sábado, 27 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 12 *


 Pelo destino ligados
enfrentando as mesmas lidas,
ainda somos namorados
no final de nossas vidas!
ADALBERTO DUTRA DE REZENDE
- - - - - -
Alguém, com mão distraída,
te prende os louros cabelos,
— e eu dava um terço da vida
pela emoção de prendê-los!
ADELINO MOREIRA MARQUES
- - - - - -
Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo...
— E eu, que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo.
ADELMAR TAVARES
- - - - - -
Alma gêmea de minha alma,
não me tortures assim,
pois, de toda a sua calma,
não tenho a metade em mim!
ADOLFO MACEDO
- - - - - -
Não quero mais os teus beijos
assim dados por favor,
— Eles matam meus desejos,
mas ofendem meu amor...
AGMAR MURGEL DUTRA
- - - - - -
Não lastimo, não deploro
minha vida acidentada;
tu me queres, eu te adoro,
não preciso de mais nada.
ALBANO LOPES DE ALMEIDA
- - - - - -
Se saber te fosse dado
a razão da minha dor,
talvez    houvesses deixado
na ilusão do meu amor!
ALBERTO NAVARRO DE MIRANDA
- - - - - -
Tu és o eterno motivo
do meu sonho embriagador:
se por teu amor eu vivo,
vivo morrendo de amor!
ALTEVIR ALENCAR
- - - - - -
Amor! Como dói lembrá-lo,
esse tempo em que te amei!
— Como é triste ser vassalo
na terra em que se foi rei!
ALTINO MORAES
- - - - - -
Tal como o sol aparece
dissipando a cerração,
um grande amor desvanece
mágoas do coração.
APARÍCIO FERNANDES
- - - - - -
Ao seu amado não ande
cobrando mínimas penas...
— O amor verdadeiro é grande
até nas coisas pequenas!
BALTHAZAR DE GODOY MOREIRA
- - - - - -
A morte passou por mim,
maldade assim ninguém diz!
— Não me levou, mas levou
quem me fazia feliz.
CELINA FERREIRA
- - - - - -
Surges entre grandes almas
E deslumbras, meu amor!
Quando te vi, bati palmas,
aplaudindo o Criador!
GABRIEL VANDÔNI DE BARROS
- - - - - -
Eu choro a ilusão perdida,
com infinito amargor.
— De que me vale esta vida,
se não tenho o teu amor?
HILDA KOLLER
- - - - - -
Tua ternura, criança,
contagia o meu viver.
Parece até que a esperança
vai parar meu padecer…
MARIA FONSECA
- - - - - -
Que grande surpresa eu tive,
dos teus carinhos no ardor,
sentindo quanto se vive
quando se morre de amor!
MÁRIO BRAGA
- - - - - -
O tempo tudo consome:
— tristeza, queixume e dor…
Só não desfaz o teu nome
da minha história de amor!
MÁRIO R. BARRETO
- - - - - -
Não é o mistério da morte
que me envolve de pavor.
Ê a grande falta de sorte
de não possuir teu amor!
NOEL BERGAMINI
- - - - - -
De esperar a minha amada
a minha alma não se cansa,
pois até quem não tem nada
tem ainda a esperança...
NOEL ROSA
- - - - - -
Quem cai também se levanta,
diz assim velho ditado.
— Deixe eu cair, minha santa,
no seu colo perfumado…
ORILO DANTAS
- - - - - -
Menina, pelo que vejo,
não podes avaliar
o tresloucado desejo
que eu tenho de te beijar!
PEDRO PEIXOTO DE AGUIAR
- - - - - -
O mar é triste — eu sou triste.
Ele soluça – eu também.
Por ele um dia partiste
e eu nunca mais quis ninguém!...
RENÉ CHAMUSCA
- - - - - -
Falo de amor, achas graça
e ris da minha paixão.
Sempre rirás da desgraça
que aflige o meu coração?
ROBERTO BELO DE PAULA
- - - - - -
Fui buscar felicidade
Tão longe,,. não sei porque!
Hoje eu sei que, na verdade,
felicidade é você!
ROSE GAMA
- - - - - -
Toda ventura é pequena,
Neste mundo enganador.
E a vida só vale a pena
pelos momentos de amor!
RUBENS DE CASTRO
- - - - - -
Que ando de amores contigo
Dizem s!, na cidade;
e eu guardo a mágoa comigo
de não ser isto verdade...
SADY MAURENTE
- - - - - -
Fecha bem tua janela
quando te fores deitar.
— No quarto de uma donzela
nem a lua deve entrar!
SALOMÃO JORGE
- - - - - -
No deserto que me oprime,
— beduíno da ilusão —
és a miragem sublime
que me deslumbra a visão.
ULYSSES LINS
- - - - - -
Tanto tempo a mendigar
um pouco de sentimento,
e sem poder alcançar
o que pede o pensamento!...
VIRGÍNIA MADEIRA
- - - - - -
Amo-te tanto, querida,
que estremeço ao imaginar:
que será de minha vida,
se você me abandonar?
WALMIR COELHO
- - - - - -
Amor, és mago sagrado.
escravo e dominador!...
E eu te amando e sendo amado
sou teu escravo e senhor!
ZÉLIO BENEVIDES
- - - - - -
Eu canto em trovas, Senhor,
a festa que trago em mim,
porque só quem sente o amor
é feliz e canta assim…
ZOLACHIO DINIZ
- - - - - -
Nas minhas horas de enlevo,
a desfilar emoções,
invejo as folhas de trevo,
feitas com três corações.
ZULEIKA HALLAIS WALSH

Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972.

Ecos do Deserto (Baixe o livro gratuitamente)


"Ecos do Deserto: contos do oriente antigo" é um convite para você desatar as amarras do tempo e embarcar em uma jornada inesquecível pelas areias da sabedoria eterna.

Nesta obra extraordinária, o autor José Feldman resgata a magia magnética de As Mil e Uma Noites e a genialidade filosófica de Malba Tahan. Pelos olhos e pela voz de Mustafá, o peregrino e contador de histórias de Bagdá, somos conduzidos por bazares vibrantes, palácios ocultos, desertos impiedosos e mares misteriosos do Oriente Antigo. Cada página é um tecido rico em mistério, reviravoltas e o mais puro deleite literário.

Muito mais do que meras fábulas do passado, estas narrativas funcionam como espelhos mágicos para a alma moderna. Os dilemas dos mercadores de Kashan, as ambições nas ruínas da Babilônia e as provações no Vale do Sal ecoam com precisão os desafios, as vaidades e as buscas do nosso próprio cotidiano. Ao final de cada crônica, a moral revelada por Mustafá derrama-se como água fresca no deserto, trazendo lições atemporais sobre resiliência, humildade, o poder do silêncio e a força do coração.

Deixe-se encantar pelo aroma de mirra e o brilho das estrelas. Abra este livro e descubra que o maior tesouro do peregrino não é o que ele encontra na estrada, mas a sabedoria que ele deixa gravada na alma de quem para para escutar.

Baixe o livro gratuitamente em

José Feldman (Ecos do Deserto) 12. O Mercado do Silêncio de Samarcanda


A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração. Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a honestidade/confiança do vendedor.

Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um sábio que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto.

Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da verdade divina.

A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando o relato. 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

     JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Aparecido Raimundo de Souza (Por conta daquele quadrinho na parede)

A MINHA PRINCESA foi embora. Partiu sem aviso prévio, sem um “até breve”, ou um “até a volta”. Foi, a espevitada, sem um “adeus” formal, levando consigo no brilho dos olhos meigos, o som cálido das risadas que enchiam toda a minha esperança e, de lambuja, carregou o meu “eu” interior, outorgando ao ar a presença maciça de um vazio pesado e insubstituível em lugar dos abraços especiosos que pareciam não ter fim. 

Quando fechei a porta da sala e olhei ao redor do silêncio, tudo parecia ter ficado no lugar: a coleção de vestidos, as saias e calças, as bonequinhas Barbie, os sapatos arrumados no canto, os livros na estante, a toalha de banho pendurada no gancho do banheiro. Mas nada tinha o mesmo sentido, a mesma graça. Tudo parecia sem miolo, como se o íntimo de toda a casa, do nada, num sopro, tivesse parado de existir.

Depois de dias revirando memórias e tentando encontrar um vestígio que ainda fosse dela, algo sólido que eu pudesse tocar e sentir que ela não tinha partido por completo, percebi, meu Pai Eterno, ou melhor, me dei conta de tudo o que ficou dela, só restou, palpável, o quadrinho. Aquele quadrinho pequeno, que eu mesmo pendurei com cuidado, que sedimentei num prego pequeno, mas bem firme, no lugar em que, a meu ver, seria o mais claro de toda a sala. 

E esse lugar, sem dúvida alguma, em cima da minha escrivaninha de trabalho. Na “foto-moldura”, se vê uma casinha frente a um lago de águas claras e, ao redor, muitas árvores frondosas. Poderia jurar, obviamente, em louca imaginação, ela sorrindo faceira, os cabelos esvoaçando ao sabor do vento, o seu vestidinho jeans desbotado e no rostinho ah, no rostinho, aquele ar de quem tem o mundo inteiro preso entre os dedos das mãos. 

Quando ela se foi, achei apenas um registro bonito dessas lembranças. Hoje, ele é o seu último endereço aqui comigo. Minha princesinha se foi e nesse momento está voando, ganhando o mundo nas asas desses gigantes que cortam o espaço num vai e vem incessante. Quando vejo um avião passando, imagino seja ela indo para um país desconhecido, ou por outra, voltando de Nova York ou Madri. 

Quem sabe pousando na França, ou indo para Dubai, Japão, Malásia, Toronto ou sobrevoando a Alemanha. O fato é que dela nada mais ficou, a não ser a saudade imensa, aliás, penso com meus botões, que a minha princesinha nem lembre do pai e dos regalos dadivosos que deixou desprotegidos no âmago das minhas entranhas mais escondidas. 

Às vezes, chego perto do quadrinho e passo os dedos devagar sobre o ornamento da moldura. Não sinto, verdade seja dita, a pele, tampouco me aquece o calor, bem ainda não ouço a sua voz abrandada, ou a suavidade da respiração, mas ao contrário, me atropela a sua presença. É nesse quadrinho de infindas magnitudes que guardo o último pedaço visível do que fomos: o olhar, o jeito de inclinar a cabeça em meus ombros, o brilho eterno que ninguém mais tem. 

A parede, antes apenas um suporte, agora é o lugarzinho sagrado onde ela continua “morando” de alguma forma, tipo assim, silenciosa, imóvel, mas sempre ali. As pessoas dizem que o tempo apaga as dores. Talvez sim, mas ele não invalida as marcas, não desvanece os carinhos, não dissipa os aconchegos, tampouco dispersa os momentos que se fizeram inesquecíveis dentro da nossa convivência mútua de pai e filha.  

O quadrinho continua lá. Segue firme, como um recado diário: “Pai, eu fui daqui, mas nunca deixarei de ser a sua filha”. 

Minha princesa agora não anda pelos corredores. Não pede que eu prepare o seu café com leite, seu pão com manteiga, não pede, aconchegada em meus braços, à noite, antes de se recolher, que lhe “conte historinhas de príncipes encantados”. 

O quadrinho continua na parede. Segue firme e forte, dependurado com o amor que ela em tempos idos me presenteou e a mesma felicidade que eu empreguei para pendurá-lo. Enquanto ele estiver ali, eu sei, o vazio não será total. Aprendi que a lembrança tem rosto, a saudade uma cor esmaecida, e a casinha parece estar incansavelmente de olhos voltados para um caminho de terra batida esperando alguns passos apenas da porta de entrada. 

Na minha saudade, no meu devaneio, no meu desacerto, sei que antes de fechar os meus olhos para sempre eu a verei correndo em minha direção, os braços abertos gritando: “Papai, meu papito, eu voltei...”. 

E então, eu morrerei feliz em saber que por ela ter voltado, (ainda que em minha imaginação conturbada), eu nunca, em nenhum momento saí definitivamente de dentro de seu coração.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

      O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto e quadro enviados pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

Interlúdio para Reflexão – 1 -

 

Leandro Bertoldo (O homem que contava histórias)


Talvez uma das características mais marcantes dos seres humanos é a capacidade de contar histórias. Temos necessidade delas. Não seria exagero dizer: são as histórias a nos manterem vivos, pois a falta delas representa a falta da existência.

Quando contamos histórias damos vazão a nossa voz interna, aquela parte de nós que necessita expressar-se, mesmo quando o mundo parece não escutar.

Contar histórias, seja falada ou escrita, é uma forma de não silenciar a alma, de dar continuidade à própria narrativa, mesmo diante das indiferenças.

Quantas vezes deixamos de falar o que sentimos ou mesmo escrever o que queremos apenas porque os outros “não escutam ou leem”?

É preciso saber que as histórias nos convidam a alcançarmos a autenticidade, não como forma de sermos reconhecidos, mas como forma de permanecermos inteiros.

Paradoxalmente, são nos momentos de solitude que alcançamos o sentido essencial de nossas vidas. Portanto, contar histórias passa a não ser mais para e sobre o outro, e sim para preservar a nossa própria humanidade.

Mesmo quando temos a sensação de não sermos ouvidos, seguir falando, escrevendo e criando é manter acesa a chama do (ser) humano.

Isso muda completamente o foco do fazer (para fora) para o ser (para dentro). Não é mais contar ou escrever para mudar o mundo, mas para não ser mudado por ele.

Tem uma história que ilustra perfeitamente esse pensamento. Como ela é curta, irei transcrevê-la aqui:


Era uma vez um homem que, cansado de ver as pessoas de sua cidade sempre tensas, angustiadas e tristes, resolveu fazer algo por elas.

Como sabia de cor lindas histórias, sentou-se num banquinho no meio da praça e pôs-se a contar e a contar…

E assim o contador de histórias passava os seus dias…

A princípio, algumas pessoas paravam para ouvi-lo, curiosas. Mas só ficavam um pouquinho, pois tinham muita pressa, seu tempo era curto!

Mesmo assim, o homem não desistia: todos os dias, punha o seu banquinho na praça e contava as suas histórias repletas de fantasia.

O tempo passou…

Um dia o contador de histórias narrava, para uma plateia inexistente, uma maravilhosa fábula, quando um garotinho, puxando-o pela manga, interrompeu-o:

— Ei, tio! Será que você não percebeu que não tem ninguém ouvindo? Por que você insiste em contar essas histórias?

Então, o sábio homem respondeu:

— Olha, meu filho, antes eu contava histórias pensando em mudar o mundo; hoje, eu conto histórias para que o mundo não me mude…
_______________________

Esta é uma história da tradição judaica que está no livro “O Homem que contava histórias”, de Rosane Pamplona e Sônia Magalhães.

Bem, acredito ter ficado clara a necessidade de continuarmos a contar histórias…

E você, qual história está contando na vida?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

O escritor mineiro LEANDRO BERTOLDO SILVA é uma das vozes mais originais e dedicadas da literatura contemporânea em Minas Gerais. Destaca-se por seu fazer literário independente e artesanal, promovendo ativamente a leitura e a biblioterapia. Nasceu em Belo Horizonte/MG. Formou-se em Letras pela PUC/MG em 1999. Desde 2011, reside no município de Padre Paraíso, localizado no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais. Atua como escritor, facilitador de oficinas de escrita criativa, mediador de leitura e especialista em Biblioterapia. Fundou a [Árvore das Letras](https://arvoredasletras.com.br/), uma escola-ateliê voltada para cursos de linguagem. Também criou o selo independente Alforria Literária, produzindo livros manuais com papel ecológico e orgânico. É membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (ALTO), em Minas Gerais.
Sua escrita transita entre contos mínimos, crônicas e romances. Caracteriza-se pelo lirismo e pela valorização da experiência física do objeto-livro. Publicou Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno (Romance); Entrelinhas: Contos mínimos (Coletânea de minicontos); Para sempre, amanhã (Livro de crônicas); O Menino que Aprendeu a Imaginar e O Barquinho de Papel (Contos avulsos). Participação em diversas antologias literárias e escrita de textos para teatro.
A trajetória de Leandro é reconhecida pelo impacto de seus projetos de fomento cultural em regiões periféricas. Seus livros contam com selos de reconhecimento e distinções em editais culturais mineiros focados em preservação ecológica e difusão literária independente. A relevância de Leandro Bertoldo Silva reside na descentralização da cultura brasileira. Ao levar projetos e oficinas para o Vale do Jequitinhonha, ele atua diretamente na formação de novos leitores e autores em locais vulneráveis. Sua proposta conceitual de "artesania literária" — costurando, prensando e ilustrando livros à mão — resgata a afetividade da leitura e propõe alternativas sustentáveis ao mercado editorial tradicional.

Fontes:
Enviado pelo autor.
Biografia = Árvore das letras; Literalmente Uai; Clube de autores; Poetas e escritores do Vale e Amazon.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 162


Saio a caminhar na tarde gelada de junho. Estertores do outono. Ventos maldosos lembram dos costados do Cáucaso e suas montanhas branquinhas que nocauteiam viventes nos tempos de invernia. Mas ventos e estações não conhecem geografias. Ventos são os eternos romeiros, andarilhos pelos caminhos. As estações têm sua missão a cada ano.

Vou para a rua bem armado - um farnel generoso e delicioso. Bornal a tiracolo com caneta, papel, máquina fotográfica, água e alguma fruta da estação. E lá nos vamos subindo o morro do Gavião.

Abaixo da Estância Maggiorino encontro o riacho junto à bica d'água. Vai silencioso, fraquinho, indolente, quase parando com a frialdade. Lá do fundo da mata vem o ronquinho gostoso de água descendente, dessedenta.

Aqui e ali alguns pinheiros remanescentes dos dias áureos dos pinheirais. Névoa azulada permeia os ares, nos gramados curucacas desfilam a bicorar o solo, raios de sol distantes no ocidente. Pássaros emplumadinhos na galharia.  

Instantes dourados, ando a cantar uma música no mundo interior com a paz inconsciente. O enlevo do caminho põe inspiração, fazendo da  caminhada uma pequena romaria de alumbramento. Regozijo que invade o ser e incendeia a crosta do coração e o recôndito da alma.

Felicidade. Será ?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Asas da Poesia * 195 *


Soneto de
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
Niterói/RJ

Soneto 12 aos flamingos 

Ele desperta na savana, bem cedinho, 
aos raios fúlgidos de Febo calorosos,
e logo o bando já se apruma do seu ninho
a mais um dia de momentos valorosos.

Os fachos ricos e doirados têm asinho
desenvolver do seu labor - dos mais valiosos! -
e logo osculam plumas róseas com carinho
em linda cena em rios frescos vigorosos.

Com grão capricho surgem poses caprichadas,
num algarismo pelos ébrios conhecido 
e detestado com firmeza verdadeira.

Em um estouro de repente as revoadas
colorem céus com um pincel envaidecido
e então conquistam nossas mentes parideiras!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

Trova Humorística de
CAROLINE PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Pelado, o fantasma chora,
e ao amigo, lamentou:
- A malvada foi embora,
e até meu lençol levou!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

Tema antigo

Há teu perfume aqui, há tua imagem
entrando pela porta, alegre e doce,
e enchendo-me de luz, como se fosse
o sol das almas, sobre a paisagem.

Quem me dera, entretanto, aqui chegasses
de fato, ó meu amor, e — bela e calma —
me dissesses aquilo com que a alma
então tu me encherias, mais as faces,

dessa alegria própria de alguns poucos,
tão natural e boa, que eu invejo...
Ah! por que é que sonho eu? não me contento

com teus imaginários passos loucos,
com o teu vulto, próximo de um beijo,
mas que desfaz, de súbito, o vento?...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
ELISA FLORES
Rio de Janeiro/RJ

olhos
debruçados
molham
rios
que
transbordam
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
GONÇALVES DIAS
(Antônio Gonçalves Dias)
Caxias, 1823 – 1864, Guimarães

Doce Amor

Doce Amor — a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n'alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Premiada de
EDUARDO TOLEDO 
Pouso Alegre/MG

Abro a janela e a neblina
lacrimeja na vidraça...
A saudade dobra a esquina,
entra no quarto... e me abraça!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JOSÉ CARLOS MOUTINHO
Maia/ Porto/ Portugal

Os meus poemas

Os meus poemas são pedaços da minha lua,
Que iluminam as palavras que a minha alma escreve;
São as minhas ilusões beijadas pelo papel onde se inserem!
Os meus poemas, são letras levadas no vento,
Para onde me leiam,
Eles levam o meu sentir,
Para além do meu ser;
Nas emoções que se perdem no infinito!
Os meus poemas têm no teu olhar o sentimento,
Do meu beijo da saudade em ti;
A ausência das palavras cantadas,
São a tristeza que os meus poemas choram!
Os meus poemas, são o murmúrio doce,
Das águas que beijam o leito do rio,
Na corrida para o mar;
Os meus poemas podem ser inventados ou vividos
Com musa ou sem ela,
Mas todos brotam,
Do mais profundo da minha alma!
Os meus poemas, podem não ser bons poemas,
Mas são a vibração da minha paixão,
  No amor entre a alma e o coração.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

QUADRA POPULAR

O coração e os olhos
são dois amantes leais,
quando o coração tem penas
logo os olhos dão sinais.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Para Sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Por que Deus se lembra
- mistério profundo - 
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
MARIA HELENA CALAZANS DUARTE
São Paulo/SP

Sem brinquedo, a sós na rua,
pede a criança, baixinho:
"Senhor Deus, me empresta a lua
para brincar um pouquinho".
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
VLADIMIR MAYAKOVSKY
(Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky)
Geórgia/Rússia, 1893 - 1930, Moscou/Rússia

Voo Noturno

Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Haicai de
JUAREZ MATIAS NASCIMENTO 
Santos/SP

Flores sobre a mesa –
O pouso da borboleta
E o olhar da criança.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Sextilha de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

Eu feri minhas mãos colhendo rosas,  
mas valeu a alegria de colhê-las,
de aspirar seu perfume delicado
e à mulher bem amada oferecê-las...
Ver depois, em seus olhos, a alegria
e na luz desses olhos, as estrelas. 
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Quantos guris sem infância,
num abandono completo,
rolam no mundo, à distância
do pão, do livro e do afeto!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO
Fortaleza/CE

MOTE:
Eu sinto a fé me envolvendo
sempre que eu consigo ver
a esperança renascendo 
em um novo amanhecer!
José Feldman 
(Floresta/PR)

GLOSA:
Eu sinto a fé me envolvendo
dando-me força e vigor 
para seguir sempre crendo 
em Deus, e no Seu amor! 

Neste mundo tão horrendo 
sempre que eu consigo ver
um milagre acontecendo,
mais em Deus eu passo a crer!

Deus continua fazendo 
milagres, pra nos mostrar 
a esperança renascendo 
todo dia..., é só esperar! 

Deus agora está dizendo: 
creia em Mim e espere ver 
Meu milagre acontecendo
em um novo amanhecer!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
ELZA AGUIAR NEVES
Belo Horizonte/MG

o
céu
cinzento
derrama
translúcidos
cristais
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
MARTINS FONTES
(José Martins Fontes)
Santos/SP, 1884 – 1937

Existir é sentir

Mais do que à própria vida, deveremos
Amar a Vida em sua plenitude.
A inconstância no amor não condenemos,
Porque esta falta pode ser virtude.

Ser fiel a um amor, se nunca o pude,
Fui ao Amor fiel, nos seus extremos:
Este, sendo imutável, não ilude,
E os desvios daquele são supremos...

Seja a forma de amor que se pressinta,
Por mais tênue, mais tímida e indistinta,
Deve-se bendizer, sem comparar.

Como a ausência produz o desengano,
Sobrenobrece o coração humano
Ser inconstante, sem deixar de amar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO 
Vila Nova de Famalicão/Portugal, 1922 – 2004, Rio de Janeiro/RJ

O furor de uma queimada
não queima a mata somente,
queima a terra semeada,
a fauna e a vida da gente!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
AMADEU FELICIANO
Torres Vedras/Portugal

Estrada exata

no meio da estrada
exata e fatal
corpos decepados
estendem as mãos
imploram resposta
adiada sempre

velozmente passa
quem teima passar
procurando ínscios
o fim da estrada
exata e fatal

os motores roncam
daqueles que passam
mudos os outros
daqueles que ficam
no meio da estrada
exata e fatal

ser permanecer ficar
pedem qualquer coisa
relacionada com o sujeito
que ficou sem resposta
no meio da estrada
exata e fatal
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de
MAHELEN MADUREIRA 
Santos/SP

Manhã de sol –
Na praia os caminhantes
Também as libélulas.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Setilha de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Com nosso sonho profundo
seremos sempre criança
com nossas almas poetas,
cheias de amor e de esperança
onde nasce, a cada dia,
uma nova fantasia
que deixaremos de herança!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP+

Bondade!... Bem pouca gente
quer imitar as raízes,
que luta, secretamente,
fazendo as rosas felizes!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
BARRA MANSA/ RJ

Vivo seja teu nome esculpido
No granito das rochas sem par,
E por todos co'amor repetido,
Com preces diante do altar!
Cada lábio o murmure e um hino
Ele seja e o suave penhor
Dum afeto tão grande e divino,
Tão sublime e mais puro que o amor!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

Tua glória, fulgindo brilhante,
Com mais vivo fulgor e mais luz,
Repercute no vale distante,
Vai além desses céus mais azuis!
Vai além desses montes e fala
Da existência de um povo a lutar,
Do teu povo feliz, que se iguala
aos titãs no feroz batalhar!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

O teu nome também nos recorda
Um murmúrio suave, um perdão,
Um carinho que terno transborda
De teus filhos no teu coração!
Ele lembra também a meiguice,
À beleza, a grandeza moral
Das mulheres que tens, a ledice
À pureza sem par de Vestal!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil!

Do criador, já a mão justiceira
Teu destino no tempo traçou...
Barra Mansa, serás a primeira
Pelos bens que o Senhor te doou!
Cada etapa vencida em peleja
Traga sempre uma glória melhor,
Uma glória mais santa e que seja,
Entre todo o triunfo o maior!

Barra Mansa! Barra Mansa!
Glória a ti! Hosana mil!
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
MARILDA CONFORTIN 
Curitiba/PR

A outra

hoje, uva
amanhã, passa 
Eu, vinha.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
COLOMBINA 
(Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein)
São Paulo/SP, 1882 – 1963

Episódio 

O reflexo do ocaso ensanguentado
dourava ainda aquele fim de dia . . .
De um frasco de cristal, mal arrolhado,
um cálido perfume se esvaía...

Junto ao teu corpo nu, convulsionado,
que de desejo e de volúpia ardia,
o meu corpo, nessa hora de pecado,
uma ânfora de gozo parecia.

Na quietude da tarde agonizante
um beijo prolongado, delirante,
a flama da paixão veio acender...

E toda a minha feminilidade
era uma taça de sensualidade
transbordante de vida e de prazer!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Humorística de
ZAÉ JR.
(Zaé Mariano Carvalho de Nascimento Júnior)
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Vendo-a grávida, ele diz:
– Homem? Mulher? Que vai ser?
E ela responde... feliz:
– Ele resolve... ao crescer!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O burro vestido com a pele do leão

Quebrando a peia,
Fofo sendeiro
Fugiu ao dono,
Que era moleiro;
Dentro de um bosque,
O fanfarrão
Achou a pele
De alto leão;

Em toda a parte
Dela vestido,
Por leão fero
Era temido;
Homens e brutos
O respeitavam,
Fugiam logo
Que o divisavam:

Mas das orelhas
Uma pontinha
De fora ao burro
Ficado tinha;
Foi vista acaso
Pelo moleiro,
Que julgou logo
Ser o sendeiro;

Indo-lhe ao lombo
Com um cajado,
Puniu o arrojo
Do mascarado;
Do tolo rindo,
Despiu-lhe a pele,
Pos-lhe uma albarda
E montou nele.

Tal entre os homens
Mil se conhecem,
Os quais são uns,
E outros parecem.
Despem-lhe a pele
Que os faz troantes,
Ficam sendeiros
Como eram dantes.
=================
Colaborações: gralha1954@gmail.com