sábado, 20 de junho de 2026

José Feldman (O Grande Teatro do Ônibus Lotado)


Há dias em que eu acho que o ônibus não é um meio de transporte. É uma nave espacial. Um laboratório ambulante. Um aquário onde a humanidade vai nadando em círculos, sendo exposta ao mesmo fenômeno: calor, suor, paciência acabando e a inevitável certeza de que alguém vai fazer alguma coisa totalmente desnecessária — e, por algum motivo, sempre às segundas-feiras.

Eu entro no ônibus achando que “hoje eu vou de boa”. Mentira. Ninguém vai “de boa” num ônibus lotado. No máximo, você vai *sobrevivendo*.

Logo na porta, começa a primeira cena: o ritual do “com licença”. A pessoa fala “com licença” como se estivesse pedindo permissão para existir. Ela mal entra e já está ocupando seu espaço como se fosse dono do assento — e com uma felicidade incrível por estar atrasada. Você responde com um sorriso nervoso (aquele sorriso de quem já desistiu de qualquer esperança) e segue.

Acontece então a segunda cena, que é sempre parecida: alguém decide que sabe como funcionam as regras da gravidade.

Você está lá, equilibrado como um pato num passeio de ioga, quando o ônibus dá aquela arrancada brusca. Não é “um leve solavanco”. É uma largada de Fórmula 1. Aí você vê o senhor — ou a senhora, porque neste teatro não existe diferença — que tenta segurar na barra com a dignidade de um atleta olímpico… e falha com convicção. A mão escapa, o corpo acompanha e, por meio segundo, você acha que vai presenciar um pouso forçado.

Mas não. A pessoa se recupera milagrosamente… do jeito mais ridículo possível: ela não cai, mas abraça o ar. É como se tivesse acabado de anunciar: “Eu não caio. Eu flutuo.” Só que flutua dois centímetros e volta.

Eu, que sou uma criatura civilizada, tento ajudar.

“Tá tudo bem?”

Tá, claro. Tudo bem até você perceber que quem deveria estar segurando é a pessoa segurando você pelo casaco com a força de um polvo apaixonado. Aí você percebe que “ajudar” é uma palavra muito otimista pro contexto.

E não demora para surgir o personagem número três: o gênio do corredor.

Você sabe quem é. Sempre tem alguém que acha que o ônibus lotado é uma academia: ele faz malabarismo com carrinho de compras, mochila nas costas e uma sacola tão grande que deve ter sido proibida em convenções internacionais. Ele passa pelo corredor como quem está atravessando o deserto com coragem. Só que, no ônibus, o deserto é seu joelho e o vento é o cheiro do fundo do saco.

Aí ele para.

Justamente quando o ônibus está no apogeu do trânsito e todo mundo está prestes a aceitar a morte.

Ele para para procurar o bilhete, o cartão, a carteira, o documento, a alma, o universo e possivelmente a certidão de nascimento. Ele abre a bolsa com calma cirúrgica, como se o mundo fosse esperar. O ônibus inteiro vira um coro de respiração contida.

E é aí que acontece a tragédia burocrática: o cartão não funciona.

“Ô… funcionou não.”

Diz isso como se fosse uma notícia do tempo. Como se o ônibus não pudesse simplesmente continuar e ele pudesse reclamar do cartão com o motorista por causa da rota do destino. Aí todo mundo olha com cara de “meu amigo, a gente tá sendo esmagado por uma agenda de problemas”.

O motorista, claro, segue como se estivesse encenando uma peça chamada *Coragem e Impaciência*. Ele não tem culpa, mas carrega a culpa, porque é ele que vai ouvir.

E alguém sempre pergunta coisas inúteis, com uma autoridade que não combina com o fato de estar amassado numa pilha humana. Por exemplo:

“Dá pra voltar ali pra eu descer?”

Num ônibus em movimento. Num ônibus lotado. Numa situação em que o corpo de todo mundo já virou um único ser, uma massa ambulante com vontade própria.

E, claro, o pedido vem com um “calma aí” dito ao universo inteiro.

Enquanto isso, o ambiente vai piorando. Porque ônibus lotado não é só espaço. É também clima emocional e acústica. Tem sempre um celular tocando alto o suficiente para você descobrir que a pessoa tem um gosto musical que ninguém pediu e que agora virou patrimônio público.

Você ouve:
- “A ligação gratuita é até tal horário”
- a música que parece gritar “estou numa propaganda”
- e a voz do outro lado falando como se o ônibus fosse um confessionário.

Aí entra o momento mais clássico: o alarme do “membro fantasma”.

A pessoa segura na barra e, quando o ônibus dá uma freada, ela faz aquele movimento automático de levantar a mão para segurar de novo… só que não pega em nada.

Você vê claramente nos olhos: “eu estava segurando… acho que…”

E o ônibus, como um vilão cinematográfico, decide exatamente neste instante que a próxima parada é em 3 segundos. A freada vem. A mão vai ao ar. O corpo tenta resistir. E a pessoa — num gesto que mistura pânico e orgulho — se recupera como se tivesse feito aquilo de propósito para dar um show.

Enquanto isso, tem outro tipo de pessoa que é o *professor de comportamento*.

É aquela que sempre acha um jeito de mandar aviso para o ônibus inteiro, como se fosse o mestre de cerimônias:

“Pessoal, calma… segurem aqui.”

Segura aqui. Segurem aqui. Segurem aqui.

Você não sabe se a pessoa está avisando ou comandando. Porque o que ela fala não parece pedido. Parece ordem de operação. Ela diz isso com a autoridade de quem já nasceu com apito no pescoço.

E o pior: todo mundo até presta atenção por 2 segundos. Só por 2 segundos.

Porque aí o ônibus faz uma curva — uma daquelas curvas que deveriam ser feitas somente por atletas — e todo mundo volta ao estado inicial: ser humano amassado e resignado.

Chega então o momento “altamente improvável”.

Uma criança começa a chorar.

Não é um choro pequeno. É um choro de ópera. É um choro que ecoa no teto do ônibus como se fosse som de igreja. E os adultos fazem aquela coisa maravilhosa de *competência improvisada*: cada um tenta resolver o problema do universo com o que tem à mão.

“Tá doendo? Deixa eu ver.”

“Ele tá com fome.”

“Não… ele tá entediado.”

“Olha, dá um doce.”

Mas aí você descobre que não tem doce. Nunca tem doce. E mesmo que tivesse, quem trouxe? Ninguém trouxe doce. A criança chora como se tivesse treinado para isso, como se tivesse ensaiado na semana toda.

E, de repente, surge o milagre: o choro para.

Como? Ninguém sabe. A criança viu algo. Ou lembrou de alguma coisa. Ou entrou num modo dramático e decidiu encerrar.

Aí todo mundo suspira aliviado.

E é exatamente nesse instante que acontece a última situação ridícula do ônibus: o microevento do “desculpa”.

A pessoa vai levantar para descer e encosta em você com o calcanhar, o cotovelo, a sacola, a intenção. Ela vira para pedir desculpas com uma voz mansa:

“Foi mal, viu.”

Mas a face diz claramente:
“Foi culpa do universo, mas eu aceito que a culpa pode cair em mim também.”

E você responde com educação. Sempre com educação. Porque ônibus lotado ensina uma coisa: a civilização é frágil, mas você tenta segurar.

Quando eu finalmente chego ao meu ponto e desço, eu penso:

“Graças a Deus terminou.”

Mas aí eu olho para o ônibus e tenho a certeza absoluta: ele só começou.

Porque lá dentro sempre existe um próximo capítulo. Um próximo “com licença” sincero, um próximo cartão que não funciona, uma próxima mão que não acha a barra, uma próxima criança que vai cantar o hino do desespero…

E eu, mesmo depois de descer, ainda sinto o balanço, como se o ônibus tivesse me adotado pelo resto do dia.

No fim, eu acho que ônibus lotado é isso: não é transporte. É comédia. É tragédia em capítulos curtos. É um circo sem palhaço, onde o palhaço é a vida — e o picadeiro é o corredor apertado.

E, sinceramente? Eu sempre volto. Porque ninguém aguenta a rotina sem pelo menos uma dose de ridículo embalado em lotação.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Asas da Poesia * 193 *


Trova Humorística de
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ

No documento é solteira,
mas vendo a idade da dona,
diz a patroa encrenqueira:
solteira, não, solteirona...
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Poema de
MIGUEL REALE 
São Bento do Sapucaí/SP, 1910 – 2006, São Paulo/SP

Colunas do tempo

Ardem meus pés na turfa da existência,
pés doridos de avanços e recuos,
nem há como atenuar a dor intensa
que é látego de nervos e perguntas.
Sinto-me planta um plátano partido
pés fincados no chão,
estaca lavrada e fria
relegada à beira do caminho.

É o que resta da vida em labirinto
esgalhada em mil aspirações,
vida barroca incerta e retorcida
à sombra de arabescos e ouropéis.
Como as colunas dóricas perduram!
Esguias retilíneas intocáveis
em sua heráldica forma para o alto,
sem frisos ou volutas perturbando
a serena ascensão vertical.

Quem já se lembra dos antigos ritos
à luz do templo - templo eleusínio
na secreta unidade da semente
donde brotam vitórias e derrotas
que são vaidade e cruz da espécie humana?

É tarde, é muito tarde!
Nem há mais púlpito ou monge que o proclame
para que as horas voltem à sua fonte
na comunhão dos homens e dos deuses.
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Trova de
AUGUSTO CÉSAR FERREIRA GIL
Lordelo de Ouro/Portugal, 1873 – 1929, Guarda/Portugal

Riquezas tenhas tão grandes,
e tal bondade também,
que ao redor donde tu andes
não fique pobre ninguém.
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Soneto de
LÊDO IVO
Maceió/AL, 1924 – 2012, Sevilha/Espanha

Soneto de Outubro 

Se mais que a forma e mais que o pensamento
guardado na vigília, sem temor.
Fica no meu olhar, como no amor
verteria teu nome em verso atento.

Sê mais que a forma sempre em movimento
tornada mais humana pela dor.
Fica dormindo em mim, quando eu me for
e te deixar entregue ao desalento.

Sê minha mesmo que eu não te conheça
e te ame sem te ver, sempre te vendo
na forma que jamais fuja ou pereça.

Para tocar-te, eu sempre as mãos estendo
mas não te alcanço, e em minhas mãos transformas
teu corpo imaginário em puras formas. 
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Trova de
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
Niterói/RJ

Quis comprar felicidade,
mas ela veio vencida,
no prazo de validade
por tantos ais nesta vida. 
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Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Afra

Um sorriso apenas!!!
Seduz-me.
Manda-me para casa.
Alegra o meu dia...
Embriaga-me de desejo.
Derrota-me por fim,
Esvanece-me!

Re-luz na minha treva diária.
Lança-me para luz...
Na minha luta diária!
Derrota-me...
Por fim.

Um sorriso apenas, e nada mais.
Beltia imortal!
Dos meus desejos mais profanos!
Visita-me no meu sonho, mais sagrado...
Na infinitude, de todo o meu ser.
Imperfeito!

Deusa sagrada.
Me da um sorriso apenas,
Evanece-me por fim!
Sorri e me derrota.
Manda-me para casa.
Sozinho e derrotado

Lança-me para minha treva diária.
Para a minha vida vazia.
Derrote-me...
Esvanece-me por fim.
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TROVA POPULAR

Hei de fazer um relógio
de um galhinho de poejo,
para contar os minutos
do tempo que não te vejo.
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Soneto de
BEATRIZ FRANCISCA DE ASSIS BRANDÃO
Vila Rica (atual Ouro Preto)/MG, 1779 – 1868, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

Estas, que o meu Amor vos oferece,
Não tardas produções de fraco engenho,
Amadas Nacionais, sirvam de empenho
A talentos, que o vulgo desconhece.

Um exemplo talvez vos aparece
Em que brilheis nos traços, que desenho:
De excessivo louvor glória não tenho,
E se algum merecer de vós comece.

Raros dotes talvez vivem ocultos,
Que o receio de expor faz ignorados;
Sirvam de guia meus humildes cultos.

Mandei ao Pindo os voos elevados,
E tantos sejam vossos versos cultos,
Que os meus nas trevas fiquem sepultados.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Sempre que um tronco desaba,
sob o machado inclemente,
tarde ou cedo a gente acaba
sentindo a dor que ele sente!
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Poema de
ADÉLIA EINSFELDT
Porto Alegre/RS

Desconhecida

Sou desconhecida
      irreconhecida
entre a multidão.
Minha luz é apagada
Sigo pela estrada
Seguindo trilhas
      caminhos
Perdida estou.
A lua clara
       brilhante
Me acompanha
Todo instante
       intrigante
Andante que sou.
O amanhecer
me pega cansada
Sombras ao longe
Tento reconhecer
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Haicai de
MADÔ MARTINS
Santos/SP

Goiaba madura -
Aberta a competição
entre homens e larvas.
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE, 1862 – 1935, Fortaleza/CE

Teu Nome

É bálsamo de amor que os lábios suaviza 
É cântico do céu... encanta, atrai, consola, 
Essência lirial que para Deus se evola, 
É hino de esperança e as dores ameniza. 

Maria! Ao repetir teu nome se matiza 
De bênçãos meu viver que a dor cruel. 
Doce réstia de luz, confortadora esmola 
Da graça e do perdão que as almas sublimiza. 

Permite, oh! Mãe bondosa, oh! Virgem sacrossanta 
De teu nome ideal que a melodia santa, 
Vibrando dentro em mim as horas de amargura, 

Seja a nota eteral, a nota harmoniosa 
Que minha alma murmure, a te fitar ansiosa, 
Estrela que nos guia à pátria da ventura!
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Trova de
SUELY BRAGA
Osório/RS

      Muitas rosas só não falam.
      Não nos ferem com espinhos.
      Um doce perfume exalam
      e nos cobrem de carinhos.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
As trevas se dissiparam 
quando apareceu uma luz 
que todos abençoaram, 
bendito nome... Jesus!
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR

Glosa:
As trevas se dissiparam 
quando os anjos do Senhor, 
aos homens, anunciaram 
a vinda do Salvador! 

Ao mundo se fez presente, 
quando apareceu uma luz 
nos céus, vinda do Oriente, 
anunciando o Rei Jesus! 

Os homens glorificaram 
a vinda do Deus menino, 
que todos abençoaram, 
pelo seu nascer divino! 

Nasceu numa estrebaria 
pra morrer na rude Cruz; 
só assim nos salvaria: 
bendito nome... Jesus!
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Trova de
CLARINDO BATISTA DE ARAÚJO
Jardim do Piranhas/RN, 1929 – 2010, Natal/RN

Contra o perigo atual
já não há quem se previna
porque, do gênio do mal,
há um clone em cada esquina!
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Tributo a Nilton Tuller
(homenagem ao Pastor maringaense)

Há muito ouvi falar de seu talento
Por todos caminhos por onde pisavas.
Ainda agora na cultura em que lavras,
Traze-nos total louvor... Encantamento!

Certo, na vivência e a cada momento,
Nas veredas do altíssimo trilhavas;
Com maestria no manejo das palavras,
Sempre a expor o mais puro sentimento.

Assim em sua missão de fiel e bom pastor,
Em versos, disse ESTOU PRONTO SENHOR,
Daí o reconhecimento de todo povo...

Numa prova de amor santo, verdadeiro,
Deus, como pediste, tal qual o oleiro,
Transformou sua vida, num VASO NOVO!
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Trova de
ROBERTO TCHEPELENTYKY 
São Paulo/SP

Sobre a parreira, o luar 
no sereno te retrata… 
E os teus olhos a brilhar: 
“Duas uvas”… cor de prata… 
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Poema de
CERES DE FERRANTE
Curitiba/PR, 1928 – 2016

Simples Geometria

Caminhamos em busca de um encontro…
Nossas vidas eram apenas paralelas.
A curva de nossos braços
não chegou a completar
seu círculo de ternura…
nem eram perpendiculares
nossos caminhos…
por isso permanecemos
dois pontos no infinito.
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Triverso de
ANTONIO LUIZ LOPES TOUCHÉ
Guarulhos/SP

A paixão revigora, 
Faz o outono primavera 
Na hora. 
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Setilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Pausa na chuva. Gostei.
Aproveitam-se as florinhas
para alegres se exibirem
quais festivas menininhas.
De múltiplas cores elas,
brancas, azuis, amarelas,
auspiciosas rainhas.
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Trova de
ANTONIO SIÉCOLA MOREIRA
Santa Rita do Sapucaí/MG

As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
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Hino de 
PIRACICABA/ SP

Numa saudade, que punge e mata
Que sorte ingrata longe daqui,
Em um suspiro, triste e sem termo,
vivo no ermo, dês que parti.

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!

Em outras plagas, que vale a sorte?
Prefiro a morte junto de ti.
Amo teus prados, os horizontes,
o céu e os montes que vejo aqui.

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!

Só vejo estranhos, meu berço amado,
Tendo ao teu lado o que perdi...
Pouco se importam com teu encanto,
Que eu amo tanto, dês que nasci...

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Saudade e Amor à Terra Natal
O 'Hino de Piracicaba - SP' é uma ode à cidade de Piracicaba, expressando um profundo sentimento de saudade e amor por essa terra natal. A letra, repleta de emoção, retrata a dor de estar longe de casa e a constante lembrança dos encantos e belezas da cidade. A saudade é descrita como algo que 'punge e mata', uma dor intensa que acompanha o eu lírico desde que partiu de Piracicaba.
A cidade é personificada como um lugar cheio de flores e encantos, um refúgio de beleza e paz que o eu lírico anseia reencontrar. A repetição do estribilho 'Piracicaba que eu adoro tanto, cheia de flores, cheia de encantos...' reforça o amor incondicional e a conexão profunda com a cidade. A letra também destaca a incompreensão dos outros em relação à dor do 'filho ausente', enfatizando a solidão e a saudade que acompanham aqueles que estão longe de sua terra natal.
Além disso, o hino contrasta a vida em outras plagas com a vida em Piracicaba, sugerindo que, apesar das oportunidades e sorte que possam existir em outros lugares, nada se compara ao conforto e à felicidade de estar em casa. A preferência pela morte junto à cidade natal em vez de viver longe dela é uma metáfora poderosa que ilustra a intensidade do amor e da saudade. A letra também critica a indiferença dos 'estranhos' em relação aos encantos de Piracicaba, ressaltando a conexão única e insubstituível que o eu lírico tem com sua cidade de origem. 
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Poetrix de
ANTHERO MONTEIRO
(Antero Manuel Dias Monteiro)
São Paio de Oleiros/Portugal, 1946 – 2022

morte

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Ampulheta

Quem se concentra no volume da areia
Que se transporta ao outro lado da ampulheta,
Não sabe olhar a solidão da lua cheia
Nem vê o sangue escorrer da baioneta.
 
Quem se divide entre o sonho e a vida
Encontra tempo entre a dor e a fantasia,
Vê que é real o surgimento da ferida,
Mas faz da vida um motivo de poesia.
 
Quem exercita o amor de forma rara
Em um planeta onde a inveja vira a cara
Para o sucesso de quem crê no ser humano,
 
Sabe que o tempo da ampulheta entorpece,
Porém o tempo do amor sempre enternece
Quem sobrevoa a solidão em outro plano.
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Trova de
ANTONIO COLAVITE FILHO
Santos/SP

As lágrimas das meninas,
 Deus, não podendo contê-las,
 recolhe nas mãos divinas
 e com elas faz estrelas…
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A mosca e a formiga

Uma mosca importuna contendia (discutia)
Com a negra formiga, e lhe dizia:
«Eu ando levantada lá nos ares,
E tu por esse chão sempre a arrastares;
Em palácios estou de grande altura,
Tu debaixo da terra em cova escura.
A minha mesa é rica e delicada;
Tu róis os grãos de trigo e de cevada:
Eu levo boa vida, e tu, formiga,
Andas sempre em trabalho e em fadiga.»

A formiga lhe disse: «Tu me enfadas
Com essas tuas vãs fanfarronadas.
Que te importa que eu ande cá de rastos
Com desprezo das pompas e dos fastos?
Para amparo e abrigo não há prova
De valer mais palácio do que cova.
O palácio é do rei ou da rainha,
E não teu; mas a cova é muito minha;
Eu a fiz com a minha habilidade;
Porventura tens tal capacidade?
Para aqui. Tuas prendas afamadas
Não passam de zunir e dar picadas.
No que toca a comer, os meus bocados
Não me sabem pior que os teus guisados.
Teus lhe chamo? — os que furtas; nesta parte
Vais comigo, que eu uso da mesma arte;
Porém não vivo em ócio e em preguiça,
Como tu, lambareira, metediça;
Por isso te aborrecem e te enxotam
Com uma raiva tal, que ao chão te botam.
Fazem-me porventura esse agasalho?
Louvam-me em diligência e em trabalho:
Eu faço para inverno provimento;
Morres nele — ou por falta de alimento,
Ou por vir sobre ti algum nordeste,
Que para a tua casta é uma peste.»
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Mensagem na Garrafa 188 = Eu pedi a Deus


AUTOR ANÔNIMO

Eu pedi a Deus que tirasse meu orgulho.
E Deus disse não! 
Não Lhe cabia tirá-lo, mas a mim deixá-lo...

Eu pedi a Deus que me desse paciência.
E Deus disse não! 
Ele disse que a paciência nasce das atribulações;
Ela não é concedida, é merecida...

Eu pedi a Deus que me concedesse felicidade.
E Deus disse não! 
Ele disse que me daria Suas bênçãos; 
A felicidade viria de mim mesmo...

Eu pedi a Deus que me poupasse do sofrimento.
E Deus disse não!
Ele disse que a dor afasta-me das ilusões da vida e leva-me para mais perto d'Ele...

Eu pedi a Deus que me fizesse crescer minha vida espiritual.
E Deus disse não!
Ele me disse que eu deveria crescer sozinho, mas Ele vai podar-me como um ramo, para que produza frutos...

Eu perguntei a Deus se Ele me ama.
E Deus disse sim!
Ele deu-me Seu Único Filho, que morreu por mim
E quer-me um dia no céu, pela minha Fé...

Então, pedi a Deus que me ajudasse a amar os outros como Ele me ama.
E Deus disse:
"Finalmente compreendeste!"