Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cara De Coruja –VIII – A Varinha de Condão

Durante todo aquele tempo Pedrinho, Aladim e o Gato de Botas ficaram de parte, conversando sobre valentias. Aladim contava as mil façanhas de sua lâmpada maravilhosa. Não querendo ficar atrás, Pedrinho contou as proezas do seu famoso bodoque. Por fim chegaram a brigar.

— Pois apareça aqui um dia — disse Pedrinho — para vermos quem pode mais, você com sua lâmpada ou eu com o meu bodoque.

— Aposto na minha lâmpada! — disse Aladim.

— E eu aposto no meu bodoque! — disse Pedrinho.

O Gato de Botas interveio.

— Eu serei o juiz e em seguida desafiarei a ambos. Quero ver o que vale mais, se esse bodoque e essa lâmpada ou as minhas botas de sete léguas!...

Enquanto discutiam e marcavam a data do pega, um acidente muito grave aconteceu na sala. O pobre Visconde dormia em cima do binóculo, tão bem dormido que, de repente, plaft!... caiu lá do alto um grande tombo no chão. Caiu e ficou desacordado. As princesas correram a acudi-lo com água e esfregações pelo corpo. Mas como o pobre sábio não voltasse a si, foi uma consternação geral.

— O melhor é virar o Visconde nalguma coisa – sugeriu Emília dirigindo-se a Cinderela. — Dê-lhe uma varada com a varinha de condão, princesa!

Cinderela, achando boa a idéia, assim fez. Mas antes quis saber no que havia de virar o Visconde. Narizinho achava que deviam virá-lo num grande mágico de chapéu de cartucho. Rosa Vermelha preferiu que o virassem em lobo. Venceu afinal a opinião da Emília, que era a mais prática.

— Tia Nastácia anda precisando dum pilãozinho de socar sal. Boa ocasião para virar o Visconde em pilão! Ao menos fica servindo para alguma coisa.

Aprovada a idéia, a princesa da varinha bateu nele, dizendo:

— Vira que vira, vira virando, vira pilão!

Imediatamente o Visconde virou num pilãozinho novo, exatamente como tia Nastácia queria. A princípio a negra ficou assombrada. Depois disse:

— Mas eu não tenho coragem de socar sal nesse pilãozinho!

Pego a imaginar que já foi o Visconde e morro de dó. Em todo caso, fico muito agradecida a dona Cinderela pelo lindo presente.

E guardou o pilãozinho numa prateleira, resmungando:

— O mundo está perdido!... Quando eu havia de pensar que o Visconde ia ter este fim? Não valemos nada nesta vida. Quando chega a hora de virar, pode ser rei, pode ser Visconde, a gente vira mesmo — e ainda é bom quando vira pilão...

Na sala de baile estavam todos brincando de virar. Cinderela batia com a varinha e virava tudo que lhe pediam. Emília trouxe todos os seus brinquedos para os fazer virar em outros brinquedos ainda mais bonitos. Depois sentiu saudades dos brinquedos velhos e os fez desvirar novamente. E estavam ainda nessa brincadeira, quando ouviram na porta uma batida esquisita, muito diferente das demais. As princesas assustaram-se.

— Parece batida de lobo! — disse Capinha Vermelha que fora espiar pelo buraco da fechadura. — É lobo mesmo! — exclamou de lá, arregalando os olhos de pavor. — Justamente o malvado que comeu vovó...

Foi uma correria. Narizinho procurou acalmar as princesas.

— Não pode ser — disse ela. — O lobo que comeu a avó de Capinha foi morto a machadadas por aquele homem que entrou, É o que dizem os livros.

— Deve de ser erro tipográfico — sugeriu asnaticamente Emília, que também fora espiar o lobo. É lobo, sim – e magríssimo! Bem se vê que só se alimenta de velhas bem velhas. Com certeza soube que dona Benta morava aqui e...

Não pôde concluir. Narizinho estava em prantos.

— Pobre vovó! — gemia ela torcendo as mãos. — Que desgraça se o lobo a devora! Chamem Pedrinho e os príncipes! Corra Emília!...

Mas justamente minutos antes Pedrinho e os príncipes haviam saído para o terreiro a fim de fazerem uma experiência com a lâmpada de Aladim. Estavam as meninas ali sem um homem que as pudesse socorrer.

— Bata com a vara nele e vire-o numa pulga – lembrou Emília já preparando a unhinha para matar a pulga.

— Impossível! — exclamou Cinderela aflita. — Seria preciso abrir a porta e o lobo poderia me agarrar de um bote.

Enquanto isso o lobo continuava a bater, toc, toc, toc, cada vez mais furioso. Depois começou a arranhar a porta, tirando lascas.

Rabicó tremia como geléia; em vez de ajudar as princesas a se salvarem dos apuros, mais atrapalhava. Agarrou-se à saia de Branca de Neve, que teve de afastá-lo com um bom pontapé.

— Só o Visconde poderá nos salvar! — exclamou Emília. – Os sábios sabem meios para tudo.

Disse e foi correndo buscar o pilãozinho para que Cinderela o virasse em Visconde. Cinderela, muito trêmula, bateu com a varinha e o Visconde surgiu de novo, tonto e assustado. Narizinho explicou-lhe do que se tratava e apontou para a porta.

— O lobo está arrebentando as tábuas. Mais um minuto e penetra aqui. Veja se acha um jeito de nos salvar, Visconde!...

Mal a menina acabara de pronunciar essas palavras, o lobo arrancou uma tábua e enfiou o focinho pelo buraco, farejando o ar.

— Hum... Hum!... Estou sentindo cheiro de avó de gente... — rosnou ele.

Era demais. Narizinho desmaiou. Vendo aquilo, as princesas desmaiaram também. Emília ficou na sala sozinha com o Visconde.

— Vamos, Visconde! Faça alguma coisa! Mexa-se!...

Mas o Visconde não saía do lugar, e só então Emília percebeu que ele tinha virado Visconde só da cintura para cima, continuando pilão da cintura para baixo. Com a pressa e o nervoso, Cinderela só lhe havia dado meia varada...

— E agora! — exclamou Emília coçando a cabeça e pensando lá consigo se valeria a pena desmaiar também.

E talvez fizesse isso, se o lobo naquele instante não arrancasse mais uma tábua e não enfiasse dentro da sala quase meio corpo. Vendo que o monstro entrava mesmo, Emília berrou com todas as forças dos seus pulmões:

— Acuda, tia Nastácia! O lobo está entrando de verdade e vai comer dona Benta...

Ouvindo o berro, a negra veio lá da cozinha com a vassoura e num instante espantou dali a fera com três boas vassouradas no focinho.

— Lobo sem-vergonha! Vá prear no mato que é o melhor. Dona Benta nunca foi quitute pra teu bico, seu cão sarnento!...

— Bravos! — exclamou Emília batendo palmas. — A senhora é tão valente que até merece casar com o pássaro Roca.

A preta só disse:

— Em vez de dizer bobagens, antes me ajude a acordar estas princesas. Traga depressa uma caneca de água fria, ande...

A primeira a ser despertada foi Narizinho.

— Que é do lobo? — perguntou ao voltar a si, ainda tonta e com a vista atrapalhada. — Já comeu vovó? A negra deu uma risada com a beiçaria inteira.

— Credo! Que idéia! O lobo a estas horas já deve estar chegando na Europa!... e contou o que havia acontecido.

Em seguida despertou as outras. Capinha Vermelha, louca de alegria, abraçou tia Nastácia, prometendo mandar-lhe uma cesta de bolinhos. As princesas também a abraçaram, prometendo mandar pilõezinhos de verdade e mais coisas bonitas.

Nisto entrou o menino com os príncipes.

— Bonito! — exclamou Narizinho. — Os senhores vão para a troça e nos deixam aqui sozinhas à mercê das feras... e contou tudo.

Aladim ficou aborrecidíssimo de haver perdido aquela oportunidade de mostrar o poder da sua lâmpada e Pedrinho ainda mais, pois com duas bodocadas tinha a certeza de que o lobo sairia ventando. Nesse momento um vulto entrou pela janela como um grande pássaro Peter Pan! Assim que Pedrinho e os demais o reconheceram, reboou uma grande salva de palmas, seguida do hino dos índios guerreiros, composto pela boneca. Dona Benta, que havia acabado de escrever a sua carta, ouviu o rumor e lembrou-se da promessa feita a Narizinho. Veio espiar a festa.

Entrou na sala.

— Boa tarde, senhor Peter Pan! Fico satisfeita de saber que o senhor também é amigo dos meus netos — mas quero que não faça com eles o que fez com Wendy e seus irmãozinhos. Não lhes ensine a voar, senão estou perdida. Se não sabendo voar já são assim, imagine sabendo...

— A senhora pensa que voar é perigoso? — perguntou Emília.

— Levando o seu guarda-chuva como pára-quedas, não há perigo nenhum!...

— Sei que não há perigo — disse a velha. — Mas sei também que se voarem começarão a ir para muito longe e poderão um dia esquecer-se de voltar.

Peter Pan sossegou-a. Disse que nada receasse, pois só lhes ensinaria a voar se obtivesse o consentimento dela.
–––––––
Continua... Cara de Coruja– IX – A Partida

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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