Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Carlos Drummond de Andrade (Peru)


Na engrenagem metropolitana, as operações mais singelas, desde que fujam à rotina, exigem longa e meditada preparação. Pelo que, desde novembro, o jornal anunciava: “Encomendem seus perus com antecedência à granja Castorina, são maiores e melhores”.

A Dona da Casa julgou de seu dever acudir à advertência, e pegou do telefone, que do outro lado estava sempre em comunicação: a cidade inteira, possuída do espírito da previdência, ou de simples esganação natalina, encomendava peru. Depois de várias tentativas, conseguiu inscrever-se. O peru chegou a seu tempo, nem maior nem menor, nem gordo nem magro, principalmente silencioso, sem o ar ofendido que têm os perus vivos. Chegou, com a fatura que lhe atestava os quilos e os tarifava em meio milhar de cruzeiros. A Dona da Casa respirou: há perus que falham, causando aflições e vergonhas imensas. Gratificou o portador e levou célere para o refrigerador o objeto de seus cuidados.

Aí apareceu a exímia Cesária, de Campo Grande, convocada por sua perícia em lidar com viventes de pluma e crista. Lançou o olhar douto sobre a peça e iniciou os preparativos.

A Dona da Casa, sem menosprezo ao saber de experiências feito de Cesária, sugeriu-lhe que nos pormenores seguisse a receita de Mário de Andrade, colhida de uma francesa e publicada nos Contos novos: deve o peru ter duas farofas, a gorda, com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga; o papo será recheado com a farofa gorda, ameixas-pretas, nozes e um cálice de xerez.

Assim foi feito.

Tinha a Dona da Casa empenho em apresentar um peru distinto, pois comeria à sua mesa o Argentino, muito versado na espécie, e que uma vez a presenteara com um imenso pavo incrustado em gelo seco, que atravessara triunfante o céu de três países e durante um mês alimentara a família e convidados. O de agora era uma ave qualquer, mas o toque literário da receita lhe imprimia o quid desejado.

À ceia, os dois casais se preparavam para a mastigação ritual, e o trinchante ia funcionar, quando um nariz, por hábito, se aproximou da superfície de ouro; deteve-se, intrigado: o cheiro não correspondia à aparência; era peculiar e inoportuno. Convidado a opinar, o Argentino sentenciou:

— Podrido.

Estava. O fenômeno manifestava-se na região posterior. As partes nobres, ainda imunes, exalavam bom odor, mas, dentro, uma luta surda lavrava, semelhante a essas comoções nacionais intestinas que ninguém percebe mas o governo denuncia.

A travessa foi repelida com temor, como se um verme fosse desprender-se dali, para desejar feliz Natal. Houve que reanimar Cesária, isentando-a de culpa: como dissera na televisão o dr. Arruda, médico da prefeitura, cinco mil perus podres, pelo menos, são vendidos para a ceia de Natal. Ninguém percebe a avaria senão depois de assada a ave. Acontece.

Comeu-se o que havia a mais, com bom humor, situações heroicas, remédios heroicos. Contou-se a história do nosso Jacinto de Tormes: na hora de servir, o garçom escorrega, pimba: peru no chão. A hostess, imperturbável, ordena: “Joaquim, leve este peru e traga OUTRO”. Com aquele não se podia fazer o mesmo; era preciso jogá-lo fora.

Aí começa outra história. A copeira informa que não havia onde guardar o peru. O caminhão de lixo não passava há três dias; os depósitos, cheios; o calor noturno aumentava…

O Dono da Casa confabulou com o Argentino e deliberaram remover com urgência la basura. Enrolaram-na em folhas de jornal e, muito dignos, saíram para a noite, com dois pacotes: o nacional com a carne, o outro com a farofa.

Caminharam em busca de um terreno baldio, mas este não havia ou estava ocupado por namorados sem lar. Entreolharam-se:

— El mar!

O mar desatava-se à frente deles, purificador, cúmplice. Diante de Cosme e Damião, antes que estes os interpelassem, foram resmungando: “Comida para os pobres”. Na praia, balanços e escorregadores estavam cheios de moças vindas da missa do galo. Sentaram-se num banco e consideraram a situação com realismo.

— Se jogarmos o peru no mar, pensam que é feto ou macumba, junta gente e nos prendem.

— Y entonces?

Disfarçaram, fazendo deslizar os pacotes para debaixo do banco; e foram saindo de mansinho. Os rádios berravam “noite feliz”.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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