Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 6 de março de 2014

Rachel de Queiroz (Falso Mar, Falso Mundo)

Falso mar, falso mundo reune 89 crônicas produzidas por Rachel de Queiroz entre 1983 e 2000. A autora deixa em sua obra as impressões de quem assistiu a todo o processo e degradação do mundo ao longo do século XX.

Especialmente na crônica Falso mar, falso mundo, que dá título à coletânea, Rachel de Queiroz apresenta-nos, por meio de suas experiências e escrita, a confirmação da existência de um sujeito cuja identidade fragmentada remete a literatura contemporânea brasileira a uma nova perspectiva. Aberta a situações, as mais diversas possíveis, que surgem, talvez, como respostas alternativas da modernidade ou ainda, para reforçar a posição de que essa nova literatura permite a coexistência de traços muito diferentes e marcantes, a autora deixa transparecer sua posição sobre todas essas ocorrências: o medo de que, em meio a tantas transformações, os indivíduos deixem de ser seres animados e passem a ser considerados, meramente, bonecos comandados por um novo ponto de vista, alterado e distorcido, e deixem de ser sujeitos ativos para aceitar, com passividade, as novas imposições sociais.

As crônicas também mostram uma narração generosa e profunda sobre a velhice. Traz ainda as impressões da literata, da bisavó, da amiga e acima de tudo, da cidadã, que com a idade e vasta experiência que tinha, não abandonou o sertão nordestino e, especialmente, o cearense, onde está encravada a sua Fazenda Não Me Deixes, se entristecendo com o período seco e vibrando com a volta das chuvas:

    “Não é entusiasmo sertanejo, não é patriotismo cearense, mas o sertão está lindo, tão lindo, que poderia competir com as paisagens clássicas de além-mar” ("Nós e a natureza").

Aliás, algo que não lhe saía do pensamento, era o sertão; estando em Berlim Ocidental, encontra “a caatinga nordestina em réplica”. Isso foi o suficiente para o retorno à Pátria natal, “Me vi de repente no Ceará, tal como deve ele estar agora...” E prossegue a lúcida amiga, que lembra “Se você não é capaz de ter amigos, você é um erro da natureza...” ("Ah, os amigos").

A arte da escrita, tão bem dominada por Rachel de Queiroz, está presente nessas crônicas. Ao final de cada crônica, uma lição nos é dada e enriquecidos ficamos com a leitura de quem muito sabe, muito viveu e mostra que a vida é um eterno aprendizado.

Nas lições de seu bisneto Pedro e sua ânsia de conhecer o mundo, acompanhada da busca da liberdade, Rachel nos dá um exemplo de sua sabedoria, revestida da simplicidade comum aos gênios e sábios dessa vida, com suas paixões, seus declínios e acertos.

Na crônica “Rubem Braga explicava Portugal...”, Rubem Braga, à sua maneira casmurra, justificava o título e ainda ensinava à linda rapariga que não lhe dava bola, que é impossível recitar Os lusíadas ao ritmo do atual falar português, pois Camões metrificou o poema ao ritmo do falar de então, que veio a ser o nosso, brasileiro e, sobretudo, carioca.

A crônica "Os Noventa", fecha o livro com chave de ouro. Sendo que nele vemos o futebol e a ânsia que tínhamos pelo pentacampeonato que conquistamos; os colegas; o sertão; o Rio de Janeiro; as Guerras; enfim, o dia-a-dia sob a ótica lúcida de quem se preocupava com o fim do mundo e via atenta as novidades do novo milênio e lembrava o "Falso mar, falso mundo", tendo por pano de fundo uma ´Praia Artificial´ no Japão, observando que "Aquilo não pode deixar de ser pecado".

Fonte:
José Luís Lira, advogado e escritor e Adriana Giarola Ferraz Figueiredo (UEL)
Disponível em Passeiweb

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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