a opção preferencial daqueles, destes e também dos brasileiros, para indicar depreciativamente quem cultiva a enganação, a mentira, a fofoca, o logro, a desonestidade, a sordidez e a intriga.

Desde cedo testemunhamos quando e como nossos pais a diziam, para evidenciar que alguém supostamente bonzinho, ocultava personalidade sórdida, mesquinha e reprovável, disfarçando sorridente sua letalidade de ofídio, a quem por sinal se amolda outro ditado: “É um lobo em pele de cordeiro”... 

Tal expressão não significa admitir, a contrario sensu, a licitude de suposto comércio de pessoas de boa índole, que não carregam o labéu de “não confiáveis” e sim, deixa claro que só confia na bisonha figura, quem com ela não convive, para saber de sua capacidade de dissimulação. A aparência, a simpatia, a conversa fluida, o sorriso postiço na cara, seduz apenas o desavisado "comprador" desses conhecidos campeões do engodo. 

Quem convive com esse time de aleivosos, por sinal fartos nos ambientes sociais e acadêmicos, empresas, repartições, associações e até nos templos religiosos, já deve ter sofrido na pele as falsidades desses artistas do disfarce, e devidamente escaldado, não mais se deixa levar pela encenação do impostor, nem se seduz quando ele usa sua pele de cordeiro. Porém, aonde, quando e como teria ela surgido? 

Existe a versão, que se afigura surreal, que conta que do interiorano simplório, nativo de Carmona, na espanhola Andaluzia, sabidamente generoso e afável, que além da modesta casa, possuía de seu apenas um burro de estimação, que evitava a todo custo usar no labor da roça, para não fatigar o animal. E para demonstrar seu apreço pelo animal, acostumou-se a andar nas ruas e estradas da região puxando-o pelas rédeas, em vez de simplesmente montá-lo. 

Certa vez, alguns estudantes arruaceiros, como de resto existem em qualquer lugar, o viram passar conduzindo desse jeito o jumento e decidiram roubá-lo. Enquanto uns levavam o animal sem que dono se apercebesse, o mais ousado do grupo ficou no lugar do burro, com a mão atada ao cabresto. Foi quando o ancião o viu e ficou pasmado, achando que o burro tinha se transformado em gente, pelo tanto que já se entendiam em razão do longo e carinhoso convívio.

Flagrado, o estudante foi inventivo: mentiu que no passado tinha sido brigão, arruaceiro, amante do copo e do baralho, vadio e vidrado num rabo de saia. Por isso seu pai o amaldiçoara com uma terrível praga: “Tu és um asno e em asno vais te transformar”. Foi tiro e queda. A maldição se concretizou, ele virou um vistoso burro e por alguns anos vinha vivendo daquela forma. Porém agora, arrependido dos pecados cometidos na fase errática da vida, tinha finalmente voltado ao normal, humanizara-se, pois a praga paterna havia perdido a força.

Maravilhado com a história, o crédulo ancião teve dó daquele estudante e nem se importou com o dinheiro que estava perdendo sem o burro que tanto o ajudava em suas tarefas. Generosamente, aconselhou o jovem a ir procurar o pai para com ele se reconciliar, virar a página e dar o assunto por encerrado. O pilantra, com lágrimas de crocodilo nos olhos, simulando gratidão, aproveitou a leniência do outro e simplesmente vazou, sumiu do mapa.

Tempos depois, passeando numa feira, o ingênuo dono do animal surrupiado ficou perplexo, ao ver que estava à venda um burro em tudo idêntico àquele que um dia fora seu. Óbvio que era o mesmo animal, entretanto, o crédulo sujeito concluiu que aquele estudante com quem conversara havia voltado à sua vida de bacanais e estripulias, por isso o pai o amaldiçoara novamente e por tal razão ele estava ali para ser vendido. Foi então que decidiu ir à forra. Aproximou-se do quadrúpede, crente que estava falando com o jovem, segredando-lhe ao ouvido: “QUEM NÃO TE CONHECE, QUE TE COMPRE!...” 

Na musica popular brasileira, a dupla Flávio Aquino e Gabriel compôs uma música que tem como titulo a dita expressão popular, cujo texto poético tem  pouco a ver com o seu tradicional significado: 

Todo mundo fala 
Todo mundo vê
Que meu corpo ferve 
Que eu amo você
Mas você disfarça 
E diz que não percebe
Diz que está sozinha pra ser mais feliz
Diz que não achou alguém à sua altura
 Esse orgulho besta, te leva a loucura
 Igual tensão de pré-vestibular

Quem não te conhece, que te compre...
Me leva de brinde, paciência
Pra esperar sentando, que isso ainda vai longe
Porque você se esconde?!...

Faltou um pouco mais de criatividade para melhor aproveitar um jargão cujo uso não se limitou à Península Ibérica. Atravessou o Atlântico e estacionou em Pindorama, varou gerações e até hoje se amolda de forma perfeita para qualificar os desqualificados, quais sejam, aqueles sobejamente conhecidos por suas falsidades, encenações, falcatruas ou grotescas enganações.
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, dentre eles um E-book e recebeu três prêmios literários. 

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Revista Crestomatia de Trovas n. 3 – junho de 2026 (Download gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Velhice — esse estágio de nossa vida, lapidado pela sensibilidade de vozes inesquecíveis.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz um verdadeiro "catatau" de trovas do mestre juizforense Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho. Uma imersão profunda na obra de um dos maiores expoentes da nossa arte.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro, falando sobre a rima.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem à delicadeza e ao talento do curitibano Maurício Norberto Friedrich, resgatando a memória da trova paranaense.

* Encerro com um artigo sobre o Trovadorismo.

Baixe em pdf no link abaixo

Boa leitura.
abraços trovadorescos

José Feldman

Chafariz de Trovas * 4 *


Solitário coração,
onde o sonho adormeceu...
– Lembra uma velha estação
que, sem trem, virou museu.
A. A. DE ASSIS 

Que destino, que porvir
pode a sorte reservar
a quem não sabe sorrir
e se esqueceu de chorar?!
ADALBERTO DUTRA DE REZENDE

Morre o pobre de arrepio,
gelado, se o frio aperta;
e dizem que "Deus dá o frio
conforme a nossa coberta".
ALFREDO DE CASTRO

Cai por terra qualquer festa
e minha alma triste chora,
quando vejo uma floresta
pela queimada indo embora...
ANALICE FEITOZA DE LIMA

Quem não sofreu a amargura
da eterna separação,
não entende a desventura
da palavra Solidão!
APARÍCIO FERNANDES

Eu hoje chamo saudade
o que ontem chamava amor.
A minha felicidade
mudou de nome e de cor.
ARGENTINA DE M. SILVA

Enquanto a vida não passa
enquanto a morte não vem,
quem deixa marcas de graça
têm outros mundos no além.
ARI SANTOS CAMPOS

Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
ARTHUR THOMAZ

Feito o sol que vai e volta,
é preciso renascer
com o mesmo brilho que escolta
a coragem de vencer.
BASILINA PEREIRA

Meu lenço, na despedida,
tu não viste em movimento:
- Lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento...
CARLOS GUIMARÃES

Hoje nada mais me importa,
pois se volto ao meu passado,
eu vejo a esperança morta
num castelo abandonado.
CARMEN OTTAIANO

Ele chega de mansinho,
velho cão ressabiado...
mas, se conquista um carinho,
nos dá carinho dobrado!
CAROLINA RAMOS

Ah! Somente o homem não crê
que a natureza, num grito,
chora muito quando vê;
Pinheiro virar "palito"!
CAROLINE PORTUGAL

Ninguém ouve mais o canto
matinal da passarada...
Vê-se agora, a fauna em pranto,
carpindo a dor da queimada!
CLARINDO BATISTA ARAÚJO

Pranteando a ponte antiga,
o rio, ao vê-la aos pedaços,
abrindo os braços à amiga,
carrega a ponte nos braços...
DARLY O. BARROS

Fiz do amor o meu caminho
só de verdades traçadas,
e dentro delas um ninho
com nossas mãos enlaçadas.
DAURA ROCHA BARBOSA RESENDE

Mãe! Criatura querida,
santa heroína sois vós;
quando nos destes a vida,
destes o sangue por nós!
DÉCIO VALENTE

Vão-se os séculos rolando
nas ampulhetas da vida;
corrente que vai passando
numa rota indefinida...
DJALDA WINTER SANTOS

Naqueles tempos de antanho,
de escribas e fariseus,
um Homem do meu tamanho
tinha o tamanho de Deus!
DURVAL MENDONÇA

O tempo passa, voando,
mas, deixa traços, enfim:
Um cansaço, me acercando,
premeditando o meu fim…
FABIANO DE CRISTO WANDERLEY

Velho - carrego esperanças
adubando a vida em flor;
- quem não cultiva as lembranças,
mata as raízes do amor.
GABRIEL BICALHO

Eu tenho te amado tanto,
com tão intensa paixão,
que muitas vezes me espanto
de ter um só coração!
GALDINO ANDRADE

Com que ironia o destino
pode este quadro pintar:
de um lado, um lar sem menino;
de outro, um menino sem lar.
HEGEL PONTES

A positiva corrente,
da força do pensamento,
faz a tristeza da gente
ser levada pelo vento!...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO

A neblina, em dias frescos,
descendo em vales sombrios,
aos poucos tece arabescos,
nas brancas margens dos rios...
HÉRON PATRÍCIO

- Olá! Onde tens andado?
Como estás, e que tens feito?
- Casei-me no mês passado.
- Eu não te avisei? Bem feito!
IVO DOS SANTOS CASTRO

Lá vai a vida, girando.
Então, giremos também,
que a vida gira, levando
os sonhos que a gente tem.
JESY BARBOSA

Neste mar de desenganos, 
levado pela maré, 
em tantos sonhos insanos, 
minha força é sempre a fé.
JOSÉ FELDMAN

Quando a jangada flutua,
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua,
nos olhos verdes do mar.
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Faz de ternura e carinho
corrente de amor fecundo...
E nunca andarás sozinho
nas correntezas do mundo.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Vejo no céu as estrelas
e fico triste a sonhar...
Porque não sei em qual delas
você, meu bem, foi morar!...
LICÍNIO COSTA

Você...sublime miragem
de um ideal sempre comigo,
iluminando a passagem
da caminhada que sigo...
LOURDES APARECIDA CIONE

Essa mão que lavra a terra
planta no chão a semente.
A benção de Deus encerra,
pois mata a fome da gente
LOURDES BASTOS DA PORCIÚNCULA

O mar nos deu a receita
de um viver sábio, fecundo:
sendo salgado, ele aceita
as águas doces do mundo!
LUIZ OTÁVIO

Na bicicleta, outro dia,
pedalava sorridente…
foi ao chão… quanta ironia…
perdeu, num deslize, um dente!
MAGNUS KELLY

Junto ao meu riso, o cansaço 
sorri, mas deixa sinais…
Se o tempo encurta o meu passo,
insisto, sonhando mais!
MARA MELINNI GARCIA

É pena que o mundo torça
a razão do bom ditado,
pois, se "a união faz a força",
por que um de cada lado?
MILTON NUNES LOUREIRO

Os teus cabelos, Maria,
embora soltos, me dão
a certeza de que, um dia,
hão de ser minha prisão!
OCTÁVIO BABO FILHO

Qualquer corrente não prende
um coração de mulher.
Mas, quando a mulher entende,
prende-se a um fio qualquer. . .
ORLANDO WOCZIKOSKY

Quem aos queixumes se lança
e se desfaz em lamentos,
— em vez de paz só alcança
aumentar seus sofrimentos.
PAULA FARIA

Se queres um bom conselho,
muito útil e bem pensado,
— nunca metas o bedelho
onde não fores chamado...
PETRARCA MARANHÃO

Sofrido!... E o pobre andarilho,
já velho e encurtando os passos,
só depois que encontra o filho
joga fora os seus cansaços!
PROFESSOR GARCIA

Uma verdade conforta
e torna a vida mais bela:
se o mundo nos fecha a porta,
Deus nos abre uma janela!
RODOLPHO ABBUD

Ante meus olhos tristonhos,
chorando minhas idades,
abro a cortina dos sonhos
num festival de saudades!
SANTIAGO VASQUES FILHO

Numa estranha semelhança
com a caixa de Pandora,
vivo apenas de Esperança,
porque o Sonho foi embora.
SARA MARIANY KANTER

Daquele amor proibido
eu guardo, da mocidade,
um lenço amarelecido
e um dilúvio... de saudade!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Manhã fria... Ela, sem graça,
ao dar-me adeus, da janela,
o orvalho, em sua vidraça,
clonou-me as lágrimas dela.
UBIRATAN QUEIROZ DE OLIVEIRA

Pelo mar da vida inteira,
conforme a força do vento,
és o ramo de oliveira,
nos dilúvios que eu enfrento!
VANDA FAGUNDES QUEIROZ

Conquista é jogo de azar
e, no amor, jogo pesado;
querendo te conquistar,
eu é que fui conquistado!
ZAÉ JÚNIOR

Artur de Carvalho (Uma gata)

Era noite e ela ainda não havia voltado. Fez de conta que não estava ligando, continuou assistindo TV como se não estivesse acontecendo nada. Olhava pela janela de vez em quando. Voltava para a frente da TV, controle remoto na mão. Ficava olhando a telinha azul despencando imagens sem sentido. O controle remoto criou uma nova programação. São programas onde imagens aleatórias de desenhos animados e de comentaristas políticos se intercalam, numa corrida sem sentido. São programas diferentes todos os dias, mas iguais em sua falta de objetividade. 

Desligou a TV, ligou o aparelho de som. Sintonizou uma rádio, para não precisar ficar trocando de CD. A música sertaneja invadiu as FMs. Ele era do tempo em que as FMs só tocavam música americana. Ou MPB. Não faz muito tempo não, até você deve se lembrar. E agora... só sertaneja. Ou pagode, essas coisas. Levantou e olhou pela janela de novo. O relógio. Ela devia ter chegado há mais de três horas. Deveria haver uma explicação lógica. Começou a tocar outra do Leandro e Leonardo. 

Resolveu colocar um CD. Aquela casa estava uma confusão. Procurou. Entre suas coisas tinha um CD com a trilha sonora do "Blade Runner", não achava. Desistiu de procurar. Devia estar perdido debaixo de alguma dessas almofadas. Ela gosta de almofadas. Tinha tantas por causa dela. Primeiro gostava daquelas menores, depois ele começou a trazer para casa aqueles almofadões. Deitavam e ficavam assistindo TV Eles nem sentavam mais no sofá. Com o tempo, dispensou os dois módulos, um com três lugares, outro com dois. A sala ficou maior, arrumou mais almofadas. Tropeçava nelas quando entrava em casa, no escuro. De vez em quando ela estava ali, enroscada com as almofadas, dormindo. Tropeçava nela também. Às vezes se agarrava em suas pernas e o fazia cair. Ele ria, se abraçava a ela e fazia cócegas na sua barriga. Ela não aguentava cócegas na barriga. Se davam bem.

Resolveu comer um pouco. Foi até a cozinha e esquentou um pouco de leite. Um pouco de leite quente o acalmava. Fez uma gemada. Bateu as gemas com açúcar e colocou no leite. Ficou mexendo com a colher de pau, até dissolver bem. Ela adorava gemada. Deixou um pouco na caneca, no caso dela voltar. Abriu a geladeira e tinha umas bolachas de maisena no pacote aberto. Pegou algumas. Gemada e bolachas de maisena.
 
É o que há.

Agora sim, havia ficado bem tarde. Novamente se aproximou da janela, a xícara com a gemada na mão, deu uma última espiada. Talvez não volte hoje. Já havia feito isso muitas vezes. Acabava voltando. Voltava com o rabo entre as pernas, como quem a pedir perdão. Ele sorria e sempre a desculpava. Não era de guardar rancores.

Mais uma hora ou duas se passaram, percebeu que iria dormir sozinho aquela noite. Ligou a TV novamente. Deixou na Globo mesmo, a transmissão não se interrompia. Sempre acordava quando deixava em outros canais, a programação acabava, acordava com o chiado da TV fora do ar. A Globo ficava a noite inteira. Arrumou umas almofadas, se deitou. Estava passando um filme de adolescentes de férias, garotas loiras de biquíni. Os olhos começaram a piscar. Fechou os olhos. Ainda ouvia o filme, depois nem isso. Dormiu.

Acordou com o hálito quente e forte dela. Era um cheiro conhecido. Depois de um tempo a gente se acostuma com os cheiros. Ela tinha um hálito diferente, adocicado. Sentia até saudades daquele cheiro. Ela se acomodou ao seu lado, buscando o calor de seu corpo. Ele a abraçou e sorriu.

Ela sempre voltava.
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Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fonte:
Projeto releituras Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
www.releituras/acarvalho_gata.asp.htm

Virgínia Maura Ferreira (A idade do tempo)

E o tempo tem idade? Quem colocou em nossas cabeças a existência da passagem do tempo? O que é o tempo? O tempo é o que nos leva o dia e faz chegar a noite, é o que traz o verão e o inverno, é o que nos faz comemorar mais um ano de vida e nos sentirmos mais velhos, é ver os filhos e sobrinhos crescerem numa rapidez de corrida de Fórmula 1.

Eu vivo brigando com o tempo. Ele zomba e ri de mim, porque ele sabe passar e eu não sei. Muitas vezes me perco olhando o tempo, e fico sem jeito, calada, sem nada pra dizer, ou querendo correr atrás tentando alcançá-lo, mas ele não deixa. Tudo me parece tão distante, minha infância, adolescência, juventude. Tudo tão fugaz, rápido demais. Ah... os sinais do tempo chegam para qualquer um, de mansinho, nos chamando para o espelho, mostrando as mudanças do corpo e da mente.

O tempo nos chama para a reflexão, para a tranquilidade com as coisas da vida. Ele também vai nos deixando muito sozinhos, solitários. Depois de um certo tempo criamos o nosso novo mundo. O tempo faz dessas coisas, tudo parece muito distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem. O tempo promete tantas coisas e o que fazemos com ele? Tantos planos feitos e desfeitos, sonhos, desejos não realizados.

Todos queremos aproveitar o tempo. Mas ele só passa rindo de nós. Não temos todo o tempo do mundo, bom seria se tivéssemos, mas um dia o nosso tempo também acaba. E, então, numa outra dimensão, nos perguntaremos: o que fizemos com ele?

Não interessa que dia é hoje, o que vamos ou não fazer, o que seremos ou não, o tempo segue nos espiando a cada passo e ação. Precisamos fazer as pazes com o tempo antes que ele nos leve... leve... leve... como as folhas coloridas que caem no outono da vida. Quero parar o tempo, mas ele foge e diz que viver é melhor do que sonhar. Ainda ando cheia de esperanças, de sentimentos, que nem o próprio tempo conseguirá apagar.
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Virgínia Maura Martins Ferreira é de São Luís/MA. Jornalista, instrutora de yoga e escritora, se aventura pelo mundo da literatura infantojuvenil. Tem oito livros publicados: seis em prosa e dois de poemas. Também escreve contos e crônicas, alguns publicados em Antologias e jornais locais.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera

Contos e Lendas do Mundo (Japão) As bodas do ratinho

Era uma vez um bebê da senhora Rato. Era uma ratinha que crescia rápido, e havia nascido em bom lar.

O tempo passava e a ratinha tornava-se cada vez mais bonita. Seus pais estavam muito felizes com ela e não conseguiam esconder a alegria que sentiam.

Um dia o senhor Rato disse, "Quero que minha filha ratinha fique noiva de algum pretendente. O noivo, entretanto, tem que ser o mais importante do mundo, e não qualquer um". Esta ideia não saía da cabeça do senhor Rato.

Depois de algum tempo, o senhor Rato decidiu conversar com o Sol. O senhor Rato chegara à conclusão de que o Sol era o mais importante no mundo. Estava aguardando impacientemente o momento de falar com o Astro-Rei.

"Rei Sol, ó rei, tenho uma bela ratinha, filha minha, em casa. Meu desejo, do fundo do coração, é que ela seja tua noiva e tu sejas seu marido. Considero-te o mais importante no mundo. Por favor, aceita minha filha como tua noiva e casa-te com ela", dizia o senhor Rato, reverenciando com respeito o Sol.

"Estou realmente grato", retrucou o Sol, "mas infelizmente tenho que recusar tua proposta. Não sou o mais importante no mundo. Há alguém mais forte do que eu".

Senhor Rato ficou surpreso com a afirmação. "De quem tu estás falando?"

"Esse que é mais forte do que eu é o senhor Nuvem", respondeu o Sol. "Mesmo que eu lance fortes raios sobre a terra, o senhor Nuvem os encobre toda vez que assim o deseja. Não posso fazer nada com ele. Ele é, com certeza, mais importante do que eu".

Assim que ouviu isso, o senhor Rato decidiu conversar com o senhor Nuvem. E foi atrás dele.

"Sei que tu és o mais importante no mundo. Por favor, casa com minha filha. Gostaria que ela fosse tua noiva", pedia mais uma vez o senhor Rato ao senhor Nuvem.

Novamente o senhor Rato recebeu uma resposta negativa. "Há um que é mais forte do que eu: é o senhor Vento", dizia com delicadeza o senhor Nuvem.

E mais uma vez lá foi o senhor Rato atrás do senhor Vento. Incansavelmente repetia:

"Tu és o mais importante no mundo. Por favor, casa-te com minha filha".

Como era de se esperar, o senhor Vento também recusou o convite. "Tu não estás certo. O senhor Parede é mais importante do que eu. Mesmo que eu sopre com toda força, incessantemente, o senhor Parede está lá, de pé, nada sofrendo. Não posso fazer nada com ele".

E assim continuava o senhor Rato, firme em seus pensamentos. Procurou o senhor Parede e fez-lhe o mesmo convite. Novamente houve recusa e o senhor Parede explicou ao senhor Rato:

"O rato é o mais importante no mundo. Não posso detê-lo quando ele decide roer minha parede e fazer buracos em mim".

Depois de tanto vagar em busca do mais importante noivo para sua filha, o senhor Rato teve de aceitar a ideia de ter um genro rato. Finalmente encontrou o noivo ideal para a ratinha e as bodas de casamento ocorreram. O casal de ratinhos viveu feliz para sempre.

Fonte:
Era Uma Vez… 13.11.2014
https://byblosfera.blogspot.com/2014/11/as-bodas-do-ratinho-conto-japones.html