sexta-feira, 3 de julho de 2026

Renato Benvindo Frata (Entre a têmpera e a temperança)


Não se confunda têmpera com temperança.

A primeira é o tratamento térmico que torna o aço mais duro e resistente.

Torna o metal bruto, forte, resistente. Quando inoxidado, blinda-se às impurezas. Por isso o usamos até nos talheres domésticos.

Lavou, tá novo! E nos servirão a vida inteira e mais um tempo, se lhe dermos cuidado. A têmpera o deixa forte, e a inoxidação facilita sua limpeza. Encontrar o ponto exato entre calor e resfriamento é o desafio do bom siderurgista. É desse equilíbrio que nasce o aço resistente.

Tudo depende da medida exata: calor, tempo, resfriamento e composição da liga. O bom aço, assim, se compõe de atos singelos, sem os quais a liga metálica desanda.

Já, a temperança é virtude humana. Nada tem a ver com metal, mas com comportamento. Está descrita desde os tempos bíblicos. E não se sujeita à transformação por temperatura.

Ela se faz pelo autocontrole emocional, digamos a meio-fogo, ou fogo-baixo, como se posta a cozinhar lentamente, a envolver os desejos, os impulsos e as paixões.

Como os temperos que, postos aos poucos num bom guisado, fazem nascer o sabor sem jamais dominar o prato.

Esses que nos levam a bem viver.

Assim, a temperança atua como domínio da razão sobre a voluntariedade dos atos. Ela cuida do autodomínio. Isso é, evita tanto os excessos quanto a escassez. Bem assim.

Representa a prudência e a pudicícia nos nossos atos. Em casa ou na rua. No trabalho ou na praça. Independentemente da existência ou não dos limites da lei.

A temperança dispensa a coerção. Não nasce do medo da punição, mas do governo da própria consciência. Circunscreve-se no recato, na modéstia e na reserva, que se configuram em pudor, decência, honestidade, respeito. Integridade moral.

Talvez por isso a temperança seja hoje a virtude mais rara. Que lástima! As exceções, infelizmente, tornaram-se raríssimas.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Interlúdio para Reflexão = 3 =

 

Laé de Souza (A mulher certa)


Claudomiro, sentado na cama, fazia uma retrospectiva. Agora, casado há três meses, pensava nas mulheres que namorou. De algumas, prestes a contrair núpcias, desistiu. Rita, para quem responde até hoje um processo de indenização moral, por tê-la deixado em pleno altar, numa espera sem fim. Também, a culpa fora dela mesma, pois, só nos últimos dias de namoro, é que descobriu sua frieza. Adelaide, muito bonita, tinha o grave defeito de, após a refeição, chupar os dentes para retirar os restos de comida que se alojavam em alguma fresta. Podia ser no restaurante, na frente de ministro, presidente, não importava.

A (*), era o nome. Motivo de chacota entre os amigos. Por uns tempos, tudo bem, mas ouvir aquele nome por toda a vida, era demais. Lúcia era a voz. De boca fechada, era uma beleza; mas, quando começava a falar, doíam os ouvidos. Dolores, uma loirona de atrair olhares desejosos, contrariando o estereótipo, era inteligente demais. Sabia de tudo e não tinha nada de que se fosse falar que ela não dominasse. Muitos homens não suportam que sua mulher saiba mais do que ele. Claudomiro ficava deste “tamainho” perto dela. Gildete era gastona demais. Já, nos tempos de namoro, exigia presentes dos bons e frequentar os melhores restaurantes. E todas as datas tinham de ter uma “lembrancinha”. Dia que se conheceram, dos namorados, das crianças, da secretária, dos professores (embora ela só tivesse o diploma), da mulher e mais e mais. Parecia que fazia parte da associação dos comerciantes.

Bruna era a memória. Não conseguia se lembrar de nada. Até o nome dele, de vez em quando, dava um branco e o chamava de Coisa ou então Bem. Andava com papelzinho em tudo quanto era lugar com anotações que, geralmente, perdia. Vanilda, a cultura. Desconhecia qualquer assunto. E dava risada da sua santa ignorância, como se fosse uma glória. “Eu que não vou quebrar minha cachola com essas coisas”, dizia ela em gargalhadas. Nunca ouviu falar em Stanislavski, Máximo Gorki, Maquiavel ou Freud. Dinorá tinha aquela verruga entre os seios que parecia um terceiro. De roupas, tudo bem, mas despida, parecia coisa do outro mundo.

Acertou em cheio ao se casar com Tibúrcia. Fala fluentemente inglês, francês, espanhol e, ainda, arranha alemão. Conhece vários assuntos e evita tocar naqueles que ele desconhece. Nas raras discussões, xinga-o em alemão, que ele não domina, e ele a xinga em japonês, que ela não entende. Mulher doce e sensual. Só na hora de dormir é que ele tem de usar um aparelho auricular para não ouvir os seus roncos, mas tudo bem.

(*) Deixo de mencionar o nome por ser minha amiga e conhecer os seus problemas psicológicos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.

José Feldman (Clássico da terceira idade)


O "Clássico da Terceira Idade" no bairro do Limoeiro não era exatamente um evento esportivo; era uma comédia pastelão televisionada pela vizinhança. De um lado, os "Veteranos de Ouro", liderados pelo Arlindo, um senhor que acreditava piamente que ainda tinha a velocidade de um garoto de 20 anos — embora seus joelhos implorassem por misericórdia a cada passo. Do outro, os "Titãs do Asfalto", capitaneados pelo Gerson, que tinha uma tática infalível: prender a bola nos pés e esperar que o adversário desistisse de correr atrás dele por puro tédio.

O jogo começou sob um sol escaldante. O juiz, Juvenal, já estava em campo, mas com um detalhe importante: ele tinha esquecido o apito em casa e estava usando um apito de brinquedo que a neta tinha deixado cair do seu bolso. O som era um "piu-piu" agudo e desesperador, parecendo mais um canarinho com soluço do que uma autoridade em campo.

Aos cinco minutos, a primeira trapalhada. Arlindo recebeu um passe longo, dominou com a elegância de um bailarino — ou melhor, de um bailarino que tropeçou no próprio cadarço. Ele deu uma pirueta, a bola passou por baixo de suas pernas, ele tentou girar, perdeu o equilíbrio e acabou estatelado em cima da bola, deslizando gramado abaixo como se estivesse em um trenó. A torcida (Dona Clotilde com três cachorros) que estava lá apenas para garantir que ninguém morresse aplaudiu efusivamente.

O jogo seguiu com um ritmo... digamos, contemplativo. Quando a bola finalmente chegava perto do gol, o goleiro dos Titãs, Valdir, tinha um hábito curioso: ele gostava de ajustar a prótese dentária no momento exato do chute.

"Valdir, foca no jogo!", gritava Gerson.

"Calma, Gerson, o dente tá andando!", respondia Valdir, enquanto a bola passava lentamente por ele, indo parar dentro da rede.

Mas o auge da confusão aconteceu no segundo tempo. Arlindo, em um momento de inspiração, decidiu fazer uma jogada ensaiada. Ele gritou para o time: "A tática da Tartaruga Ninja!". Ninguém entendeu nada, mas todos correram para o meio de campo. O problema é que, no caminho, o Arlindo confundiu o apito de brinquedo do juiz com o barulho de um passarinho e começou a procurar o bicho no meio da grama.

Enquanto isso, a bola estava rolando solta. O lateral dos Veteranos, numa tentativa heróica de cruzar, chutou com tanta força que a bola voou alto, passou por cima do muro e caiu direto no quintal da Dona Dalva, que era famosa por ter um cachorro chamado "Destruidor".

O jogo parou. Todos olharam para o muro. O silêncio foi quebrado pelo som de algo estourando: PUFF!

A bola tinha virado um pedaço de borracha inútil.

Juvenal, com seu apito de canarinho, decretou o fim da partida. "Empate técnico!", anunciou ele, todo pomposo. "O Destruidor venceu por W.O. e a bola está oficialmente aposentada."

No fim, todo mundo terminou sentado na calçada, rindo tanto que faltava ar, enquanto dividiam um refresco e planejavam a revanche para a outra semana — prometendo, claro, comprar uma bola nova e, quem sabe, um apito que fizesse um barulho decente.

Se o jogo foi uma comédia, a viagem de volta foi um verdadeiro episódio de "perdidos no espaço", só que com um ônibus fretado e um grupo de senhores que, vamos ser sinceros, têm uma capacidade incrível de transformar o simples em complexo!

Prepare-se, porque a confusão começou antes mesmo do motor sair da garagem.

O ônibus, um modelo que parecia ter sido fabricado na época em que o rádio era a gás, estava estacionado na esquina. O motorista, um rapaz chamado Beto que tinha a paciência de um monge tibetano, observava o grupo se aproximar.

"Arlindo, larga essa bola murcha, a gente não vai jogar mais!", gritava Gerson, enquanto tentava subir a escadinha do ônibus carregando um saco de gelo que já estava virando água e escorrendo pelo seu sapato.

Arlindo, ainda empolgado com a partida, decidiu que precisava sentar na "janela do artilheiro". Só que, ao tentar se acomodar, ele prendeu o cinto de segurança no encosto de cabeça do banco da frente. Quando Valdir se levantou para pegar um biscoito, ele puxou Arlindo junto, que veio pendurado como um boneco de pano, gritando: "Fui sequestrado pelo banco!".

Beto, o motorista, suspirou fundo, fez uma breve oração e deu a partida. O ônibus soltou uma nuvem de fumaça preta que deixou a rua inteira com cara de filme de suspense.

No meio do caminho, o Juvenal, o juiz do apito "piu-piu", decidiu que era hora de fazer uma "análise tática" do jogo. Ele começou a desenhar jogadas no vidro embaçado do ônibus com o dedo. O problema é que, a cada freada do Beto, Juvenal batia a testa no vidro e terminava com um "X" desenhado na testa pela sujeira da janela, parecendo um pirata que tinha se perdido no mapa.

"Gente, alguém viu meu dente?", perguntou Valdir de repente, no meio da rodovia.

O caos se instalou. O ônibus virou uma cena de crime. Todos, incluindo o motorista que tentava manter o veículo na faixa, começaram a procurar a prótese no chão. Arlindo, na ânsia de ajudar, acabou pisando em uma sacola de pães de queijo que Gerson tinha guardado, transformando o corredor do ônibus em um campo minado de polvilho crocante.

Para completar a sinfonia de desastres, o GPS do ônibus, que era um celular velho preso com fita adesiva, resolveu que era hora de atualizar o sistema. Ele começou a repetir em um volume altíssimo: "Em duzentos metros, vire à direita... em duzentos metros, vire à direita...". O problema é que não havia rua à direita, apenas um pasto com um touro que olhava para eles com cara de poucos amigos.

"Beto, vira! O robô mandou virar!", gritava Juvenal, com a testa suja de poeira.

"Não tem estrada ali, Juvenal!", respondia o motorista, suando frio.

Depois de três horas de viagem que pareciam durar três dias, o ônibus finalmente entrou na rua dos parentes. O veículo estava uma bagunça: pão de queijo amassado por todo lado, Arlindo ainda meio preso ao cinto, Valdir finalmente encontrando o dente dentro do bolso da camisa (e não no chão) e Juvenal com um mapa desenhado na cara.

Quando o ônibus parou, eles desceram um a um, cambaleando, olhando para o céu como se agradecessem por estarem vivos. Gerson, ao colocar os pés no chão, beijou o asfalto e disse: "Nunca mais! Semana que vem a gente vai a pé, que é mais seguro!".

Eles se olharam, viram o estado um do outro — parecendo que tinham acabado de sair de uma guerra de mantimentos. Chegaram inteiros, mas com histórias que, depois de anos, eles ainda estariam contando como se tivessem atravessado o oceano!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Nilto Maciel (A Voz Indecorosa)


João Canoro passava quase todo o tempo nas ruas. Não perdia um minuto dentro de casa. Dormia, acordava e corria para a rua. Como um pássaro que fugia da gaiola. E punha-se a voar, isto é, a andar, andar, andar, até cansar. Tanto gostava de andar pelas ruas que jamais quis ser escriturário, balconista, barbeiro. Preferiu ser office-boy durante alguns anos, caixeiro viajante por mais outros, oficial de Justiça incompetente, vendedor de assinatura de todas as revistas...

Embora andasse como poucos, João nunca se julgava cansado e, mais mundo houvera, mais andara. Calculava, insatisfeito, já ter dado algumas voltas ao mundo. Queria bater recordes. Sem alardes. Modestamente.

Enquanto caminhava, João Canoro não parava de falar. Uma fala sussurrante. Quase inaudíveis palavras. Exclusivamente aos ouvidos de todas as mulheres da Terra. Curtas frases decoradas. Eternas expressões de amor. Cicios, leves gestos labiais. Mil tipos de indecências.

Às vezes, a mulher sorria, mas não passava disso. Outras, fechava a cara e fugia. Adiante a mocinha cuspia insultos. Além se fazia de surda. E tudo o satisfazia. O sorriso lhe parecia rendição certa ou apenas promessa de entrega. A fuga o excitava. O palavrão soava sonoro. A indiferença o empurrava para novas e velhas mulheres.

Quase nunca a vítima se fazia cúmplice. E quando isto ocorria, por mais bela que fosse a dama, João se calava, virava o rosto, perdia o equilíbrio e sumia no meio da multidão.

João Canoro não podia, no entanto, voltar para casa, calar-se, arranjar emprego de barbeiro, balconista, escriturário. Deus o livrasse de tão desgraçado destino. Terminaria passando a navalha no pescoço de qualquer barbudo. E adeus liberdade de ir e vir, voar pelo céu da cidade, passarinho cercado de avezinhas por todos os lados.

Para escapar às ameaças frequentes de misteriosas mulheres, havia uma saída de gênio — a ventriloquia. E João estudou, exercitou-se, fez-se hábil ventríloquo. Passava pelas mulheres, dizia-lhes suas curtas frases indecorosas, suas indecências, e permanecia tranquilo, ereto, sério, como se um só cício tivesse dito. As moças e senhoras, no entanto, apressavam o passo, irritavam-se, voltavam-se contra pacatos e mudos senhores. E criavam-se enormes confusões de meio de rua.

Em compensação, nenhuma criatura de saia sorria mais para João Canoro. Nenhuma mais lhe cuspia insultos, nem lhe fechava a cara.

Ora, restavam o telefone e a noite. De dia trabalhava, andava, falava sem abrir a boca. De noite descansava, parava e telefonava para anônimas mulheres. Horas e horas à cata de ouvidos carentes de palavras excitantes. E escancarava a boca, para compensar os exercícios diurnos de ventriloquia.

Cortavam a ligação, diziam-lhe insultos, reagiam de mil maneiras. Umas, porém, riam, e ele gastava todo o seu repertório de frases, expressões e cícios. Até se cansar e largar o aparelho.

Uma noite, saciado, foi dormir. Roncava e sonhava palavras de lascívia. O telefone gritou, tilintou, zuniu. João pulou da cama, levou o fone ao ouvido. Uma voz de mulher. E um desfile interminável de palavrões.

Olhos arregalados de pavor, mãos trêmulas, o coração aos solavancos, o corpo inteiro em calafrios, João não disse um ai durante todo o tempo. E só sossegou quando nenhuma voz humana provinha mais do telefone.

Na noite seguinte o fato se repetiu. E mais uma vez João tremeu, se transtornou, perdeu o sossego. Até largar o aparelho e correr em busca de água, o suor a escorrer-lhe por todo o corpo.

Nas noites subsequentes, a mesma agonia de João. Porém, mal atendia o chamado e reconhecia a voz da mulher dos palavrões, obstava a ligação. Enlouquecido, na sexta noite cortou o fio do telefone.

No outro dia, passo lento de quem perdeu o ânimo de viver, João Canoro andava pela rua feito um sonâmbulo, mudo como nunca fora, uma voz indecorosa a zunir em seus ouvidos. Apesar de tudo, sorria um leve sorriso, os olhos demasiadamente brilhantes, enquanto por ele passavam mulheres, todas belas, cândidas, excitantes.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Asas da Poesia * 197 *


 Trova Humorística de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

- Canta mal, essa "coroa"...
- Pois saiba que é minha tia.
- Se a música fosse boa...
- Pois é de minha autoria!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Descarnar a impoluta palavra
Até à chama viva da carne
Como sílex que golpeia o marasmo
Dos dias bocejados e estéreis

Expor-se à pudica avidez
Sangue ígneo renegando a venosidade
Correndo em disseminado apelo
Como um simples ato de sobrevivência

Revolver a cegueira
Guardada em redoma ilusória
Numa vontade insofismável
De extrair da forma disforme
Os contornos invisíveis ao olhar

Por fim sopesar o rosto nas mãos
Em breve e maravilhado apelo
Frestas de compreensão que se agitam
Onde o sal do cansaço rejubila.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Perfume 
floral
alcança
espíritos 
adoça 
sonhos
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos /SP, 1866-1924

A um poeta moço

Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.

Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.

Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,

Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova premiada de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

O velho ator, alquebrado,
da realidade fugindo,
ainda sonha acordado,
com a plateia o aplaudindo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
IZABEL RODRIGUES
Americana/SP

Renúncias 

Toda renuncia gera dor
Por menor que seja 
O sonho sonhado
Deixar para trás e seguir
Pode acontecer
E acontece diariamente
Mas causa danos
Contornáveis ou irreversíveis 
Marcam ficando indeléveis cicatrizes
E cada um conhece as suas profundamente
Embora sigam 
Uns expondo-as agressivamente 
Outros caminhando disfarçadamente
Pela vida
Apesar da carga pesada 
Mas invisível 
Carregada...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadra Popular de 
TIAGO
(António José Barradas Barroso)
Paredes/Portugal

Nosso querer tão velhinho,
cheio de ternuras e afetos,
se deu, aos filhos, carinho,
mais ainda deu aos netos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
RONALD DE CARVALHO
(Ronald Arthur Paula e Silva de Carvalho)
Rio de Janeiro/RJ, 1893 – 1935

Vida

Para um destino incerto caminhamos,
Tontos de luz, dentro de um sonho vão;
E finalmente, a glória que alcançamos
Nem chega a ser uma desilusão!

Levanta-se da sombra, entre altos ramos,
Como um fumo a subir, lento, do chão,
A distância que tanto procuramos,
E os nossos braços nunca atingirão...

Mas um dia, perdidos, hesitantes,
A alma vencida e farta, as mãos tateantes,
De repente, paramos de lutar;

E ao nosso olhar, cansado de amargura,
As montanhas têm muito mais altura,
O céu mais astros, e mais água o mar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ALMIRA GUARACY REBÊLO
Belo Horizonte/MG

Já não combato a ansiedade
que me consome e angustia;
a dor da minha saudade
eu a transformo em poesia.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CASSIANO RICARDO
São José dos Campos/SP, 1895 – 1974, Rio de Janeiro/RJ

Canção para poder viver

Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.
Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?

Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.

Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:

E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa

Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.

E ela me exige bis, "ao palco"!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Haicai de
SÍLVIA MARIA SVEREDA 
Irati/PR

Plena madrugada.
O olhar ainda reflete
o brilho da lua.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Sextilha de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

É feliz quem vê mais o lado bom
e o poeta está sempre com a razão.
Apesar de que o estro tudo enxerga;
e olha o triste e o que alegra o coração.
Há, no entanto, quem vê somente a lama
sem ter olhos pra ver a imensidão.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Que esta trova seja um hino,
que ouças o pobre a gemer
e, ouvindo o planger do sino,
saibas o irmão socorrer.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE:
Vejo o mar beijando a areia 
no raiar de um novo dia, 
ouço o canto da sereia, 
com promessas de alegria! 
José Feldman
 (Floresta/PR)

GLOSA: 
Vejo o mar beijando a areia 
e me agarro ao corpo dela; 
pra muitos, ela era a feia, 
para mim, era a mais bela! 

Sozinhos, nós dois na praia, 
no raiar de um novo dia; 
ficar ali na gandaia 
era tudo o que eu queria! 

Porém veio a maré cheia, 
e, bem de longe, do mar, 
ouço o canto da sereia, 
querendo nos naufragar! 

Me amarrei, que nem Ulisses, 
ao ouvir a cantoria 
da Ligeia, em meio aos Sirtes, 
com promessas de alegria!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
ALCIONE SORTICA
Porto Alegre/RS

Lembranças
e
saudades
são
velhas
comadres
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
AFONSO CELSO
(Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior)
Ouro Preto/MG, 1860 – 1938, Rio de Janeiro/RJ

Senhorita

Ela, às vezes, nas rendas da mantilha,
Com a esbelteza audaz de uma espanhola,
A trança negra, onde áureo pente brilha,
E o busto altivo donairosa enrola;

E provocante, lânguida, casquilha,
Desferindo fragrâncias de corola,
Cativa muito orgulho, que se humilha
Pedindo amor, como quem pede esmola!

Então, os seus olhares atrevidos,
Não sei por que, recordam dois bandidos,
Armados de punhais longos e finos,

Que entre as moitas floridas da alva estrada,
Traiçoeiramente, ficam de emboscada
Para assaltar incautos peregrinos!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Premiada de
PAULO R. O. CARUSO
(Paulo Roberto Oliveira Caruso)
Niterói /RJ

Ela traiu o marido
pelo celular... Que cena!
E um mistério irresolvido:
nasceu chifre ou uma antena?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
PAM ORBACAM
(Paula Miasato)
Santo André/SP

O fio

Tudo o que calo ou falo
Constitui a significância de tudo o que vivo e pereço
É o que arde aos ouvidos quando calo
Que faz morada no meu peito enquanto morro
E é o que voa ao vento enquanto falo
Que se desfaz, dilui e evapora.
De que importa o som que ecoa sem resposta....
De que vale o silêncio, perante tamanha lacuna...
Vivo e morro no silêncio ardente do que calo
Enquanto mato e vivifico, proferindo a secura da boca.
Alienada no pensamento que cala
Enfastiada no movimento que fala
Nesse ouvido meu que ouve
Mil palavras, mil palavras...
É tudo que calo ou falo 
que me gela as mãos, o peito e a alma.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de
SUELY BRAGA
Osório/RS

Entro no meu eu
Olho o meu eu.
Só enigmas.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Setilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Ao médico, eu consultei 
para saber a razão 
desta dor que me atormenta, 
dia e noite, o coração: 
sabe o que ele receitou, 
e a dor, ligeiro, passou? 
Xarope de trovação!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
JESSÉ NASCIMENTO
Angra dos Reis/RJ

Sinto uma grande alegria 
e o alvo sempre persigo: 
conquistar a cada dia 
um novo e leal amigo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
CURITIBA/PR

I
Cidade linda e amorosa da terra de Guairacá.
Jardim luz, cheio de rosa Capital do Paraná.
Pela ridente paisagem
Pela riqueza que encerra,
Curitiba tem a imagem
Dum paraíso na terra.

II
Viver nela é um privilégio
Que goza quem nela está.
Jardim luz, cheio de rosa.
Capital do Paraná.

Pérola deste planalto
Toda faceira e bonita.
Na riqueza e na opulência
Vive, resplande, palpita

III
Subindo pela colina
Altiva sempre será.
Jardim luz cheio de rosa
Coração do Paraná.
Salve! cidade querida
Glória de heróis fundadores.
Curitiba, linda joia
Feita de luz e de flores.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

A$$alariado

vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade boia, fria
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
GONÇALVES CRESPO
(Antônio Cândido Gonçalves Crespo)
Rio de Janeiro/RJ, 1846 – 1883, Lisboa/Portugal

Quimeras

O mar já me tentou: aspirações fogosas
Fizeram-me idear fantásticas viagens;
Eu sonhava trazer de incógnitas paragens
Notícias imortais às gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
Um palácio escondido em múrmuras folhagens,
Onde eu fosse ocultar as cândidas imagens
Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas, tudo isso passou: agora só me resta
Das quimeras que tive, uma visão modesta,
Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples: uma alcova, um berço, um inocente,
E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
De um longo penteador na imaculada alvura...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
MARA MELINNI
(Mara Melinni de Araújo Garcia)
Caicó/RN

Nas noites de solidão...
— Lua, que embala os amores,
és, em tua mansidão,
a musa dos trovadores!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

O leão velho

Decrépito o leão, terror dos bosques,
E saudoso da antiga fortaleza,
Viu-se atacado pelos outros brutos,
Que intrépidos tornou sua fraqueza.

Eis o lobo com os dentes o maltrata,
O cavalo com os pés, o boi com as pontas,
E o mísero leão, rugindo apenas,
Paciente digere estas afrontas.

Não se queixa dos fados; porém vendo
Vir o burro, animal de ínfima sorte:
«Ah! vil raça — lhe diz — morrer não temo,
Mas sofrer-te uma injúria é mais que morte!»
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *