Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Nilto Maciel (A Tragestória de Getúlio)


O bigodão do gordo se mexeu, quando pedi a primeira dose. Ao beber, percebi que ele desconfiava de mim. Seus olhos pareciam lâminas a cortar meus lábios. No entanto, eu precisava beber. Engolir o veneno, o fel. Minhas vísceras, frágeis vertentes por onde desaguavam metais derretidos. Não quis cuspir ao pé do balcão e corri para a porta. Cuspi sobre o lombo do cachorro que lambia o traseiro de outro. Tentei acender, apressado, um cigarro. Uma baforada de ar frio entrou pelas narinas, pela garganta, pelos olhos. Voltei e pedi mais bebida. E mais, mais, mais.

– Acertei.

Ai! Estou caindo. Ai ai ai. Preciso me agarrar a esta parede lisa azul. O chão me arrasta, como correnteza. Tudo está caindo. Esta luz amarela parece o sol do meio-dia. Dói, feito areia nos olhos.

– Matei o safado.

Uma mesa? Um baú? Que cauda é esta crescendo e brilhando? Um animal estranho? Os livros estão dançando. Tela sem imagem. E aquela criança de orelhas enormes? Sofás de tantas cores! Devem ser macios demais para o sono de quem chega muito cansado.

– Meu Deus! Que fizeste, Rodolfo?!

A mulher grita, como se visse o diabo. Treme, chora. Agarra-se às costas do gordo corado alto que fala, gesticula e aponta o cano para a minha boca.

– Deve ter morrido.

Eles me pegaram, me bateram por muito tempo e me quebraram os dentes. Nunca fui a dentista. Os dentes apodreceram cedo e foram caindo, aos poucos. Como o avião que afundou na lagoa. Morreram todos e o povo fez festa. Eu não votei porque não pude. Não tinha documentos. Tirei a carteira de trabalho e saí à procura de emprego. Arranjei, mas nem precisava de carteira.

– Está vivo ainda.

Eles pensavam que eu já tivesse morrido. Bebi muito e dormi à porta do bar. Acordei só de cuecas. Rapazes dançavam, abraçados e sem camisa. Entrei na folia. Viva o Flamengo! Roubei uma camisa de listras pretas e vermelhas e fui embora.

– Estou querendo acabar de matar esse bicho.

O galo sangrava e não percebia as penas ensopadas do próprio sangue. Tive pena, mas sentia muita fome. Então decepei o pescoço ensanguentado com uma faca cega. Arranjei farinha com Seu João e assei o bicho.

– Chame a polícia, enquanto eu vigio.

Quando chegou, já era tarde. O criminoso já havia fugido e o pobre do Bira estava mortinho da silva. E bebemos mais ainda. Até a hora do enterro.

– Chame logo.

Não chamei. Ela não era minha mãe. Levei outra surra e fiquei todo ferido. O corpo doído, como se tivesse sido pisado por um elefante. Ah se eu fosse Tarzan! Saía pulando de galho em galho. Como a Chita. Tão inteligente! Já terá morrido?

– Ele já morreu?

Não sei. Fugi de casa no outro dia. Nunca mais ouvi falar dele. Deve ter morrido bêbado. Ou ainda deve estar no barraco com aquela égua e os meninos. Coitada de Lucinha! Naquele cabaré, bebendo, apanhando, passando fome. Dá até vontade de chorar ou morrer.

– Ouviu a sirene?

Madalena, se fosse mulher. Mas como é homem, será Getúlio. Que nome mais feio! Ora, o nome de um homem como esse não pode nunca ser feio. Estou prestando uma homenagem.

– Abra a porta.

O sol entra em meus olhos. Fechem a porta, não deixem essa bola de fogo invadir a casa.

– Ainda bem.

O mundo é quente e ruim. Como seria bom estar guardado em mamãe.

– Onde está o ladrão?

É um menino. Deus te dê muita saúde e felicidade.

A mãe está morrendo, doutor. Depressa, depressa!

– Parece que já morreu, Seu Delegado.

Fonte:
Nilto Maciel. Tempos de Mula Preta, contos. Secretaria da Cultura do Ceará: 1981.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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