sábado, 4 de julho de 2026

Contos e Lendas do Mundo (Suécia: Pelle, o cozinheiro)


Era uma vez um marinheiro chamado Pelle, o qual desde longa data navegava com o mesmo patrão, mas sempre como cozinheiro, apesar de ser muito atilado, trabalhador e estimado por toda a tripulação. O patrão chegou a ter tanta confiança nele, que o deixava administrar as provisões do barco e aceitava tudo o que Pelle considerava conveniente.

Certa ocasião em que navegavam nos mares de Espanha, aconteceu que um marinheiro com o qual Pelle mantinha estreitos laços de amizade caiu pela borda abaixo e desapareceu nas profundezas do oceano. Não se voltou a saber dele, e Pelle, o Cozinheiro, sentiu-se extremamente amargurado durante muito tempo.

Alguns anos mais tarde, quando navegavam de novo nos mares de Espanha, mais ou menos no local onde o marinheiro desaparecera, Pelle desceu ao camarote do comandante e pediu-lhe que saldasse a sua conta, a qual era muito elevada, pois nunca lhe fizera semelhante exigência em todos aqueles anos. E acrescentou que lhe permitisse abandonar o barco.

O comandante surpreendeu-se e perguntou-lhe porque queria o dinheiro precisamente naquela altura e como tencionava deixar o barco no alto mar. No entanto, Pelle limitou-se a rogar que lhe pagasse e cedesse o bote, para poder içar a vela e afastar-se. Por fim, recebeu as piastras que lhe eram devidas, em número considerável, e a embarcação, com a qual se fez ao mar.

Quando ainda se encontrava à vista do barco que acabava de abandonar, um homem surgiu da água e sentou-se a seu lado sem proferir uma única palavra. Era o amigo que se afogara! Em seguida, quebrou o mutismo para lhe agradecer a sua velha amizade e declarar que desejava recompensá-lo por isso e proporcionar-lhe toda a sorte do mundo. 

De súbito, apareceu uma baleia enorme, que prendeu uma barbatana ao cabo da vela, após o que arrastou o bote a toda a velocidade. Depois de um longo percurso, chegaram a uma ilha desabitada. Quando Pelle, o Cozinheiro, quis desembarcar, viu que o amigo estava realmente morto, pelo que o sepultou na praia. Por último, internou-se na ilha para se inteirar do que o destino lhe reservava.

Pouco depois, viu uma pequena galeria que se introduzia na terra e enveredou corajosamente por ela. Não tardou a achar-se a uma grande profundidade, atravessou algumas salas magníficas e deparou-se-lhe uma linda princesa, a qual, ao vê-lo, exclamou:

- Infeliz! Porque vieste aqui, onde doze piratas sanguinários me mantêm sequestrada e não tardarão a aparecer? Sou uma princesa. Convém que te faças passar por pirata, do contrário assassinam-te.

Com efeito, os piratas surgiram pouco depois e perguntaram-lhe quem era.

- Um pirata como vocês - replicou Pelle.

- A parte isso, qual é o teu ofício? - insistiram.

- Sou cozinheiro.

Ficou então decidido que ficaria com eles, cozinharia e ajudaria a jovem que haviam recolhido a cuidar da casa. Em seguida, Pelle entregou-lhes voluntariamente a pesada bolsa cheia de piastras.

No dia seguinte, os piratas partiram para assaltar os viajantes que faziam escala na ilha. Entretanto, Pelle lamentava profundamente a sorte da princesa, e não tardaram a amar-se e a prometer que se casariam. Ela ofereceu a Pelle metade de um anel em que estavam gravados o seu nome e o do pai, o rei, assim como um lenço que rasgara previamente ao meio, de forma que ficou com a metade que continha o seu nome e parte da do pai.

Posto isto, Pelle, o Cozinheiro, pôs uma panela enorme ao lume, verteu nela uma parte de melaço, outra de rum e um pouco de alcatrão e deixou a mistura coser. A seguir, colocou na mesa um anker* de rum e duas tinas de açúcar. Quando os piratas regressaram, à noite, comunicou-lhes que saíra para roubar e obtivera tudo aquilo, convidando-os para provar o ponche.

- Que é isto? - perguntaram, desconfiados.

Pelle preparou com o rum e o açúcar um ponche saboroso e forte, que os outros beberam e quiseram repetir. Ele comprazeu-os sem cessar, até que ficaram tão ébrios que não se aguentavam de pé.

Serviu-lhes finalmente a sopa de melaço, rum e alcatrão a ferver e fingiu que ia transferir uma parte para os pratos. De súbito, tropeçou propositadamente e verteu em cima dos doze piratas a escaldante mistura. Ato contínuo, matou todos à paulada, foi chamar a princesa e explicou-lhe o que acontecera.

- Agora, estamos livres! - exclamou ela.

Durante algum tempo, Pelle, o Cozinheiro, viveu feliz com ela na ilha, na suntuosa residência dos ladrões.

No entanto, não queriam continuar ali. A princesa ansiava por regressar ao reino do pai e casar devidamente com Pelle, que agora amava com intensidade. 

Um dia, chegou à ilha uma embarcação vazia à deriva e Pelle, o Cozinheiro, recolheu todos os seus pertences, a prata e o ouro da gruta dos piratas e transferiu-os para lá. Em seguida, zarparam e navegaram diretamente ao reino do monarca que era o pai da princesa. Entraram numa pousada e carregaram os seus tesouros em quatro coches, mas cometeram a imprudência de divulgar as suas aventuras, quando ainda se encontravam a alguns quilômetros da capital.

Dois vagabundos inteiraram-se, assaltaram-nos pelo caminho, espancaram de tal modo Pelle, o Cozinheiro, que ele ficou inanimado na estrada, raptaram a princesa e ameaçaram-na com a morte se negasse a anunciar ao pai que a tinham salvado. Por último, seguiram, com todos os tesouros, para a corte do rei, onde foram recebidos cordialmente.

Um pouco mais tarde, passou um homem no local em que se conservava Pelle, o Cozinheiro, e levou-o a um médico. Quando se recompôs e soube o que acontecera, ficou horrorizado ante a perspectiva de a princesa ter de escolher marido entre os vagabundos. Mas isso não sucederia enquanto o monarca, que se encontrava gravemente doente, não recuperasse a saúde.

Ora, o médico de Pelle era o seu amigo, o marinheiro morto, o qual o aconselhou a conseguir trabalho na cozinha real e a aguardar o momento oportuno para mexer a sopa do rei com uma colher que lhe entregou. O monarca ficaria curado e tudo se resolveria como Pelle e a princesa desejavam.

- Nada mais posso fazer por ti - concluiu. - Obrigado pela nossa velha amizade, e adeus!

Com estas palavras, desapareceu para sempre.

Entretanto, o rei sentia-se cada vez pior e a princesa cada vez mais aterrorizada, pois os dois vagabundos desfrutavam de honras supremas na corte. Mas nessa altura contrataram Pelle como ajudante de cozinheiro do palácio, e ela exultou quando o reconheceu. Uma vez por outra, deparava-se-lhes o ensejo de conversar a sós. Ele indicou-lhe que convencesse o pai a encomendar ao chefe da cozinha uma sopa que lhe restabelecesse a saúde. A ordem foi transmitida pelo próprio rei ao cozinheiro acompanhada da ameaça de morte, na eventualidade de não ser cumprida, pelo que o homem encarou como um fato inevitável o termo iminente dos seus dias.

Estava desesperado, sem saber o que fazer, e, por fim, revelou tudo a Pelle, porém este aconselhou-o a não se preocupar muito com a sopa destinada à Sua Majestade, pois ele próprio trataria de tudo. O chefe da cozinha duvidava seriamente de que o seu modesto colaborador lhe pudesse salvar a vida, mas deixou-o atuar livremente, e Pelle pôs a panela ao lume.

E o pasmo do homem atingiu o auge ao ver que ele se limitava a utilizar água pura. Quando o relógio badalou o meio-dia e foi necessário levar ao rei a sopa com o resto da refeição, o medo dominava-o de tal forma que não sabia o que fazer. Pelle retirou a panela fumegante do lume, mexeu o conteúdo com a colher oferecida pelo amigo morto e proferiu:

- Oxalá isto cure Sua Majestade!

Quando provou a sopa, o chefe da cozinha sentiu-se como se acabasse de nascer, e foi com confiança crescente que a levou ao quarto do rei. Este, só de aspirar o odor, ficou mais animado. A primeira colherada, encontrou-se muito melhor. A segunda, empertigou-se na cama. A terceira, manifestou o desejo de se levantar, e assim fez. No final, já com o prato vazio, considerou-se restabelecido e perguntou ao chefe da cozinha se confeccionara a sopa.

- Não, Majestade - replicou o homem. - Esta obra-prima é da autoria de um dos meus ajudantes.

O monarca mandou chamar Pelle, o Cozinheiro, e nomeou-o encarregado de pôr a mesa, além de lhe entregar uma generosa recompensa. Assim, ele disporia de mais oportunidades de se encontrar com a princesa. 

No entanto, como o pai recuperara a saúde, ela tinha de escolher um dos dois vagabundos para esposo. Ao mesmo tempo, era cada vez maior a consideração do rei por Pelle, o Cozinheiro, e nomeou-o copeiro real - aquele que se postava atrás da cadeira do monarca e lhe servia o vinho. 

Pouco antes da data para a princesa se decidir, realizou-se um suntuoso banquete e, no momento em que teve de servir o vinho ao rei, Pelle depositou o seu meio anel na taça de ouro, sem que ninguém percebesse. Ao levá-las aos lábios, o monarca ouviu um ruído metálico, pegou no pequeno objeto e viu que tinha gravado metade do seu nome e o da filha, pelo que perguntou à jovem o que acontecera à outra metade.

Ela não se pôde conter mais tempo e descreveu todo o seu infortúnio e aventuras: Pelle, o Cozinheiro, copeiro do rei, salvara-a das mãos dos piratas e os dois vagabundos naquele momento sentados à mesa real, cada vez mais embaraçados, tinham-na obrigado a revelar uma versão diferente, ameaçando-a de morte.

O rei levantou-se quase de um salto e mandou encerrar estes últimos na torre, onde aguardariam o merecido castigo. A princesa mostrou a sua metade do lenço e Pelle, o Cozinheiro, imitou-a. O monarca ficou tão eufórico, que abraçou a filha e concedeu-a em matrimônio ao honrado ajudante de cozinheiro. Quando ele morreu, Pelle herdou todo o reino e aquilo que lhe pertencia, e viveu feliz com todas as honras de uma longa existência.
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* Anker = antiga medida de vinho, aguardente e azeite, equivalente a cerca de 40 litros.

Fonte:
Contos tradicionais da Suécia. em Ulf Diederichs. Palácio dos Contos. Lisboa/Portugal: Círculo de Leitores, 1999.

Caetano W. Galindo (O grande escritor)

O grande escritor havia já semeado sobre o mundo bela meia dúzia de grandes livros. Ele deveria ser tido como responsável por nada mais que boa, muito boa, meia dúzia de grandes livros. Repetir antes das refeições.

Contudo o grande escritor tinha entre seus feitos amealhado belo milhar de grandes fãs. Admiradores. Responsabilidades?

Ele muito possivelmente não sabia disso com qualquer grau de precisão. E muito provavelmente (o grande escritor era de natureza particularmente reclusa, especialmente em tempos de quase patológica exposição midiática, sequer tendo seu próprio website, não dando muitas entrevistas: quando se casou, a notícia levou meses para surgir na internet: Talvez esse itálico seja desnecessário. O grande escritor, afinal, sublime manejador de itálicos e outras convenções gráficas, parecia ainda acreditar que podia levar uma vida algo independente da mídia e do milhar de admiradores que seu trabalho sempre incansável, brilhante e original com a palavra escrita e com as almas humanas que manipulava como compositor e como regente de seres lhe havia amealhado) pouco se importava com essa ou qualquer outra quantificação. Distinção.

Era talvez por isso mesmo que havia conseguido se tornar um grande escritor e, mais especificamente, o grande escritor que era.  

Cerca de cinco anos antes do momento em que se passa a angústia, esta angústia, o grande escritor havia aceitado participar de um programa de resident writers em uma grande universidade norte-americana. Como parte de seu contrato, para além de um período de efetiva residência no campus da dita universidade norte-americana, período esse entremeado por seminários e palestras diversos de diversa natureza, havia a obrigatoriedade de, transcorridos os xis meses dessa estada, o grande escritor participar de um grande evento coletivo (junto de outro escritor, significativamente menos ‘grande’ que o grande escritor como escritor, conquanto em tudo e por tudo equiparável a ele como ser humano que percorre o mesmo vale de lágrimas. Realçar.) em que seria entrevistado por um dos professores daquela grande universidade norte-americana antes de terminar a noite com a leitura de alguns fragmentos (de qualquer natureza: muitos ou um, com a duração desejada de cerca de trinta minutos em leitura pausada, conveniente a situação semelhante) da literatura que lhe as musas houvessem outorgado compor durante os xis meses em que fora alimentado pelos milionários que doavam suas fortunas à grande universidade norte-americana e pagavam ainda tuitions extorsivas para nela verem seus filhos, futuros presidentes, ceos e, por que não, ‘grandes’ grandes escritores, sendo que a referida universidade contava, como de regra, com um programa de creative writing, e contava na verdade sondar o grande escritor (ainda jovem e vinculado de forma algo insatisfatória a uma não-tão-grande universidade norte-americana) a respeito da possibilidade de vir ele a ocupar a recém-criada cadeira Walt Disney de redação criativa naquela instituição. (Esses filhos também tenderiam a doar parte significativa de suas futuras fortunas a sua alma mater. Era a ideia.) 

Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade, e posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.

Neste momento, transcorridos cerca de cinco anos daquela leitura alguns dos fragmentos e mesmo um conto completo lido naquele momento já haviam sido encontrados em livros efetivamente publicados pelo grande escritor.

Mas não todos.

Dois deles se mantinham inéditos.

Ambos tratavam de meninos. Homens. Homens que ainda não eram. Meninos em algo que o leitor (leitor das obras do grande escritor, nesse momento ouvinte, no entanto – nesse e em muitos outros subsequentes [momentos], pois que retornava incessantemente aos arquivos na internet que registravam a leitura daqueles fragmentos) convencionou definir como ritos de passagem, momentos de transição. Momentos de formação. Ele. É que convencionou. Frisar.

Por sua única conta e único seu risco; não pequeno, ver-se-á.

O primeiro deles (menino, não fragmento) era menos interessante. Aliás, era precisamente sua natureza não-interessante o assunto do “fragmento” (e as aspas se revestiam cada vez de muitos e mais significados muito e mais profundos e diversificados para o “leitor”). Ponto.

Era um menino basicamente perfeito, em um momento perfeito. Ele montava sua festa de aniversário e, nela, propiciava ao narrador todas as oportunidades de iconizar em um momento chave (a festa de aniversário = o rito de passagem) as características que formavam sua perfeição.

Ele não queria presentes. Pedia que as pessoas enviassem, ao invés disso, pequenas somas de dinheiro (que não fossem lhes fazer falta) para instituições de caridade (afinal de contas, havia tantas pessoas que tinham necessidades tão mais sérias que as suas [dele, menino em questão [Isso era óbvio, já]. E eram comentários de teor semelhante aos que estão aqui entre colchetes que, mais que os fatos em si, representavam a irritante perfeição do menino, nítido símbolo de toda uma classe culpística da sociedade americana.

O grande escritor era americano.

Sua festa seria toda servida em material descartável, reciclável... assim por diante.

Ninguém comparece.

Ninguém suporta a perfeição absoluta do menino que, conquanto expressa de forma a levantar os pelos de qualquer leitor minimamente sensível a lugares-comuns de caridade e boas-intenções das classes elevadas, não deixava, por um minuto sequer, de representar de fato fatos e informações inquestionavelmente bons.

(Da necessidade de se aprender a necessidade de se italicizar o adjetivo bom.)

O rito de passagem.

O segundo era muito mais inventivo, e também desenvolvido mais longamente.

Tratava de um menino, bem mais novo que o anterior, talvez com cerca de oito anos de idade, que se dedicava, de início levianamente, depois com uma dedicação insana que o isolava de todo o resto do são convívio social e o levava a se enfiar em leituras e estudos médicos e anatômicos (o que propicia também ao narrador largo campo para verdadeiras incursões ensaísticas em torno das mesmas questões, potencializando assim a aparente trivialidade da situação do menino, discutida em termos médicos frios, e apenas mensurada em seu todo impacto emocional e humano pela figura do pai que, imóvel, se colocava contra a porta do quarto do filho e, mudo, ficava ali sem entrar, sem bater, preso ele a sua angústia, incapaz de tocar a de seu filho), à tarefa autoproposta de tentar tocar com seus lábios (e a recusa do narrador em usar o verbo beijar mais uma vez demonstrava o ângulo e a distância que tinha se proposto) todas as partes de seu corpo. Ele se dedicava a tal.

E anotava em um caderno todas as partes que já tinha tocado. E pelas quais imediatamente perdia interesse.

Tocado o períneo, era partir para a parte de dentro do joelho. Sublinhar a frieza.

O menino, em sua monomania, se lesionava. O menino se deformava e seus professores começavam a reclamar de seus lábios (artificiosamente distendidos por séries de exercícios específicos) que lhe davam um ar vagamente sorridente, vaga, mas concreta e incomodamente, lúbrico.

O menino parecia perdido.

E acima de todo o processo restava a sombra da expectativa dos locais (sua nuca, o espaço entre os ombros, nas costas.) que jamais poderia tocar.

Ritos de passagem.

Passados os anos todos, o leitor passou a se conformar com a ideia de que o grande escritor apenas poderia estar preparando um imenso romance mosaico (imenso, devido à conhecida prolixidade do grande escritor) a respeito dos momentos singelamente terríveis e horrendamente cotidianos que regem a criação de homens, a cada dia, em cada canto daquela América.

Baseado em nada mais que sua expectativa. Mesmo.

Nem mesmo boatos na internet (e as comunidades dedicadas a discutir a obra e a vida do grande escritor pululavam por todos os cantos da rede) vinham acudi-lo em suas suspeitas. Sozinho. Trancado em seu apartamento, dedicado à tarefa de reler ciclicamente toda a produção do grande escritor enquanto mineirava a web em busca de confirmação, em busca de certeza.

Ele desenvolveu todo o arcabouço do novo romance, que seguiu adaptando à medida que o grande escritor publicava novos livros de contos (mas ainda não um terceiro romance, ainda não o romance que seria o ápice definitivo de sua carreira) que revelavam clarissimamente evoluções, mudanças, correções de trajetória. Ele precisava adequar o novo romance do grande escritor, afinal, a o que de fato o grande escritor parecia estar se tornando.

E o novo livro ia se formando mais e melhor. Muito. Muito melhor...

A grande obra de um grande escritor. Definitivamente definitiva. E o leitor, sentado na cama, sorria ele também de forma algo preocupante (algo lúbrica?) ao vislumbrar a perfeição do romance que apenas o grande escritor poderia escrever. Ele. Ele era incapaz. Ele não era grande. Nem era escritor.

Em seus momentos mais desesperados ele temia que nem mesmo o escritor fosse grande à altura da grandeza daquele romance inexistente. Mas ele o estava escrevendo...?

E tudo que o leitor mais temia agora era o lançamento de um novo grande romance do grande escritor, que jamais poderia igualar o seu romance do grande escritor. E que poderia mesmo representar o definitivo engavetamento daqueles fragmentos (experiências vãs, teria pensado ele, que não valem mais o papel em que seriam impressas neste ponto da minha carreira... quase me arrependo de ter escrito) e da ideia de que eles poderiam ter sido importantes a ponto de justificar dez, mais, anos de maturação e desenvolvimento.

Escritores são vis.

Seria traído de maneira indizível.
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CAETANO WALDRIGUES GALINDO é um dos mais importantes intelectuais, tradutores e escritores do Brasil contemporâneo. Reconhecido internacionalmente por traduzir clássicos de extrema complexidade e por aproximar a história da língua portuguesa do grande público, ele desempenha um papel fundamental na renovação e na acessibilidade da literatura no país. Nasceu em Curitiba (PR), em 1973, construiu sua vida pessoal e profissional em Curitiba, cidade onde reside até hoje. Começou sua formação como violonista clássico, mas uma lesão na mão o obrigou a abandonar o conservatório e o direcionou para as Letras. Aprovado em concurso público aos 24 anos, tornou-se professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1998, onde leciona Linguística Histórica e História da Língua Portuguesa. É doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP).
Sua consagração literária aconteceu no campo da tradução. Ele passou anos dedicando-se a verter para o português brasileiro o monumental Ulysses, de James Joyce. Traduziu mais de 60 livros de gigantes da literatura mundial, como Thomas Pynchon, David Foster Wallace, J. D. Salinger, T. S. Eliot e Charles Darwin. Ao contrário de escritores de perfil mais tradicional, Caetano Galindo não pertence a academias de letras. Sua atuação dá-se estritamente no ecossistema universitário, de pesquisa e no mercado editorial.
Sua célebre tradução de Ulysses e seus livros de ensaio receberam as distinções mais cobiçadas do país: Prêmio Jabuti (2013) – Categoria Tradução; Prêmio da Academia Brasileira de Letras / Paulo Rónai (2012); Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, 2012); Prêmio Paraná de Literatura (2013) – Pelo livro Ensaio sobre o entendimento humano; Prêmio Euclides da Cunha da ABL (2026) – Escolhido como o melhor livro de não-ficção do ano por Na Ponta da Língua.
Livros Publicados: Onze poemas (Poesia); Sobre os canibais (Contos, 2019); Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (Ensaio/Guia, 2016); Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português (Divulgação científica, 2022/2023); Lia: cem vistas do monte Fuji (Romance, 2024); Ana Lívia e outras mulheres (Dramaturgia, 2024); Na ponta da língua: nosso português da cabeça aos pés (Linguística/Etimologia, 2025); As cidades (Poesia).
A relevância de Caetano W. Galindo para as letras nacionais sustenta-se em três pilares fundamentais:
1. A Desmistificação de Clássicos: Ao traduzir James Joyce com uma linguagem viva, inventiva e genuinamente brasileira, ele provou que a alta literatura experimental não precisa ser árida ou inacessível. Ele abriu as portas de obras complexas para gerações de novos leitores no Brasil.
2. Popularização Criativa da Linguística: Com obras como Latim em Pó, Galindo tornou-se o maior divulgador da história da nossa língua. Ele retirou a filologia das gavetas acadêmicas e explicou a evolução do português falado no Brasil com humor, leveza e paixão, gerando um forte sentimento de orgulho e identidade linguística nos leitores.
3. Versatilidade Artística: Poucos intelectuais conseguem manter o rigor científico de um doutor em linguística enquanto escrevem peças de teatro, romances ficcionais contemporâneos e poesias de alta qualidade, consolidando-se como uma das mentes mais brilhantes e multifacetadas da cultura brasileira atual.

Fontes:
Caetano W. Galindo. Ensaio sobre o entendimento humano: contos. Curitiba, PR : Secretaria de Estado da Cultura : Biblioteca Pública do Paraná, 2013.
Biografia = SESC SP, Wikipedia, Rascunho, Via Editorial, Companhia das Letras, UFPR, Círculo de Poemas, etc.

Estante de Livros (“Desventuras em série” e “Drácula”)

Lemony Snicket (Desventuras em Série)

A série de livros conta a história dos irmãos Baudelaire, que perdem os pais em um incêndio e são obrigados a ir morar com seu tio, o Conde Olaf. Ele é um sujeito ganancioso e egoísta, e só está de olho na herança dos garotos. Por isso, apronta poucas e boas com eles, fazendo-os sofrer bastante.

A coleção foi escrita pelo misterioso Lemony Snicket. Esse é o pseudônimo do norte-americano Daniel Handler. Antes de lançar Desventuras em Série, o escritor publicou dois livros para adultos que não obtiveram muito sucesso.

A biografia de Snicket presente na obra diz que ele nasceu numa pequena vila que hoje está submersa. Um povoado aparentemente pacato, mas cercado de segredos. "Para escrever essas desventuras dos irmãos Baudelaires fui obrigado a conhecer a fundo as artimanhas de vilões como o conde Olaf. Passei anos mergulhado no mundo do crime. Não dos crimes reais, é claro: minha formação é estritamente técnica", completa.

Na época do lançamento do primeiro livro, Handler disse ao público que não era Snicket, apenas o representava. "As crianças ouvem mentiras constantes de adultos, então acho que não foi algo incomum para elas", falou ele sobre o disfarce.

Até 2005, haviam sido lançados 11 dos 13 volumes previstos para a série. Seus nomes são Mau Começo (The Bad Beginning), A Sala dos Répteis (The Reptile Room), O Lago das Sanguessugas (The Wide Window), Serraria Baixo-Astral (The Miserable Mill), Inferno no Colégio Interno (The Austere Academy), Elevador Ersatz (The Ersatz Elevator), A Cidade Sinistra dos Corvos (The Vile Village), O Hospital Hostil (The Hostile Hospital), O Espetáculo Carnívoro (The Carnivorous Carnival), O Escorregador de Gelo (The Slippery Slope) e The Grim Grotto (sem título em português).

Os livros foram traduzidos para 39 idiomas e venderam 27 milhões de cópias em todo mundo.

Foram os primeiros livros a tirarem a série Harry Potter do alto da lista de best-sellers infantis do jornal The New York Times.

Em 2004, foi lançada a adaptação da série para o cinema. Desventuras em Série levou oito meses para ser feito e custou 125 milhões de dólares. Jim Carrey e Meryl Streep estão no elenco.
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Bram Stocker (Drácula)

Durante o século XVIII, lendas gregas e sérvias falavam sobre vampirismo. Isso despertou a imaginação do escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912). Primeiro ele pensou num personagem chamado Conde Vampiro. Até que um amigo, professor de história, falou de Vlad Tepes, herói romeno do século XV, famoso por sua crueldade. O personagem do livro, lançado em 1897, logo se transformou em Conde Drácula.

Parte da ação do romance Drácula, de Bram Stoker, é passada na cidade romena de Bistrita. Para aproveitar a fama, a cidade batizou um dos seus hotéis de ?Coroa de Ouro?, como no livro, e os restaurantes oferecem o cardápio Jonathan Harker, homenagem ao corretor de imóveis inglês que, na imaginação de Stoker, se hospedou no Castelo de Drácula. O cardápio consiste em espeto de carne, toucinho e cebola, temperado com pimenta vermelha, vinho da região, frios, queijos e crepe com geleia.

Também em Bistrita foi fundada a Sociedade Transilvânia Drácula. Para atrair turistas, a entidade criou três roteiros do Drácula Tour. Um deles, que inclui uma noite inteira num cemitério, dá o título de membro da sociedade aos corajosos.

Na cidade de Bran, um castelo atrai turistas usando o apelo de Drácula, embora Vlad Tepes nunca tenha vivido ali. Foi construído em 1377. A única relação é que o castelo pode ter sido atacado por Vlad. Um turista americano morreu do coração ali quando funcionários se escondiam para dar sustos nos visitantes. A brincadeira acabou.

O primeiro Congresso Mundial de Drácula foi realizado em Bukovina, a 40 quilômetros de Bistrita, em maio de 1995. Reuniu 300 participantes.

Vlad Tepes

Vlad Tepes (1431-1477) nasceu na Transilvânia e governou outra região da Romênia, a Valáquia, entre 1448 e 1476. Virou herói nacional na luta contra os turcos. Seu pai, também chamado Vlad, fora nomeado cavaleiro da Ordem do Dragão.

Dragão em romeno é Dracul, a mesma palavra para "demônio". O sufixo "a" significa "filho" em romeno. Tepes, filho de Dracul, virou Dracula.

Tepes era conhecido também como "o empalador". Na empalação, o condenado era espetado, pelo ânus ou pelo umbigo, em uma estaca fincada no chão. A vítima tinha o corpo atravessado até morrer.

Vlad Tepes bebia sangue? Os romenos repelem essa pergunta. É uma ofensa a um herói nacional. Mas as lendas existem mesmo. São várias versões. Uma diz que Vlad Tepes gostava de molhar o pão no sangue de suas vítimas. Outra afirma que, nos três últimos anos de vida, ele bebia o sangue das garotas virgens crendo que isso aumentaria sua força. Aparentemente, os malfeitos do romeno foram muito exagerados por seus inúmeros adversários.

Morto em combate pelos turcos, em 1477, Vlad Tepes teve a cabeça cortada. O corpo foi enterrado num monastério, construído em 1519. Fica no meio de um lado de Snagov, de difícil acesso. O túmulo de Vlad Tepes está localizado em frente ao altar. Há quem diga que os ossos teriam sido roubados dali.

Fonte:
http://guiadoscuriosos.ig.com.br/

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 14 *


Que enorme esperança, irmãos,
um simples gesto nos traz:
o encontro de duas mãos
selando um voto de paz!
A. A. DE ASSIS
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Hei de alcançar teus carinhos,
pois estou certo de que
quase todos os caminhos
me conduzem a você!
APARÍCIO FERNANDES
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Teus olhos, contas escuras,
são duas Ave-Marias
do rosário de amarguras
que eu rezo todos os dias!
AUGUSTO GIL
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Se a vida é um texto e deixamos
para trás folha esquecida,
de perda em perda é que vamos
perdendo o senso da vida.
CAROLINA RAMOS
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O pior da viuvez
são angústias sem respostas:
sai um mês... vem outro mês...
...e quem vem coçar-me as costas?
CÉLIA GUIMARÃES SANTANA
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Nesses dias tão tristonhos
que a vida nos infligiu,
parece que em muitos sonhos
nenhuma rosa se abriu.
CENIZE DE ANDRADE
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Dá meus olhos, morto, Amada,
ao cego da nossa rua.
Se o morto não vê mais nada,
veja o cego a graça tua...
CICERO COSTA
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Agora que na parede
do meu quarto de saudade
vejo apenas uma rede,
eu vivo pela metade!...
CLARINDO BATISTA
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Meu verso é barco largado
na pauta da inspiração;
tendo Deus sempre ao meu lado
não temo nem furacão!
DÁGUIMA VERÔNICA
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Juntas, duas alianças,
no dedo da mão esquerda,
são permanentes lembranças
da minha infinita perda...
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
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Fugir do tempo?... Tolice!...
Por mais que acaso se tente,
o fantasma da velhice
burla o acaso e encontra a gente!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
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Manhãs são novos começos,
festas da vida, alvorada
da fé que não vê tropeços,
mas a luz no fim da estrada…
ELIAS PESCADOR 
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Seja a paz um elo forte
na corrente da amizade,
que ela ao mundo inteiro exorte
ao amor, que é só verdade!
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
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Contar jamais ousaria,
meu grave e doce segredo,
pois minha vida vazia
perderia todo o enredo.
JOSÉ FELDMAN
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Me diga, pai:– Furacão
é feito de vento? – Exato!
– Mas se o vento fura o cão,
porque é que não fura o gato?
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO 
= = = = = = = = = 

Sua boca tem segredos,
e assim, você me seduz,
revelo então, os meus medos
que nem a noite reluz!
JULIANA APPEL
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Oh perfeita entre as perfeitas,
eu tenho invejas estranhas
da cama em que tu te deitas,
da água com que te banhas!
JUNQUILHO LOURIVAL 
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Há sorriso de ironia,
há sorriso imerso em dor,
há também de simpatia...
mas o melhor é o de amor!
LÓLA PRATA
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Que não haja preconceito,
mas respeito ao nosso irmão,
sem tolher o seu direito
por simples pigmentação!...
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
= = = = = = = = = 

Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
LUIZ CARLOS ABRITTA 
= = = = = = = = = 

De tanto contar mentira
o meu primo pescador
casou com uma “traíra”
que morde a isca aonde for.
LUIZ MORAES
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No instante em que tu partiste
houve uma pausa... sem fim...
Deixaste teu rosto triste,
sorrindo... dentro de mim.
LUIZ POETA
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Na humildade dos seus passos,
lembre sempre a decisão
de dar a mão, nos fracassos,
a quem lhe estendeu a mão...!
MARA MELINNI 
= = = = = = = = = 

Por vingança o centro-avante,
que há muito tempo vai mal,
fez gol contra fulminante
a um segundo do final.
MARIA HELENA CALAZANS DUARTE
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Volte agora com vontade,
ser o amor que me encantou,
traga consigo a saudade,
que ao partir, você deixou!
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
= = = = = = = = = 

São gotas de poesia,
ou de algum raro licor, 
que o orvalho, com alegria, 
põe no cálice da flor.
MARLÊ B. J. DE ARAÚJO
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Minha passagem na terra 
tem a marca que eu queria, 
todo amor, sem qualquer guerra: 
– Doce viagem, que alegria!
MARLI VOIGT 
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Escuto ainda, a cadência
duma canção de ninar;
era mamãe, com paciência,
tentando me acalentar…
MAURICIO NORBERTO FRIEDRICH
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Enquanto a nau Esperança
singrar os mares da vida,
minha Quimera não cansa
e nem se dá por vencida.
MIGUEL RUSSOWSKY 
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Com textos, fotos ou mapas,
o bom livro é uma estrutura
onde o leitor, entre as capas,
mata a sede da cultura.
MILTON SEBASTIÃO SOUZA 
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É muito triste de ver
a juventude perdida;
e, à Internet se render,
perdendo a essência da vida...
MYRTHES MASIERO
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Foi por falta de carinho 
que errei e perdi meus passos, 
mas bendigo o “mau caminho” 
que me levou aos teus braços… 
NÁDIA HUGUENIN 
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Dando salva de Poesia
enalteço o Trovador
pela Trova que eu queria
ser, da mesma, o seu Autor.
NEI GARCEZ
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Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
NEMÉSIO PRATA
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Creio que quem olha a Terra
sob o azul e branco manto
não acredita que a guerra
possa tingi-la de pranto.
OLYMPIO COUTINHO
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Quando a tarde veste o manto,
torna escura a luz do dia,
saudade, dói outro tanto,
do tanto que já doía.
PROFESSOR GARCIA
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É tempo de liberdade,
vamos partir os grilhões,
numa só cumplicidade
que se fundam corações.
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL
= = = = = = = = = 

A tristeza em minha casa
está num quarto vazio:
de dia a saudade abrasa,
à noite mata de frio.
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
= = = = = = = = = 

Aproveita, criançada,
o tempo, alegre, ligeiro,
que da a uma simples calçada
dimensões do mundo inteiro!
RODOLPHO ABBUD 
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Por berço tive a montanha!
Sou camponês, trovador!
No universo da campanha,
meu estro virou condor!
RUI CARDOSO NUNES
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A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor.
SARA FURQUIM 
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A Trova que se revela
em sua forma e magia
é uma pequena aquarela
na tela da Poesia.
SEBAS SUNDFELD
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Com tanta delicadeza,
um regato a serra desce...
E eu tenho quase certeza
que a própria serra agradece!
SELMA PATTI SPINELLI 
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A alegria da pessoa
que demonstra amor à vida,
à sua volta ressoa...
torna a estrada colorida…
SOLANGE COLOMBARA
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É o abuso da riqueza
e o desprezo à educação
que põe sobre a nossa mesa
a fome, em lugar do pão.
SÔNIA SOBREIRA DA SILVA
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Finda a paixão proibida...
E ao seguir novos caminhos,
a decisão foi da vida,
que fez, de nós... dois sozinhos!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA 
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Come e bebe no batuque
e não sai endividada,
pois aplica o velho truque
de sair só “desmaiada” !
THEREZINHA ZANONI FERREIRA
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Buscando quimeras vãs
e redentoras auroras,
fui vivendo de "amanhãs"
e não vivi meus "agoras"…
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
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Há um relógio em cada esquina
marcando o tempo atual;
mas não marca quem destina,
nosso destino final.
WELLINGTON FREITAS
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A esperar que regressasse,
postei-me à porta, rezando...
E, se ele nunca voltasse
continuaria esperando...
YEDDA RAMOS PATRÍCIO
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Revista Crestomatia de Trovas nº 4 – julho de 2026 (Download Gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Lembrança.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz 36 trovas do trovador de Porto Velho/RO, Jérson Lima de Brito.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro, como fazer a escansão.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem ao talento do magnífico trovador Izo Goldman.

* Encerro com um artigo de Luiz Otávio, sobre a “Trova Humorística”.

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Boa leitura.
José Feldman

Aparecido Raimundo de Souza (A pipa e a nuvenzinha chorona)


CORRIA UMA MANHÃ encantadora no município de Nossa Senhora dos Enforcados, ou mais precisamente no bairro da Cascata Encantada. Era um dia esplendoroso, desses em que o vento vem lá das bandas do morro da Menina da Cabeça Pelada, encimado por um céu que parecia ter sido mesclado de azul com um pincel de pelos macios. No campinho de futebol, onde a grama verdinha tentava fugir do calor, o pequeno João Eduardo, um menino de oito anos armou a sua pipa. Um dia antes, ele pediu para a sua vó Lúcia comprar papel crepom amarelo como o sol das cinco da tarde se despedindo.

João Eduardo na confecção de sua pipa, usou as varetas de bambu fininhas, cortadas do sítio do Tio Dininho, fez um rabo de meia dúzia de fitas coloridas que batiam em seu rosto como pequenas bandeiras. Pronta a sua mais nova diversão, o pequeno correu para o campinho onde jogava bola. Segurava a linha com as duas mãos, e aos poucos, com jeito, deixou que a Pipa saísse do chão e subisse. Radiante, o seu “papagaio” voou acima dos telhados vermelhos do humilde bairro e seguiu altaneiro.  De repente, mais distante que os olhos podiam enxergar, árvores frondosas balançavam com o vento de concepção enfraquecida. Mais aquém até que as aves que passavam rápidas como se tivessem pressa de chegar em lugar algum, a pipa finalmente alcançou o espaço.

Ela amava aquilo. O espaço. O pequeno João Eduardo idem. Aliás, ele sentia o ar passando por debaixo do seu “brinquedo voador”, e isso o fazia leve, quase sem peso, tal como a linha branca que o ligava do carretel à pipa, como se fosse apenas um carinho, e não uma prisão. A pipa por seu turno, livre, leve e solta, queria chegar cada vez mais perto do sol. De repente, nessa voação, avistou afastada de todas as outras, uma nuvem muito pequena do tamanho de um travesseiro de neném, Era essa nuvem, toda branquinha e fofa. Num dado momento, a pipa percebeu que a nuvenzinha chorava. Se debulhava, a coitadinha, num derramar de lágrimas baixinho e profundamente sentido.

Todavia, sem fazer barulho, deixava cair dos seus cantos, quase imperceptíveis, um líquido miúdo, na verdade, lágrimas fininhas como fios de cabelos, que desciam devagar e desapareciam no ar antes de tocar o chão da estrada que levava para as bandas das ruinas da Igreja de São José do Pescoço Comprido. As outras nuvens, as grandes e folgadas, aquelas metidas a bestas, passavam por ela e nem a olhavam. Algumas iam correndo para o norte, outras paravam para jogar beijos para o sol. Nenhuma, verdade seja dita, se detinha para perguntar por qual motivo a pequena se debulhava em lágrimas, lastimosa e plangente.

— Por qual razão você chora assim, nuvenzinha? – inquiriu sem mais delongas, a pipa, que se aproximou balançando o seu rabo de fitas para chamar atenção.

A nuvem soltou, de pronto, um soluço miúdo, e mais umas lágrimas verteram.

— Porque sou pequena — respondeu, com a voz embargada de quem tem a garganta cheia de água. — Todas as outras são grandes, robustas, carregam chuvas fortes, fazem o arco-íris escurecer o céu quando querem. Eu sou só… eu. Dizem as minhas coirmãs que nem nuvem mesmo me pareço. E às vezes olho tudo lá em baixo: as pessoas, as casas, a igreja do padre desdentado em frente a pracinha, espio as pessoas andando abraçadas, outras cheias de pressa, e o meu peito nessa hora fica, tão cheio de uma coisa doce e apertada que não tem outro jeito senão escorrer a minha desilusão pelos olhos.

Demorou muito pouco a sua pausa e a infeliz seguiu com seu relato:

— Não sei se é alegria, se é saudade de algo que nunca vi. Só sei que choro e me sinto ainda menor por isso…

A pipa de João Eduardo ficou quieta por um instante, só ouvindo e dançando devagar ao sabor do vento. Ela também conhecia aquele sentimento de ser pequena, quase insignificante. Lembrou de um menino perneta que morava perto da margem do rio. Alguns dias atrás, ele tinha dito para o amigo: “Essa pipa do Dudu é frágil. Um vento mais possante e ela se rasga em mil pedacinhos”.

Nesse interregno de tempo, quase que simultaneamente, veio à lembrança da nuvenzinha quantas pipas iguais a que puxara conversa já tinham se perdido naquele céu imensurável, ou caído em árvores, ou se despedaçado no asfalto em frente ao armazém do Zé das Bugigangas.

De fato, sem tirar nem acrescentar, a concepção de vida da pipa de João Eduardo se resumia em ser só de papel, cola, bambu e linha. Nada de mais grandioso. Nenhuma coisa que durasse para sempre.

— Eu sou pequena como pode ver —  disse a nuvenzinha deixando as suas recordações de lado e voltando a falar bem de mansinho.  É por isso, amiga pipa, que as minhas consanguíneas riem e se afastam de mim...

A pipa de João Eduardo tomou fôlego e se abriu, pressurosa: 

— Apesar de eu também não ser grande, saiba que sinto o vento, vejo o mundo de um jeito melodioso. Aprecio o João Eduardo e o primo dele, o Heitor, ambos jogando bola no campinho. Deleito-me espiando a grandiosidade do Morro da Menina da Cabeça Pelada... Como pode ver, minha querida Nuvenzinha, não preciso ser grande para isso. Careço apenas de estar aqui...

Fez uma breve pausa, sorriu matreira e continuou:

— E as suas lágrimas, nuvenzinha? Você acha que elas são à toa? Outro dia, presenciei uma florzinha amarela crescendo sozinha no quintal da minha avó, a Bisa. Ela se fazia escondida numa fenda do muro que acessa a garagem. Estava quase morrendo de sede. Quando você começou a chorar, igual está agora, eu me recordei que choveu três ou quatro dos seus pingos às avessas e eles caíram bem em cima dela. A partir disso, ela abriu as pétalas devagar, se engrandeceu como quem acorda de um sono bom.  Também tem o ar que ficou mais leve, mais cheiroso depois que você mandou lá para baixo a sua chuva quase imperceptível.

Após dizer isso, a pipa fez outra parada e se abriu num novo sorriso ao tempo em que prosseguiu com a sua fala:

— Os meninos lá embaixo, quando sentem seus pingos no rosto, desembestam a sorrir, e o fazem porque pensam que o céu está mandando beijos. Nenhuma daquelas nuvens grandes, que se concentram em trovões e enchem o rio, conseguem fazer isso. Elas são fortes, sim. Mas você… ah, você, minha amiga nuvenzinha é o carinho do céu...

A nuvenzinha parou de soluçar. Os pingos ficaram mais raros, ficaram literalmente leves e mais dóceis. Ela se encolheu um pouco, e por um instante, o sol passou por dentro de sua tristeza, revelando a sua maviosidade ímpar.

Todo o seu interior, num piscar de pálpebras ficou cor-de-rosa, como quem se pega envergonhada de ter sido tão amada sem saber.

— Eu nunca pensei nisso — sussurrou comovida.

Naquele momento o vento virou um pouco a sua trajetória, vindo de onde João Eduardo se encontrava segurando a linha que seguia até a pipa. Ele deu uma puxadinha suave, na verdade era o aviso de que iria começar a recolher. Diante disso, a pipa sentiu que tinha que ir embora.

— Careço de descer agora — sussurrou com uma pontinha de tristeza.  Mas lembre-se: ser pequena não é defeito. É só um jeito diferente de existir. E chorar não é fraqueza. É o coração, o seu “eu” transbordando, porque nele cabe muita coisa dentro, mesmo sendo pequeno...

— Vou lembrar — prometeu a nuvenzinha...

E antes que a pipa começasse a sua trajetória de descida de vez, ela deixou cair uma última lágrima, muito clara, muito brilhante, que rolou, desceu, desceu e desceu… e pousou exatamente na pontinha do nariz de João Eduardo. Ele fechou os olhinhos e sorriu. Sorriu sem entender o motivo. Limpou o rosto com a manga da camisa e foi puxando a linha devagar, trazendo de volta para casa a sua pipa amarela, que agora entre as suas fibras vinha, de roldão, um segredo do céu.

A nuvenzinha ficou lá no alto, sozinha de novo, mas já não se debulhava mais em agonia. De agora em diante, sempre que o seu coração apertasse de tanta beleza, ela deixaria cair um ou outro pingo, desta feita, sabendo que cada lágrima sua iria fazer um bem enorme à alguma coisa ou a alguma pessoa, quem sabe a um outro João Eduardo, ou ainda abrigar um coração solitário que também precisasse de um afago miúdo, quieto e sem explicação. 

Muitas tardes se passaram desde então. Quem hoje olha para o céu, às vezes, vê uma nuvem pequena e branca, passando devagar, e de mãos dadas com ela, uma pipa amarela que parece subir mais alto do que todas as outras em redor, como se fossem duas promessas vindas diretamente dos olhos mansos e aconchegantes de Deus.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor