domingo, 29 de dezembro de 2024

Newton Sampaio (Festa de S. Antônio)

O vilarejo sem história, apertado em todos os flancos pelos grilhões inflexíveis das serras, libertava-se pouco a pouco da dormida plácida sob a colcha enfeitada de estrelas. A alvorada, sem clarins nem tambores, ia espantando, todavia, bem pra lá dos grotões e dos picos, as sombras bracejantes da noite.

E os primeiros fios de luz, deixando descoloridamente em destacado os contornos grotescos das casas, eram vanguardeiros do sol, que não tardaria a chegar com o seu cortejo de luzes. Depois, quando as curvas fidalgas do horizonte emprestavam linhas esculturais às montanhas plebeias, os telhados sem simetria fuzilaram no ar em chapadões borbulhantes.

Já então, as primeiras manifestações da vida começaram a adejar sobre o lugarejo desconhecido. E o rio — um rio largo que vinha lá de longe, e vinha descrevendo arabescos caprichosos entre a deselegância das cordilheiras — arrastou suas águas no coração da vila e levou, diluída nelas, a vibração sem par da manhã cabocla. 

E assim amanheceu o dia de S. Antônio naquela povoação distante.

Lá na última esquina, um comerciante adiposo abre as portas de sua casa de negócio e varre o assoalho cuspido e imundo.

Coçando-se na quina de um poste sem serventia, um pobre cão vagabundo atira ao ar ladridos esparsos, como que antessofrendo, no começo do dia, a melancolia de mais um dia vivido ao léu e sem dono.

No lar do Benedito Olivério desenrola-se a mesma cena de sempre. Ele, sentado na beira do catre, esforça-se por adaptar ao pé o sapatão de couro. A mulher arrasta os chinelos de um lado para outro. E, junto ao fogão, as crianças, esfregando os olhos ainda cheios de sono e de remela, choramingam impertinentes, reclamando um naco de batata assada.

— Mãe, hoje eu queria comer pão.

— Cala a boca, feição do enorme. Onde já se viu esse luxo?

— Pois hoje é o meu dia, mãe...

E Tonico, o filho mais velho, parado na porta que dá para o quintal, contempla com olhos diferentes o azulado longínquo do Pico Agudo.

— Patroa. Faça a vontade do menino. Pelo menos no dia de S. Antônio.

— Qual nada! Extravagância não é pro bico do pobre.

O Benedito Olivério olha a Nida de soslaio. E matutando em silêncio:

— Coitada de minha mulher! Pra ficar “braba” não pede licença. Por um nadinha está subindo a serra. Também, pudera! Uma porção de filhos já quase criados... E ainda por cima uma doença desgraçada no fígado...

E ajeitando a cinta:

— Toma lá, Tonico.

Com gesto displicente, o menino toma a pratinha. E já descendo a rua esburacada, mete as mãos nos bolsos, atirando a esmo assobios discretos. Reflete. A vida... O que era a vida para ele? Uma pasmaceira sem conta... Batera uma crise na casa!... De segunda a sábado, fora os dias santos, atravessar a ponte de manhãzinha, escalar a serra, e lá na primeira baixada ajudar o pai no algodoal. De tarde, um banho no rio. À noite, conversar com a vovó Francelina, e ouvir dela umas histórias sem sabor. Ainda o prendia à velha a gratidão sincera que nutria. Desde pequeno acostumara-se Tonico no conchego da avó. A mãe vivia numa neurastenia sem fim. Até parecia madrasta...

Na volta vê o estrugir de alegria nos outros meninos. E considera a ironia da véspera. Ele, que se chamava Antônio, não tivera uma distração. Nem um busca-pé. Nem uma bomba de parede. E Tonico fica com uma vontade de transformar o mundo numa enorme bomba e atirá-la de encontro ao sol...

Bem de tarde, no quintal da casa, Tonico estende as vistas como que acompanhando um ponto indeterminado a se deslocar no céu que se afogava no delírio do ocaso.

Invade a atmosfera o bimbalhar compassado de um sino. E quebra-se logo ao longe, na fraqueza de ecos sucessivos.

Tonico pensa em assistir à novena de S. Antônio. “Mas pra quê?” E suspende a pergunta na precocidade de seu ceticismo.

No lugarejo, a comemoração do santo continua. Desde a gritaria da criançada até a coparticipação dos grandes. E na algazarra da matula infantil, quando o balão, inflado como fêmea pandorga, inicia livre a ascensão sem destino. E no espoucar intermitente dos traques minúsculos. E no estralejamento vibrante da foguetada.

Noitinha já, entra Tonico na casa. Os irmãos todos de mãos vazias, mas num assanhamento sem conta, foram espiar a festa das outras crianças. A vovó, como sempre, na novena.

— Pai, eu queria arrebentar uma bomba hoje.

— Diabo de guri pedinchão! (E Nida interrompe brutalmente o pedido). Pensa que nós plantamos dinheiro na horta?

— Não se amofine, patroa. É comigo que ele está falando.

Benedito trincoleja no bolso as moedinhas parcas.

— É um esbanjamento nesta casa... Guarda esse dinheiro, Dito. 

— Deixa, mulher, deixa.

Não se conforma a Nida. Aperta as maxilas de raiva. E praguejando: — Tomara que arrebentem não sei onde essas malditas bombas.

O menino sai em silêncio. Que vontade ainda de comprar uma bomba enorme, do tamanho do mundo, e jogá-la de encontro à lua, no crescente!

— Seu Fidélis. Qual é a maior bomba que o senhor tem aí?

— A maior? É esta. Veio como brinde. Mas eu não sei como brincar com isso. Cuidado, menino. O estouro dessa não é estouro de traque, não.

Na esquina próxima, a criançada se agita. A gargalhada dilui-se perdulariamente em todas as gargantas.

— Pessoal! Escute só o estouro desta!

Tonico, de feições contraídas, quer que todos estejam atentos. Não seria melhor que o mundo inteiro olhasse a casa da esquina, naquele momento, como que a válvula única para sua infinita amargura?

O menino, apertando fortemente na mão direita o perigoso embrulho, precisa tomar impulso. Arreda o passo. Volteia o braço para trás. Ao mesmo tempo, imprudentemente, a Piva, uma irmãzinha do Tonico, corre pela calçada. No entanto, não é mais possível tolher o golpe. Projetada com energia contra a parede, reflete-se um pouco a bomba, e estrondeia junto à menina.

No seu aturdido, Tonico não compreende, no primeiro momento, os gritos lancinantes de dor. Em atonia completa, apenas enxerga a irmãzinha nos braços da gente que acorrera. Depois, pela concentração de todas as energias, desliza como uma sombra na rua deserta.

Lá, nos pilares incoercíveis da ponte, o rio continua a música do atrito. E a música da luz, longe, nas estrelas e no crescente, continua a procurar a superfície da água para a multiplicação do concerto supremo. E a sinfonia da semiloucura quer arrebentar os miolos do Tonico...

Sabedora do ocorrido, Francelina sai como doida à procura do neto. Encontra-o na cabeceira da ponte, com o rosto entre as mãos, chorando. Aconchega-o, carinhosa, ao peito. Beija-o com efusão. E sussurra:

— Tonico. Vamos pra casa. Eu sei de uma história bonita que se deu comigo lá em Minas, numa festa de S. Antônio...

Na rua recomeça a alegria. A mesma barulheira esturdia.

— Santo Antônio! Meu bom Santo Antônio!

E o vilarejo sem história, apertado já em todos os flancos pelas cadeias eternas das serras, cobriu-se melhor na colcha enfeitada de estrelas. E imobilizou-se ainda mais nos grilhões inflexíveis da noite…
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Publicado originalmente em O Dia. Curitiba, 13/06/1933.
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.
Biografia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Newton_Sampaio
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José Feldman (A Soleira do Conhecimento)

Nota: A ideia deste texto fictício partiu de uma conversa com um amigo escritor, de Monteiro Lobato/SP, Paulo Vieira Pinheiro (Paulo Vinheiro), daí só foi dar asas à imaginação. 
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Era uma manhã tranquila no sítio de Paulo, um homem de setenta anos que, após uma vida inteira de trabalho duro, finalmente havia encontrado um pouco de paz. O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa. Ele se espreguiçou, sentindo a brisa fresca que entrava pela janela do seu quarto. A casa, rodeada por árvores frutíferas e o canto dos pássaros, parecia um santuário.

Sempre fora um homem curioso. Desde jovem, tinha um amor insaciável pelo conhecimento. Passava horas na biblioteca, devorando livros sobre história, ciência e filosofia. Agora, em sua aposentadoria, ele se dedicava ao cultivo da terra e à leitura, mas sempre havia uma inquietação dentro dele, um desejo de descobrir mais sobre o mundo e talvez até sobre si mesmo.

Naquela manhã, enquanto preparava seu café, olhou pela janela dos fundos e viu algo que nunca havia notado antes: uma luz suave emanava de um canto do quintal, perto da velha árvore de figo. Intrigado, ele decidiu investigar. Calçou suas botas e saiu, atravessando o gramado coberto de orvalho.

Ao se aproximar da árvore, a luz se intensificou, e uma sensação estranha começou a envolver Paulo. Era como se a atmosfera estivesse vibrando, pulsando com energia. Ele se agachou para examinar melhor e, de repente, notou uma pequena porta na base da árvore, quase imperceptível. Era uma porta de madeira antiga, com entalhes que pareciam contar histórias de tempos passados.

Com o coração acelerado, sentiu que aquele momento era especial. Ele estendeu a mão e abriu a porta. Ao cruzar a soleira, foi envolvido por uma luz brilhante e, em um instante, se viu em um lugar completamente diferente.

O que antes era o seu quintal agora se transformara em uma floresta mágica, cheia de árvores altíssimas e plantas que nunca havia visto. O céu era de um azul profundo, e nuvens flutuavam com formas curiosas. Sons melodiosos preenchiam o ar, vindos de criaturas que pareciam mais lendárias do que reais.

Paulo ficou atordoado, mas não sentiu medo. Ao contrário, sentiu uma onda de curiosidade percorrendo seu corpo. Ele começou a andar, admirando a beleza ao seu redor. As árvores sussurravam segredos, e o vento parecia guiá-lo. A cada passo, ele se sentia mais conectado a esse novo mundo.

Depois de caminhar por um tempo, encontrou um pequeno grupo de seres que pareciam humanos, mas com características etéreas. Seus olhos brilhavam com sabedoria, e suas vozes eram suaves como a brisa. Eles se apresentaram como os Sábios da Floresta, guardiões do conhecimento e da harmonia.

— Você veio em busca de algo, não é verdade? — perguntou um deles, com um sorriso gentil.

Paulo assentiu, sentindo-se á vontade. Ele explicou seu desejo de aprender, de entender mais sobre a vida e sobre si mesmo. Os Sábios trocaram olhares significativos e, em seguida, começaram a compartilhar com ele os segredos da natureza, da história do mundo e da essência do ser humano.

Os dias passaram como horas, e Paulo mergulhou em um universo de aprendizado. Ele aprendeu sobre as plantas que curam, sobre os ciclos da vida e da morte, e sobre a importância da conexão entre todos os seres. Os Sábios o ensinaram que o conhecimento não é apenas o que se lê em livros, mas também o que se vive, o que se sente.

Uma tarde, enquanto descansavam sob uma árvore centenária, um dos Sábios disse a Paulo:

— O conhecimento é uma jornada, não um destino. Cada experiência, cada amizade, cada dor, é uma peça do quebra-cabeça que compõe quem somos.

Paulo ouviu com atenção. Aquela frase ressoou dentro dele, como um eco de verdades que sempre soubera, mas nunca tivera a coragem de aceitar plenamente.

Após o que pareceu uma eternidade, percebeu que era hora de voltar. Ele havia adquirido sabedoria, mas também sentia saudade de sua vida no sítio, das pequenas coisas que o faziam feliz. 

Os Sábios o acompanharam até a porta da árvore.

— Lembre-se, Paulo — disse uma sábia com olhos brilhantes —, você pode levar o conhecimento consigo. Mas nunca se esqueça de que a verdadeira sabedoria é vivida no dia a dia. Não tema as perguntas, pois elas são o caminho para novas descobertas.

Com um último olhar para aquele mundo mágico, Paulo atravessou a porta e retornou ao seu quintal. O sol ainda brilhava, mas algo havia mudado dentro dele. Ele olhou ao redor, sentindo a familiaridade do lugar, mas agora com uma nova perspectiva.

Nos dias que se seguiram, começou a aplicar o que aprendera. Ele passou a observar mais a natureza ao seu redor, a cuidar das plantas com um carinho renovado. Suas conversas com vizinhos e amigos tornaram-se mais significativas, e ele se interessou em compartilhar suas experiências.

Também começou a escrever um diário, registrando não apenas suas descobertas, mas as reflexões que surgiam de cada dia. Ele percebeu que o conhecimento não era algo que se acumulava em livros, mas uma vivência que se compartilhava.

Aquele homem de setenta anos, que um dia se sentiu perdido em meio às rotinas do dia a dia, agora caminhava com um brilho novo nos olhos. A soleira da árvore, que o levara a uma dimensão desconhecida, também o guiara a uma nova compreensão de si mesmo e do mundo.

Paulo sabia que, embora a vida fosse finita, a busca pelo conhecimento e pela conexão com o outro era eterna. E assim, ele viveu seus dias com a alma leve, coração aberto e mente curiosa, sempre pronto para aprender mais.
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Fontes 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR:Plat.Poe Biblioteca Voo da Gralha Azul 
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Fabiane Braga Lima (Arrogância...)

Viramos pedra, já não temos mais vozes! Sabíamos da verdade, mas por vaidade nos calamos, pois sempre somos os donos das verdades. E o que nos restou? Apenas se silenciar diante do real, da realidade! 

Engana-se, aquele que vive fantasiando! Perde-se as razões, e o tempo, que é o senhor de todas as razões, ele corre veloz e urge feroz. Resta-nos apenas esperar, nos remendar, remendar os estilhaços caídos e lançados ao chão duro e frio.

Hoje calados, intactos, cessamos os nossos sonhos e as nossas fantasias e tudo virou piada. Resta-nos a verdade, mas a verdade não, pois a verdade hoje gera a morte certa.

E agora? Agora é esperar o tempo passar, esperar sem contradições. Pois cair em contradições, sobre o que defende é o maior ataque a mim mesmo é pura arrogância....! 
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Fabiane Braga Lima é poetisa e contista, em Rio Claro/ SP

Fontes:
Enviado por Samuel da Costa
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Onde a coruja dorme”


A expressão é bastante conhecida no meio futebolístico, e é usada principalmente pelos locutores esportivos para indicar que a bola entrou, após ser chutada por acaso ou com maestria, em um dos ângulos retos superiores da trave do gol. Invariavelmente se ouve, com o entusiasmo próprio de quem narra uma partida: – Golaço! A bola entrou onde a coruja dorme!…

É um dos lugares mais difíceis para um goleiro defender a bola, haja vista que por mais que tente, não consegue impulso suficiente para alcança-la a tempo de impedir a marcação do gol. Este tipo de chute também é conhecido no meio esportivo como “chute na gaveta” ou “chute no ângulo”. Antigamente, alguns narradores variavam o jargão e também diziam “onde a coruja faz o ninho”.

Mas afinal, quando e porque teria surgido essa expressão? Circula entre os entusiastas de futebol (e que no Brasil são milhões) a versão de que nos anos 70, numa fria noite de muita garoa, o time da Sociedade Esportiva Palmeiras enfrentava um adversário de menor expressão, numa partida morna, pelo evidente desequilíbrio das forças entre os dois competidores. Como o Palmeiras era muito superior, fazendo prever uma goleada contra o fraco opositor, os fotógrafos incumbidos de cobrir a peleja se posicionaram atrás do gol do adversário, esperando que o poderoso Palestra Itália iniciasse a qualquer momento o festival de gols.

Enquanto isso não acontecia, o tranquilo goleiro palmeirense, com pouco ou nenhum trabalho para fazer, se recostou em sua trave, cruzou os braços e encolheu-se para melhor se proteger do frio que naquela oportunidade fazia. Foi quando no canto superior oposto de onde ele se encontrava, pousou uma vistosa coruja e lá ficou quieta, observando atentamente a movimentação dos arredores. De imediato, mesmo estando do lado oposto do campo, o fotógrafo Domício Pinheiro percebeu a inédita cena, correu rapidamente até lá e registrou numa única foto, que ele tirou posicionando-se por trás do gol, a indigitada coruja pousada lá em cima, no canto da trave, hirta de frio causado pela chuva fina, entorpecida e imóvel como se estivesse dormindo, porém visivelmente sintonizada com a própria monotonia do jogo que o goleiro enfrentava.

Para preservar o “furo” jornalístico ele espantou a coruja, para que nenhum outro fotógrafo dela fizesse a mesma foto, que posteriormente foi publicada como ilustrativa do que foi a pasmaceira daquele jogo. A partir daí, quando um jogador acerta qualquer dos ângulos numa partida de futebol, os locutores alardeiam que a bola entrou “onde a coruja dorme”. É bom lembrar que os locutores de futebol também são artistas natos, cada qual com a sua narrativa personalizada, seus jargões prediletos, que se tornam uma espécie de marca registrada de cada qual, e também constituem parte do espetáculo, pois são capazes de cativar o público com a sua verve e criatividade. Assim, naturalmente, a classe desses talentosos profissionais acabou adotando a expressão para tipificar as situações acima descritas.

De tão emblemática se tornou a expressão, que fora do futebol, passou a servir também para definir as vivências de cada qual em situações limites. “Eu vou onde a coruja dorme…” foi a frase adotada pelo cantor e compositor Bezerra da Silva, para definir seu tortuoso e sofrido processo de trabalho para se firmar no meio musical. Com seu jeito malandro desde o início da carreira, o festejado artista percorria os morros e recantos da Baixada Fluminense gravando sambas de jovens desconhecidos e buscando inspiração para encantar com a sua música o público brasileiro, com letras bem humoradas sobre o cotidiano das favelas.

Que a vida de goleiro não é fácil bem sabem aqueles que já levaram um frango vergonhoso nos acréscimos do segundo tempo. Em algumas situações, no entanto, tudo parece conspirar contra esses valorosos atletas responsáveis por manter o placar inalterado durante o jogo inteiro. Bola chutada de longe que entra “onde a coruja dorme” nem de longe constitui um frango, apenas uma circunstância favorável ao atacante e adversa a qualquer goleiro.
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fontes:
Uruá Tapera. 10 junho 2024.
https://uruatapera.com/onde-a-coruja-dorme/
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sábado, 28 de dezembro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 69


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Edy Soares (Edmardo Lourenço Rodrigues), nasceu na cidade de Ibatiba/ES, em 1964. Filho de pais agricultores. Viveu nos Estados Unidos entre 1991 e 2006. Regressando ao Brasil dedicou-se, além do seu trabalho de rotina, ao seu acervo de poemas e composições de canções. Classificado em vários concursos literários, nacionais e internacionais, de Sonetos, trovas e outros gêneros, identifica-se principalmente como sonetista clássico e trovador. Participação em várias feiras literárias e na Bienal Capixaba do Livro. Empresário no ramo hoteleiro, com o Fragata Hotel, em Guarapari/ES. Reside em Vila Velha/ES. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO), Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA), Academia Ibatibense de Letras e Artes, Confraria Brasileira de Letras, entre outros. Livros publicados: “Poemas Canções e Sonetos”, “Flores no Deserto”,  “Sonetos Sonantes”, co-autor do livro “Três em Trovas”.

José Feldman (O Encontro de Titãs)

Em uma noite silenciosa e estrelada, uma biblioteca antiga repousava no coração da cidade, envolta em mistério e sabedoria. As prateleiras, repletas de volumes empoeirados, guardavam histórias que transcenderam o tempo. Enquanto o relógio soava a meia-noite, um fenômeno extraordinário começou a ocorrer.

Das páginas de um livro específico sobre escritores, três figuras icônicas começaram a emergir. Primeiro, Ernest Hemingway, de chapéu panamá e um olhar penetrante, apareceu com um copo de rum em uma mão. Logo depois, Jack London, robusto e cheio de energia, saiu do volume com um brilho nos olhos, seguido por Mark Twain, com seu característico paletó branco e um sorriso travesso.

Ernest Hemingway observou os dois escritores e, com um gesto de saudação, disse:

— Boa noite, amigos. Parece que a literatura nos trouxe a este lugar mágico.

Jack London, sempre entusiasmado, respondeu:

— É uma honra estar aqui. Acredito que estamos em uma biblioteca que guarda não apenas livros, mas também almas de escritores.

Mark Twain, com seu humor característico, completou:

— E que lugar melhor para um debate literário? Afinal, temos um velho marinheiro de Hemingway, um lobo do mar de London, e a sagacidade do Mississippi em mim.

Hemingway, percebendo a centelha de provocação no ar, sorriu e comentou:

— Falo de um velho que luta contra um mar indomável. “O Velho e o Mar” é a minha reflexão sobre a resistência humana. O que vocês acham?

London, cruzando os braços, respondeu:

— A luta é nobre, mas o que se pode aprender do velho? Ele é um símbolo, sem dúvida, mas a natureza é mais forte. Em “O Chamado Selvagem”, mostro que a sobrevivência não é apenas uma questão de resistência, mas de adaptação.

Twain, divertindo-se com a discussão, interveio:

— Ah, mas não podemos esquecer que o velho representa todos nós. Ele é o arquétipo do homem em busca de significado. A luta é interna e externa, uma dança com o destino!

Hemingway franziu a testa:

— Concordo, mas a simplicidade da história é o que a torna poderosa. O mar é uma metáfora da vida, e o velho é um lutador solitário. O que há de errado em ser um herói em sua própria narrativa?

London, com seu espírito indomável, argumentou:

— O heroísmo é importante, mas e os que não têm a mesma sorte? Em minhas histórias, os personagens enfrentam a brutalidade da vida, e isso é tão verdadeiro quanto a luta do velho. A natureza não se importa com a coragem, e isso me fascina.

Twain, sempre o mediador, observou:

— Ambos têm razão. A luta do velho é uma batalha pessoal, mas não podemos ignorar o contexto. Todos nós somos moldados pelo nosso ambiente — seja o mar revolto ou a floresta implacável.

Hemingway, agora mais relaxado, começou a entender a perspectiva de seus novos amigos. Ele disse:

— Então, talvez a beleza da literatura esteja em como interpretamos a luta. Cada um de nós traz suas experiências para a narrativa. O velho, o lobo, o rio… todos são símbolos de algo maior.

Os três escritores, então, sentaram-se em uma mesa de madeira antiga, cercados por pilhas de livros. A conversa fluiu livremente, e as diferenças começaram a se dissolver sob a luz suave da biblioteca.

Twain concluiu:

— O que importa é que cada história ecoa em nós de maneiras diferentes. O velho e o mar falam de perseverança, enquanto o lobo e a floresta falam de instinto. As duas narrativas são igualmente válidas.

London assentiu, admirando a profundidade do pensamento de Twain:

— Exato! E no final, somos todos parte da mesma narrativa humana, lutando contra nossos mares pessoais.

Hemingway sorriu, levantando seu copo em um brinde:

— À literatura, que nos une mesmo após a morte. Que possamos sempre encontrar força nas palavras.

À medida que a primeira luz da manhã filtrava-se através das janelas da biblioteca, Hemingway, London e Twain se acomodaram, prontos para dar prosseguimento à sua conversa. O ar estava carregado de uma mistura de reflexão e expectativa.

Mark Twain, com um sorriso brincalhão, lançou:

— Já que falamos sobre luta e resistência, que tal discutirmos o papel da ironia na literatura? É um elemento que permeia muitas das minhas histórias. O que vocês acham?

Ernest Hemingway, ligeiramente intrigado, respondeu:

— A ironia pode ser uma faca de dois gumes. Em minha obra, eu prefiro a sinceridade bruta. Há uma beleza na simplicidade, na verdade nua, que não precisa de adornos.

Jack London, animado, interveio:

— Mas a ironia é uma ferramenta poderosa! Ela revela a hipocrisia da sociedade e a complexidade do ser humano. Em “O Lobo do Mar”, a ironia da luta pela sobrevivência em um mundo tão cruel é palpável. É um reflexo da realidade.

Twain, acenando com a cabeça, concordou:

— Exato! A ironia nos permite rir das desgraças e nos faz refletir. É um espelho distorcido da vida que pode nos ensinar muito. Afinal, quem não ri de sua própria tragédia?

Hemingway ponderou sobre o que seus amigos estavam dizendo:

— Entendo o que vocês querem dizer. Mas não podemos esquecer que a ironia pode desviar o foco da luta real. Às vezes, o que precisamos é de uma narrativa direta, que inspire ação e coragem, como a jornada do velho.

London, com seu olhar penetrante, respondeu:

— Mas não é também uma forma de coragem enfrentar a realidade com ironia? Reconhecer as falhas do mundo e, ainda assim, seguir em frente? É uma forma de resistência em si.

Twain, agora mais sério, acrescentou:

— E a ironia permite que os leitores se conectem de uma maneira mais profunda. Eles veem a vida não apenas como um campo de batalha, mas como uma tapeçaria rica em nuances. Cada história é uma lição disfarçada.

Hemingway, refletindo sobre o que ouviu, finalmente disse:

— Então, talvez a ironia e a sinceridade não sejam opostas, mas complementares. Uma pode realçar a outra. Afinal, a vida é cheia de momentos em que rimos e choramos ao mesmo tempo.

London sorriu, satisfeito com a nova direção da conversa:

— Concordo! Cada um de nós traz suas próprias experiências à mesa, e isso enriquece nossas narrativas. A ironia é apenas uma das muitas formas de ver a luta humana.

Twain, com seu espírito provocador, finalizou:

— E no final, seja com ironia ou sinceridade, o que importa é que nossas histórias ressoem no coração das pessoas. Que elas inspirem, desafiem e, acima de tudo, façam refletir.

Os três escritores assentiram, sentindo a profundidade da conversa. A biblioteca, testemunha daquela troca rica em sabedoria, parecia vibrar com a energia criativa que emanava deles. 

E assim, naquela biblioteca mágica, três titãs da literatura se uniram em um diálogo atemporal, celebrando a diversidade das narrativas e a beleza das lutas humanas. 

Quando o sol começou a raiar, eles lentamente retornaram às páginas de seus livros, deixando para trás um eco de sabedoria que perduraria através das gerações.
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Fontes 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul 
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Monsenhor Orivaldo Robles (Nem tudo é verdade)

Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), filósofo grego, era um pensador cuja sabedoria sobrepujava em muito à dos conterrâneos. Dono de admirável autodomínio, não perdia a serenidade nem mesmo por causa de ofensas que recebesse de forma gratuita. Opondo-se ao sistema de vida dos concidadãos, foi condenado à morte. Aceitou-a sem nenhum protesto. Conta-se que, certa vez, envolvido em debate filosófico com discípulos, recusou-se a atender Xantipa, sua mulher, que o chamava com insistência e em tom cada vez mais alto. Depois de algum tempo, irritada com o descaso do marido, ela se aproximou e, sem que ele notasse, derramou-lhe uma vasilha de água na cabeça. Ele nem se moveu. Todo ensopado, comentou calmamente: “Era natural que, depois da trovoada, caísse uma tempestade”. De outra feita, um orgulhoso ateniense, muito convicto de sua importância pessoal, irritou-se por não receber de Sócrates a atenção que julgava merecer e o agrediu com violento pontapé. Surpresos com a não reação do mestre, os discípulos o questionaram se não ia tomar providência por ter sido ferido. Ele respondeu: “Ora, se um asno me desse um coice, eu deveria levá-lo ao tribunal?”.

É surpreendente como passa o tempo, mas a gente não muda. Bem observou Belchior, genialmente interpretado por Elis Regina – os mais jovens talvez não conheçam nenhum dos dois – “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Por mais que nos ufanemos de progredir e de alcançar condição de vida melhor do que no passado, ainda continuamos cometendo os mesmos erros.

A sociedade pós-moderna que construímos só dá valor a quem conquistou dinheiro, cargo importante ou brilho social. Quem desfruta disso está acima do bem e do mal. Não precisa admitir que erra. No mundo competitivo em que vivemos, as pessoas estão armadas umas contra as outras. Nosso convívio social acabou tornando-se uma permanente luta de todos contra todos. Vige a lei do mais forte, a regra do “quem pode mais chora menos”. A partir do exemplo que vem de cima, ninguém aceita os próprios erros. Se algo não deu certo, a culpa só pode ser dos outros; jamais nossa. Baste um exemplo: no trânsito é mais fácil ouvir “desculpe” ou, ao contrário, “seu burro” (para não falar outra coisa)?

Somos falíveis. Com frequência caímos em falhas, inseparáveis de nossa pobre condição. Erros humanos quase sempre magoam pessoas à volta de quem os cometeu. De seres civilizados e, mais que isso, de cristãos, espera-se compreensão com as faltas alheias. E coragem de reconhecer as próprias.

Quem presta serviço voluntário não cansa de receber pontapé em vez de gratidão. Abre mão do próprio conforto, do uso do seu tempo, da convivência com familiares, até do seu dinheiro para prestar serviço à comunidade. Sem interesse pessoal, por pura bondade de coração. E o que ganha em troca? Crítica, chacota, ofensa à própria honra, por vezes. Com a invenção do blog, do twitter, do facebook, de tantos recursos informáticos ficou ainda mais fácil acabar com o nome de alguém. É só um tipo de maus bofes, indignado por não ver satisfeito um capricho qualquer, postar um comentário venenoso. Pronto! Foi para o brejo a honra de pessoa respeitável. Vá depois provar que focinho de porco não é tomada!
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
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Vereda da Poesia = A. A. de Assis (Maringá/PR)



Francisca Júlia (A ovelha)

A ovelha, um dia, muito triste por não ter forças para lutar com os cães que a mordiam, ou armas de defesa contra a ferocidade dos lobos, dirigiu-se a Júpiter e expôs-lhe suas queixas:

— Pai, todos os animais que vivem sobre a terra, desde o inseto ao paquiderme, têm meios de defender-se contra os ataques; e coragem para provocar as lutas. Eu, porém, sou tímida e indefesa: tudo me causa medo. Queria, pois, que me désseis uma arma qualquer.

Júpiter, tocado de piedade, perguntou-lhe:

— Queres um veneno oculto nos dentes, para dar a morte aos que te fizerem mal?

— Oh! não! respondeu a ovelha. Os animais venenosos são nojentos e causam medo a todos.

— Queres ter na boca duas fileiras de dentes afiados, como os leões e os lobos?

— Oh! não! Os animais carnívoros são tão odiosos e antipáticos!

— Queres saber arremeter, como os touros, com duas pontas na cabeça?

— Oh! não! Eu causaria terror aos outros animais, e não seria acariciada pelos pastores.

— Que queres, pois? gritou Júpiter, impaciente.

— Nada, senhor, nada quero. Prefiro viver assim, tímida e fraca, porém estimada e afagada por todos.
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Francisca Júlia da Silva Munster, escritora parnasiana, nasceu em Eldorado Paulista/SP, em 1871  e faleceu em São Paulo em 1920. Quando tinha oito anos de idade, a poetisa e sua família mudaram-se para a cidade de São Paulo, para que a menina pudesse estudar. De 1892 a 1895, Francisca Júlia escreveu para o Correio Paulistano, além de periódicos do Rio de Janeiro, onde seus versos geraram a dúvida se seu autor era realmente uma mulher ou um homem que usava pseudônimo feminino. Seu primeiro livro — Mármores — foi publicado em 1895. A recepção dessa obra foi bastante positiva em São Paulo e no Rio de Janeiro, e recebeu elogios inclusive de Olavo Bilac. Em 1898, fez parte do júri do Concurso de Poesia do Correio Paulistano, em 1899, Livro da infância foi publicado pelo governo de São Paulo e adotado em escolas da época. Em 1902, ajudou a fundar a revista Educação. Em 1904, tornou-se membro do Comitê Central Brasileiro da Societá Internazionale Elleno-Latina, de Roma. Foi convidada a participar da Academia Paulista de Letras em 1907, mas a autora rejeitou o convite, por não acreditar em academias. A poetisa começou a ter um envolvimento mais profundo com as questões metafísicas. Em 1908, realizou palestra intitulada A feitiçaria sob o ponto de vista científico, em Itu. Logo depois, ficou doente, devido à intoxicação por ácido úrico, que lhe provocava alucinações, levando Francisca Júlia a acreditar, no início, que estava se tornando médium. Em 1920, o marido da escritora morreu, vítima de tuberculose. No dia em que ele foi sepultado, morreu também Francisca Júlia, em um provável suicídio. No enterro da poetisa, estavam presentes Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Di Cavalcanti.

Publicações: 1895 - Mármores; 1899 - Livro da Infância; 1903 - Esfinges; 1912 - Alma Infantil (com Júlio César da Silva); 1962 - Poesias (organizadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos)

Fontes: 
Francisca Júlia. Livro da infância. 1899. Disponível em Domínio Público
Biografia (excerto): https://brasilescola.uol.com.br/literatura/francisca-julia.htm
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Zitkala-Ša (Iya, o comedor de acampamento)

Da grama alta veio a voz de um bebê chorando. Os caçadores que passavam por perto ouviram e pararam.

O mais alto entre eles correu em direção à grama alta com passadas longas e cautelosas. Por sobre as verdes hastes, só sua cabeça era visível.

De repente, exclamando 'Hunhe!', ele sumiu de vista. Em alguns instantes, ele reapareceu segurando com ambas as mãos um bebêzinho, envolto em camurça marrom.

'Oh, uma criança da floresta!', gritaram os outros homens, que estavam caçando ao longo do vale do rio onde este bebê foi encontrado.

Enquanto os caçadores questionavam se deveriam ou não levá-lo para casa, o pequenino bebê continuava a chorar.

“A voz dele é forte!”, disse um.

‘Às vezes soa como a voz de um velho!’ sussurrou um caçador supersticioso, que temia que algum espírito mau se escondesse no bebê para enganar o seu grupo.

‘Vamos levá-lo ao nosso sábio chefe’, disseram por fim; e no momento em que partiram em direção ao acampamento, a estranha criança da floresta parou de chorar.

Chegando na aldeia, os caçadores detiveram-se ao lado da tenda do chefe, esperando enquanto o homem alto entrava com a criança. 'Entre! Entre!' convidou o cacique de rosto bondoso, Depois de ouvir a estranha história levantou-se, pegou a criança em seus braços fortes e colocou gentilmente o bebê de olhos negros no colo de sua filha. 'Este bebê será seu filhinho!', disse ele, sorrindo.

‘Sim, pai’, ela respondeu. Satisfeita ela alisou os longos cabelos negros que emolduravam o rosto redondo e moreno do bebê.

‘Diga ao povo que estou oferecendo um banquete e dançaremos neste dia para o nome do filhinho de minha filha’, ordenou o chefe.

Enquanto isso, um dos homens que esperavam na entrada, disse em voz baixa: 'Ouvi dizer que espíritos maus vêm como crianças a uma aldeia que pretendem destruir'.

'Não! Não! Não sejamos excessivamente cautelosos. Seria covardia deixar um bebê na floresta onde rondam os lobos selvagens e famintos!', respondeu um homem idoso.

O homem alto saiu da tenda do chefe, anunciando:

'Uma festa! Uma dança para o nome do neto do chefe!' gritou ele em voz alta para o povo da aldeia.

'O que? O quê? 'perguntavam eles com grande surpresa, levando a mão ao ouvido para não perder nenhuma palavra vinda do homem alto.

Houve um silêncio momentâneo entre as pessoas enquanto ouviam a voz do homem alto, que caminhava na área central da aldeia. Um murmúrio persistente e alegre irrompeu por entre as tendas cônicas. Todos estavam muito felizes em saber do neto do chefe e exultantes em participar da festa e dançar por seu nome. Dedos excitados, enrolavam os cabelos em tranças brilhantes e pintavam bochechas com tinta vermelha brilhante.

Mulheres corriam de lá para cá, lindas em seus vestidos de gala. Homens em peles de veado soltas, com longas franjas de metal tilintantes, caminhavam em pequenos grupos em direção ao centro circular do acampamento.

Nesta área central, sob uma sombra temporária, eles dançariam e festejariam. As crianças com peles de veado e pinturas, assim como os mais velhos, pareciam alegres homenzinhos e mulherzinhas. Ao lado de seus pais ansiosos, eles pulavam na área destinada aos festejos.

Todos sentaram-se, formando um grande circulo e o chefe orgulhoso levantou-se com o bebezinho em seus braços. O zumbido ruidoso de vozes foi abafado. Nem um tilintar de uma franja de metal quebrava o silêncio. Um arauto se adiantou para cumprimentar o chefe, curvando-se atentamente sobre o pequeno bebê e ouvindo as palavras do chefe.

Quando o chefe fez uma pausa, o arauto falou em voz alta para o povo:

‘Esta criança da floresta será adotada pela filha mais velha do chefe. O nome dele é Chaske. Ele usará o título de filho mais velho. Em homenagem a Chaske, o chefe oferece esta festa e danças! Estas são as palavras do chefe que você vê segurando o bebê nos braços.'

'Sim! Sim! Hinnu! Foram as palavras que vieram do círculo. Imediatamente os tambores começaram a soar suave e lentamente enquanto os cantores escolhidos buscavam um tom comum cantarolando juntos. A batida do tambor ficou mais alta e mais rápida. Os cantores irromperam em uma melodia animada. Então, as batidas dos tambores diminuíram para marcar levemente o ritmo do canto. Aqui e ali apareciam homens e mulheres, jovens e velhos. Eles dançavam e cantavam com corações alegres e leves. Então chegou a hora do banquete. 

Tarde da noite, o acampamento ainda ressoava com as vozes risonhas das mulheres e o canto em uníssono dos rapazes. Dentro da tenda de seu pai, estava a filha do chefe. Orgulhosa de seu filho, ela cuidava dele dormindo em seu colo.

Gradualmente, um silêncio profundo foi invadindo o acampamento, à medida que, uma a uma, das pessoas caía em sono profundo. Agora toda a aldeia estava silenciosa. Sozinha, a jovem e bela mãe observava o bebê em seu colo, dormindo com a boquinha escancarada. No silêncio da noite, seu ouvido ouviu o zumbido distante de muitas vozes. O som fraco do murmúrio de pessoas estava no ar. Ela olhou para cima, pelo buraco do alto da tenda, por onde saía a fumaça do e viu uma estrela brilhante olhando para ela. “Será que são espíritos pairando no ar?”, ela se perguntou. Não havia nenhum sinal que confirmasse seus pressentimentos, mas o som de vozes crescia e se aproximava.

‘Pai levante-se! Eu ouço a aproximação de alguma tribo. Hostil ou amigável... não sei dizer. Levante-se e veja! 'sussurrou a jovem. 

'Sim, minha filha!', respondeu o chefe, levantando-se de um salto.

Embora adormecido, seu ouvido estava sempre alerta. Assim, correndo para fora, ele ouviu sons estranhos. Com um olhar de águia, ele examinou o acampamento em busca de algum sinal. Voltando, ele disse: 'Minha filha, não ouço nada e não vejo nenhum sinal do mal por perto'.

'Oh! Ouço o som de muitas vozes ao meu redor!' exclamou a jovem mãe. Curvando-se sobre seu bebê, ela ficou horrorizada ao perceber que o som misterioso saía da boca aberta de seu filho adormecido!

'Por que ele é tão diferente dos outros bebês!', seu coração dizia enquanto ela colocava suavemente o bebê no chão. 'Mãe, ouça e me diga se esta criança é um espírito maligno que veio para destruir nosso acampamento!' ela sussurrou.

Colocando um ouvido perto da boca aberta do bebê, o chefe e sua esposa, cada um por sua vez, ouviram as vozes de um grande acampamento. O canto de homens e mulheres, a batida do tambor, o chocalhar de cascos de veados amarrados como sinos em uma corda, esses eram os sons que eles ouviam.

"Devemos ir embora", disse o chefe, conduzindo-os noite adentro. Ao ar livre, ele sussurrou para a jovem assustada: 'Iya, o devorador de acampamentos, veio na forma de um bebê. Se você tivesse adormecido, ele teria assumido sua forma e devorado nosso acampamento. Ele é um gigante com pernas finas, que não pode lutar, pois não pode correr. Ele é poderoso apenas à noite com seus truques. Estaremos seguros assim que o dia raiar’. Então, aproximando-se da mulher, ele sussurrou: 'Se ele acordar agora, engolirá toda a tribo com um gole hediondo! Venha, devemos fugir com nosso povo'.

Assim, indo de tenda em tenda, um sinal de alarme secreto foi dado. À meia-noite, as tendas haviam desaparecido e não havia sinal da aldeia, exceto pelo monte de cinzas. Silenciosamente as pessoas dobraram suas tendas e empacotaram suas estacas, escapando sem serem ouvidas pelo bebê Iya adormecido.

Quando o sol da manhã surgiu, o bebê acordou. Vendo-se abandonado, ele abandonou sua forma de bebê com uma fúria tremenda. Assumindo sua própria feia forma, seu corpo enorme tombava para frente e para trás, de um lado para o outro, sobre um par de pernas finas muito pequenas para seu fardo. Embora a cada movimento ele chegasse perigosamente perto de cair, ele seguia o rastro das pessoas em fuga.

'Eu devo comê-los na luz do meio-dia', gritava Iya em sua raiva vã, quando avistou a tribo acampada além do rio.

Com uma astúcia desconhecida, ele nadou no rio em direção às tendas. 

‘Hin! Hin! ', ele resmungou e rosnou. Com a transpiração escorrendo pela testa, ele se esforçava para mexer as pernas esguias sob seu corpo gigante.

‘Ah! Ha!' riam todas as pessoas da aldeia ao ver Iya feito de tolo, cheio de raiva. 'Essas perninhas finas não suportam lutar à luz do dia!' Gritavam os bravos, que na noite anterior foram tomados de terror ao ouvirem o nome 'Iya'.

Guerreiros com facas longas avançaram e mataram o devorador de acampamentos.

Neste momento surgiu de dentro do gigante toda uma tribo indígena: seu acampamento, suas tendas em um grande círculo e as pessoas rindo e dançando.

“Estamos felizes por estarmos livres!”, disseram essas pessoas estranhas. Assim, Iya foi morto, e os acampamentos não correm mais o risco de serem engolidos em uma única noite. 
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Zitkala-Ša (1876-1938), que em Lakota significa 'Pássaro Vermelho', nasceu na Reserva Indígena Yankton em Dakota do Sul, filha de mãe Dakota e pai francês, que a abandonou quando criança. Aos oito anos, foi obrigada a deixar a liberdade e a felicidade da vida entre seu povo – como ela mesma dizia - para ser educada nos costumes e crenças europeus em um internato missionário Quaker. Lá ela recebeu o nome de Gertrude Simmons, seus longos cabelos foram cortados, ela foi forçada a suprimir todos os sinais e costumes de sua cultura e a rezar como uma quaker. As únicas coisas boas que resultaram disso para ela foram aprender a ler, escrever e tocar violino. Três anos depois, ela voltou para a reserva de Yankton apenas para descobrir, para sua consternação, que as pessoas na reserva estavam começando a adotar os costumes e modos de pensar dos europeus e que mesmo ela tinha um pé em cada mundo. Depois de mais três anos na reserva, ela voltou ao mundo dos brancos com a intenção de continuar sua formação musical. Ela aprendeu piano e violino e acabou ensinando música e estudando no Earlham College em Richmond, onde exibia publicamente sua bela oratória. Ao longo dos anos, cruzando repetidamente a ponte entre sua cultura e a cultura europeia, entre a reserva e o mundo branco, Zitkala-Ša acabaria se tornando escritora, editora, tradutora e ativista política, além de musicista e educadora. Ela chegaria a compor uma ópera com o compositor William F. Hanson, intitulada The Sun Dance Opera, baseada na Lakota Sun Dance, que o governo federal havia proibido o povo Ute de realizar em sua reserva.

Em 1916, aos 30 anos, ela começou seu ativismo nativo americano ao ser nomeada secretária da Society of American Indians, uma associação dedicada à preservação do modo de vida nativo americano. Ela também fez lobby em círculos políticos pelo direito de seu povo à plena cidadania americana. De Washington DC, Zitkala-Ša fez duras críticas ao Bureau of Indian Affairs, chegando a pedir sua dissolução por causa de suas políticas de internato, pelo levantamento da proibição de crianças indígenas usarem sua própria língua e preservar seus costumes culturais. Ela denunciou os abusos que aconteciam nesses internatos sempre que um menino ou uma menina nativa se recusava a rezar de acordo com a maneira cristã.

Também de Washington ela começou a dar palestras em todo os Estados Unidos e, durante a década de 1920, começou a promover a ideia de criar um movimento pan-indígena que unisse todas as tribos da América do Norte para fazer lobby em nome dos povos nativos. Em 1924, graças em parte aos seus esforços, foi aprovada a Lei da Cidadania Indígena, concedendo direitos de cidadania americana à maioria dos povos indígenas que ainda não os possuíam. Em 1926, ela e o marido fundaram o Conselho Nacional dos Índios Americanos (NCAI), com o objetivo de unir as tribos dos Estados Unidos em sua luta pelos direitos dos índios. No entanto, Zitkala-Ša não era apenas um ativista pelos direitos das Primeiras Nações da América do Norte. Ela também esteve envolvida no ativismo pelos direitos das mulheres na década de 1920, quando ingressou na Federação Geral de Clubes Femininos. Zitkala-Ša morreu em 1938, aos 61 anos, e foi enterrada no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington. Para homenageá-la, a União Astronômica Internacional nomeou uma cratera em Vênus "Bonnin", seu sobrenome de casada, Gertrude Simmons Bonnin.

Fonte:
Zitkala-Ša. Old Indian Legends. Publicada originalmente em 1901. Disponível em Domínio Público.
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Jerson Brito (Asas da poesia) 05


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Jerson Lima de Brito, nasceu em Porto Velho/RO, em 1973, onde reside. Graduado em Administração e Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Sonetista, trovador e cordelista, é membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas (Abrasso), integrante do Fórum do Soneto e Delegado da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Porto Velho. Exerce o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na SECEX-RO, tendo participado de algumas Mostras de Talentos do TCU. Neto de nordestinos, na infância teve os primeiros contatos com os versos, lendo os folhetos de cordel que seu pai comprava. Já na fase adulta, depois dos 30 anos, deu os primeiros passos na literatura escrevendo sobretudo cordéis. Posteriormente, aderiu aos sonetos e outras modalidades poéticas. Premiado em diversos concursos de trovas, sonetos e cordéis.

José Feldman (O Café da Tarde)

Era uma tarde ensolarada em Londrina/PR, e Luana decidiu visitar seu avô, Seu Afonso, que morava em um pequeno apartamento no centro da cidade. Ele sempre tinha histórias fascinantes sobre o passado, e Luana adorava ouvi-las. Ao chegar, encontrou-o sentado à mesa, tomando café e lendo um jornal antigo.

— Oi, vovô! — Luana disse, sorrindo ao entrar. — O que você está lendo?

— Ah, minha neta! — Ele respondeu, levantando os olhos. — Estou vendo as notícias de antigamente. Olha isso aqui, um anúncio de um carro que custava menos que um salário mínimo!

Luana se aproximou, interessada. — Uau, como as coisas mudaram, né? Hoje em dia, um carro é quase um sonho para muitos.

— É verdade. Na minha juventude, as pessoas sonhavam em ter um carro, mas o foco era diferente. A gente sonhava com pequenas coisas, como ter uma casa própria, uma família... — Seu Afonso disse, lembrando-se de tempos passados.

— E como eram esses sonhos, vovô? — Luana perguntou, sentando-se à mesa.

— Ah, os sonhos eram simples, mas cheios de significado. — Ele sorriu. — Eu queria estabilidade. O que importava era trabalhar duro e cuidar da família. Acredito que as pessoas valorizavam mais as relações pessoais.

— Hoje, parece que tudo é tão diferente. As pessoas estão mais focadas em ter sucesso rápido. — ela disse, balançando a cabeça. — Eu vejo meus amigos sempre correndo atrás de likes nas redes sociais.

— Likes? O que é isso? — Seu Afonso perguntou, franzindo a testa.

— É como uma forma de aprovação online. A gente posta fotos e o pessoal curte. — Luana explicou, meio envergonhada. — Mas às vezes fica parecendo que isso é mais importante do que viver as experiências de verdade.

— Sabe, Luana, na minha época, a gente valorizava mais o momento. Não ficávamos pensando em como os outros nos viam. — Seu Afonso disse, pensativo. — Acreditávamos que a felicidade estava nas coisas simples, como um passeio no parque ou um jantar em família.

— Isso é verdade, vovô. Mas hoje em dia, a pressão para ser “perfeito” é muito maior. — ela suspirou. — Todo mundo quer ser influencer, ter uma vida perfeita nas redes sociais.

— E o que é uma vida perfeita? — ele questionou, com um olhar curioso. — Na minha visão, a perfeição está nas imperfeições. Nas risadas, nas lágrimas, nas histórias que construímos juntos.

Ela sorriu, admirando a sabedoria do avô. 

— Você sempre tem uma forma especial de ver as coisas, vovô. Mas às vezes sinto que a geração mais nova não se conecta como antes. Nossos relacionamentos são mais superficiais.

— É verdade, Luana. A tecnologia trouxe muitas facilidades, mas também uma certa solidão. — Seu Afonso concordou. — Lembro-me de quando nos reuníamos com amigos para jogar baralho ou contar histórias. Não havia distrações. As pessoas se ouviam.

— Isso faz falta. — ela admitiu. — Às vezes, quando estou com meus amigos, todos estão no celular, e parece que estamos todos juntos, mas, na verdade, cada um está em um mundo diferente.

— E o que você faz para mudar isso? — ele perguntou, interessado.

— Eu tento propor atividades que nos tirem do celular, como ir a um parque ou fazer um piquenique. — ela respondeu. — Mas é um desafio!

— Você está no caminho certo! — Ele elogiou. — É importante cultivar relações verdadeiras. E não esqueça de passar tempo com a família. As memórias que criamos juntos são inestimáveis.

Luana olhou nos olhos do avô e percebeu como ele valorizava esses momentos. — Eu quero aprender mais com você, vovô. Suas histórias são inspiradoras.

— E você ainda tem muito a ensinar também! — ele disse, com um sorriso. — A juventude de hoje é mais engajada em questões como meio ambiente e justiça social. Isso é admirável.

— É verdade! Nós nos preocupamos mais com o futuro do planeta. — ela afirmou. — Tentamos fazer a diferença, mesmo que seja pequena.

— Isso é excelente! — Ele exclamou. — Na minha juventude, lutávamos por direitos básicos, mas agora vocês têm uma luta mais ampla. É bom ver que a chama está acesa.

— Mas às vezes me sinto perdida. — Luana confessou. — Há tantas causas e tanta pressão para fazer a coisa certa.

— A vida é cheia de incertezas, minha neta. — Seu Afonso disse. — O importante é agir conforme suas convicções. E não se esqueça de cuidar de si mesma no processo. A jornada é tão importante quanto o destino.

— Você tem razão, vovô. Às vezes, me preocupo tanto com o futuro que esqueço de viver o presente. — ela refletiu.

— A vida é um equilíbrio. — Ele sorriu. — E lembre-se: você não precisa ter todas as respostas agora. O que importa é continuar aprendendo e crescendo.

Luana se levantou e foi até a janela, olhando para a cidade. 

— Eu quero fazer a diferença, mas também quero aproveitar a vida, como você fez.

— E você pode! — Seu Afonso disse, levantando-se para ficar ao lado dela. — Encontre seu próprio caminho. E, acima de tudo, nunca perca a capacidade de se maravilhar com o mundo ao seu redor.

A tarde passou, e os dois continuaram conversando sobre vida, sonhos e diferenças entre as gerações. O café esvaziou, mas as ideias e as risadas encheram o ambiente. Luana sabia que, apesar das diferenças, havia um fio invisível que os unia: o amor e a vontade de aprender uns com os outros.

E assim, naquela tarde ensolarada, Luana e Seu Afonso descobriram que, embora as épocas fossem diferentes, as experiências e os sentimentos humanos permaneciam eternos e conectados, sempre prontos para serem compartilhados e celebrados.
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Fontes 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul 
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