sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Abilio Terra Junior (O Mundo de Maíra)

Sim, perdera o sono, não havia dúvida. O cachorro do vizinho latia, talvez porque percebera que ele havia acendido a luz do quarto! Essa não!

 Passou a mão na lapiseira e em uma folha de papel em branco, colocou os óculos.

 Lembrou-se, então, da mestria com que Maria Luiza Ramos analisava "Maíra", de Darcy Ribeiro, em seu livro "Interfaces", que estava lendo. Dois universos distintos, o indígena e o urbano/branco, os conflitos de Alma e de Isaías, a mulher branca que se lança de corpo e alma à vida entre os índios, sem volta, e o índio aculturado que perdeu o rumo, sente o chamado das origens, mas perdera a sua alma no contato com o mundo do racionalismo e do dogma.

 Não seria esse um conflito dele também, e, em última instância, inerente à psique de todo o seu povo? A luta íntima entre o cotidiano mágico, místico e ritualístico, que lhe chamava das profundezas do passado, e a dura realidade, cartesiana, em parte, opressora e polarizada, em outra, que se apresentava ante seus olhos, mente e sentidos.

 Não estava ele lutando todo o tempo nesse multifário mundo sinistro e desordenado, com sua alma decomposta em duas, ou em três faces distintas, que, angustiadas, gritavam, na pungente busca de se expressar?

 O mundo ancestral mítico fora rompido violenta e tragicamente, dando lugar a um novo sistema de valores, patriarcal, apoiado em rotinas econômicas, com um poder centralizado, e uma religião severa e seca, regida por dogmas estreitos, que ensinavam o medo e a subserviência.

 Daí a sua timidez peculiar ante os desafios do destino e a sua frágil relação com o poder, fosse ele hierárquico - profissional, familiar, exógeno, religioso... e não era o mesmo que percebia em muitos dos seus conterrâneos?

 E aquela sua busca dionisíaca, poética, barroca, do substrato vital, como uma correnteza sensorial que percorria o seu sangue e batia sincopada em suas têmporas.

 Os passarinhos cantavam e o novo dia prometia, como sempre, boas novas. Ele respirava fundo e ainda escrevia.

 Tentaria dormir agora. Repousaria o seu corpo e a sua alma em um sono sereno. Sonharia com as antigas eras, voando em forma de pássaro pelos céus lendários, tentando vislumbrar o deus Maíra, amigo da humanidade.

Fonte:
Garganta da Serpente

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