Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 22 de março de 2014

António de Assis Junior (O Segredo da Morta)

Artigo de Paula Alves Calzolari, sob o título "O Segredo da morta: um roman-feuilleton angolano"
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Nossa exposição tem por objetivo discutir a relevância de se tomar por texto de base de O Segredo da Morta, do angolano António de Assis Júnior, sua primeira edição. Vindo à luz como folhetim no jornal A Vanguarda, em 1929, a obra ganha sua edição em livro através d’A Lusitânia, em 1935, e das Edições 70, em 1979. A informação de que os periódicos constituíram desde cedo e por muito tempo uma das poucas fontes possíveis de publicação na África de Língua Portuguesa vem reforçar a importância de se atentar para o veículo original, apesar do não acesso aos números d’A Vanguarda em que se veiculou a narrativa. O Segredo da Morta constitui, o que confirmam os estudiosos das Literaturas Africanas, um marco no panorama literário desse país. Escrito num período de quase não literatura (1910 – 1940), o romance de Assis Júnior inaugura na ficção um olhar diverso do da literatura dita colonialista, que vigorava até então.

Este trabalho tem por objetivo discutir a relevância de se tomar por texto de base de O Segredo da Morta (1) , de António de Assis Júnior, sua primeira edição. Vindo à luz sob a forma de folhetim no jornal A Vanguarda, em 1929, OSM ganha sua edição em livro através d’A Lusitânia, em 1935, e das Edições 70, em 1979.

A informação de que os periódicos constituíram desde cedo e por muito tempo uma das poucas fontes possíveis de publicação na África de Língua Portuguesa vem reforçar a importância de se atentar para o veículo original, apesar do não acesso aos números d’A Vanguarda em que se veiculou a narrativa. Dispomos apenas de sua segunda edição em livro, visto que a primeira2 também não nos foi acessível. Ao que parece, infelizmente, tanto um quanto o outro se perderam em meio ao confuso e sangrento contexto histórico de Angola.

Mas, se por um lado, tais obstáculos se nos afiguram, dificultando a empresa, por outro, nos dão a certeza da necessidade do mesmo e de sua urgência. OSM constitui, o que confirmam os estudiosos das Literaturas Africanas, um marco no panorama literário desse país. Escrito num período de quase não literatura (1910 – 1940), o romance de Assis Júnior inaugura na ficção um olhar diverso do da literatura dita colonialista, que vigorava até então.

À preocupação do autor em preservar as tradições de seu país soma-se a qualidade do texto, uma obra de mistério meticulosamente arquitetada, que transpõe para a escrita um imaginário calcado na oralidade, como bem observa Laura Padilha.

E, talvez, o mais interessante, um romance de costumes angolenses que se quer preservar por meio de um folhetim. Se a compilação em livro não procedesse, tais costumes se restringiriam aos contemporâneos de Assis Júnior, não cumprindo assim seu objetivo, ao que parece, maior. E, mesmo se a idéia da reedição já existisse, ou se a estória já estivesse pronta no papel, não tendo, portanto, sido escrita aos poucos, de acordo com a demanda do jornal, fatos que não podemos comprovar, a forma primeira como a obra chegaria a público permaneceria como folhetim, o que, de qualquer modo, inevitavelmente, orientaria os passos da estória, estratégias e posicionamentos do autor.

Considerar a origem folhetinesca de OSM pode clarear muitas questões bem como desfazer alguns mal entendidos, como a acusação de complacente a que foi submetido o autor, por atenuar a violência contra os escravos no texto.

A introdução do ensino liceal em Angola, como sabemos, data de 1919, distando da publicação de OSM – em folhetim – apenas dez anos. O índice de analfabetismo, conseqüentemente, era, como ainda é, alarmante. Sendo
assim, o público leitor da narrativa de Assis Júnior era formado pelos angolanos que estudaram em Lisboa, filhos da pequena burguesia surgida em 1820, retratada em OSM, isto é, a intelectualidade do país, além de estrangeiros e descendentes dos colonos.

Não devemos, contudo, nos esquecer das rodas de leitura dos folhetins, freqüentes no Brasil, por exemplo. Ora, os angolanos, que já cultivavam tal hábito para a troca de missossos e outras estórias orais, muito provavelmente fizeram o mesmo em relação às narrativas publicadas em partes.

O próprio Assis Júnior em sua Advertência, mais exatamente na página 32 da edição por nós utilizada, afirma:

“Este livro é para ser lido por todos aqueles, pretos e brancos, que mais decididamente se interessem pelo conhecimento das coisas da terra.” Os que trabalham de sol a sol, como escravos, e passam fome não dispõem de tempo para se interessar pelo estudo das “coisas da terra”. Assim, o próprio Assis Júnior já nos indica o alvo de sua escrita.

Desse modo, a “complacência” do autor em relação às formas de violência sofridas pelos escravos pode ser facilmente explicada. Os leitores de OSM se restringiam, em grande parte, à classe burguesa, à classe dos intelectuais que enchiam as páginas dos periódicos da época, assinando artigos, resenhas e poemas e, que é representada por seus antepassados na narrativa. O romance sai em 1929, a estória abarca o período de 1872 à 1900.

Muniz Sodré, em livro dedicado ao estudo do “bestseller”, afirma que a palavra entretenimento deve necessariamente associar-se à idéia de folhetim. Para entreter, divertir seus leitores, Assis Júnior se vale de uma série de pistas que devem ser percorridas para que se decifre, no fim, o segredo que guarda a morta, mesclando relatos dramáticos na justa medida com outros engraçados. Também não podemos nos esquecer que a repressão colonial e o conseqüente fechamento de jornais certamente pesaram na escrita do que ia na folha impresso.

Ainda assim, o autor aborda a febre espanhola e a pneumonia que vitimaram dezenas de luandenses, doenças, conforme sabemos, não provocadas pela burguesia como os maus tratos aos escravos:

Com efeito, logo após o armistício, grassou na capital, a seguir à “espanhola” e à “pneumônica”, uma epidemia que ceifou uma grande parte da gente nativa. Ana Cristóvão dera o alarme, perecendo subitamente de doença indeterminada, mas que a gente da terra explicava a seu modo. Seguiram-se-lhe as que a tocaram – lavaram e vestiram – e a estas, outras,
formando uma cadeia que crescia em proporção matemática.

(...) A mortandade era relativamente grande. O que então circulou entre as famílias, as faltas que se encontraram e as causas que se atribuíram a tais efeitos, não cabe no âmbito deste livro. A verdade é que, não assentando este facto no campo da fantasia, as opiniões dividiram-se e a corrente cresceu conforme a crença de cada um ou de cada grupo, mais ou menos avivada consoante o berço da sua educação. (OSM, p. 275-276)

A inserção na intriga maior de microepisódios que movimentam a estória, tornando-a sempre interessante, renovada para o leitor, é outra estratégia bastante comum às narrativas-folhetinescas.

No caso do texto em estudo, a presença dessas tramas dialoga ainda com o desvendar progressivo do segredo proposto no epíteto do romance, o segredo de Ximinha Belchior ou Ximinha Reis, instigando num crescente a curiosidade do leitor.

Alguns ou vários mistérios fazem o tecido narrativo. Para desvendar o maior deles, o segredo da morta, há que decifrar outros (entrelaçados ou subsidiários) até desemaranhar-se o principal. (Santilli, 1985, p. 13)

A narrativa propriamente dita tem início no capítulo II, Uma Sombra, quando nos deparamos com a doida dos Cahoios, Ximinha Cangalanga, a andar pelas ruas do Dondo. O capítulo termina com um convite do narrador aos leitores para que ouçam o que tem a dizer Maria de Castro a respeito de como a personagem chegou à loucura.

A partir de então, travamos contato com a estória principal que guarda o romance, o verdadeiro segredo da morta, por meio da narração de Maria de Castro. O leitor é, primeiramente, conduzido ao velório e ao enterro de Ximinha Belchior, tendo em seguida a oportunidade de observar os ritos que os acompanham, o que se dá nos capítulos III, IV e V, respectivamente, R.I.P, O Óbito e Olhos invisíveis. No final desse último capítulo, o narrador nos chama a atenção para a extrema dedicação da personagem Kapaxi (3) à falecida, e nos promete a sua estória também. No capítulo VI, Kapaxi, a promessa do narrador é cumprida.

No capítulo VII, Em viagem, outras personagens comentam entre si casos semelhantes àquele que acabaram de assistir, a saber, o nascimento de Kapaxi, fruto de uma gravidez de hebu (gestação prolongada por anos sem crescimento aparente da barriga). A gruta da aparição de Cristo nos é apresentada, assim como a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Muxima (coração) dos angolanos. Até mesmo uma lenda, a lenda de Kaboka, é contada por um dos passageiros (notar que tal narração vem entre aspas) como uma estória menor dentro da estória (história) de Kapaxi.

Assim segue a narrativa, repleta de microepisódios, alguns, inclusive, constituídos de sonhos reveladores de mortes seguidos das mortes propriamente ditas, como a do sobrinho de D. Clara, e casos ímpares como o da queima dos panos no capítulo XXII, Remember, quando a morta começa a castigar os que lhe faltaram com o respeito em vida e, principalmente, na doença. Passagens como essa conferem o tom exato de mistério à narrativa.

O Segredo da Morta, vai, portanto, sendo aos poucos revelado ao leitor. As trapaças, as infrações cometidas por personagens como Ximinha Cangalanga, Eduardo e outros são reveladas no decorrer do romance e, posteriormente, punidas com doenças e mortes por Ximinha Belchior. De alguns castigos, inclusive, só saberemos o motivo muitas páginas adiante. É, por exemplo, o caso da troca dos panos mencionado no capítulo XXIII, que tem como título o nome do livro, e se relaciona ao leilão dos bens da morta:

Foram os seus bens à praça no tribunal poucos dias depois do seu falecimento, por se não poderem conservar... Quis possuir dela uma recordação, e comprei em leilão esta cama e o colchão (...). Tudo o mais se vendeu, para se guardar o dinheiro; e coisas houve que, na verdade, ela nunca podia ter possuído. Fechei eu as malas e entre os panos que ficaram não havia daqueles, ordinários e velhos, que apareceram em leilão como sendo seus. Quem seria o autor da troca? (OSM, p. 246)

Somente três capítulos adiante, o leitor saberá quem foram os responsáveis pela troca dos panos de Ximinha, quando o narrador comunica o falecimento das personagens Kuabate, Tuturi e Capuxa, mortes, que até então, para quem lê a estória, são despropositadas.

Como podemos perceber, o narrador principal de OSM comanda a urdidura da intriga, ordenando, inclusive, os discursos dos demais narradores, de maneira a manter o interesse do leitor. Assim, uma pergunta lançada em determinada parte do texto só será respondida mais adiante, quando novas questões já tiverem sido propostas.

Santilli sublinha a correspondência entre esse progressivo desvendar de mistérios e o caráter das adivinhas tão presente no imaginário de oratura angolano, idéia reforçada por Laura Padilha ao situar a narrativa de Assis Júnior entre o missosso e a maka, isto é, entre as estórias tradicionais de ficção e as histórias reputadas verdadeiras.

Dentre as duas, a ensaísta realça a idéia da maka como dominante, visto que o narrador todo o tempo busca demonstrar no texto a sua suposta veracidade. Outra característica comum ao texto e oriunda da publicação original é o famoso “corte”, momento em que a narrativa é interrompida e em que se assinala uma “deixa” ou “gancho” para a sua continuação. Marlise Meyer e Vera Santos Dias explicam que no folhetim, “o corte é tudo. Praticamente todos os recursos folhetinescos estão relacionados a ele” (Averbuck, 1984, p. 50). O “corte” que finaliza a publicação de um determinado dia geralmente corresponde ao fim de um capítulo, embora nem sempre seja possível ao folhetinista retomar a narrativa da maneira que lhe parece mais conveniente. O que dita as regras é o espaço disponível no jornal e a narrativa ali está apenas para ajudar a vendê-lo.

Mas o folhetinista, não nos esqueçamos, é, além de romancista, um exímio equilibrista, e tem de o ser para encaixar os fragmentos de seu texto no espaço que lhe cabe no jornal, e ainda manter aceso o interesse do público nas peripécias de suas personagens.

Dos vinte e seis capítulos do romance, além do Epílogo, seis se findam com promessas explícitas de novidades para a (suposta) publicação do exemplar a seguir.

São eles os capítulos II, V, VIII, XIII, XXI e XXIII. O capítulo II, intitulado Uma sombra, por exemplo, é fechado pelo narrador principal com um convite ao leitor para que junto a ele, colocando-se, portanto, numa posição passiva, escute a estória que tem a narrar a personagem Maria de Castro. A presença da doida dos Cahoios, isto é, de Ximinha Cangalanga, faz com que ela se lembre de acontecimentos que presenciou e que podem explicar as condições psíquicas a que chegaram a ex-discípula de Ximinha Belchior. É essa a estória que ela tem a nos contar. E o narrador, antes de passar-lhe a palavra, faz o convite aos leitores:

A conversa continuou, de mansinho, entre a Maria de Castro e sua amiga, que a escutava em silêncio religioso, assentadas junto à porta e alheias a tudo que as cercava. Eram três horas da tarde. O sol declinava sombreando consideravelmente o terreno em frente. Ouçamo-la também... (OSM, p.53)

Assim, o capítulo seguinte é aberto com um novo relato, do qual o leitor toma conhecimento por meio da voz da nova narradora ou da “contadora oral”, nas palavras de Laura Padilha, uma vez que “estamos diante daquela cena tão comum quando o missosso se instaura no círculo de ouvintes.” (Padilha, 1995, p. 78)

Da mesma forma, os demais capítulos dirigem a trama, muitas vezes, aparentemente nada somando de significativo ao enredo. Entretanto, quando não fornecem pistas para o desvendar do segredo proposto, apresentam o intuito de entreter o leitor ou de viabilizar um novo painel de costumes.

É o caso, por exemplo, da conclusão do capítulo VIII, Negra visão:

(...) não resistimos à tentação, como também a ela não resistiu a contadora, de fazermos aqui um breve esboço dos homens e das idéias desses tempos. (OSM, p. 103)

Tais linhas antecedem o capítulo IX, Tempos idos, no qual encontramos a estória do avô de Kapaxi, o comerciante Manuel Antônio Pires, “o homem mais rico da terra” (p.105), recuando ainda mais no tempo. Torna-se aqui lícito lembrar que esse episódio é também utilizado por Assis Júnior para tecer comentários críticos acerca do modo de aquisição de fortuna dos comerciantes, do caráter da gente do governo, etc. Sempre, é claro, por intermédio do(s) narrador(es).

A transcrição do término dos capítulos XIII – Gato por lebre, XXI – O funeral e XXIII – O segredo da morta, respectivamente, não nos deixa dúvida sobre a capacidade de que é dotada uma conclusão de capítulo no referente a direção da trama e, sobretudo, da manutenção do público, corroborando o exposto até então.

Esperem pela pancada – disse lá consigo. (p.153)

E o mais que se seguiu sabemo-lo já. (p.233)

– Quis Tuturi observar, após o enterro, os preceitos da terra, fechando as janelas e guardando o leito durante muitos dias. Mas não pôde realizar o intento, pelo facto que vamos assistir no capítulo seguinte. (p. 251)


Quanto aos capítulos que não apresentam o famoso “gancho” no final, que não adiam nenhuma novidade, por assim dizer, grande parte termina com o desenlace de uma pequena intriga, que vinha se desdobrando até então. O final do capítulo VI, Kapaxi, por exemplo, trata do nascimento da menina, desenlace aguardado por todo o percurso da microtrama iniciada no mesmo capítulo. Nos últimos parágrafos do capítulo XI, por sua vez, temos a conclusão do encontro fatal anunciado em seu epíteto, o falecimento de D. Clara. Já o capítulo XIII, O Pacto, se fecha com a troca de fotografias entre Kapaxi e Ximinha Belchior, o selar do pacto de que trata o título, a amizade entre as duas personagens.

Enfim, procuramos demonstrar ao longo de nossa explanação a suma importância de se considerar o veículo primeiro pelo qual a trama chega a público. Esse cuidado, além de evitar conclusões precipitadas e equivocadas, nos conduz ao entendimento de uma série de recursos estilísticos empregados pelo autor, tornando-nos mais habilitados a apreciações acerca da obra em sua gênese e recepção.

BIBLIOGRAFIA
ASSIS JÚNIOR, António de. O Segredo da morta. 2ª ed. Lisboa: Ed. 70; Ed. da UEA, 1979.
CHATELAIN, Héli. Contos populares de Angola. Lisboa: Agência do Ultramar, 1964.
CHAVES, Rita. Assis Jr.: A Opção pelo gênero. In: A formação do romance angolano. São Paulo: Bartira, 1999. (Coleção Via Atlântica, nº1)
ERVEDOSA, Carlos. Roteiro da literatura angolana. 2ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1979.
MARGARIDO, Alfredo. As Classes sociais em “O Segredo da Morta”. In: Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980.
MEYER, Marlise & DIAS, Vera Santos. Página virada, descartada, de meu folhetim. In: AVERBUCK, Ligia (org.). Literatura em tempo de cultura de massa. São Paulo: Nobel, 1984.
MEYER, Marlise. Folhetim: uma história. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.
RIESMAN, David. As tradições oral e escrita. In: CARPENTER, Edmund & McLUHAN, Marshall. (org.). Revolução na comunicação. Tradução de Álvaro Cabral. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, [s.d.].
SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias africanas: História & Antologia. São Paulo: Ática, 1985. (Série Fundamentos)
SODRÉ, Muniz. Best-seller: a literatura de mercado. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios)
––––––. Literatura de massa: formação e sentido. In: –––. Teoria da literatura de massa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.
THOMAZ, Wilcimar Silva. Um Jeito de não morrer: percursos da narrativa angolana. Rio de Janeiro: Faculdade da Letras, UFF, 1995. (Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa, mimeografada).

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Notas
(1) Toda vez que nos referirmos a O Segredo da Morta, a partir daqui, usaremos a sigla OSM.
(2) A primeira edição de OSM em livro saiu em 1934/35 pela Ed. A Lusitânia. Quanto ao ano certo de tal publicação divergem os ensaístas. Henrigue Guerra, no prefácio  para a segunda edição do livro, bem como Mário Antònio, afirmam ter sido a obra publicada em 1934. Outros como Maria Aparecida Santilli acreditam que a obra tenha sido publicada em 1935. Manuel Ferreira, por seu turno, em Literaturas Africanas de expressão portuguesa, apresenta uma data diferente: 1936.
(3) Kapaxi ou Capaxi, as duas formas aparecem no texto. Preferimos a primeira porque é a forma em kimbundo para o nome, além de nomear o capítulo que narra a origem da personagem em questão.

Fonte:
www.filologia.org.br/vijonafil/atas/o_segredo_da_morta.pdf

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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