domingo, 28 de junho de 2026

Nelson Rodrigues (Um Caso Perdido)


A princípio, a família foi contra:

— Esse sujeito não presta! É um bestalhão! Um conversa-fiada!

Talvez fosse isso e muito mais. Para começar não trabalhava, nem queria nada com o trabalho. Além disso, bebia, jogava, vivia metido com desclassificados de ambos os sexos, em pagodes espetaculares. Apontava-se, mesmo, uma fulana, de péssimos antecedentes, que, segundo se dizia, o sustentava. Os parentes de Edgardina tentaram dissuadi-la da paixão inconveniente e escandalosa:

— Homem é o que não falta. Escolhe outro, escolhe um que valha a pena.

— É de Humberto que eu gosto. Os outros não me interessam.

Amava-o desde menina; e, através dos anos, não achara graça em mais ninguém. Podiam dizer o diabo do rapaz que ela mesma explicava: “Entra por um ouvido, sai pelo outro”. A rigor, só ficou impressionada uma vez, uma única vez. Foi quando lhe disseram que o namorado vivia às custas da tal fulana. Edgardina saltou: “Mentira! Calúnia!”. Mas, apesar da reação inicial, muito veemente, a dúvida ficou. Acabou fazendo ao bem-amado uma pergunta frontal:

— Que negócio é esse que me contaram?

— Que foi?

Ela, sem tirar os olhos dele, disse:

— Que você toma dinheiro de mulher.

A CONFISSÃO

Prensado pela pequena que, na verdade, era seu primeiro e grande amor, Humberto teve, diante de si, dois caminhos: ou negar ferozmente ou… Ia negar, em pânico. Mas quando abriu a boca, deu uma coisa nele, uma espécie de heroísmo súbito, quase histérico. De olhos esbugalhados, os beiços trêmulos, transpassou a pequena com a revelação:

— É verdade, sim. Tomo dinheiro de mulher. Sempre tomei.

A menina cobriu-se de uma palidez mortal, como nos velhos romances. Mal pôde suspirar:

— Humberto!

Foi uma cena magnífica e atroz. Ele, que pegara embalagem, foi até o fim, contou tudo, sem omitir nada. Disse que, sem emprego, sem níquel, aceitava dinheiro de uma, de outra. Batia nos peitos, atirava patadas no assoalho. Por fim, flagelou-se, cruelmente, aos olhos da pequena; chamou-se de “canalha”, “patife”, “caso perdido”. E terminou, num desafio frenético:

— Você sabe tudo. E agora pode me cuspir na cara. Cospe! Anda, cospe!

Ofereceu o rosto. E como Edgardina, petrificada, não dissesse uma palavra, não esboçasse um gesto, ele caiu em uma crise medonha de choro. Então, a menina, que era um anjo autêntico, teve uma dessas comoções que não se esquecem, uma dessas piedades incoercíveis. E, se já o amava antes, agora muito mais. Aos seus olhos, a confissão do bem-amado o purificara de tudo e de todos. Disse mais:

— Não interessa o que você fez, meu filho. Eu gosto de você, pronto, acabou-se.

E ele:

— Você é um anjo. Se não fosse você, eu metia uma bala na cabeça, já, imediatamente!

Então, mais calmos, os dois combinaram tudo: data do casamento etc. etc. No fim, Edgardina impôs apenas uma condição:

— Você vai me prometer uma coisa.

— O quê?

— Que nunca mais aceita dinheiro de mulher. É tão feio!

— Te juro! Te dou minha palavra de honra!

O CASAMENTO

E, de fato, a partir da confissão, Humberto foi outro homem. Deixou de beber, de jogar e quando entrava num café e vinha o garçom, ele, erguendo o rosto numa espécie de desafio às potências do álcool, dizia:

— Água mineral!

E fez mais: devolveu à tal fulana que o sustentara um relógio, um anel com suas iniciais, um cinto com fivela de prata, um porta-chaves caríssimo. Rompeu, em termos definitivos, com todas as suas antigas ligações. Os amigos tentavam seduzi-lo:

— Deixa de ser besta!

Mas ele, embora com água na boca, tinha um repelão furioso: “Esse negócio, para mim, acabou. Estou noivo, vou me casar, stop”. Foi uma mudança tão patética que o próprio futuro sogro, que era um espírito de porco, se deixou impressionar: “Parece que meu genro tomou vergonha”. E o resto da família em coro:

— Tomara! Tomara!

Dois dias antes do casamento, Humberto ia chegando em casa quando deu de cara com a fulana que o sustentara. A alma caiu-lhe aos pés. Em pânico, olhou para todos os lados: “Imagine, se vissem”. Arrastou-a para um canto discreto; e, lá, discutiram, em voz baixa. A mulher fez uma súplica desesperada, que o horrorizou. Insistiu, cravando as unhas nas mãos do rapaz:

— Só essa vez! Só essa vez!

— Você está maluca? Não pode ser! Vou me casar amanhã!

A outra agarrava-se a ele:

— É a despedida, Humberto! — E teimava no argumento: — “Pela última vez!”.

Na verdade, o que a tentava, naquele momento, era o noivo alheio, o noivo da outra, na antevéspera do casamento. E ele, que era um fraco diante da mulher em geral, mesmo das feias, mesmo das sem graça, quase sucumbiu àquele assalto noturno. Lembrou-se, porém, de Edgardina e, fazendo das tripas coração, desprendeu-se histericamente, arremessou-se para dentro de casa.

Ofegante, descabelado, fechou as portas atrás de si, arriou as trancas. Já então a fulana, do lado de fora, uivava:

— Te dei muito dinheiro, cachorro! Olha, não me troco pela lambisgóia da tua noiva!

Caras espavoridas apareciam em várias janelas. No dia seguinte, Humberto contou tudinho à noiva. Descobrira que era negócio dizer a verdade e, mesmo, exagerar a verdade. A noiva, maravilhada com esta sinceridade, deu-lhe um beijo na testa.

O DESTINO

O rapaz não tinha emprego. Mas o sogro foi de uma magnanimidade impressionante. Chamou-o:

— O negócio é o seguinte: para mim, tanto faz que meu genro trabalhe ou deixe de trabalhar. Contanto que trate bem a minha filha.

Dito e feito. Casaram-se e nunca faltou nada naquela casa. Todos os dias, de manhã, Edgardina, da maneira mais delicada e sutil possível, enfiava no bolso da calça do marido uma cédula, ora de vinte, ora de cinquenta, ora de cem mil-réis.

Justiça se faça a Humberto: aceitava a situação com esplêndida naturalidade. Lá fora, nas esquinas, nos cafés e nas residências, dizia-se o diabo do rapaz. Era chamado de “palhaço”, de “sem-vergonha”, de “sujo”. Edgardina soube; solidarizou-se com o marido:

— Não liga, meu filho. O que eles têm é inveja.

Feliz, realizada, contava para os amigos: — “Bebeto é da seguinte teoria: — entre homem e mulher, não há perversão. Vale tudo!”.

A pequena estava, então, no quinto mês de gravidez. Não deixava o marido fazer nada: ela pagava as contas, dirigia a casa. Dir-se-ia o homem ali dentro. Humberto não queria saber de nada, não assumia responsabilidade alguma, no horror de qualquer iniciativa. Dizia sempre:

— Isso é com minha mulher. Não tenho nada com isso.

Queria sossego. E quando o sogro, com a autoridade de quem corre com as despesas, exigiu um neto, Humberto relutou. Teve medo do parto, do filho; confidenciou com a mulher: “As crianças são muito levadas. Dão um trabalho danado”. Mas o sogro fez pé firme; queria um neto de qualquer maneira. Incapaz de resistências prolongadas, Humberto aquiesceu, afinal. E quando o velho soube que Edgardina ia ter neném, meteu a mão no bolso, tirou uma cédula de quinhentos e mandou a filha dar ao genro.

O fato é que a perspectiva do filho tirou o sossego do rapaz. Vivia atribulado com as possíveis doenças que o guri pudesse ter. Gemia: “Imagine se ele apanha uma coqueluche braba”. Enfim, passaram-se os meses e chegou o grande dia. Apavorado, Humberto viu a mulher pôr a boca no mundo: “Uai!”. O sogro berrou: “Vai buscar a parteira, que é pra já!”. Ele arremessou-se pelas escadas abaixo, à procura da profissional que morava duas quadras adiante. E não voltou, nunca mais.

ANOS DEPOIS

O parto foi feito de qualquer maneira. Uma vizinha improvisou-se em parteira, enquanto a outra, a autêntica, não aparecia. E a criança nasceu perfeitíssima. Então começaram a procurar o pai.

Foram à polícia, ao hospital, ao necrotério. Nada. A hipótese de fuga ou suicídio era absurda. Humberto vivera, em casa, como um paxá. Um mês depois, já não havia mais dúvida: estava morto. Não se sabia onde, mas era óbvio. E então, a viúva, no seu luto fechado, começou a fazer questão do cadáver. Exigia, em brados medonhos:

— Quero o corpo! Quero o corpo!

Havia um rio próximo. Supôs-se que o rapaz se tivesse afogado. E, no mínimo, as águas o levaram para outras e longínquas terras. Edgardina teve que se conformar; mas ficou, na sua alma, o ressentimento de viúva espoliada no seu defunto. Imersa numa fúria petrificada, dizia: “Eu não enterrei meu marido”.

E os anos, sem que ela percebesse, foram passando, um a um. Edgardina sempre de preto; e feliz, envaidecida, porque a dor não arrefecia no seu coração. Doze anos depois, consentiu, enfim, em ir, pela primeira vez, a um circo, que estava de passagem.

Foram os dois: ela, de luto, e o filho, com doze anos, vestido à marinheira. Assistiam à função quando, de repente, a bateria da charanga cria a ilusão do perigo, do abismo. É um número mundial de equilibrismo. Um benemérito surge no arame, de sombrinha aberta. Edgardina crispa-se na cadeira. Não é possível, não pode ser… Sopra, afinal, ao ouvido do filho:

— Teu pai… Teu pai…

Rompe, no circo, o grito da criança:

— Papai! Papai!

O equilibrista estaca; olha, apavorado. Larga a sombrinha, larga tudo, desaba lá de cima. Depois, no hospital, houve cenas delirantes. Humberto estava de perna engessada e suspensa. Quis saber se o filho já tivera coqueluche. Quando informaram que sim, gemeu:

— Ótimo… Ótimo…

Fizeram espetacularmente as pazes.

Mas nunca se soube por que desaparecera, naquela noite, doze anos atrás.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. A vida como ela é… Publicado originalmente em 1961
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, etc.

sábado, 27 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 12 *


 Pelo destino ligados
enfrentando as mesmas lidas,
ainda somos namorados
no final de nossas vidas!
ADALBERTO DUTRA DE REZENDE
- - - - - -
Alguém, com mão distraída,
te prende os louros cabelos,
— e eu dava um terço da vida
pela emoção de prendê-los!
ADELINO MOREIRA MARQUES
- - - - - -
Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo...
— E eu, que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo.
ADELMAR TAVARES
- - - - - -
Alma gêmea de minha alma,
não me tortures assim,
pois, de toda a sua calma,
não tenho a metade em mim!
ADOLFO MACEDO
- - - - - -
Não quero mais os teus beijos
assim dados por favor,
— Eles matam meus desejos,
mas ofendem meu amor...
AGMAR MURGEL DUTRA
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Não lastimo, não deploro
minha vida acidentada;
tu me queres, eu te adoro,
não preciso de mais nada.
ALBANO LOPES DE ALMEIDA
- - - - - -
Se saber te fosse dado
a razão da minha dor,
talvez    houvesses deixado
na ilusão do meu amor!
ALBERTO NAVARRO DE MIRANDA
- - - - - -
Tu és o eterno motivo
do meu sonho embriagador:
se por teu amor eu vivo,
vivo morrendo de amor!
ALTEVIR ALENCAR
- - - - - -
Amor! Como dói lembrá-lo,
esse tempo em que te amei!
— Como é triste ser vassalo
na terra em que se foi rei!
ALTINO MORAES
- - - - - -
Tal como o sol aparece
dissipando a cerração,
um grande amor desvanece
mágoas do coração.
APARÍCIO FERNANDES
- - - - - -
Ao seu amado não ande
cobrando mínimas penas...
— O amor verdadeiro é grande
até nas coisas pequenas!
BALTHAZAR DE GODOY MOREIRA
- - - - - -
A morte passou por mim,
maldade assim ninguém diz!
— Não me levou, mas levou
quem me fazia feliz.
CELINA FERREIRA
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Surges entre grandes almas
E deslumbras, meu amor!
Quando te vi, bati palmas,
aplaudindo o Criador!
GABRIEL VANDÔNI DE BARROS
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Eu choro a ilusão perdida,
com infinito amargor.
— De que me vale esta vida,
se não tenho o teu amor?
HILDA KOLLER
- - - - - -
Tua ternura, criança,
contagia o meu viver.
Parece até que a esperança
vai parar meu padecer…
MARIA FONSECA
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Que grande surpresa eu tive,
dos teus carinhos no ardor,
sentindo quanto se vive
quando se morre de amor!
MÁRIO BRAGA
- - - - - -
O tempo tudo consome:
— tristeza, queixume e dor…
Só não desfaz o teu nome
da minha história de amor!
MÁRIO R. BARRETO
- - - - - -
Não é o mistério da morte
que me envolve de pavor.
Ê a grande falta de sorte
de não possuir teu amor!
NOEL BERGAMINI
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De esperar a minha amada
a minha alma não se cansa,
pois até quem não tem nada
tem ainda a esperança...
NOEL ROSA
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Quem cai também se levanta,
diz assim velho ditado.
— Deixe eu cair, minha santa,
no seu colo perfumado…
ORILO DANTAS
- - - - - -
Menina, pelo que vejo,
não podes avaliar
o tresloucado desejo
que eu tenho de te beijar!
PEDRO PEIXOTO DE AGUIAR
- - - - - -
O mar é triste — eu sou triste.
Ele soluça – eu também.
Por ele um dia partiste
e eu nunca mais quis ninguém!...
RENÉ CHAMUSCA
- - - - - -
Falo de amor, achas graça
e ris da minha paixão.
Sempre rirás da desgraça
que aflige o meu coração?
ROBERTO BELO DE PAULA
- - - - - -
Fui buscar felicidade
Tão longe,,. não sei porque!
Hoje eu sei que, na verdade,
felicidade é você!
ROSE GAMA
- - - - - -
Toda ventura é pequena,
Neste mundo enganador.
E a vida só vale a pena
pelos momentos de amor!
RUBENS DE CASTRO
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Que ando de amores contigo
Dizem s!, na cidade;
e eu guardo a mágoa comigo
de não ser isto verdade...
SADY MAURENTE
- - - - - -
Fecha bem tua janela
quando te fores deitar.
— No quarto de uma donzela
nem a lua deve entrar!
SALOMÃO JORGE
- - - - - -
No deserto que me oprime,
— beduíno da ilusão —
és a miragem sublime
que me deslumbra a visão.
ULYSSES LINS
- - - - - -
Tanto tempo a mendigar
um pouco de sentimento,
e sem poder alcançar
o que pede o pensamento!...
VIRGÍNIA MADEIRA
- - - - - -
Amo-te tanto, querida,
que estremeço ao imaginar:
que será de minha vida,
se você me abandonar?
WALMIR COELHO
- - - - - -
Amor, és mago sagrado.
escravo e dominador!...
E eu te amando e sendo amado
sou teu escravo e senhor!
ZÉLIO BENEVIDES
- - - - - -
Eu canto em trovas, Senhor,
a festa que trago em mim,
porque só quem sente o amor
é feliz e canta assim…
ZOLACHIO DINIZ
- - - - - -
Nas minhas horas de enlevo,
a desfilar emoções,
invejo as folhas de trevo,
feitas com três corações.
ZULEIKA HALLAIS WALSH

Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972.

Ecos do Deserto (Baixe o livro gratuitamente)


"Ecos do Deserto: contos do oriente antigo" é um convite para você desatar as amarras do tempo e embarcar em uma jornada inesquecível pelas areias da sabedoria eterna.

Nesta obra extraordinária, o autor José Feldman resgata a magia magnética de As Mil e Uma Noites e a genialidade filosófica de Malba Tahan. Pelos olhos e pela voz de Mustafá, o peregrino e contador de histórias de Bagdá, somos conduzidos por bazares vibrantes, palácios ocultos, desertos impiedosos e mares misteriosos do Oriente Antigo. Cada página é um tecido rico em mistério, reviravoltas e o mais puro deleite literário.

Muito mais do que meras fábulas do passado, estas narrativas funcionam como espelhos mágicos para a alma moderna. Os dilemas dos mercadores de Kashan, as ambições nas ruínas da Babilônia e as provações no Vale do Sal ecoam com precisão os desafios, as vaidades e as buscas do nosso próprio cotidiano. Ao final de cada crônica, a moral revelada por Mustafá derrama-se como água fresca no deserto, trazendo lições atemporais sobre resiliência, humildade, o poder do silêncio e a força do coração.

Deixe-se encantar pelo aroma de mirra e o brilho das estrelas. Abra este livro e descubra que o maior tesouro do peregrino não é o que ele encontra na estrada, mas a sabedoria que ele deixa gravada na alma de quem para para escutar.

Baixe o livro gratuitamente em

José Feldman (Ecos do Deserto) 12. O Mercado do Silêncio de Samarcanda


A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração. Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a honestidade/confiança do vendedor.

Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um sábio que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto.

Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da verdade divina.

A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando o relato. 
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     JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Aparecido Raimundo de Souza (Por conta daquele quadrinho na parede)

A MINHA PRINCESA foi embora. Partiu sem aviso prévio, sem um “até breve”, ou um “até a volta”. Foi, a espevitada, sem um “adeus” formal, levando consigo no brilho dos olhos meigos, o som cálido das risadas que enchiam toda a minha esperança e, de lambuja, carregou o meu “eu” interior, outorgando ao ar a presença maciça de um vazio pesado e insubstituível em lugar dos abraços especiosos que pareciam não ter fim. 

Quando fechei a porta da sala e olhei ao redor do silêncio, tudo parecia ter ficado no lugar: a coleção de vestidos, as saias e calças, as bonequinhas Barbie, os sapatos arrumados no canto, os livros na estante, a toalha de banho pendurada no gancho do banheiro. Mas nada tinha o mesmo sentido, a mesma graça. Tudo parecia sem miolo, como se o íntimo de toda a casa, do nada, num sopro, tivesse parado de existir.

Depois de dias revirando memórias e tentando encontrar um vestígio que ainda fosse dela, algo sólido que eu pudesse tocar e sentir que ela não tinha partido por completo, percebi, meu Pai Eterno, ou melhor, me dei conta de tudo o que ficou dela, só restou, palpável, o quadrinho. Aquele quadrinho pequeno, que eu mesmo pendurei com cuidado, que sedimentei num prego pequeno, mas bem firme, no lugar em que, a meu ver, seria o mais claro de toda a sala. 

E esse lugar, sem dúvida alguma, em cima da minha escrivaninha de trabalho. Na “foto-moldura”, se vê uma casinha frente a um lago de águas claras e, ao redor, muitas árvores frondosas. Poderia jurar, obviamente, em louca imaginação, ela sorrindo faceira, os cabelos esvoaçando ao sabor do vento, o seu vestidinho jeans desbotado e no rostinho ah, no rostinho, aquele ar de quem tem o mundo inteiro preso entre os dedos das mãos. 

Quando ela se foi, achei apenas um registro bonito dessas lembranças. Hoje, ele é o seu último endereço aqui comigo. Minha princesinha se foi e nesse momento está voando, ganhando o mundo nas asas desses gigantes que cortam o espaço num vai e vem incessante. Quando vejo um avião passando, imagino seja ela indo para um país desconhecido, ou por outra, voltando de Nova York ou Madri. 

Quem sabe pousando na França, ou indo para Dubai, Japão, Malásia, Toronto ou sobrevoando a Alemanha. O fato é que dela nada mais ficou, a não ser a saudade imensa, aliás, penso com meus botões, que a minha princesinha nem lembre do pai e dos regalos dadivosos que deixou desprotegidos no âmago das minhas entranhas mais escondidas. 

Às vezes, chego perto do quadrinho e passo os dedos devagar sobre o ornamento da moldura. Não sinto, verdade seja dita, a pele, tampouco me aquece o calor, bem ainda não ouço a sua voz abrandada, ou a suavidade da respiração, mas ao contrário, me atropela a sua presença. É nesse quadrinho de infindas magnitudes que guardo o último pedaço visível do que fomos: o olhar, o jeito de inclinar a cabeça em meus ombros, o brilho eterno que ninguém mais tem. 

A parede, antes apenas um suporte, agora é o lugarzinho sagrado onde ela continua “morando” de alguma forma, tipo assim, silenciosa, imóvel, mas sempre ali. As pessoas dizem que o tempo apaga as dores. Talvez sim, mas ele não invalida as marcas, não desvanece os carinhos, não dissipa os aconchegos, tampouco dispersa os momentos que se fizeram inesquecíveis dentro da nossa convivência mútua de pai e filha.  

O quadrinho continua lá. Segue firme, como um recado diário: “Pai, eu fui daqui, mas nunca deixarei de ser a sua filha”. 

Minha princesa agora não anda pelos corredores. Não pede que eu prepare o seu café com leite, seu pão com manteiga, não pede, aconchegada em meus braços, à noite, antes de se recolher, que lhe “conte historinhas de príncipes encantados”. 

O quadrinho continua na parede. Segue firme e forte, dependurado com o amor que ela em tempos idos me presenteou e a mesma felicidade que eu empreguei para pendurá-lo. Enquanto ele estiver ali, eu sei, o vazio não será total. Aprendi que a lembrança tem rosto, a saudade uma cor esmaecida, e a casinha parece estar incansavelmente de olhos voltados para um caminho de terra batida esperando alguns passos apenas da porta de entrada. 

Na minha saudade, no meu devaneio, no meu desacerto, sei que antes de fechar os meus olhos para sempre eu a verei correndo em minha direção, os braços abertos gritando: “Papai, meu papito, eu voltei...”. 

E então, eu morrerei feliz em saber que por ela ter voltado, (ainda que em minha imaginação conturbada), eu nunca, em nenhum momento saí definitivamente de dentro de seu coração.
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      O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto e quadro enviados pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

Interlúdio para Reflexão – 1 -

 

Leandro Bertoldo (O homem que contava histórias)


Talvez uma das características mais marcantes dos seres humanos é a capacidade de contar histórias. Temos necessidade delas. Não seria exagero dizer: são as histórias a nos manterem vivos, pois a falta delas representa a falta da existência.

Quando contamos histórias damos vazão a nossa voz interna, aquela parte de nós que necessita expressar-se, mesmo quando o mundo parece não escutar.

Contar histórias, seja falada ou escrita, é uma forma de não silenciar a alma, de dar continuidade à própria narrativa, mesmo diante das indiferenças.

Quantas vezes deixamos de falar o que sentimos ou mesmo escrever o que queremos apenas porque os outros “não escutam ou leem”?

É preciso saber que as histórias nos convidam a alcançarmos a autenticidade, não como forma de sermos reconhecidos, mas como forma de permanecermos inteiros.

Paradoxalmente, são nos momentos de solitude que alcançamos o sentido essencial de nossas vidas. Portanto, contar histórias passa a não ser mais para e sobre o outro, e sim para preservar a nossa própria humanidade.

Mesmo quando temos a sensação de não sermos ouvidos, seguir falando, escrevendo e criando é manter acesa a chama do (ser) humano.

Isso muda completamente o foco do fazer (para fora) para o ser (para dentro). Não é mais contar ou escrever para mudar o mundo, mas para não ser mudado por ele.

Tem uma história que ilustra perfeitamente esse pensamento. Como ela é curta, irei transcrevê-la aqui:


Era uma vez um homem que, cansado de ver as pessoas de sua cidade sempre tensas, angustiadas e tristes, resolveu fazer algo por elas.

Como sabia de cor lindas histórias, sentou-se num banquinho no meio da praça e pôs-se a contar e a contar…

E assim o contador de histórias passava os seus dias…

A princípio, algumas pessoas paravam para ouvi-lo, curiosas. Mas só ficavam um pouquinho, pois tinham muita pressa, seu tempo era curto!

Mesmo assim, o homem não desistia: todos os dias, punha o seu banquinho na praça e contava as suas histórias repletas de fantasia.

O tempo passou…

Um dia o contador de histórias narrava, para uma plateia inexistente, uma maravilhosa fábula, quando um garotinho, puxando-o pela manga, interrompeu-o:

— Ei, tio! Será que você não percebeu que não tem ninguém ouvindo? Por que você insiste em contar essas histórias?

Então, o sábio homem respondeu:

— Olha, meu filho, antes eu contava histórias pensando em mudar o mundo; hoje, eu conto histórias para que o mundo não me mude…
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Esta é uma história da tradição judaica que está no livro “O Homem que contava histórias”, de Rosane Pamplona e Sônia Magalhães.

Bem, acredito ter ficado clara a necessidade de continuarmos a contar histórias…

E você, qual história está contando na vida?
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O escritor mineiro LEANDRO BERTOLDO SILVA é uma das vozes mais originais e dedicadas da literatura contemporânea em Minas Gerais. Destaca-se por seu fazer literário independente e artesanal, promovendo ativamente a leitura e a biblioterapia. Nasceu em Belo Horizonte/MG. Formou-se em Letras pela PUC/MG em 1999. Desde 2011, reside no município de Padre Paraíso, localizado no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais. Atua como escritor, facilitador de oficinas de escrita criativa, mediador de leitura e especialista em Biblioterapia. Fundou a [Árvore das Letras](https://arvoredasletras.com.br/), uma escola-ateliê voltada para cursos de linguagem. Também criou o selo independente Alforria Literária, produzindo livros manuais com papel ecológico e orgânico. É membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (ALTO), em Minas Gerais.
Sua escrita transita entre contos mínimos, crônicas e romances. Caracteriza-se pelo lirismo e pela valorização da experiência física do objeto-livro. Publicou Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno (Romance); Entrelinhas: Contos mínimos (Coletânea de minicontos); Para sempre, amanhã (Livro de crônicas); O Menino que Aprendeu a Imaginar e O Barquinho de Papel (Contos avulsos). Participação em diversas antologias literárias e escrita de textos para teatro.
A trajetória de Leandro é reconhecida pelo impacto de seus projetos de fomento cultural em regiões periféricas. Seus livros contam com selos de reconhecimento e distinções em editais culturais mineiros focados em preservação ecológica e difusão literária independente. A relevância de Leandro Bertoldo Silva reside na descentralização da cultura brasileira. Ao levar projetos e oficinas para o Vale do Jequitinhonha, ele atua diretamente na formação de novos leitores e autores em locais vulneráveis. Sua proposta conceitual de "artesania literária" — costurando, prensando e ilustrando livros à mão — resgata a afetividade da leitura e propõe alternativas sustentáveis ao mercado editorial tradicional.

Fontes:
Enviado pelo autor.
Biografia = Árvore das letras; Literalmente Uai; Clube de autores; Poetas e escritores do Vale e Amazon.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 162


Saio a caminhar na tarde gelada de junho. Estertores do outono. Ventos maldosos lembram dos costados do Cáucaso e suas montanhas branquinhas que nocauteiam viventes nos tempos de invernia. Mas ventos e estações não conhecem geografias. Ventos são os eternos romeiros, andarilhos pelos caminhos. As estações têm sua missão a cada ano.

Vou para a rua bem armado - um farnel generoso e delicioso. Bornal a tiracolo com caneta, papel, máquina fotográfica, água e alguma fruta da estação. E lá nos vamos subindo o morro do Gavião.

Abaixo da Estância Maggiorino encontro o riacho junto à bica d'água. Vai silencioso, fraquinho, indolente, quase parando com a frialdade. Lá do fundo da mata vem o ronquinho gostoso de água descendente, dessedenta.

Aqui e ali alguns pinheiros remanescentes dos dias áureos dos pinheirais. Névoa azulada permeia os ares, nos gramados curucacas desfilam a bicorar o solo, raios de sol distantes no ocidente. Pássaros emplumadinhos na galharia.  

Instantes dourados, ando a cantar uma música no mundo interior com a paz inconsciente. O enlevo do caminho põe inspiração, fazendo da  caminhada uma pequena romaria de alumbramento. Regozijo que invade o ser e incendeia a crosta do coração e o recôndito da alma.

Felicidade. Será ?
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.