sexta-feira, 12 de junho de 2026

Asas da Poesia 191


Trova Humorística de 
OTÁVIO VENTURELLI
Nova Friburgo/RJ

Levou susto o "Seu" Gracindo
ao ver, da mulher Tereza,
a dentadura sorrindo
num copo d'água na mesa...
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Poema de
AMANDA MIRELLA SIMPLÍCIO DA SILVA
Recife/PE

Amores clareados

Calam os passos clareados
Pelo sol já desvendados
Proibido amor a vento.
Pele e corpo se conhecem
Mente e alma se padecem
Vai o amor, fica o lamento.

E os teus olhos clareados
Raros olhos revoltados
De fulgor e de tormento.
Sentem o fogo rotineiro
E com ele passageiro
Proibido amor a vento.

Clareada é tua chama
Que renasce e te proclama
Meio a tanto sofrimento.
Foge à luz a vil navalha
Com seu corte, incendiária.
Que retalha esse momento.

Alma clara, clareada.
Sombra sã que faz-se amada
Na certeza do contento.
Esperança em olhos claros
Para ti já não mais raros
Proibido amor a vento.
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Aldravia de 
ÂNGELA TOGEIRO
Belo Horizonte/MG

Poeta
dorme
verso
e
acorda
poema
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Poema de 
MIGUEL RUSSOWSKY
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC

Promessas

Estava eu só Passou... Sorriu... Olhei-a...
Estremeceu. Estremeci. Sucede
que o imprevisível manda e a gente cede.
No céu azul brilhava a lua cheia.

Depois... as consequências... — Quem as mede
se a razão, sem razão, já titubeia?
E o mar acariciando o ardil, na areia:
"O vinho é bom sorver antes que azede!"

Vai-se o verão. Agora é frio e neva.
Palavras sem valor, o vento as leva.
As juras antecedem as desditas.

Um instante de amor — eternidade!
Dois instantes de amor — fidelidade'
... Nem todas as mentiras foram ditas.
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Trova de
MARYLAND FAILLACE
Santos/SP

Terminada a criação,
Deus olhou a terra nova
e ao homem deu permissão
de eterniza-la na trova!
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Poema de
ANTÔNIO FERNANDO SODRÉ JÚNIOR
São Luís/MA

Declaração

Declaro para todos os fins que te amo
absoluta e incontrolavelmente
pois o Amor, sempre menino
de toda razão é livre...

Confesso, contudo, não quis te amar
não quis unir meu sorriso ao teu
prender no toque das mãos nuas
o tempo que paira lento
no ar quando te vejo...

Não quis a dor da ausência
o peso das lágrimas tristes
a corroer a superfície do desejo
dessa ardente vontade
de te querer mais que tudo...

Perdoe-me a ironia dos primeiros versos
é que cada lembrança traz a memória tua
viva em todos meus pensamentos...

Amo-te no instante das coisas infinitas
daquelas que têm moldura de nuvem
que se desfazem e voltam
à mesma forma de antes
etéreas e intocáveis...
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QUADRA POPULAR

Ter amor é muito bom
quando há correspondência;
mas amar sem ser amado
faz perder a paciência.
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Soneto de
RAIMUNDO CORREIA
(Raimundo da Mota Azevedo Correia)
Baía de Mogunça/MA, 1859 – 1911, Paris/França

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
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Trova de 
JOAMIR MEDEIROS
Natal/RN

O imortal desaparece
desta vida transitória,
mas seu verso permanece
nas letras vivas da história!
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Poema de 
EDILENE DE SOUSA ARAÚJO
Castanhal/PA

Ponto celeste

Você é
Meu porto seguro,
Meu grito de terra à vista,
Resgate nas horas imprevistas
Minha nau de chegada
Nunca de partida.
Você é
Meu alicerce de concreto,
Meu caminho sempre reto
Meu oásis no deserto.
Você é
Meu sim,
Meu não,
Meu Leste-Oeste,
Meu norte-sul,
Meu ponto celeste.
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Hora de Ter Saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)
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Setilha de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Sem ser cristãos ou ateus, -
somos iguais, na verdade;
em nosso mágico mundo
vivemos em liberdade,
com versos, por companhia,
cheios de paz e alegria,
que nos dão felicidade!
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Trova de
MOREIRA LOPES
Maranguape/CE

Acalento tanto sonho
dos meus tempos de criança
que me conservo risonho
e repleto de esperança.
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Glosa de 
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
o meu verso tem o cheiro 
da poeira do sertão!
MANOEL DANTAS 
(Pau dos Ferros/RN)

Glosa:
A luta do sertanejo 
meu Deus, como ela é puxada; 
ao cabo da sua enxada 
passa o tempo no manejo 
da terra. Ao ver um lampejo 
põe em Deus sua esperança
que chova, com abastança, 
pra molhar o seu torrão; 
não passou de uma ilusão; 
está seco o seu regueiro, 
o meu verso tem o cheiro 
da poeira do sertão!
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Aldravia de 
EUGÊNIA DIANA SILVA DE CAMARGO
Porto Alegre/RS

borboleta
deixa
casulo
para
polinizar
vidas
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Soneto de 
FILEMON FRANCISCO MARTINS
São Paulo/SP

Noite e versos

Vai alta a noite. A madrugada é fria,
a insônia chega, fica e me namora.
Levanto-me à procura da poesia,
mas ela, impaciente, vai embora.

Percorro o céu do amor, da fantasia,
fico em vigília e vejo a luz da aurora:
- que paz a humanidade alcançaria,
se o amor reinasse pelo mundo afora.

Ouço distante, o farfalhar do vento,
e por que minha voz não tem alento,
- se o dia vai nascer como criança?

Surge, então, o cantar da passarada
e outros versos virão, na madrugada,
talvez mais coloridos de esperança.
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Trova de 
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Vou lendo o livro da vida…
mas a página do fim,
uma voz compadecida
talvez a leia por mim!
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Poema de
CARMO VASCONCELLOS
Lisboa/Portugal

Do pagador de promessas…

Tu nada me prometeste…
E eu nada te prometi!
De lembrar-me não esqueceste,
do binómio não esqueci.

Que tinhas pra prometer
se nada tens para dar?...
Rio que não pode correr
não se abalança pró mar!

Promessas fazes, jamais,
nas aventuras corridas,
mas ilusões magistrais
espalhas no ar – sugeridas.

Por que haveria de supor
que tal promessa existia?...
Se te conheço… És d’amor,
uma vasilha vazia.

E por que iria prometer-te
alguma coisa, também?...
Se pra além de não querer-te,
do passado lembro bem.

Não volta às curvas da rota
quem tem dois dedos de testa,
de contrário, vira idiota
na loucura manifesta.

Se nada me prometeste
e eu nada te prometi…
Tu sem mim, nada perdeste
e eu sem ti, nada perdi!

E levas a cruz às costas,
no resgate que carece
quem induz falsas apostas
e a sorte tem que merece!

Encerra-se a peça em glória,
sem ninguém a pedir meças
aos atores desta estória
“do pagador de promessas”!
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Triverso de 
MARILENA BUDEL 
Irati/PR

Na velha floreira
pousa uma borboleta.
Mamãe faz tricô.
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SETILHA POPULAR


Eu nada sei do que sei
Como já filosofado
Muito em tudo que pensei
Está certo, estava errado
No sofisma dos ateus
Não acredito em Deus
Mas posso “está” enganado.
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Trova de 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Sem ódio... sem armamento...
sem heróis, que a guerra faz,
será, o mundo, um monumento
erguido em nome da PAZ!
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Hino de 
JOINVILLE/ SC

Tu és a glória dos teus fundadores,
És monumento aos teus colonizadores,
Oh! Joinville Cidade dos Príncipes,
Oh! Joinville Cidade das Flores.

Às margens do Rio Cachoeira,
Um dia o audaz pioneiro,
Plantou do trabalho a bandeira
E se deu, corpo e alma, ao torrão brasileiro.

Depois foram lutas e penas,
Mas nunca o herói fraquejou,
Com sangue, suor e com lágrimas
Do seu próprio corpo teu solo irrigou.

Tu és a glória dos teus fundadores,
És monumento aos teus colonizadores,
Oh! Joinville Cidade dos Príncipes,
Oh! Joinville Cidade das Flores.

E se hoje o bravo imigrante,
Que tua semente plantou,
Com a força e o vigor de um gigante
Nas mãos com que, em preces, ao céu suplicou,

Te visse radiosa e pujante,
Nascida na mata hostil,
A imagem da Pátria distante
Veria, grandiosa, exaltando o Brasil!
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O Tributo Lírico à História e Beleza de Joinville
O 'Hino de Joinville - SC' é uma composição que presta homenagem à cidade de Joinville, localizada no estado de Santa Catarina, Brasil. A letra do hino destaca a bravura e o esforço dos fundadores e colonizadores da cidade, que enfrentaram desafios e adversidades para estabelecer uma comunidade próspera e vibrante. A menção à 'glória dos teus fundadores' e ao 'monumento aos teus colonizadores' reflete o respeito e a gratidão pelas raízes históricas da cidade.

O hino também faz referência à localização geográfica de Joinville, 'às margens do Rio Cachoeira', e ao espírito empreendedor dos pioneiros que 'plantaram do trabalho a bandeira'. Essa expressão simboliza a dedicação ao trabalho e o compromisso com o desenvolvimento da região. A imagem do 'audaz pioneiro' que 'com sangue, suor e com lágrimas' irrigou o solo da cidade com seu próprio corpo é uma metáfora poderosa para o sacrifício e a determinação dos primeiros habitantes.

Por fim, o hino celebra a transformação de Joinville de uma 'mata hostil' para uma cidade 'radiosa e pujante', que mantém viva a 'imagem da Pátria distante', referindo-se às origens europeias de muitos de seus imigrantes. A cidade é exaltada como 'Cidade dos Príncipes' e 'Cidade das Flores', evidenciando sua nobreza e beleza natural. O hino é um retrato poético do orgulho e da identidade cultural de Joinville, reconhecendo seu papel na construção da nação brasileira. 
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Poetrix de 
SUELY BRAGA
Osório/RS

O meio ambiente

   O planeta chora.
   Precisamos ser conscientes.
   Cuidemos dele agora.
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Soneto de 
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Anseio

 Por mais que em convulsões o mundo trema,
 rumo ao caos que implacável nos atinge…
 Por mais, seja negado o suave lema,
 Paz e Amor, que de sangue hoje se tinge…

 Por mais que o desencanto fel esprema
 nas almas secas de quem já nem finge,
 creio, ainda, num Deus que é Luz suprema,
 e é Sol que aclara o Bem e o Mal restringe!

 Mesmo envolta nas sombras da amargura,
 mesmo que os dias sigam mais tristonhos
 e a vida, cada vez menos segura,

 fujo à incerteza que o momento traz
 e, sempre vivo, a incrementar meu sonho,
 eu guardo o anseio de encontrar a Paz!
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Trova Humorística de 
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

“Amor não enche barriga”, 
porém surpresas virão: 
- Fez “amor” a rapariga... 
e olha só que barrigão! 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem e a sua imagem

Um homem singular nos fumos da vaidade,
Tinha-se para si na conta de gentil;
No espelho a que se vê sempre acha falsidade,
E vivia feliz nessa ilusão pueril.
Para o curar do achaque, a sorte, que é cruenta,
Aos olhos lhe apresenta
Por toda a parte os tais conselheiros das damas:
Espelhos nos salões, nas lojas, nas batotas,
Nos bolsos dos janotas,
Têm-nos criadas e amas.
O que lembra ao Narciso? Ele vai-se ocultar
Desesperado, então, num ignoto lugar
Sem de espelhos querer entrar noutra aventura.
Nesse local, porém, corria a linfa pura
De aprazível regato,
Que reflete fiel o grotesco retrato,
O qual julga ainda assim ser fantasia vã.
Tenta à pressa fugir por não ver essa imagem,
E da linda paragem
Partiu com certo afã.

Percebe-se o meu fito.
Aludo a toda a gente; o caso acha-se a esmo,
Cada qual o que é seu crê ser o mais bonito,
Nossa alma é este tal vaidoso de si mesmo.
Os espelhos sem conta eis as tolices do homem,
Dos defeitos nos dão legítima pintura;
E pela linfa pura
Das Máximas o livro é bem que todos tomem.
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Colaborações: gralha1954@gmail.com

Mensagem na Garrafa 186 = O Velhinho


AUTOR ANÔNIMO

Um dia estava entrando em uma pequena bomboniere, onde se vendiam doces e doces...

Quando comprei uma maça do amor e fui pagá-la encontrei um velhinho no caixa, com sua voz cansativa, uns 80 anos mais ou menos...

Foi quando começamos a conversar de vida, vida, vida... ele me fez 3 perguntas que ficaram em minha mente por uma semana...

Primeira: Qual é o momento mais feliz da sua vida?

Segunda: Quem é a pessoa mais importante da sua vida?

Terceira: E o que você tem a fazer para ela naquele momento?

Passou uma semana e eu fiquei com essas 3 perguntas na minha cabeça, foi quando resolvi voltar a bomboniere para decifrar as respostas...

Quando voltei, me disseram que o senhor tinha morrido, mas tinha me deixado um bilhete... com o coração apertado o abri e tive uma surpresa ao lê-lo!!!

Tinham as 3 respostas...

As minhas lágrimas começaram a correr pelo meu rosto... então li que o momento mais importante de nossas vidas é o AGORA!! A pessoa mais importante da nossa vida é aquela que está vivendo o momento com você!! E o que você tem que fazer a ela? FAZÊ-LA FELIZ!!!

Somente...

Eduardo Martínez (Sarah, Astolpho e a Sophia com ph)


Sarah, mulher de seus quase 60, era do tipo que praticamente só conhecia o caminho de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Mal saía para comemorações e, quando o fazia, sempre era acompanhada por Astolpho, o marido pouco mais velho e extremamente ciumento. Ela até que gostava desse sentimento, pois se sentia amada como nenhuma outra. 

Certo dia, lá estava a Sarah, que era gerente de um banco, atendendo uma cliente. Esta nem havia chegado aos 30, o que era facilmente percebido pela cútis de quase menina. Seu nome? Bem, seu nome era Sophia. Isso mesmo, Sophia com ph, como gostava de frisar. Ela havia se dirigido ao banco para resolver burocracias de cadastro, já que o divórcio a fez novamente com nome de solteira: Sophia Maria de Almeida, agora sem o França. 

Enquanto mexia no computador para alterar o nome da cliente, Sarah percebeu a fotografia de tela do aparelho celular de Sophia, que o havia colocado sobre a mesa. Não podia acreditar no que estava diante de seus olhos, que se arregalaram até que as pupilas quase explodissem. No entanto, profissional que era, completou o atendimento e, logo em seguida, comunicou a um colega que precisaria ir embora, pois não estava se sentindo muito bem.

Já em casa, encontrou Astolpho preguiçosamente recostado no amplo sofá da sala. Ela passou direto por ele, que ainda pediu uma cerveja. Sarah, pacientemente, foi até a cozinha, abriu a geladeira, pegou a tal latinha e a entregou ao marido. Em seguida, ela foi até o quarto, de onde, minutos após, saiu com uma enorme mala abarrotada de roupas. Voltou para a sala, onde Astolfo dava o seu último gole na bebida. 

– Que mala é essa? Vai viajar?

– Não! Eu não!!! Quem vai é você, seu cretino! - disse Sarah, ao mesmo tempo em que abriu a porta da rua e atirou a mala na calçada. 

Astolpho, sem nada entender, perguntou o que era aquilo tudo. Sarah, quase calmamente, falou da fotografia que havia visto no  aparelho celular da Sophia, aquela que tinha ph no nome. Pois é, o Astolpho aparecia dando um apaixonado beijo nos lábios carnudos da cliente da Sarah. Ele ainda tentou explicar, mas nada convencia Sarah, que começou a xingar o traidor. 

– Sarah, meu amor, você está pegando muito pesado comigo!

– Astolpho, pesado é hipopótamo!!!
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 6.6.2022

Vinicius de Moraes (Conto Rápido)


Todas as manhãs de sol ia para a praia, apertada num maiô azul. Por onde passasse, deixava atrás de si olhares de homens colados a suas pernas douradas, a seus braços frescos. Os fornecedores vinham para a porta, os velhos para a janela, as ruas transversais movimentavam-se extraordinariamente à sua passagem cotidiana. Deixava uma sensação perfeita de graça e leviandade no espaço. Era loura, mas podiam-se ver massas castanhas por baixo da tintura dourada do cabelo. Trazia sempre o roupão meio aberto — e o vento da praia o enfunava alegremente, deixando-lhe à mostra as coxas vibrantes, cobertas de uma penugem tão delicada que só mesmo a claridade intensa deixava ver. Não tinha idade precisa. O corpo era de vinte anos, no entanto os cabelos pareciam velhos, mortificados de permanentes, e faltava-lhe aos olhos verdes a luz da mocidade. Usava uns sapatinhos vaidosos, de saltos incrivelmente altos, que lhe afirmavam melhor a elegância um pouco mole, um pouco felina. Seu filhinho, um lindo garoto de três anos, ela o arrastava consigo naquelas longas passeadas pela areia, pois nunca deixava de perambular um pouco para receber, aqui e ali, galanteios nem sempre delicados, que a deliciavam.

Ficava sob uma barraca parecidíssima com ela, uma coisa colorida e fagueira, localizável de qualquer distância. Ali arrumava cuidadosamente seus pertences, esticava o roupão, acamava a areia com o corpo e depois se esfregava longamente de óleo, as alças do maiô caídas, o início do colo infantil bem desnudado, os dois pequenos seios soltos como limões. O garotinho ficava brincando por ali, ora em correrias, ora agachado ante a maravilha de uma concha, de um tatuí, de um pedaço de pau. Isso era o ritual de todos os dias, que lhe dava tempo para a vinda dos admiradores habituais. Chegavam invariavelmente, um após outro, uns rapagões torrados do sol, de tórax enxutos e carões bonitos, curiosamente parecidos, todos. 

Ela ficava deitada, os braços em cruz, afagando a areia, afagando a cabecinha do filho, que, às vezes, lhe corria a trazer alguma descoberta. Os rapazes pintavam com o menino, alguns enfezavam-no, como a convidá- lo a ir brincar mais longe. Ela deixava, mole para reagir, e de vez em quando deitava um olhar complacente para a praia, a vigiá-lo quando o via um pouco longe. Mas o guri fugia das brincadeiras brutas dos rapazes e ela o esquecia, perdida em sua tagarelice, até que um mais ousado a forçava a um beijo rápido, entre a gargalhada dos demais. Contavam-se fitas de cinema, festas e mexericos de praia, jogavam peteca e uma vez ou outra os rapazes lutavam jiujítsu para ela, que se extasiava. 

Cada meia hora, corriam todos em bando para um mergulho coletivo, e ficavam brincando na água, sem se importar com os demais — os rapazes a empurrá- la, a pegá-la, ela gritando, se defendendo, batendo neles, uma delícia! Nessas horas o menininho chorava, vendo se afastar a mãe. Mas ela voltava e o cobria de beijos sempre consoladores. Na verdade, a vida naquela barraca de praia era a coisa mais inconsequente e agradável da orla marítima.

E assim foi todo o verão. Só nas manhãs de chuva a praia perdia a sua figurinha loura, mas isso mesmo era razão demais para o encontro dos outros dias: ela, o menino e os rapazes de sungas curtíssimas, os tórax crus, a dar lindas “paradas” para ela ver, a pegar nela, a jogar peteca, a lutar jiu-jitsu. 

A jovem penca humana aumentou consideravelmente durante aquele período, e tudo não se passou sem uns dois ou três incidentes entre os atletas, inclusive uma briga feroz a que ela assistiu emocionada e que terminou por uma linda chave de braço com distorção muscular. Essa briga, naturalmente, provocou outras, em bares e festas de verão, mas que se passaram longe de seus olhos e que ela ouvia contar na praia. 

Muitas brigas provocou ela, com seu maiô azul e a sua infantil tagarelice, mas nunca ninguém poderia dizer que tivesse recusado um novo fã, desses que conhecem um da roda e depois, astuciosamente, se aboletam e passam a ser o preferido de duas semanas. E todos sempre adorando o garotinho, achando-o uma beleza, jogando-o para cima, coisa que o apavorava e fazia sempre correr para longe. Ela se zangava levemente, mas acabava rindo com as cócegas que lhe faziam os rapazes, com os tapas que levava. 

Cobria o menino de beijos e depois se estirava voluptuosamente, centro de uma rosa de olhares que não disfarçavam o objetivo. Houve um dia em que um, meio de pileque, chegou a dar-lhe uma mordida na perna. Ela zangou-se de verdade, pegou o filhinho e foi para casa. Deixou atrás um ruído de vozes masculinas se interpelando com ar de briga. Ficou-lhe uma semana uma marca roxa em meia-lua, pouco acima do joelho.

Um dia, quase no fim do verão, estava ela, como sempre, com seu grupo a contar um baile a que tinha ido na noite anterior, maravilha de riqueza e bom gosto. O menino brincava junto às ondas, e os rapazes debruçavam-se todos, em atitudes elásticas, sobre o seu jovem corpo estirado, ouvindo-a tagarelar. Pois imaginem: tinha sido servido um jantar americano e cada convidado trouxera uma garrafa de uísque, e às dez horas apagaram todas as luzes do terraço para aproveitar a claridade do luar: tinha havido tanto pileque e se via cada coisa de espantar, puxa, menino! Cada beijo em plena sala! Como ela não via desde as festas de Carnaval...

Eram quase duas horas e a praia estava completamente deserta. Só a barraca colorida alegrava a hora vazia e ensolarada, recortada contra a espuma forte das ondas e o azul vivo do céu. Ela contava sua festa aos rapazes, inteiramente embebida nas recordações da noite. Foi quando chegou um pretinho correndo:

— Moça, aquele menino não é da senhora?

Ela sentou-se:

— É sim. Por quê? 

O pretinho apontou:

— O mar levou ele.

Os rapazes se precipitaram todos e se jogaram n’água.

Ela saiu atrás, numa corridinha frágil, os braços meio içados numa atitude infantil de pânico. As ondas enormes alteavam-se longe e se abatiam em estampidos de espuma até a praia. Depois refluíam.

Em vão. O mar levara mesmo o menino.

Os rapazes voltaram, incapazes de lutar contra os vagalhões e temerosos da correnteza.

Afrouxado sobre a areia branca, seu corpo fazia uma graciosa mancha azul.

Agosto de 1944 
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MARCUS VINICIUS DA CRUZ DE MELLO MORAES (1913–1980), conhecido como "O Poetinha", foi um dos artistas mais completos do Brasil, atuando como poeta, dramaturgo, diplomata e compositor. Sua trajetória é marcada pela transição do rigor clássico da poesia para a leveza da música popular, sendo um dos fundadores da Bossa Nova. Nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela UFRJ em 1933 e estudou literatura inglesa em Oxford. Ingressou na carreira diplomática em 1943, servindo em cidades como Los Angeles, Paris e Montevidéu. Foi exonerado do cargo em 1969 pela ditadura militar. Casou-se nove vezes e viveu intensamente a noite carioca, transformando sua vida pessoal em matéria-prima para sua arte. Faleceu em 9 de julho de 1980, no Rio de Janeiro, devido a um edema pulmonar. 
A obra de Vinicius é vasta e abrange diferentes gêneros: 
Literatura/Poesia: O Caminho para a Distância (1933): Sua estreia literária.; Soneto de Fidelidade (1946): Um de seus poemas mais célebres; Antologia Poética (1954): Obra fundamental que reúne seus principais versos; A Arca de Noé (1970): Coleção de poemas infantis que se tornaram clássicos musicais.
Teatro: Orfeu da Conceição (1954): Peça que transpõe o mito grego para as favelas do Rio e deu origem ao filme vencedor do Oscar, Orfeu Negro.
Música: Garota de Ipanema: Composta com Tom Jobim, é uma das canções mais gravadas da história. Parcerias históricas com Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Chico Buarque. 
Suas principais contribuições incluem: 
Renovação do Soneto: Resgatou a forma clássica do soneto, mas com uma linguagem moderna, cotidiana e sensual, tornando-a acessível ao grande público;
União entre Literatura e Música: Foi o elo principal entre a elite intelectual e a música popular, elevando o nível lírico das canções brasileiras;
Fundação da Bossa Nova: Ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, criou a estética musical que projetou o Brasil internacionalmente;
Temática do Amor: É considerado o maior poeta do amor e da paixão na literatura brasileira do século XX. 

Fontes:
Vinícius de Moraes. Para uma menina com uma flor. Publicado originalmente em 1966.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 7 *


A saudade sintetiza
sonhos, glórias, sentimentos,
como um filme que eterniza
nossos melhores momentos.
A. A. DE ASSIS

É certo dizer que a idade
não se conta pelos anos.
— Eu, já desde a mocidade,
sou velho... de desenganos!
ABREU CARVALHO

Num afago em seus cabelos,
num carinho em sua face,
vi que, através de desvelos,
um grande amor também nasce...
ADEMAR MACEDO

Eu creio em Deus, com profundo
sentido de lucidez,
mas, no Deus que fez o mundo,
não no deus que o mundo fez!
ALFREDO DE CASTRO

Este alguém que no passado
fez-se Musa em minha lira,
vive em peito guardado
e as minhas trovas inspira.
ALYDIO C. SILVA

Não é uma santa, entretanto,
murmuram, quando ela passa:
- Maria cheia de encanto...
- Maria cheia de graça...
ANA MARIA MOTTA

"Quem canta, os males espanta".
Mas na sonata do amor
minha alma é triste, pois canta
somente as notas de dor.
ANTONIO ROBERTO FERNANDES

Este amor que te declaro
é tão puro e tão bonito
que, ao medi-lo, eu o comparo
à grandeza do infinito!
ANTONIO TORTATO

Vendo aquilo em que se crê
e sentindo o que se nega,
somente um cego não vê
que a humanidade está cega!
APARÍCIO FERNANDES

Gonçalves Dias, teu verso
das terras do Maranhão
aos píncaros do Universo,
prega ao mundo a comunhão!
ARTHUR THOMAZ

Esta vida é uma pomada
da maciez do veludo...
— Eu já não sofro de nada,
de tanto sofrer de tudo!
ASSIS GARRIDO

Tens a placidez dos lagos...
Mas... eu temo, por nós dois,
que, entre carícias e afagos,
venha o dilúvio depois...
BATISTA SOARES

O velho meio caduco
olha o espelho e diz, por fim:
- Este espelho tá maluco,
eu não sou tão feio assim!
CAMPOS SALES

Quando o tempo massacrante
aponta o peso da idade,
todo o passado distante
é presente na saudade.
CARLOS DE SOUZA

Deus! que bom, se, de repente,
o pranto da humanidade
se transformasse em vertente
de Amor e Fraternidade!
CAROLINA RAMOS

Reler a carta guardada...
Minha mão agora oscila,
ante a gaveta trancada,
eu devo ou não devo abri-la?
CECÍLIA PATTI SILVEIRA

Cada dia mais tristonho
carrego o peso das eras,
vendo afogar-se meu sonho
num dilúvio de quimeras!
CLARINDO BATISTA DE ARAÚJO

Aflição... Ânsia... Incerteza...
têm meu peito enamorado
e é mais triste que a tristeza
não ter alguém ao meu lado.
CONSTANTINO GONÇALVES

Porteira batendo ao vento,
tão velha e desconjuntada,
é o rude e triste lamento
da fazenda abandonada!...
DANIEL DE CARVALHO

Desce o luar... Das calçadas,
eflúvios sutis se evolam...
É quando, em paz, de mãos dadas,
as crianças cantarolam.
DAVID DE ARAÚJO

Voltei. Ausência de tudo.
Em silêncio o casarão.
Somente um vestígio mudo:
- retrato dela no chão...
ENÉAS DE CASTRO

As esperanças da vida,
bem como os seus desenganos,
mudam de face à medida
que mudam de face os anos.
EXPEDITO PEREIRA

Eva.. esse anjo encantador
que em pecados se desdobra,
fez do Adão um pecador
e diz... "A culpa é da cobra"!
FERRER LOPES

Na vida que nós levamos,
o que nos tem mais valor
é que juntinhos sonhamos
um lindo sonho de amor!
GALDINO ANDRADE

Oh, mãe preta, a todo instante
relembro a tua humildade,
joia de brilho constante
do sacrário da bondade.
HELVÉCIO BARROS

O céu, o ar e o luar,
a mata, animais e flores...
E o homem quer acabar
essa harmonia de cores!...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO

Um pobre estendendo a mão
invocou de Deus o amor.
- Quer esta rosa ou este pão?
- Prefiro a rosa, Senhor.
IDÁLIA KRAU

Enquanto a guerra inundar
num dilúvio, a Terra inteira,
onde a pomba irá buscar
outro ramo de oliveira?!...
IZO GOLDMAN

Quando te vejo, Teresa,
tão bonita e jovial,
eu considero a tristeza
mais um pecado mortal!
JACY PACHECO

Disseste adeus... e, à partida,
vi meus sonhos, sem os teus,
perdendo o rumo da vida
na travessia do adeus!
JOÃO FREIRE FILHO

Qualquer que seja o motivo
pelo qual me abandonou,
em meu coração cativo,
o pranto nunca secou!
JOSÉ FELDMAN

No amor, meus amigos, vede:
sou um Tântalo, por certo,
pois vivo a morrer de sede,
com tantas fontes por perto!
JOSÉ LOURENÇO

O amor eterniza as vidas
e, a vida, vem nos lembrar:
- Correntes de mãos unidas
ninguém consegue quebrar!...
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Quantas vezes esquecemos,
chorando lembranças mortas,
que "Deus escreve direito,
embora por linhas tortas"!
LEOPOLDINA DIAS SARAIVA

Torna-se longo o momento
da mais breve despedida,
se atormenta o pensamento
no decorrer de uma vida!
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI

Nossa Língua Portuguesa
bem menos rica seria
se não tivesse a riqueza
deste teu nome - Maria!
LUIZ OTÁVIO

Todo momento é perfeito
se traz consigo o pretexto
de incluir, com graças e jeito,
o teu vulto em seu contexto!
  MARIA HELENA OLIVEIRA COSTA

Não me entrego ao desalento
nos momentos mais tristonhos...
Qualquer dilúvio eu enfrento,
com remos feitos de sonhos!...
MARILÚCIA REZENDE

Seria bem diferente
o mundo que se desfaz,
se houvesse dentro da gente
muitas correntes de paz...
MILTON NUNES LOUREIRO

Triste de quem, nesta vida,
pela estrada de onde vem,
nem uma vez deu guarida
às esperanças de alguém.
NICOLINO LIMONGI

Quando penso em falsidade,
teu nome logo me vem:
Teu nome: Felicidade!
- Felicidade? De quem?...
OCTÁVIO BABO FILHO

Feliz de quem não se furta
de lutar, pois vale a pena;
nossa travessia é curta,
mas não deve ser pequena.
  OLYMPIO S. COUTINHO

A travessia mais rude,
que entre nós dois, eu desfiz...
Foi não ter tido a virtude
de fazê-la e ser feliz!
   PROFESSOR GARCIA

Quando a feia se “embeleza”,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
- Ela pensa que eu sou mágico!...
RENATO ALVES

Sempre que a vida nos lança
nas trevas, o que conforta
é ver que a luz da esperança
vem pela fresta... da porta!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

O calendário do peito,
em forma de sonho ou prece,
marca um momento perfeito...
mas que nem sempre acontece.
     VANDA FAGUNDES QUEIROZ

Não parta saudade, agora...
Não fuja... E sabe por quê?
- Maria se foi embora...
- Maria agora é você!...
WALDIR NEVES

Sem temor, meu barco avança,
seja qual for a maré,
pois no mastro da esperança
iço a bandeira da fé.
WANDA DE PAULA MOURTHÉ

Nas trevas desta paixão,
me carregas, te carrego,
um cego sem direção,
sendo guia de outro cego!
ZAÉ JUNIOR

Renato Benvindo Frata (Os olhos tortos da sorte)


Cremos que sorte seja uma força imprevisível, ou um acaso favorável que consegue ditar o rumo dos acontecimentos. Para muitos, ter sorte é ter coisas. Mais coisas. E poder mostrá-las, ser motivo de comparação. De orgulho, ou inveja!

Viu o vestido da fulana? Benza Deus! Essa nasceu com o nariz pra lua! Quanto a mim, ah! A sorte me olha de olho torto... É vesga, essa miserável!

Os olhos de quem assim falou – (como ficam?) – brilham expandidos a quase pularem das órbitas. No fundo deles, em formato cascavel a balançar o guizo, vê-se um sentimento de escassez a virar com intensidade a manivela do complexo de sua inferioridade. Maldiz pela boca da inveja.

Mas sorte e feitiço não são parentes tão próximos quanto parecem; e não se confunda sorte com sortilégio. A primeira se liga a um acontecimento espontâneo, inesperado. O segundo se ata à magia, feitiçaria ou encantamento. Um acontece. O outro é produzido. Enquanto a sorte chega sem convite, o sortilégio tenta arrombar a porta do destino. Exemplo disso?

Lembra-se da fortuna do Tio Patinhas? Era fruto de trabalho e persistência. Era tão rico que nadava em dinheiro. Mas a Maga Patalójika, a bruxa azarada símbolo da cobiça, da inveja e do misticismo, formulava poções, fazia cálculos e o impossível, para lhe roubar a moedinha número um, a que lhe “dava” sorte. Mas, nada. Sempre se saiu mal. Os Irmãos Metralha são outro exemplo. E o feitiço virava-se contra o feiticeiro.

Ter um gibi daqueles era rir à toa. Eles nos ensinavam que a maldade sempre volta em desfavor daquele que a pratica. 

Na minha cidade havia apenas o jogo do bicho e a loteria federal. Um tinha os resultados grudados a um poste. O outro, numa folha de papel na Casa dos Bilhetes. Ali, homens de chapéu e bigode falavam em sorte e azar. Quando acertavam a dezena, o terno, a quadra, urravam de alegria. E gastavam com bebidas o que ganhavam. Também havia conversas sobre mandingas, e até de quem vendera a alma pelo prêmio de São João. Vendeu, mas não recebeu. E endoidou. 

Pouco importavam contas, estatísticas ou probabilidades. Quando a esperança se senta à mesa, a matemática costuma ser posta para fora da conversa. E o jogo, quando deixa de ser passatempo e passa a ser esperança, prejudica o bolso e a cabeça. A sorte? Essa continuará estrábica, no seu entender. 

Talvez nem seja vesga a sorte como a entendemos. Somos nós que, de tanto olhar para o que nos falta, deixamos de enxergar o que já temos. Mas, que fazer uma fezinha de vez em quando é bom, nem se diga. Vai que... dá!
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RENATO BENVINDO FRATA nasceu em Bauru/SP, radicou-se em PARANAVAÍ/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

José Feldman (“A Alquimia do Tempo”) O Eco no Vazio do Asfalto


Eram sete e meia da manhã, o horário em que a cidade ainda boceja fumaça de óleo diesel e o sol tenta, sem muito entusiasmo, atravessar a névoa de poluição. Lupércio, um homem que mantinha o hábito arcaico de carregar o otimismo como quem carrega um guarda-chuva num dia de nublado, saiu de seu prédio. 

Ao cruzar com o porteiro, soltou um "bom dia" cheio de dentes e intenção. O porteiro, absorto em um celular que filtrava o mundo, nem sequer levantou os olhos. O cumprimento ricocheteou no balcão de mármore e caiu no chão, ignorado.

Filosoficamente, o "bom dia" não é um boletim meteorológico. Ninguém está realmente perguntando se o dia será bom; o que se está fazendo é um reconhecimento de existência. Quando Lupércio diz "bom dia", ele está dizendo: "Eu te vejo, você está aqui, somos dois seres humanos ocupando o mesmo fragmento de tempo e espaço". Quando o outro silencia, a resposta implícita é devastadora: "Para mim, você é paisagem. Você é um fantasma de carne que não merece o gasto do meu fôlego".

Lupércio seguiu caminho, mas sentiu um peso sutil nos ombros. Aquele vácuo de resposta gerou um pequeno curto-circuito em sua disposição. 

Minutos depois, ao entrar na padaria, o seu segundo "bom dia", direcionado ao atendente, foi recebido com um resmungo ininteligível. A cortesia, que deveria ser a ponte entre dois estranhos, acabara de ser implodida.

A falta de cortesia funciona como uma poluição invisível. Não arde nos olhos, mas oxida a alma da cidade. Um "bom dia" ignorado na calçada se transforma em uma fechada brusca no trânsito dez minutos depois. O silêncio hostil do elevador transmuta-se em uma resposta ríspida em um e-mail de trabalho. A descortesia é contagiosa, ela cria uma cadeia de pequenos ressentimentos que, somados, formam o humor cinzento de uma metrópole.

A cidade, afinal, é um amontoado de solitários tentando não se esbarrar. Quando paramos de nos saudar, as ruas deixam de ser lugares de convivência e passam a ser pistas de obstáculos. 

Lupércio, ao chegar ao escritório, já não sorria. Quando a estagiária passou por ele e, com timidez, desejou-lhe uma boa manhã, ele apenas acenou com a cabeça, seco. O vírus da indiferença fizera mais uma vítima. Ele, que fora ferido pelo silêncio, agora usava o silêncio para ferir.

O "bom dia" não respondido é o sintoma de uma sociedade que confunde pressa com importância e anonimato com proteção. Acreditamos que, ao não interagir, poupamos energia. Ledo engano. Gastamos muito mais energia nos defendendo da hostilidade urbana do que gastaríamos lubrificando as relações com um simples reconhecimento verbal. Uma cidade sem cumprimentos é uma floresta de concreto onde todos são presas e ninguém é companheiro.

No final da tarde, ao voltar para casa, Lupércio viu um garotinho na calçada apontando para um cachorro vira-lata. 

O menino olhou para Lupércio e disse, com a pureza de quem ainda não aprendeu a ser invisível: "Olha, moço, o cachorro tem uma mancha de coração!". 

Lupércio parou. Aquela pequena intervenção humana quebrou a crosta de gelo que o dia havia formado. Ele sorriu. "É verdade, garoto. Tenha um bom final de dia". 

O menino sorriu de volta. A ponte estava reconstruída.

Moral:
A cortesia é o lubrificante que impede que as engrenagens da sociedade entrem em combustão. Um "bom dia" não respondido pode parecer uma insignificância, mas é o primeiro tijolo na construção de um muro de indiferença que nos isola. Não cumprimentamos o outro para sermos educados; cumprimentamos para reafirmar que, em meio ao caos de cimento, ainda existem humanos. Se o mundo lhe negar a resposta, continue saudando, pois o pior não é o silêncio que você recebe, mas o silêncio que você deixa crescer dentro de si mesmo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de FLORESTA, no interior do estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
FELDMAN, José. Alquimia do tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

A. A. de Assis (Testes para namorados)


“Beleza é tudo aquilo que você não dá conta de ver sozinho.” 

Li essa frase do poeta Bartolomeu Campos de Queirós e fiquei pensando nuns testes que os namorados poderão fazer para ter certeza de que sua atual namorada é de fato a preferida do seu coração. As moças poderão fazer os mesmos testes, bastando inverter os papéis. 

1. Imagine você sentado num banquinho, embaixo de uma árvore florida, diante da paisagem mais bonita do mundo. Naturalmente sentiria vontade de repartir aquele momento e aquela beleza com alguém. Quem você gostaria de ter ali a seu lado? Seria sua atual namorada?

2. Imagine que você estivesse num grande baile onde estivessem reunidas todas as moças solteiras da sua cidade. Você teria o direito de convidar qualquer uma delas para ser seu par constante durante a noite inteira. Entre todas, qual você mais gostaria que aceitasse o seu convite? Tem certeza de que escolheria sua atual namorada?

3. Imagine que você ganhasse um concurso cujo grande prêmio fosse uma viagem em redor do mundo, com todas as despesas pagas, e pudesse levar como companheira a moça que você preferisse, entre todas as suas conhecidas. Qual você mais gostaria que aceitasse ir junto? Será que sua atual namorada seria realmente a escolhida?

4. Se, por acaso, algum ricaço brincalhão lhe perguntasse se concordaria em abandonar sua atual namorada em troca de um cheque de um milhão de reais, qual seria sua resposta? 

5. Se você pudesse, entre todas as moças do mundo, escolher uma para ser todas as noites a protagonista dos seus melhores sonhos, você está convencido de que escolheria sua atual namorada?

Melhor parar a conversa aqui, visto que pode pôr muito namoro em risco... Mas cá pra nós: seria maravilhoso estar num banquinho, embaixo de uma árvore florida, diante de uma paisagem lindíssima, tendo ao lado a pessoa mais querida do mundo.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 11-6-26)
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em MARINGÁ/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fontes:
Texto obtido no facebook do autor. 10.06.2026
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor