Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Gianfrancesco Guarnieri (Murié e as alturas)



Acionaram o elevadorzinho de madeira e Murié fechou os olhos, segurando firmemente a tábua que servia de balaústre. Uma subida de nunca mais se acabar. Mas era um prédio pequeno, atingiria oito andares somente. Chegando ao topo, de um salto, ganhou a plataforma de concreto e, não conseguindo dominar-se, deixou-se cair sentado. Agarrou os joelhos com força, procurando conter o tremor que lhe sacudia o corpo. O sol já ia alto e abrasava a plataforma imensa de onde brotavam, hirtos, grupos de arames em ponta. Olhou para o alto semicerrando os olhos, reforçando-lhes as rugas. O suor escorria-lhe pelo peito nu. Deslumbrado, escondeu a cabeça entre os braços e deixou-se ficar, clarões vermelhos explodindo na escuridão, coração aos pulos e aquele tremor convulsivo. A mão de alguém pesou-lhe nos ombros. Levantou a cabeça com susto, temendo fosse o mestre-de-obras. Era Pedro. Sorriu contrafeito e tentou uma explicação:

- Vertigem. Tá me dando agora quase todo dia. Mariana diz que deve ser da vista. Eu já não. Acho que é do estômago. Me dá um vazio por dentro cada vez que subo…

- Tá é precisando de descanso, velho!

- É! Também pode ser.

Tentou erguer-se. As pernas continuavam trêmulas. Ao ver, lá embaixo, apequenados pela altura, os companheiros trabalhando, os automóveis cruzando-se na rua, agarrou-se com força ao braço de Pedro e chorou igual criança. Procurando acalmá-lo, Pedro levou-o, devagarinho, até o centro da plataforma. Murié soluçava, lágrimas rolando pelo rosto tisnado. A cada sacudir do corpo curvo do pedreiro, o amigo batia-lhe nos ombros, palmadinhas de consolo, numa solidariedade muda, pois palavras não cabiam. E se Murié chorava estava no seu direito que jeito mais nenhum não tinha. Pedreiro velho e acabado, com vertigem e tonturas; pedreiro com raiva do espaço é pedreiro findo, já sem forças e sem armas para o trabalho. Que é dado ao homem escolher um momento para desabafo. Depois, quando Murié - mais calmo e já no térreo - mastigava o conteúdo parco da marmita, ponderou Pedro com siso:

- Talvez, o melhor seja mesmo procurar outro modo de sustento. Trabalho mais calmo. Quem sabe, um emprego de vigia. Na construtora mesmo pode se encontrar colocação…

Era um fato. Murié murmurou um assentimento. Não via também outra solução. Solução a meio, insatisfatória. Que Murié tinha vida difícil como a de todo pobre, é claro e limpo para quem olhe o mundo com olho honesto. Mas com esforço e às custas da saúde, conseguira manter em nível de vida mínimo: uma mulher mãe de quatro filhos. Três do primeiro casamento. Um, seu. Tratava os quatro sem distinção. O que comia um comia outro. E mais, vestia o pequeno com a sobra dos maiores. As roupas do caçula, tendo passado de corpo em corpo neles se mantendo enquanto cabiam, eram remendos só. Remendos limpos, bem lavados e até recendendo a capim-cheiroso, que a mulher era de capricho e trabalhadeira.

E Murié tinha lá seus orgulhos: de Mariana, do aprumo dos filhos, dos edifícios. Trabalhara num sem número de construções. Mesmo nas grandes. Tinha satisfação contemplando a obra feita. Ele e os outros. Erguendo aquelas estruturas enormes, onde gente morava, onde carros entravam, carros bonitos, de todas as cores. E as pessoas também eram bonitas. Existia um prédio que era o que Murié mais gostava, Gigante de vinte andares, envidraçado, forte. E, à saída do trabalho, não poucas vezes Murié se deixava parado, olhando, entusiasmado com a obra feita. Depois, voltava para a casinha alugada, minúscula e distante, mas bem melhor que o barraco em que começara a vida.

Deixar o emprego, procurar outra colocação. Retrocesso que desgostava Murié. Não poderia admitir a diminuição da entrada mensal. Logo agora que pensava em aumento. Cada tostão, todo contadinho, organizado, aluguel, comida e as doídas prestações consumindo tudo. Não. Mariana estava com a razão. Aquelas vertigens deviam ser causadas pela vista. Os olhos não iam bem. Iria ao Instituto. Resolveria a coisa. Óculos, eis tudo…

Comeu a banana, que Mariana se lembrara da sobremesa e, resolvido, voltou para o elevador, subiu e caiu.
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Fontes:
GUARNIERI, Gianfrancesco. (Organização: Worney Almeida de Souza). Crônicas de 1964. Ed. Xamã, 2008.
Imagem = http://www.senai.fieb.org.br

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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