quinta-feira, 2 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa 192 = O sábio

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Certo dia, a Solidão bateu à porta de um grande sábio e ele convidou-a para entrar. Pouco depois saiu decepcionada, pois descobriu que não podia capturar nada daquele ser bondoso, porque ele nunca estava sozinho; estava sempre acompanhado pelo amor de Deus.

Outro dia, a Ilusão também bateu à porta daquele sábio. Ele, amorosamente, convidou-a para entrar em sua humilde casa; mas logo depois ela saiu correndo gritando que estava cega, pois o coração dele era tão iluminado de amor que havia ofuscado a própria Ilusão.

Mais adiante, apareceu a Tristeza. Antes mesmo que ela batesse à porta, o sábio saiu na janela e dirigiu-lhe um sorriso enternecido. A Tristeza recuou e disse que era engano e foi bater em alguma outra porta que não fosse tão luminosa.

E assim a fama do sábio foi crescendo; a cada dia, novos visitantes chegavam tentando conquistá-lo. Num dia era o Desespero, no outro a Impaciência; depois vieram a Mentira, o Ódio, a Culpa e o Engano. 

Pura perda de tempo; o sábio convidava todos a entrarem e eles saiam decepcionados com o equilíbrio daquela alma bondosa.

Porém, um dia, a Morte bateu à sua porta e ele também convidou-a para entrar... Seus discípulos esperavam que ela saísse correndo a qualquer momento, ofuscada pelo amor do mestre. Entretanto, tal não aconteceu.

O tempo foi passando e nem ela nem o sábio apareciam. Cheios de receio, entraram e encontraram o cadáver do mestre estirado no chão. Ficaram muito tristes e começaram a chorar ao ver que o querido mestre havia partido com a Morte.

Na mesma hora, começaram a entrar na casa, todos os outros servos da Ignorância que nunca tinham conseguido permanecer naquele recinto; a Tristeza havia aberto a porta e os mantinha lá dentro.

"Entram na nossa morada aqueles que convidamos, mas só permanecem conosco, aqueles que encontram ambiente propício para se estabelecerem."

José Feldman (A Arte de Colar Estrelas)

Crônica baseada na trova de Dorothy Jansson Moretti (Três Barras/SC, 1926 - 2017, Sorocaba/SP)

Meus pobres sonhos, tão fracos, 
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos... 
e eis-me sonhando outra vez!

Há quem diga que a vida é um eterno exercício de demolição. De tempos em tempos, o teto das nossas certezas desaba e o chão das nossas seguranças se abre, deixando para trás apenas o silêncio e o rastro de poeira do que um dia chamamos de futuro. No chão, o que resta são os "pobres sonhos": fragmentos de vidro que brilham sob a luz, mas que agora parecem incapazes de refletir qualquer imagem inteira.

Diante dos escombros, a reação mais lógica seria o abandono. Afinal, quem teria paciência para lidar com o que se quebrou? Quem teria coragem de tocar nas arestas cortantes das decepções?

Mas então surge essa personagem admirável: a teimosia. Não aquela teimosia cega e ranzinza, mas a teimosia que é irmã da resiliência. Ela se agacha entre as ruínas, sem pressa e sem medo de se ferir. Ela não busca um arquiteto para reconstruir o prédio luxuoso de outrora; ela busca os cacos.

Juntar os cacos é um ato de profunda humildade. É aceitar que o sonho novo terá cicatrizes, que as linhas da colagem serão visíveis e que, talvez, o vaso reconstruído nunca mais segure a água como o original. No entanto, há uma beleza nova e subversiva nesse "sonhar outra vez". É o sonho de quem já conheceu a queda e, mesmo assim, prefere o risco da esperança ao conforto do cinismo.

Eis a mágica da alma humana: de tanto juntar pedaços, acabamos criando um mosaico. O que era um sonho "fraco" e estilhaçado transforma-se em uma obra de arte resistente, feita de perdas superadas e vontades renovadas. A vida faz o escombro, é verdade; mas a alma teimosa faz o vitral.

Ao final do dia, lá está ela, com os dedos sujos de cola e o coração batendo forte, olhando para o horizonte com o mesmo brilho nos olhos da primeira vez. Porque, enquanto houver um caco de desejo no chão, haverá material suficiente para recomeçar o mundo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Ignácio de Loyola Brandão (O perfume de um almoço em Vera Cruz)


Andando pela ruas de Marília, cidade de Sérgio Ricardo, Dib Lufti e Oswaldo Mendes, procurei o Yara Clube na Sampaio Vidal. Ali tinha frequentado domingueiras durante as férias nos anos 50. Frequentar significava entrar no salão, apanhar o Cuba Libre e olhar. Olhava. Como olhei, sem avançar. Passei a adolescência e a juventude a olhar, imobilizado pela timidez e por não saber dançar, a não ser boleros, dois para lá, um para cá. Ainda que continue com uma sede esportiva fora do centro, o Yara não existe mais na Sampaio Vidal. No lugar está um restaurante popular, necessidade dos tempos que correm.

Na minha busca quis rever o Cine Marília e o Cine Bar, instituições de uma época. Esquecido de que essa época ficou meio século atrás, quando ainda existia café na região. No Cine Bar, em 1965, Edla Van Steen, com Cio; Thomaz Souto Correia, com A Morte Semi-Virgem; e eu com Depois do Sol, fizemos a primeira tarde de autógrafos da história da cidade. 

Naquele ano, houve um festival de cinema e Anselmo Duarte esteve lá com Vereda da Salvação, adaptado da peça de Jorge Andrade. Lançamentos com autógrafos eram coisa nova, ninguém sabia como agir. O Cine Bar lotado, gente a olhar para os autores, enquanto estes, por sua vez, contemplavam o público. Exasperante momento de hesitação e dúvida, até que Anselmo comprou um livro de cada um, pediu autógrafos, o povo compreendeu, a tarde começou.

O Cine Marília e o Cine Bar desapareceram, há um banco no lugar, símbolo de nossa civilização. Ao menos, ainda está lá o Edifício Marília, o primeiro arranha-céu da cidade. Certas noites, subíamos ao último andar, havia um restaurante chique, mas da comida não me lembro. Lembranças que se foram, Marília é uma cidade com mais de 200 mil habitantes, esparramada, ruas largas, horizontes vastos. Da janela de meu hotel, no centro, eu via os limites da cidade, curiosos grotões, como canions, que me faziam bem à vista. Eu, a olhar! A cidade ainda não se debruçou sobre esses mini-precipícios batidos por uma claridade que fere. O céu da cidade continua o mesmo, resplandecente. O bom é que o Cine Clube está voltando às atividades e lembrei de Roberto Cimino, alfaiate valoroso (essa é a palavra) que dedicou sua vida ao Clube. Quem está procurando reativá-lo é justamente seu filho. Os festivais de cinema da cidade ficaram conhecidos e levavam famosos de São Paulo e Rio. Cimino tinha sentido de mídia, convidava também as modelos da Rhodia, superstars da mídia. Mila Moreira foi uma que vi desfilando em carro aberto pelas ruas. Nunca recuperamos tudo que ficou para trás e, muitas vezes, nem queremos, para flutuarmos na delícia do imaginário.

Por outro lado, Marília tem dona Geysa, mulher de 85 anos que me lê e queria me conhecer. Fui a ela. Doce, conversadora, lúcida, bem-humorada, tem uma tirada atrás da outra. Dessas pessoas que viveram várias épocas e são a história viva do cotidiano. Quando decidiu aceitar o pedido de casamento daquele que foi seu primeiro e único namorado, com quem se casou e viveu toda a vida, ela se definiu: "Saiba que estou vindo diretamente da fábrica ao consumidor." Existe frase melhor? Depois do primeiro beijo no cinema, encabulada, perguntou ao namorado: "Te decepcionei? Não sei beijar? Não podia saber, nunca tinha beijado, acho que fiquei de boca aberta. Se quiser me ensinar, me ensina, desde que eu seja a única." 

Ainda hoje, ela levanta cedo, lê jornais, livros, segue telejornais, conversa, passeia, ouve música. Certas manhãs, coloca um CD, fecha os olhos e dança com o marido em pensamento. Viver tem sabor.

Estive em Marília levado pelo Programa de Educação Tutorial, PET, das Ciências Sociais da Unesp, fiz duas falas e corri a me refugiar na cidade vizinha, Vera Cruz, a dez minutos. Lá onde nasceu Benedito Ruy Barbosa, o novelista. Queria reencontrar outros lugares de infância, como as fazendas do Juca, do Costinha, do Assis, do Ito, do Nago, dos Furtados, do Mundinho, do Costão, um português que plantava uvas e produzia vinhos, com quem me iniciei em enologia aos 14 anos. E quase terminei. Apelidos me vinham, Nhô, Tucun, estranhos, quais eram os nomes deles? De Marília, com o primo Dafnis decolávamos do aeroporto, voávamos até Vera Cruz, dando rasantes sobre as fazendas e cidades. A liberdade de voar num aviãozinho daqueles nunca mais se repetiu, os Airbus e Boeings de hoje não têm graça. Aquilo era a liberdade total, a insegurança, aventura e risco. Dali minha paixão por aviões.

Agora, o que primeiro avistei quando entrei em Vera Cruz foi a torre com a sirene que, na rua principal, no começo da noite anunciava que a sessão de cinema ia começar. As pessoas corriam, quem estava a jantar se apressava. Nina e Silvio, primos, ou primos dos primos, me receberam e convocaram parte da cidade. Tudo correu à moda antiga para comemorar a biografia de Ruth Cardoso, o aniversário de Zero, as palestras na Unesp, o dia azulado, a cidade imobilizada ao sol, como sempre foi. No entanto, daqui desta vila sai o pensar e o idealizar de uma revista chamada Café Espacial, com quadrinhos, textos, fotos, entrevistas, que estaria à vontade em São Paulo ou Nova York.

Tudo naquela tarde reascendia ao perfume quase obsceno, de tanto que provocava os desejos, de uma leitoa à pururuca com abacaxi que se derreteu na boca, carne de panela, tutu de feijão, frango com quiabo, batata doce, banana frita. O aroma das comidas foi proustiano, passado e presente, hoje e ontem, futuro, todos os tempos misturados. Vieram todos e também os mortos, lembrados aos risos, porque a maioria da família sempre foi de farpas pontiagudas, ironias e gozações, de tirar o pelo dos outros com afeto, cheios de sarcasmos e brincadeiras, respostas prontas. Tudo isso que a literatura me tem proporcionado fazendo com que eu me renove sempre, me encontre no ontem, me projete para o amanhã, correndo para o futuro. Voltei no avião com pão feito em casa e geléia de laranja, também caseira.
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IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO permanece como um dos maiores nomes da literatura contemporânea brasileira. Ele nasceu em Araraquara (SP) em 1936.  Mudou-se para a cidade de São Paulo aos 21 anos. Também viveu por cerca de dois anos em Berlim, Alemanha, na década de 1980. Começou aos 16 anos como crítico de cinema no jornal Folha Ferroviária. Trabalhou no jornal O Imparcial, em sua cidade natal. Na capital paulista, consolidou-se como um renomado jornalista, passando pelas redações dos periódicos Última Hora, Realidade, Planeta, Claudia, Vogue e Ciência e Vida. Sua estreia literária ocorreu em 1965 com o livro de contos Depois do Sol. Ao longo da carreira, publicou mais de 40 livros, transitando entre romances, contos, crônicas, literatura infantil e biografias. Seus principais livros são: Zero (1974): Seu romance mais famoso. Foi publicado primeiro na Itália devido à censura da ditadura militar brasileira, que o proibiu no país até 1979; Não Verás País Nenhum (1981): Clássico distópico que previu crises ecológicas e escassez de água no Brasil; Bebel que a Cidade Comeu (1968); O Beijo Não Vem da Boca (1985). O Menino que Vendia Palavras (2007): Destacada obra infantil.
Pertence à Academia Brasileira de Letras e Academia Paulista de Letras. Venceu o Prêmio Jabuti em cinco 2000, 2008, 2015, 2017 e 2021. Prêmio Machado de Assis (2016): Concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Ignácio de Loyola Brandão é crucial por sua coragem política e inovação estética. Durante a ditadura militar, foi uma das vozes mais contundentes contra a opressão e o autoritarismo através do romance Zero. Além disso, sua obra foi pioneira no Brasil ao debater o impacto ambiental e o caos urbano de forma ficcional. Ele domina tanto o realismo social quanto o absurdo e a ficção distópica, traduzindo as angústias do homem brasileiro moderno em uma linguagem ágil e experimental. 

Fontes:
Jornal “O Estado de S. Paulo”, 05.11.2010
Biografia = Ebiografia, Academia Brasileira de Letras, Jornal Cândido (PR), Wikipedia, USP, etc. 

Cida Piussi (Solstício aqui)


Não se tem mais invernos como antigamente. Comum ouvirmos isso, mas somente quem já passou dos "enta" tem a noção exata do que significa. Há ainda a definição temporal da mudança das estações; no hemisfério sul, o inverno inicia no dia 21 de junho, quando se tem o dia mais curto do ano e, consequentemente, a noite mais longa. Da mesma forma que em 21 de dezembro se tem (teria) o dia mais longo e, bem, já se deduz o que significa.

Nenhuma explicação astronômica e/ou astrológica faz diferença quando se trata do frio que nos visita anualmente. Se eu pudesse, iria sempre para o lado do mundo que o mantivesse longe de mim. Ao mesmo tempo que desejo fugir dessa estação climática, memórias vêm, fortes, e trazem lembranças que são difíceis de serem descritas em sua totalidade.

Nasci no estado mais frio deste país, num lugar que nem sequer consta no mapa, Linha Teutônia (não confundir com a cidade), e em uma época em que as estações eram bem definidas: não havia, ou não se tinha conhecimento do tal buraco de ozônio, das geleiras derretendo, etc. O que se sabia é que no inverno o frio seria uma constante e não o friozinho dos últimos tempos em que temos dias gelados, seguidos de dias mais ou menos, seguidos de calor. Assim, vamos para a cama sem saber se, ao acordar, teremos que tirar as peles do cabide para poder aquecer a nossa.

Sou filha de professores e morávamos na escola onde lecionavam. Meu pai era orientador rural e minha mãe lecionava desde a alfabetização até o quinto ano do ensino primário. Fui aluna dos dois. No primário, minha mãe, ginasial, meu pai.

Não gosto do inverno, mas os da minha infância tiveram um sabor especial. Nas casas não havia luz elétrica, fogão a gás, água encanada, nenhum conforto que, para nós, hoje, é indispensável. As luzes das velas, dos lampiões, dos fogareiros, por mais esforço que fizessem, não chegariam aos pés de uma lâmpada incandescente de 25 w.

O fogão a lenha era o equipamento mais importante. A primeira pessoa a pular da cama era a responsável por abastecê-lo e acendê-lo. Por motivos óbvios, a incumbência caía sobre alguém mais velho; crianças são impulsivas, desastradas, e as queimaduras não fariam o inverno ser menos rigoroso. O cheiro da lenha queimando entrava em meu nariz e com ele se misturavam o perfume do café recém passado, o do leite, que às vezes (muitas vezes), fervia e transbordava, se esparramando sobre a chapa de ferro, na sequência, o primeiro palavrão do dia? Os dias, sem nenhum exagero, iniciavam e terminavam ao redor do fogão.

No interior, a igreja e a escola eram os locais onde a comunidade se fazia presente. A festa junina, no dia 24, era o evento mais esperado do ano e a escola, bem, a minha casa, era o local onde tudo acontecia.

Na noite gelada da festa de São João, a fogueira, montada no centro do pátio da escola, iluminava a vila inteira e nós, os foliões, ficávamos à sua volta até que a última brasa se despedisse com um ar de "até o ano que vem". Vestindo trajes gauchescos ou à moda caipira éramos os donos da noite.

Da tradição caipira, o casamento na roça; da tradição recebida dos descendentes de imigrantes teutões (origem do nome Linha Teutônia), o Pau de Fitas; dos Jesuítas, pular a fogueira e pedir a proteção dos santos para não queimar os pés ao passar sobre as brasas quando a fogueira estava prestes a se apagar; as tradições eram cultuadas.

Não esqueço das comidas típicas, como o pinhão, o amendoim, a batata-doce... No entanto, o ápice da festa era a bebida proibida; o álcool, vindo de enormes panelas onde o vinho tinha estado cozinhando o dia inteiro seria liberado para a pirralhada e daria à noite um prazer inimaginável: o quentão para amainar o frio que, realmente, não sentíamos.
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CIDA PIUSSI fez graduação em Letras. Pós-Graduações em Língua Portuguesa e Práxis da Criação Literária. Formação em teatro. Publicações nos sites Recanto das Letras, Usina de Letras, Universo de Cida Piussi e de outros autores. Participação em "Antologia Poética" e "Ditos e Feitos" da Ed. Recanto das Letras.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 13 *


 Maria beijou Aurora
no portão do seu jardim.
— Perdulária, joga fora
o que nega para mim...
ALFREDO DE CASTRO
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A um burro dizia um sábio:
— Pobre animal sofredor,
a muitos convém teu nome,
a bem poucos teu valor...
ANA ATAÍDE FERREIRA DA SILVA
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Carinho pra quê? Me deixe!
Agora estamos casados…
E ninguém dá isca a peixe
depois dos peixes pescados.
ANATOLE RAMOS
- - - - - -
Uma mosca sem valor
pousa, com a mesma alegria,
na cabeça de um doutor,
como em qualquer porcaria!
ANTÔNIO ALEIXO
- - - - - -
Poliglota conhecido,
dominar as línguas logra.
Excetuando-se, é sabido,
as da mulher e da sogra...
ANTÔNIO TORTATO
- - - - - -
Jovens lindas como aquelas
dão trabalho ao hospital,
pois, na esquina, quem, ao vê-las,
não se esquece do sinal?
ANTÔNIO WEBER
- - - - - -
"Barrigudinho!" — brincava,
dando-me bola, a vizinha.
— E tanto ela me invejava,
que ficou barrigudinha...
APARÍCIO FERNANDES
- - - - - -
Vi teus braços... que ventura!
Teu colo... as pernas... que gosto!
Agora, tira a pintura,
que eu quero ver o teu rosto.
BELMIRO BRAGA
- - - - - -
Duvide lá quem quiser,
mas, ó vida, me insinuas:
melhor do que uma mulher,
não há dúvida, só duas...
BENNY SILVA
- - - - - -
A minha sorte ferina
me passou um grande logro;
o teu pai, linda menina,
devia ser o meu sogro.
CALIXTO DE MAGALHÃES
- - - - - -
Dei-te meu livro de trovas,
mas os teus olhos moleques
parecem dizer: "de trovas?..."
melhor se fossem "de cheques".
CARLOS GUIMARÃES
- - - - - -
A mulher quando se arruma,
quanta roupa! Já notou?
E foi sem roupa nenhuma
que Teresa se arrumou...
COLBERT RANGEL COELHO
- - - - - -
Não adianta nada agora,
eu já não perco a cabeça.
Mas, é bom ires embora,
antes que tal aconteça...
COLOMBINA
- - - - - -
O homem tem grande horror
ao vácuo, já descobri:
quando ele se vê vazio,
enche-se todo de si...
DJALMA ANDRADE
- - - - - -
Larápios de mil padrões
há neste mundo dispersos.
Até conheço ladrões
que roubam frases e versos...
ESMERALDO SIQUEIRA
- - - - - -
Meu amor, não cries caso,
se teu caso é se casar...
Se crias caso, não caso;
se não me caso... ora, azar!
FRANCISCO MADUREIRA
- - - - - –
A cova, que nos contrista,
serve, com a mesma avidez,
o talento de um artista
e a burrice de um burguês.
GUMERCINDO JAULINO
- - - - - -
A virtude, em muita gente,
é só falta de ocasião;
quanto virtuoso que sente
não ter sido um bom ladrão!
HÉLIO CHAVES
- - - - - -
De saia curtinha e rente,
estas garotas modernas
só sentam perto da gente
para mostrar-nos as pernas...
HERALDO LISBÔA
- - - - - -
É só, pois sente amizade
pelas mulheres feiosas.
E a mesma fraternidade
sentem por ele as formosas...
ILDEFONSO DE PAULA
- - - - - -
Até que deve a oratória
ser um dom dos mais divinos;
porém, tem levado à glória
muitos sujeitos cretinos...
JACY PACHECO
- - - - - -
Chamaste-me um dia, urgente,
para dizer-me um segredo!
— Nunca um homem tão valente
teve, talvez, tanto medo...
JOSÉ DUARTE COSTA
- - - - - -
Quem passa a vida sisudo,
só pensando em caixa alta,
depois que pode ter tudo,
não tem o que fez mais falta...
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
- - - - - -
Se todos fazem de si
tão duvidoso conceito,
menina, não queiras ter
a fama sem o proveito...
NOEL DE ARRIAGA
- - - - - -
Ouvi um cão indigente
a meu buldogue inquirir;
— O teu dono é inteligente?
— Se é? Só falta latir!
OLDEMAR LIMA DE ANDRADE
- - - - - -
Fiquei rindo de um gaiato
que caíra em plena praça,
não vi a casca de manga
e — pumba! — perdi a graça...
OLYMPIO S. COUTINHO
- - - - - –
Homens há tão insensatos
e de maneiras tão duras
que em vez de usarem sapatos
devem calçar… ferraduras!
PAULA FARIA
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Aquela jovem tão grácil
possui grandes qualidades:
além da palavra fácil,
tem outras facilidades...
PAULO EMÍLIO PINTO
- - - - - –
Se beijo pagasse imposto
junto aos cofres da moral,
que renda dava o teu rosto
nos bailes de carnaval!...
RENATO VIEIRA DA SILVA
- - - - - –
Quando por fraca poetisa
um critico se derrete,
o leitor logo ajuíza:
essa poetisa promete...
RODRIGUES CRESPO
- - - - - –
Na festa daquela gente,
o discurso que agradou
foi aquele, unicamente,
que depressa terminou...
SEBASTIÃO BENFICA MILAGRE
- - - - - –
O meu olhar é um peralta
que não tem jeito, mocinha:
aquilo que tanto escondes
o sem-vergonha adivinha...
SOARES DA CUNHA
- - - - - –

Eduardo Martínez (Carlota, a observadora)

Carlota, por detrás daqueles óculos escuros, usados até nas noites mais sombrias, adorava observar os outros. De tão observadora, era capaz de afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, quantos passos cada membro da família dava até o banheiro todas as manhãs. Agnaldo, o marido, arrastava a perna esquerda por conta de um furúnculo mal curado. Todavia, o velho insistia em dizer que era por conta da guerra, mesmo que não tenha enfrentado qualquer uma, a não ser a luta contra lombrigueira durante a infância em Caxias, a famosa terra de Gonçalves Dias, tão cantada por Luiz Gonzaga. 

Alberto e Roberto, os gêmeos, quase não paravam em casa, enquanto Sônia, a única dos três filhos que se sustentava e ainda ajudava nas despesas, andava à procura de um marido que prestasse. Os hormônios, cada vez mais ausentes, diziam que era agora ou nunca. 

A velha adorava arrumar intriga com a filha, que era a mais nova. Não que Sônia fosse merecedora de tamanha perseguição. Era o que se pode chamar de boa filha. Por outro lado, era toda mimos com os gêmeos, dois notórios vagabundos no alto dos 50 anos. Os dois viviam como adolescentes, às custas da aposentadoria dos pais. É certo que de vez em quando conseguiam um emprego aqui e ali, mas logo eram despedidos por pura falta de compromisso com o horário e o trabalho. Atrasavam quase sempre, menos aos domingos e feriados, dias das folgas.

Foi numa sexta-feira, durante o café da manhã, que Sônia resolveu contar a novidade, que tanto guardara por medo de não dar certo. Superstições, diriam alguns. Seja como for, ela se virou para os pais e os irmãos, todos sentados à mesa. Disse que precisava lhes contar algo muito bom, que mudaria a sua vida. Todos a olharam espantados, especialmente Carlota, que não conseguia disfarçar a ansiedade por detrás dos óculos escuros.

Sônia, com um sorriso maior que a própria cara, disse que iria se casar com Juvenal, seu colega no Banco do Brasil. A família sabia muito bem quem era o tal homem, mas todos imaginaram que se tratava de apenas mais um namorico da parenta.  Carlota, sem saber nem mesmo os detalhes, já quis protestar. Ela, talvez por hábito herdado, precisava discordar da sua filha. 

– Veja bem! Você nem conhece o rapaz direito. Além do mais...

A filha nem escutou as palavras da mãe ou, se ouviu, fez questão de fingir que não. O que se sabe é que o casório aconteceu no mês seguinte. Sônia e Juvenal se casaram apenas no civil. Até prometeram uma cerimônia para os mais chegados, coisa que nunca aconteceu. Saíram em lua de mel para João Pessoa. Gostaram tanto do lugar, que pediram para serem transferidos para uma agência naquela cidade. 

Carlota andou calada por um bom tempo. Quase não dizia uma palavra sequer durante o café da manhã. Diante do marido manco e dos filhos, sentia falta de Sônia. Ela ouvia as idiotices de Roberto, ao mesmo tempo em que observava a cara de imbecil de Alberto.  Dois trastes inúteis! Foi a gota d'água que faltava. 

Naquele dia mesmo ela comprou duas passagens de ida: uma para ela e outra pro Agnaldo. Iriam visitar a filha e, finalmente, conhecer o neto, que, diziam, corria pelas areias da praia de Cabo Branco. Parece que gostaram tanto, que já faz mais de ano que não voltaram para casa, ali no Guará.
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O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Biografia = Cultura SC; Jornal Cultural Rol; Notibras; Radar Digital Brasília; Casa Brasileira de Livros; Portal UFRRJ, etc.

Fernando Sabino (Reunião de Mães)


Na reunião de pais só havia mães. Eu me sentiria constrangido em meio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, e acabaria nem entrando – se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório, duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno.

Sentei-me numa das últimas filas, para não causar espécie à seleta assembleia de progenitoras. Uma delas fazia tricô, e várias conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. O Padre-Diretor tomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início à sessão.

Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo ao médico, mas desta vez cabia-me também participar antes da reunião. Afinal de contas andava mesmo precisando de verificar pessoalmente a quantas o menino andava.

O Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre o uniforme de gala a ser adotado. 

A gravatinha é azul? perguntou uma das mães. Meia três – quartos? – perguntou outra. E o emblema no bolsinho? – perguntou uma terceira. Outra ainda, à minha frente, quis saber se tinha pesponto – mas sua pergunta não chegou a ser ouvida.

Invejei-lhes a desenvoltura. Tive vontade de perguntar também alguma coisa, para tornar mais efetivo meu interesse de pai – mas temi aquelas mães todas voltando a cabeça, curiosas e surpreendidas, ante uma destoante voz de homem, meio gaguejante talvez de insegurança. Poderia também não ser ouvido – e se isso me acontecesse eu sumiria na cadeira. Além do mais, não me ocorria nada de mais prático para perguntar senão o que vinha a ser pesponto.

Acabei concluindo que tanta perguntação quebrava um pouco a solene compostura que devíamos manter, como responsáveis pelo destino de nossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir a explanação do Padre-Diretor:

– Chegamos agora ao ponto que interessa: o quinto ano. Depois de cuidadosa seleção, foi dividido em três turmas – a turma 14, dos mais adiantados; a turma 13, dos regulares; e a turma 12, dos atrasados, relapsos, irrequietos, indisciplinados. Os da 13 já não são lá essas coisas, mas os da 12 posso assegurar que dificilmente irão para frente, não querem nada com estudo.

Fiquei atento: em qual delas estaria o menino? Pensei que o Diretor ia ler a lista de cada turma – o meu certamente na 14. Não leu, talvez por consideração para com as mães que tinham filhos na 12. Várias, que já sabiam disso, puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa delas; levavam muito dever para casa, não se habituavam com o semi-internato. 

Uma – a do tricô, se não me engano – chegou mesmo a se queixar do ensino dirigido, que a seu ver não estava dando resultado.

Outra disse que tinha três filhos, faziam provas no mesmo dia, como prepará-los de uma só vez? O Padre-Diretor sacudiu a cabeça, sorrindo com simpatia – não posso nem ao menos lastimar que a senhora tenha tanto filho. E voltou a falar nos relapsos, um caso muito sério. Não vai esse Padre dizer que meu filho está entre eles, pensei. Irrequieto, indisciplinado. Ah, mas ele havia de se ver comigo: entre os piores!

E por que não? Quietinho, muito bem mandado, filhinho do papai, maria-vai-com-as-outras ele não era mesmo não. Desafiei o auditório, acendendo um cigarro: ninguém tinha nada com isso. Criança ainda, na idade mesmo de brincar e não levar as coisas tão a sério. O curioso é que não me parecesse assim tão vadio – jogava futebol na rua, assistia à televisão, brincava de bandido, mas na hora de estudar o rapazinho estudava, então eu não via? Quem sabe se procurasse ajudá-lo, dar uma mãozinha. Mas essas coisas que ele andava estudando eu já não sabia de cor, tinha de aprender tudo de novo. 

Outro dia, por exemplo, me embatucou perguntando se eu sabia como se chamam os que nascem na Nova Guiné. Ninguém sabe isso, meu filho, respondi gravemente. Ah, não sabe? Pois ele sabia: guinéu! Não acreditei, fui olhar no dicionário para ver se era mesmo. Era. Talvez estivesse na turma 13, bem que sabia lá uma coisa ou outra, o danadinho.

Agora o Diretor falava na comida que serviam ao almoço. Da melhor qualidade, mas havia um problema os meninos se recusavam a comer verdura, ele fazia questão que comessem, para manter dieta adequada. No entanto, algumas mães não colaboravam. Mandavam bilhetinhos pedindo que não dessem verdura aos filhos.

Eis algo que eu jamais soube explicar: por que menino não gosta de verdura? Quando menino eu também não gostava.

Pedem às mães que mandem bilhetinhos e não é só isso: usam qualquer recurso para não comer verdura. Hoje mesmo me apareceu um com um bilhete da mãe dizendo: não obrigar meu filho a comer verdura. Só que estava escrito com a letra do próprio menino.

Chegada era a hora de levá-lo ao médico – uma professora amiga foi buscá-lo para mim.

– Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos:

– Em que turma você está? Na 12 ou na 13?

– Na 14 – ele respondeu, distraído. Respirei com
alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo?

– Fico satisfeito de saber – comentei apenas.

Ele não perdeu tempo:

– Então eu queria te pedir um favor – aproveitou logo – que você mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. O homem nu. Publicado originalmente em 1960.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

Interlúdio para Reflexão - 2 –

 

José Feldman (As ruas que antes eram nossas)


Quem viveu nas cidades há algumas décadas lembra bem: a rua era uma extensão da casa. Os meninos e meninas saíam cedo, com um aviso simples — “volta antes de escurecer” — e ninguém ficava olhando o relógio a cada minuto. Corriam nas calçadas, jogavam bola na praça, pedalavam sem rumo definido, paravam para conversar com vizinhos que conheciam pelo nome. 

Para os adolescentes, a liberdade era poder ir até o centro, andar a pé, encontrar amigos sem precisar avisar cada passo. Já os idosos saíam tranquilamente a qualquer hora do dia, iam à feira, ao banco, sentavam-se em bancos de praça para trocar histórias; sentiam-se parte do lugar, não estranhos nele.
 
Essa liberdade não era o acaso. Vinha de uma convivência mais próxima: vizinhos se conheciam, as ruas tinham movimento constante, as distâncias eram menores e o ritmo da cidade mais devagar. A confiança fazia parte do cotidiano.
 
Com o tempo, tudo foi mudando. O crescimento acelerado das cidades trouxe mais carros do que espaço para caminhar; calçadas estreitas, ruas barulhentas e perigosas afastaram as crianças e os mais velhos. A urbanização desordenada criou bairros sem praças, sem áreas seguras, sem pontos de encontro. A sensação de segurança diminuiu — não só por aumento da violência, mas também por uma convivência que se tornou mais distante: quem mora ao lado muitas vezes não sabe quem é o outro.
 
A tecnologia também interferiu. Hoje, muitos preferem ficar dentro de casa, conectados às telas, e a rua deixou de ser o principal espaço de sociabilidade. Pais, com medo dos riscos do trânsito e da violência, restringem a saída dos filhos. Idosos, com dificuldade de locomoção ou receio, ficam mais tempo dentro de suas casas.
 
Não é que a liberdade tenha desaparecido de vez, mas mudou de forma. Hoje ela é mais controlada, mais planejada, muitas vezes mais restrita. As cidades cresceram, mas parecem ter perdido um pouco daquela simplicidade que permitia a todos — crianças, jovens, velhos — caminhar, viver e pertencer ao espaço público com naturalidade.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Monsenhor Orivaldo Robles (O desperdício)


Faz anos, era véspera do aniversário de meu afilhado, criança dos seus quatro ou cinco anos. A comadre surpreende-o atirando ao lixo um monte de brinquedos. 

“Que é isso, filho?”. 

A resposta desconcerta-a: “Ah, mãe, amanhã é meu aniversário. Vai vir tudo novo”. 

A comadre não alisa. Faz desabar sobre o pequeno um sermão a respeito de crianças pobres, que se sentiriam felizes com um só daqueles brinquedos que ele estava jogando fora. O compadre reforça a bronca. Conta de sua infância na zona rural. Com os irmãos fabricava os próprios brinquedos utilizando carretéis de linha usados, sarrafos de madeira, vidros de remédio vazios e outras peças. 

“O pai e os tios, meu filho, nem sonhavam com um brinquedo desses que enchem o seu quarto. Um só já nos tornaria felizes. Mas a gente não tinha dinheiro”. 

Confrange-se o coraçãozinho do garoto. Ele cai num pranto sentido, que pai e mãe precisam consolar.

Dias depois, na pia da cozinha aparece aberto um potinho de iogurte quase cheio. A repreensão vem na hora: “Filho, se você não aguentava tomar um inteiro, por que abriu? Quantos pobrezinhos desejam um iogurte...” 

Rápido, ele corta o discurso: “Ih, pai, não vem de novo com esse papo dos pobres, que outro dia eu fui obrigado a chorar por causa deles”.

A cena acontece todos os dias numa infinidade de lares brasileiros. Infelizmente, nem todos os pais são educadoras como o compadre e a comadre. Boa parte se preocupa com cortinas, camas, sofás e roupas. Cuidam que restos de comida ou bebida não os emporcalhem. Cuidado cosmético, beleza externa para os outros verem, só isso.

O desperdício é hábito generalizado, que importa combater desde cedo. A criança não tem ideia do uso correto das coisas. Não sabe se está gastando muito ou pouco. Precisa de orientação sobre o sentido exato de quantidades e valores. Senão, vai se acostumar com o esbanjamento. Se os pais não transmitem, também no consumo, noções de disciplina – pior, se eles mesmos dão exemplo de gastança irresponsável –, será difícil corrigir vícios arraigados no povo.

O acesso à comida de qualidade e em quantidade suficiente é direito de toda pessoa, de qualquer condição, em qualquer lugar do planeta. Como se tornar gente, na plenitude do termo, sem poder se alimentar?

A este absurdo chegamos: países cheios de pessoas doentes por comerem em excesso, enquanto em outros a população vem sendo exterminada pela fome. Dentro do Brasil convivemos com ambas as situações. Por isso, os bispos sentiram necessidade de se pronunciarem. Foi um grito em defesa das populações carentes deste país imenso. Temos gente desperdiçando, ao lado de quem não possui o necessário para comer.

O problema vem de longe. Não será resolvido da noite para o dia. Mas é preciso que todos se sintam comprometidos. Não adianta ficar lançando a culpa nas costas dos outros. Para o faminto pouco importa quem provocou a fome. O que ele quer é comida.

Nas propostas concretas, sugerem-se medidas possíveis, algumas bem simples, como “educar para o melhor aproveitamento do alimento produzido, evitando todo o desperdício”.

É urgente começar dentro de casa, educando as novas gerações. Como, desde muito, fazem os compadres.
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Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.