Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Jeanette Monteiro De Cnop (Tecelã de Textos)


Jeanette Monteiro De Cnop não se considera uma escritora, na acepção mais usual do termo, apesar de se sentir honrada por pertencer à Academia de Letras de Maringá, desde a sua fundação. Define-se como trabalhadora na seara da palavra, artesã da linguagem, ofício pelo qual se encantou desde menina, em Itaperuna (RJ). Vocação antiga!

Neste livro, Tecelã de Textos, expõe sua trajetória de vida, desde as primeiras experiências com o estudo e com o trabalho, mas especialmente com o seu fazer de professora. E é a esse abençoado labor que dedica a maior parte de sua obra. Delineia seu percurso de professora universitária e pesquisadora. Inclusive presenteia universitários de cursos ligados à docência e a professores de Língua Portuguesa (mas não só) com uma exposição minuciosa de sua prática pedagógica e dos projetos que desenvolveu na Universidade Estadual de Maringá (UEM), em especial a coordenação das “Oficinas de produção textual”.

Faz uma incursão na história do movimento trovadoresco no Estado do Rio de Janeiro e ainda recorda episódios que testemunhou nos eventos culturais de Maringá (PR), desde a primeira estada na cidade, em 1970.

Além de dedicar capítulo especial à sua obra-prima (4 filhos maringaenses), narra experiências como internauta, fala do afetivo envolvimento com alunos, com amigos e com a família, apresentando, junto a uma retrospectiva da vida, crenças, valores, justificativas para o teimoso otimismo que caracteriza toda a sua história, em construção.

No capítulo final, expõe sua maneira de ver a vida pelo ângulo da Doutrina Espírita, o que seguramente norteou a condução de sua trajetória, tanto pessoal quanto profissional, e no relacionamento com as pessoas

Permeia a obra de fotos, trovas e poemas, e conclui com pequena coletânea de textos de alunos, acadêmicos de Letras da UEM.

***

TECENDO O TEMPO
(Sobre Tecelã de textos, de Jeanette Monteiro De Cnop)

* Luciana Rabelo

“Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens trazidas por percepção de toda espécie… Ali repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não absorveu nem sepultou… Aí estão presentes o céu, a terra e o mar, com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo e recordo das ações que fiz, o seu tempo, lugar, e até os sentimentos que me dominavam ao praticá-las. É lá que estão também todos os conhecimentos que recordo, aprendidos pela experiência própria, ou pelo testemunho de outrem.” (Santo Agostinho, Confissões)

Os leitores de Jeanette Monteiro De Cnop (e a própria Tecelã) que me perdoem o tamanho da epígrafe mas penso que os cinco períodos supraditos compõem um bloco inteiriço de poesia e realidade (que andam sempre juntas – sublinhemos – , ao contrário do que pensa muita gente desatenta). Desse modo, temi mutilá-lo, e daí a extensão demasiado longa da epígrafe, a qual me pareceu apropriada para dar início às minhas palavras sobre o livro de minha amiga, a Tecelã Jeanette Monteiro De Cnop. Seus leitores não precisam se assustar: serei breve e leve, mas não supérflua nem leviana (espero).

Tecelã de textos, que agora se reedita, tem, sim, tudo a ver com Santo Agostinho. Por quê? Porque tem a ver com esta deusa que pouco cultuamos e que muito nos enriquece, Mnemosyne, também conhecida como Memória, mãe das musas. É com o auxílio dessa deusa que Jeanette Monteiro De Cnop recupera para si e para nós a sua história e a dos seus, desde a Itaperuna natal até os nossos dias, lá na cidade que saiu da música de Joubert de Carvalho, a bucólica Maringá. Assim, pela anamnese, ou anamnésia, ou anámnesis, como queiram, a Tecelã fluminense-paranaense vai mais além das “vivências de uma professora de Língua Portuguesa”, subtítulo de seu livro. Vai ao encontro de si, de sua nascente (passado ou futuro?), de seu curso e de sua foz (futuro ou passado?), criança, adolescente-professora, mulher adulta, esposa, mãe, Professora, com todos os efes e erres, haja vista a foto da página 224, da qual sinto alguma inveja (sadia), saiba-o, Jeanette Monteiro De Cnop. Anamnese (minha forma preferida), é bom que frisemos aqui, que difere daquela que é tão-somente manobra literária, à Roland Barthes. Trata-se, portanto, de memória deliberada, voluntária (“memória-hábito, como a chama um dos grandes estudiosos do assunto, Henri Bergson), apesar de os “borbotões, numa madrugada após dias de chuva, numa temporada de férias em balneário Canoas, perto de Praia de Leste, no litoral do Paraná” fazerem-nos pensar o contrário, na “memória-pura”, espontânea, conforme ainda a tipologia bergsoniana. A “madeleine” de Jeanette é outra, não entra pela memória gustativa, como a de Marcel; mas sim pela memória intelectual.

Com isso não queremos dizer, por outro lado, que falte à Tecelã de textos a memória social, objetiva, histórica (basta que leiamos, por exemplo, logo de entrada, à página inicial, “Menininha tímida pede licença para chegar”), nem tampouco literariedade. Não, decididamente não. Quer pelo plano do conteúdo, em que a matéria é a memória da mulher e da profissional, quer pelo plano da expressão, pelo qual a “memorialista” arma seus textos verbais e não-verbais, o que dá ao livro o sentido mesmo de uma bem-acabada tessitura. A princípio, atrai-nos a experiência existencial e didática da Autora, o quê ela nos conta; à medida que a leitura avança, porém, percebemos-lhe a mensagem poética, o como ela se conta a nós. Depois da leitura de Tecelã de textos, o que nos resta é um gosto de “quero-mais”…

Obrigados nós, leitores, Tecelã Jeanette Monteiro De Cnop!

Jardim, MS, 8 de junho de 2005.

* Luciana Rabelo é professora universitária (UEMS) e Mestre em Literatura Brasileira (UNESP), com a dissertação Tempo e Memória em Os tambores de São Luís, em que analisa essa obra memorialista de Josué Montello.

Fonte:
Academia de Letras de Maringá

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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