sábado, 16 de outubro de 2010

Daniel Mundukuru (Do Fundo do Mundo pro Mundo de Cima)


Contam os velhos que, no antigo tempo da criação do mundo, Karú-Sakaibê fez as montanhas e as rochas soprando em penas fincadas no chão. Foi ele também que criou os rios, as árvores, os bichos do céu, das águas e da terra – e também criou o homem.

Karú-Sakaibê, o grande criador, ao perceber que o povo que ele tinha criado para enfeitar a terra e cuidar de toda a sua obra estava brigando muito, decidiu voltar e lembrá-lo de como havia sido trazido lá do fundo da terra.

Assim contam os velhos sobre a vinda dos Munduruku pro mundo de cima:

Karú-Sakaibê, andava pelo mundo sempre com seu amigo fiel, Rairu, que embora fosse muito poderoso, gostava de brincar e se divertir. Um dia, Rairu fez um tatu com folhas, galhos e cipós. Ficou tão igual ao tatu de verdade que Rairu resolveu cobri-lo com uma resina feita de mel de abelha pra que ele nunca desaparecesse. Pra que a resina secasse, Rairu enterrou o tatu e deixou apenas o rabo de fora. Mas, ao tentar tirar sua mão, viu que ela tinha ficado grudada no rabo do tatu!

Como era poderoso, Rairu deu vida à imagem de tatu que, em vez de sair do buraco, foi se enterrando cada vez mais, cada vez mais, levando com ele Rairu, preso ao rabo. O tatu foi cavando cada vez mais fundo, cada vez mais fundo... Quando chegou ao fundo do fundo do mundo, Rairu viu muita gente, gente de tudo quanto era jeito: bonita, feia, boa, má, preguiçosa... Rairu ficou tão impressionado que decidiu voltar rapidamente pro mundo de cima e contar tudo pra Karú-Sakaibê, que já devia estar preocupado com seu sumiço.

Karú-Sakaibê ficou tão bravo com seu amigo que bateu nele com um pedaço de pau. Rairu, pra se defender, falou da aventura ao centro da terra e das gentes que viu por lá.

Karú resolveu então trazer toda essa gente pro mundo de cima. Começou a fazer uma pelota e a enrolá-la na mão. Depois, jogou a pelota no chão. Imediatamente, nasceu um pé de algodão. Karú colheu o algodão e com ele fez uma corda que amarrou na cintura de Rairu, ordenando-lhe que fosse ao centro da terra buscar as gentes que viu por lá.

Rairu desceu pelo buraco do tatu. Lá embaixo, reuniu todas as gentes e falou das maravilhas do mundo de cima, convencendo todos a subir pela corda. Os primeiros que subiram foram os feios e os preguiçosos, pois achavam que iam encontrar comida com muita facilidade e nunca mais precisariam trabalhar. Depois subiram os bonitos. Mas quando eles estavam quase chegando lá em cima, a corda arrebentou e muita gente bonita caiu no buraco e ficou pra sempre lá embaixo, no fundo da terra.

Como era muita gente, Karú-Sakaibê resolveu diferenciar cada povo, pintando uns de verde, outros de vermelho, outros de amarelo e outros de preto. Mas enquanto Karú pintava um por um, os feios e preguiçosos caíram no sono.

Isso fez com que Karú ficasse muito bravo. E o grande criador resolveu transformá-los em passarinhos, porcos-do-mato, borboletas, bichos-preguiça e outros bichos da floresta.

Mas, aos que não eram preguiçosos, ele disse:

- Vocês serão o começo de novos tempos e seus filhos e os filhos dos seus filhos serão valentes e fortes.

E deu-lhes um presente: preparou um campo, semeou e mandou chuva pra regá-lo. E assim que a chuva caiu, nasceram a mandioca, o milho, o cará, a batata-doce, o algodão, as plantas medicinais e muitas outras que até hoje alimentam essa gente.

Contam os velhos que foi assim que Karú-Sakaibê transformou a grande nação Munduruku num povo forte, valente e poderoso.

Fonte:
Munduruku, Daniel. Contos indígenas brasileiros. 2ª ed. São Paulo: Global; 2005. Versão: Roda de Histórias Indígenas

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