Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 29 de maio de 2011

Ialmar Pio Schneider (Sobre a Poesia Marginal)


Estava assistindo a um programa de TV no Canal TV Câmara, em que se falava em poesia. A pessoa que estava declamando alguns versos soltos, percebi que se chamava Chacal e conversou alguns momentos com uma mulher de nome Heloísa Buarque de Hollanda. Então, lembrei-me de um livro que havia adquirido faz muitos anos cujo título é O que é poesia marginal, de Glauco Mattoso, Editora Brasiliense, 2ª edição, 1982, que encontrei sem mais delongas em uma prateleira de minha biblioteca, onde os livros estão enumerados por ordem de autor e de que também tenho uma relação por títulos. Facilmente encontrei-o.

Daí fiquei sabendo que se tratava de um movimento que surgiu nos idos de 1970 e que agrupava indivíduos que apregoavam uma nova forma de poesia, ou seja, mais livre e coloquial – “o poema não é bom nem ruim/ o poema é uma idéia (Marcelo Dolabela, no livrinho Coração malasarte)”. E como não tinham respaldo de editoras para publicarem seus livros, faziam-no artesanalmente em mimeógrafos , incluindo livrinhos impressos em offset, ilustrados, bem acabados. Assim “em 71, Chacal e Charles lançavam seus primeiros trabalhos mimeografados em tiragem de 100 exemplares, e em Brasília circulava o jornal Tribo, que foi até o terceiro número”.

Ilustrando o que significava aquela incursão na nova escola de poesia, chamada marginal, assim a qualificavam os pesquisadores Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira, “a poesia marginal, literariamente falando, consiste no estilo coloquial encontrado na maioria dos autores da geração-mimeógrafo, caracterizado pelo emprego de um vocabulário baseado na gíria e no chulo, e de uma sintaxe isenta das regras de gramática, tal como no linguajar falado: qualé o lance? (Ronaldo Santos) – a cana tá brava a vida tá dura (Bernardo Vilhena) – a mão rápida do pivete agarrou a bolsa da velha/ a velha teve um troço & caiu babando na rua (Adauto de Souza Santos) – um orfeu fudido sem ficha nem ninguém pra ligar (Chacal) – a fumaceira fudida veste a cidade grande (Charles) – tem tanto tempo não faz um som (idem) – ano que vem eu compro um fusca (Nicolas Behr) – me manda embora antes das oito/ mas só me traia depois das dez (idem) – o hippie/ foi no shopping/ e feliz, deu um chiliqui (Marcelo Dolabela).

“Tal gênero de poesia seria marginal justamente por representar uma recusa de todos os modelos estéticos rigorosos, sejam eles tradicionais ou de vanguarda, isto é, por ser uma atitude antiintelectual e portanto antiliterária.

“Heloísa, que qualificou esse estilo como uma “retomada” do modernismo de 22, acrescenta que a diferença está na postura, que em 22 teria sido intencional, premeditada, e na poesia marginal seria espontânea e inconsciente.

“Quando saiu a antologia 26 poetas hoje, alguns dos autores tidos como marginais se reuniram com críticos, professores e alunos de literatura para debater teoricamente o “fenômeno poético” do momento. Nessas ocasiões empregavam-se terminologias eruditas ( do tipo espontaneismo, irracionalista, anticabralino) e levantavam-se questões como a de que os novos poetas estavam querendo “matar” Cabral. Puro desperdício de energia, pois, na verdade, o único Cabral morto na história seria o Pedro Álvares, e junto com ele o estilo arcaico da carta de Caminha. Quanto a João Cabral, nada sabia ele dessa “morte”, assim como poucos dos marginais sabiam de sua vida.”(…) (pgs. 32, 33 e 34 do livro O que é Poesia Marginal, de Glauco Mattoso).

De tempos em tempos, sabe-se, surgem manifestações inovadoras na arte poética, quando já a velha forma esteja desgastada. O ser humano tem o dom inerente da criação e a espontaneidade desse movimento, acredito, continuará como abrindo um caminho interminável de renovação para futuros poetas…

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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