Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de maio de 2011

José Faria Nunes (A Confissão)


Mente em conflito, Jurandir caminha. Cabisbaixo, remoendo a dúvida, aproxima-se da igreja, ou melhor, do templo. Confessa ou não confessa?

Católico por tradição, busca sua igreja para harmonizar-se com seu interior.

Já na praça olha o templo que se abre acolhedor à sua frente com sua arquitetura barroca. Nem imagina que dois séculos passados, durante o governo do príncipe regente (a rainha perdera as condições de governar), fosse ali o local de evidência da elite de então, da nobreza de sangue azul e de títulos. Mais de títulos. Combinação perfeita de novos ricos em ascensão e uma nobreza esfacelada, maior parte permanecida em além mar, na velha Lisboa.
Sangue azul ou não, era a elite o centro das decisões políticas, econômicas e sociais. Dos tempos áureos restaram apenas os detalhes físicos do prédio e do mobiliário, dando ares de sobriedade, lembrança dos tempos em que as jovens com seus véus e vestes brancas entoavam cânticos ao som do órgão e as senhoras com véus pretos rezavam o terço, pois da missa em latim nada entendiam. Apenas a homilia ou o sermão eram na língua pátria.
Hoje os freqüentadores do templo são de classe média, de pobres e alguns até abaixo da linha de pobreza.

A nave da igreja vazia revela os novos tempos de uma comunidade onde os valores ganham novas significações. Por certo nos bares as mesas e cadeiras já invadem as calçadas e em alguns deles até as pistas de rolamento dos veículos.

Jurandir, homem que daqui a menos de dois anos entra na conta dos sexagenários, ajoelha-se no confessionário entalhado, ornado em ouro, assim como o altar e o teto do templo. Do outro lado da treliça do confessionário o confessor mal ouve o seu ato de contrição. Lê o Missal para, logo mais, mais uma missa celebrar.

- Quanto tempo faz que não confessa? – Pergunta o padre, ao interromper a leitura.

- Nem sei, padre. Faz muito tempo. - Responde Jurandir, modos desajeitados, peixe fora do aquário, muito tempo fora da igreja.

- Tudo bem. Conta seus pecados. – Diz o padre voltando a atenção para o missal.

- Pois é, padre. Eu, que cheguei a esbravejar a igreja quando jovem e até a negar a proficiência da fé, estou arrependido. Muito erro fiz. Erro, inclusive, de interpretação de textos da bíblia, a exemplo dos referentes ao matrimônio. Explico melhor. Nos Evangelhos, onde se diz que o homem é a cabeça da mulher, eu entendia que a ele caberia administrar a sociedade conjugal. Onde diz que a mulher deve ser submissa ao marido, eu entendia submissão como no dicionário: “ato ou efeito de submeter-se”; ou então “disposição para aceitar a dependência”. Isso conforme o Aurélio, que acrescenta no termo submisso: “que se submete ou se sujeita”; “obediência, humildade, respeito”. Enquanto isso, ao homem caberia amar a mulher, sacrificar-se nos trabalhos mais duros, se necessário, mas com a prerrogativa dos dizeres bíblicos. Hoje sei de meu equívoco ao interpretar referidos textos e venho confessar meu erro. Admito que tenha entendido tudo às avessas. Não quanto nas responsabilidades dos homens, ou até mesmo nestas. Além de provedor deve também o homem ombrear-se nas tarefas domésticas, ajudar a mulher nas atribuições que antes pensava eu que não fossem responsabilidade do homem. Errei mais uma vez. Errei quando não aceitei que aquela que me foi declarada esposa, nos termos do texto bíblico fizesse o contrário. A mim caberia também o dever de obediência a ela, de submissão, de aceitar suas ordens e imposições, seu direito de falar e o meu dever de apenas ouvi-la. Ouvi-la e atender a sua vontade, ampla, geral e irrestrita. Errei, padre, pois resisti e não a obedecia em tudo. Errei quando pensei que eu, de acordo com o texto bíblico com a interpretação dos dicionários, poderia ter autonomia de locomoção, de livre arbítrio, de decisão em meus negócios, de agir como sujeito. Mas a realidade é outra, não é, padre? Ainda bem que o senhor não se casou. Já pensou o senhor ter que perder sua autonomia até de pensar ou de falar? Nem de escrever ou ler? Já nem digo de fazer, de agir. A mulher é quem pode, ao homem cabe obedecer. Sabe qual o verbo que ela mais aprecia? O impositivo verbo ter: você tem que... isso, tem que... aquilo, etc. e tal. E eu só percebi que estava errado quando entendi melhor a pregação religiosa. Os padres, os diáconos, os pastores, têm apresentado interpretações diferentes para aqueles dizeres bíblicos. Os dicionários bíblicos, por certo, têm conceituações diferentes das dos dicionários de sinônimos, não é, padre? Para a bíblia submissão tem outro sentido, não é? Ser cabeça do casal, conforme a bíblia, quer dizer diferentemente do que eu entendia, não é? Pelo menos de uns tempos para cá, não é? Por tudo isso é que estou arrependido, padre, e estou aqui para confessar meus pecados.

Pecados de entender errado a bíblia e agir de acordo com o que eu entendia antigamente. Mas agora é diferente, padre. Eu sei que estava errado e quero me redimir. Venho pedir perdão por todos os meus pecados. E para terminar, padre, considerando que eu sou fraco e não vou dar conta de seguir a bíblia de acordo com as novas regras que agora sei que são as corretas, preciso de uma nova postura de vida. Não quero mais desobedecer as ordens, as diretrizes, o comando daquela com quem me casei. E como não dou conta de cumprir esses mandamentos bíblicos de submissão e obediência, agora conforme os dicionários, decidi: para não mais errar ou para errar menos, só tenho um caminho, padre: o divórcio.
Agora pode ditar a penitência que devo fazer, padre. Por tudo isso, peço perdão.

Jurandir percebe que o padre caiu em sono profundo, certamente pela desimportância de sua confissão.

Levanta-se com cautela, olha a igreja agora quase cheia, caminha contrito para ajoelhar-se diante do altar. Começa a rezar o terço, penitência que julga compatível com os tantos pecados confessos. O padre determinaria penitência menor?

Na parede de acesso ao confessionário, uma fila de fiéis que aguardam para se confessar.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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