Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 29 de dezembro de 2019

Contos e Lendas do Mundo (China: O Palácio do Príncipe Dragão)

(antiga fábula chinesa)

Neste mundo sempre houve muita coisa bonita para se ver. Dentre elas, destacava-se a corrida de barcos-dragão que se realizava em Su-Chian, no quinto dia da quinta lua. Cada embarcação levava esculpido no lenho um dragão de escamas verdes e douradas; as balaustradas tinham enfeites de flores laqueadas e estandartes de seda bordados. Da popa saía uma espécie de trampolim de madeira, onde ia sentado um rapazote perito em acrobacias. Exibia-se em belos movimentos rítmicos, chegando, por vezes, a dobrar a tábua até fazê-la tocar a água, dando a impressão, a cada instante, de que ia mergulhar. Esses rapazes eram treinados desde crianças e alguns deles, por sua perícia, eram disputados a peso de ouro pelos diversos proprietários dos barcos-dragão.

Dentre os melhores, o mais hábil era, sem dúvida, A-Tuan, belíssimo rapagão órfão de pai.
Aconteceu que, durante uma daquelas festas, A-Tuan perdeu de fato o equilíbrio e foi cair no rio que o tragou, fechando sobre ele suas águas. Imediatamente, os nadadores mais destros mergulharam em sua busca. Mas, por mais fundo que mergulhassem, nem sequer o avistaram. Voltaram à tona resfolegantes e desiludidos: não fora possível salvá-lo.

Era preciso avisar a velha Chiang, mãe de A-Tuan, do ocorrido. Acabrunhados, os proprietários dos barcos-dragão foram em comitiva procurá–la. A pobre mulher chorou muito. Só o que trazia consolo ao seu coração aflito era a dor sincera que demonstravam todos e o pensamento de que seu filho fora amado por muitos.

A-Tuan, porém, não morrera: no instante em que cairá n’água (e não saberia explicar como lhe tivesse acontecido, perdera o equilíbrio, excelente acrobata que era) sentira-se agarrado por duas mãos que o puxavam para o fundo. A água se erguera ao redor dele, alta como uma muralha, e ele percebeu que podia respirar perfeitamente. Recobrando uma certa serenidade, A-Tuan pôde ver um castelo. No centro de um salão imenso, um homem com um elmo na cabeça estava sentado num trono.

— Este é o Príncipe Dragão, anunciou uma voz às costas de A-Tuan; ajoelhe-se diante dele.

O olhar do príncipe, pousado em A-Tuan, irradiava benevolência.

— Você é um rapaz de rara habilidade: pode entrar a fazer parte do grupo "Ramos de Salgueiro".

Foi tudo o que lhe disse. Depois, A-Tuan sentiu-se transportado por seu acompanhante invisível para longe do palácio, até um recinto cercado de amplos pavilhões. Ali chegados, seu acompanhante fê-lo subir à varanda do pavilhão leste, de onde saiu, toda sorridente, uma velha senhora.

— Esta é a Senhora Sie, disse a voz de sempre, e vai ser sua mestra.

A senhora sentou-se na varanda e chamou por alguém. A-Tuan viu aparecerem lá de dentro diversos rapazolas que não teriam mais de treze ou quatorze anos. Cumprimentaram A-Tuan e foram muito amáveis com ele.

— Agora vamos mostrar a A-Tuan a "dança do relâmpago" e a "dança do vento", disse a senhora Sie.

Logo se ouviu o rufar de tambores e o bimbalhar de pratos de cobre e a dança começou. Era algo indescritível, digna dos gênios. Quando se restabeleceu o silêncio, a senhora Sie chamou para perto de si A-Tuan, com a intenção de lhe ensinar os passos da dança. Ele, porém, não a deixou falar.

— Mande recomeçar a música e eu lhe darei uma amostra do que sei.

Assim que a primeira nota ecoou na esplanada, A-Tuan começou a dançar. Todos o fitavam atônitos, prendendo a respiração, e a velha senhora Sie explodiu em frenético bater de palmas.

— Magistral! exclamou, possuída de entusiasmo. A sua perícia iguala à de Flor de Verão!

Não sabendo quem era Flor de Verão, A-Tuan não estava em condições de apreciar plenamente o elogio. Compreendeu, porém, que a velha senhora lhe admirava a arte e deu-se por satisfeito.

No dia seguinte, o Príncipe Dragão recrutou, para serem examinados, os vários grupos de bailarinos, que foram reunidos ao pé de uma escadaria, num pátio muito grande. Os primeiros a serem examinados foram os duendes. Tinham rosto de menino e corpo de peixe; e dançavam batendo com força num prato de cobre, que produzia ruído de trovão. A cada bater de prato, pulavam tão alto que saíam da água e chegavam a tocar a abóbada celeste, de onde faziam cair um chuvisco de estrelas.

A seguir, foi a vez das "Passarinhas". Eram todas donzelas formosas e elegantes que dançavam acompanhando-se numa espécie de flauta. Pouco a pouco, ao redor delas, foi-se
aplacando o fragor das ondas, foram-se enregelando as águas até que tudo se transformou num mundo de cristal translúcido. Finda a dança as águas voltaram a mover-se com o ruído de sempre, enquanto as donzelas iam colocar-se eretas e imóveis ao pé da escadaria.

Veio depois o grupo das "Andorinhas", raparigas muito jovens, que dançavam agitando as mangas compridas de suas vestes. Na cabeça, traziam uma guirlanda de flores perfumadas. Vestiam uma roupagem azul e preta, de duas caudas, lembrando andorinhas. Uma, entre as demais, esvoaçava como se tivesse asas. De suas vestes desprendiam-se, ondulando ao vento e sobre as ondas, botões de flores multicores que, vagando daqui para acolá, acabaram por cobrir todo o pátio. Terminada a dança, foi-se juntar às companheiras ao pé da escada.

A-Tuan, que estava ali perto, tomou-se de encantos por ela. Quis saber quem era e os de seu grupo, admirando-se de que ainda não a conhecesse, exclamaram:

— Quem havia de ser senão Flor de Verão!

A-Tuan não teve tempo de retrucar, pois, nesse ínterim, o Príncipe Dragão chamara o grupo dos "Ramos de Salgueiro” e era chegada a sua vez de dançar.

A dança foi tão perfeitamente executada quanto as outras. O príncipe elogiou A-Tuan por sua diligência em aprender e por sua destreza em executar o que aprendera. Deu-lhe de presente uma faixa toda de escamas de ouro para prender o cabelo. Nela estava incrustada, bem no centro, uma esplêndida pérola que, à luz do luar, tinha o fulgor de uma estrela.

A-Tuan agradeceu o presente e apressou-se em juntar-se aos companheiros, junto à escadaria. Erguendo os olhos, viu posto nele o olhar meigo de Flor de Verão; mas, intimidado, não fez um gesto nem disse uma palavra.

A um sinal do Príncipe Dragão, todos os grupos puseram-se a desfilar em boa ordem, voltando, cada qual, ao seu próprio pavilhão. A-Tuan e Flor de Verão mal tiveram tempo de trocar um olhar de despedida e depois perderam-se de vista.

A-Tuan não esquecia a linda dançarina. De tanto pensar nela, de tanto sentir a sua falta, acabou adoecendo. Perdeu o apetite e o sono. Em vão a velha senhora Sie fazia-o beber poções milagrosas. A-Tuan estava cada dia mais magro e definhava. Os olhos encovados e tristes, perderam o brilho. Só a pérola que resplandecia em sua fronte lhe iluminava o semblante opaco.

Ninguém atinava com a causa do mal que o oprimia. A velha senhora afligia-se por estarem às vésperas de uma festa da mais alta importância em que todos os grupos iriam exibir-se.

— Está-se aproximando a festa do Príncipe dos Rios e A-Tuan continua dessa maneira. O que havemos de fazer com ele?

Nesse pé estavam as coisas, quando, certa noite, um rapaz pertencente ao grupo dos duendes foi visitar A-Tuan. Sentou-se na beira da cama e puseram-se os dois a conversar disto e daquilo.

— Será possível que ninguém descobre o motivo da tua doença? perguntou, a certa altura, o visitante, com um sorriso matreiro.

— Ninguém entende nada, respondeu A-Tuan, com um fio de voz.

— Flor de Verão não teria, por acaso, algo a ver com tudo isto?

— O que te faz pensar assim?

— O fato de Flor de Verão padecer do mesmo mal, retrucou o duende a rir. Quem me contou foi uma rapariga do grupo das andorinhas.

A essas palavras, A-Tuan ergueu-se na cama.

— Meu amigo, não haveria um jeito de eu me encontrar com Flor de Verão?

— Talvez haja.

— Ó, por favor, você que sabe tudo a meu respeito, diga-me o que devo fazer.

O duende fitou-o, pensativo; depois acrescentou:

— Não vai ser fácil: teremos de percorrer um longo caminho e, no fim, nem é certo que cheguemos a encontrá-la.

— Mas por que é que é tão difícil assim ver Flor de Verão? perguntou A-Tuan.

— O Príncipe Dragão a mantém sob estrita vigilância. Como viu, é uma dançarina incomparável e ele tem medo de perdê-la.

— E como havia de perdê-la?

— Alguém poderia raptá-la e levá-la de volta à terra. De fato, ela tem muitas saudades da terra, apesar de ser tão querida aqui.

— Pois eu sinto o mesmo e gostaria de poder dizer o que sinto à Flor de Verão.

A-Tuan insistiu tanto, rogou tanto que o duende, por fim, se rendeu. Decidiu-se a agir e perguntou logo:

— Pode andar?

— Com algum esforço, posso.

Auxiliado pelo rapazinho, A-Tuan saiu do quarto. Percorreram diversas galerias que pareciam entalhadas em cristal até chegarem a uma porta. O duende abriu-a e passaram os dois por ela. Depois de mil e uma viravoltas, encontraram outra porta, que o duende abriu, também. A-Tuan viu, com estupor, que se encontravam num bosque todo de árvores de magnólia, tão altas que era impossível ver até onde chegavam. As folhas eram grandes como esteiras e as flores eram como gigantescos chapéus de sol. As pétalas caídas jamais haviam sido removidas e formavam, no chão, uma camada fofa e macia, da espessura de dez colchões sobrepostos.

O duende mandou que A-Tuan se sentasse.

— Descanse enquanto espera, que eu já volto.

— A-Tuan obedeceu e ficou à espera. Estava ansioso, tinha a sensação de que o duende se demorava eternamente.

Entretanto, não eram decorridos mais que alguns instantes, quando, mudo de surpresa, viu, surgir, ali onde o duende desaparecera, uma donzela de rara beleza, que o fitava, sorrindo com timidez. Era Flor de Verão! Foi dos mais felizes o encontro dos dois: confiaram um ao outro toda a história de suas vidas. Flor de Verão contou que, certo dia, quando navegava pelo rio, na embarcação de seu pai, curvando-se sobre as águas frescas e cantando, sentira que a puxavam para o fundo. Fora coisa de segundos: logo após, estava na presença do Príncipe Dragão.

— Todo o mundo me trata muito bem; são todos bondosos comigo, disse ela a suspirar, mas eu tenho saudades de minha família e só penso em voltar para a terra.

— Eu também, disse A-Tuan com lágrimas nos olhos; eu também penso em minha mãe e na dor que há de ter sofrido por me crer morto. Mas não tenho esperança de fugir daqui.

— Nem eu tampouco, disse Flor de Verão chorosa. Muito menos agora, às vésperas de uma festa tão importante: redobraram a vigilância. Receio não poder mais vê-lo antes do dia das danças.

Com efeito, assim foi. Os ensaios mantinham atarefadíssimos todos os grupos de dançarinos. Na verdade, porém, desde o dia em que se haviam encontrado, tanto Flor de Verão como A-Tuan recobravam as forças. E puderam dançar de novo. Era preciso, porém, recuperar o tempo perdido e disso se encarregou a senhora Sie. Infatigável, fazia-os exercitarem-se dia e noite e os mantinha sob tão rigorosa vigilância que não lhes deixou um minuto sequer para novo encontro.

Chegou o dia da festa. Conduzidos pelo Príncipe Dragão, todos os grupos se encaminharam para a grande esplanada onde teriam lugar as danças em honra do Príncipe dos Rios, O espetáculo foi deslumbrante. O Príncipe dos Rios ficara impressionado com a prestigiosa habilidade de A-Tuan: porém, a graça indizível de Flor de Verão fora o que o subjugara.

Findas as festividades, os dois príncipes trocaram gentilezas e dádivas, Depois, todos voltaram a seus pavilhões. Todos, exceto Flor de Verão e mais outra bailarina do grupo das "Passarinhas", que foram destacadas para morar no palácio do Príncipe dos Rios, onde iriam ensinar dança às damas da corte.

Imensa foi a dor de A-Tuan. Suspirara tanto por aquele dia, na esperança de ter uns momentos de folga! Esteve a ponto de adoecer de novo. Fez de tudo para convencer a velha senhora Sie a mandá-lo também para o palácio do Príncipe dos Rios, mas ela sacudia a cabeça, sem nem ao menos uma resposta.

Passaram-se, assim, alguns meses. Certo dia, uma infausta notícia espalhou-se pelos pavilhões.

— Sabem da novidade? Flor de Verão subiu para o grande terraço do castelo do Príncipe dos Rios e se afogou!

A coisa parecia inacreditável. Como poderia alguém, vivendo no fundo do rio, afogar-se?

A-Tuan atormentava-se com a ideia do desaparecimento da moça.

— Estamos tão habituados a viver no fundo d’água que a água é o nosso elemento. No entanto, Flor de Verão subiu ao terraço superior do palácio e se afogou! Não posso acreditar!

— A verdade, repetiam-lhe os amigos, é que ninguém mais a viu.

A-Tuan, no auge do desespero, arrancou da cabeça a faixa de escamas de ouro e a fez em pedaços: foi buscar suas vestes mais ricas e as reduziu a frangalhos. Depois, para acalmar a dor de seu coração, quis voltar para o meio das flores de magnólia, onde ele e Flor de Verão se haviam encontrado.

Seguiu pelas galerias, atravessou a primeira porta, foi adiante, até encontrar a segunda. Abriu-a e ei-lo no bosque. Pareceu-lhe que seu coração parasse de bater, tão viva era a lembrança de seu primeiro e último encontro com Flor de Verão.

Depois de muito caminhar, de repente, se viu às fraldas de uma muralha altíssima, à qual estava apoiada uma escada que parecia não ter fim. A-Tuan comprovou, com estupor, que a muralha era formada pelas águas do rio, de tal maneira solidificada que jamais alguém poderia atravessá-la. Trepou rápido escada acima. Chegou a alcançar a altura das magnólias e foi subindo, subindo, até ultrapassá-las...

"Sabe-se lá onde vai ter esta escada!" dizia consigo. "Estou exausto, não aguento mais! Se esta subida não tem fim, vou rolar lá para baixo de cansaço."

Subitamente, a escada terminou. E, um pouco mais acima, terminava a muralha também. A-Tuan trepou alguns metros mais, até galgar o muro e, de lá, atirou-se do outro lado. Ao voltar a si da vertigem provocada pela queda, tentou nadar. Viu, com surpresa indizível, que o sol resplandecia sobre sua cabeça e que as águas do rio se estendiam em volta dele. Estava livre! Estava de novo na terra! Louco de alegria, deixou-se levar pela correnteza e, ora nadando, ora boiando, chegou à margem.

— Ei, você aí, gritou-lhe um pescador que lançava a sua rede; de onde vem?

— A minha jangada naufragou e não sei exatamente onde estou.

— De que aldeia és?

— De Su-Chian.

— Pode julgar-se um rapaz de sorte: não está longe. Só tem que chegar à curva do rio, que atravessa o vale.

A-Tuan agradeceu e- saiu correndo na direção indicada. Não tinha a mínima ideia do tempo que estivera ausente. Parecia-lhe que a estação do ano era a mesma de quando caíra no lago.

De repente, descortinou sua aldeia natal. Com passo mais compassado, refreando a emoção, chegou à casinhola onde nascera e se criara. Estava já quase a entrar, quando ouviu, lá de dentro, uma voz jubilosa que dizia:

— Senhora Chiang, seu filho está aqui!

A-Tuan estacou. Aquela voz, embora só uma vez a tivesse ouvido, ficara-lhe para sempre no coração. Não, não era possível que se enganasse!

De fato, lá estava, para recebê-lo à soleira da porta, junto a sua velha mãe, Flor de Verão, que lhe sorria com olhos brilhantes de alegria.

Contou-lhe que, lá no palácio do Príncipe dos Rios, sentia-se morrer de melancolia. Pensara, então, que, talvez, subindo ao telhado mais alto, pudesse avistar o pavilhão onde vivia A-Tuan e saudá-lo de longe. Às escondidas, fora ao terraço, mas, ao espichar o pescoço para enxergar mais longe, perdera o equilíbrio e caíra. Mas, tal como acontecera com A-Tuan, a queda, em lugar de arrastá-la para o fundo, fizera-a boiar nas águas do rio. Fora recolhida por uma jangada que passava e, tendo sabido que sua família perecera num naufrágio, dera o nome da mãe de A-Tuan, para cuja casa a haviam acompanhado.

A velha senhora Chiang chorara de comoção, ao saber que o filho vivia. Depois, derramara novas lágrimas ao pensar que jamais o tornaria a ver. Flor de Verão, porém, tinha muita esperança. E os fatos vieram-lhe dar razão.

Casaram-se em meio à alegria geral. Dançaram para o encantamento de todos os presentes que se desfizeram em elogios.

Só o Príncipe Dragão, tendo perdido seus melhores dançarinos, por muito tempo viveu acabrunhado e inconsolável.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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