domingo, 5 de julho de 2026

Hans Christian Andersen (O gargalo)


Na viela estreita e tortuosa, entre outras casas pobres, havia uma casinha de taipa, estreitinha e de considerável altura; maltratara-a tanto o tempo, que já estava se desconjuntando por todos os lados. Abrigava gente pobre, e certamente era a água-furtada (sótão que abre a janelas para as águas do telhado) parte mais miserável. Ali, mesmo debaixo do telhado, junto da única janelinha, pendia uma gaiola velha e também desconjuntada; e apanhava os raios do sol um passarinho que nem sequer possuía um bebedouro: serviam-lhe a água num gargalo de garrafa, voltado com a boca para baixo, e fechado com uma rolha.

A solteirona que estava ao pé da janela pusera alpiste na gaiola, e o pequenino pintarroxo saltitava de um poleiro para o para o outro, cantando alegremente.

- Sim - disse o gargalo - tu, sim podes cantar...

Cumpre notar que o gargalo não se exprimia como nós: um gargalo não pode falar. Ele pensava lá de si consigo, no seu íntimo, como nós, homens, falamos com os nossos botões. Mas continuou:

- É, tu podes cantar, tens intatos todos os teu membros... Queria que visses o que é a gente perder a parte inferior, e ficar somente com pescoço e boca, e ainda assim com ela fechada por uma rolha, como eu! Isso sim, que não cantarias! E, contudo, é bom que haja gente alegre no mundo. Eu cá não tenho motivos para cantar, e nem  posso cantar, mesmo. Mas quando era uma garrafa sã, costumava cantar, quando me esfregavam com uma rolha. Então chamava-se "calhandra (cotovia), uma verdadeira calhandra", e "grande calhandra". Foi quando fiz o piquenique no mato com a família do curtidor, e a filha contratou casamento. Lembro-me como se fosse hoje! Já passei muitos trabalhos na vida; já estive no fogo e na água, no fundo escuro da terra e em lugares mais altos do que a maioria das pessoas pode alcançar... E agora aqui estou, no canto desta gaiola, exposto ao ar e à luz do sol. Sim: acho que valeria a pena ouvir a minha história.

E o gargalo começou a contar a sua história, que era bastante estranha, na verdade. Contava-a para si mesmo, recordando-a silenciosamente lá no seu íntimo. O passarinho cantava alegremente a sua canção, e lá embaixo, na rua, era grande o tráfego e a correria. É que lá cada um pensava nas coisas que lhe diziam respeito - ou em coisa nenhuma. Só o gargalo não deixava de meditar. Lembrou-se da fábrica, do cadinho em brasa onde, com um sopro, o tinham chamado à vida. Lembrava-se  ainda que sentira então muito calor, e que deitara olhares para o grande fogão sibilante, que era o seu berço, e sentira um grande desejo de voltar para ali em um pulo. Mas, ao passo que ia resfriando, ia-se sentindo mais à vontade, no sítio onde o tinham deixado. Via-se alinhado em uma fila, com um regimento inteiro de irmãos e irmãs, todos saídos do mesmo fogão; é certo que algumas tinham a forma de garrafas de champanha, outras de cerveja - e isso traz sempre alguma diferença. Mais tarde, lá no mundo, pode acontecer que uma garrafa de cerveja venha a conter o mais delicioso Lacrima Christi, e a champanha se veja cheia de graxa de sapatos; mas ao menos se verá, pelo feitio, para o que a gente nasceu. Nobreza é sempre nobreza, ainda que só contenha graxa no bojo.

Todas as garrafas foram encaixotadas, e com elas a nossa conhecida. Naquela época não lhe passara pela cabeça que havia de terminar a sua carreira reduzida a um gargalo, elevado pelo esforço próprio à categoria de bebedouro, o que é , afinal, uma existência honrosa, pois que sempre a gente representa alguma coisa.

A garrafa só tornou a ver a luz do dia quando, na adega do negociante de vinhos, foi desencaixotada com as companheiras, e lavada pela primeira vez. E que coisa  curiosa! Ali estava ela, vazia e sem tampa, com a estranha sensação de que lhe faltava alguma coisa, embora não soubesse o que era. Afinal encheram-na de vinho, e de um vinho excelente. Deram-lhe também uma rolha, e selaram-na. Colaram-lhe no bojo um rótulo que dizia: "Primeira qualidade"; e ela se sentia como se tivesse tirado o primeiro lugar em um exame, Mas o vinho era na verdade bom, e a garrafa também era boa. A gente moça tem queda para a poesia, e ela sentia vibrarem e ressoarem dentro de si coisas que nem sequer conhecia, e que falavam de verdes colinas iluminadas pelo sol, onde cantam e se namoram alegres vinhateiros e vinhateiras. Ah! Como é bela a vida! Pois tudo isso ressoava e cantava dentro da garrafa, tal e qual como se passa com os jovens poetas, que muita vez nem compreendem o que é que canta dentro deles.

Um dia foi comprada. O aprendiz de curtidor viera buscar uma garrafa de vinho, " do melhor". Meteram-na no cesto do farnel, ao lado do presunto, do queijo e do salame. E com ela iam também a manteiga mais fina, o pão mais fofo. A própria filha do curtidor arranjava a merenda no cesto. Era moça e bela, e brincava-lhe o sorriso nos olhos e nos lábios. tinha as mãos macias e brancas- não tão brancas como o pescoço e o peito. Via-se logo que era uma das moças mais lindas da cidade, e, ainda assim, não tinha noivo.

Achava-se o cesto de provisões no colo da moça, quando o carro que levava a família partiu para o mato. O gargalo da garrafa espiava por entre as pontas do guardanapo branco. Na rolha havia um verniz vermelho. A garrafa olhou bem para o rosto da moça; encarou também o jovem marinheiro que ia sentando ao lado dela. Era um  amigo de infância, filho de um retratista. Saíra-se muito bem, ainda há pouco tempo, no exame que fizera para primeiro piloto, e no dia seguinte devia partir em um navio que ia para longe, para um país exótico. Enquanto arrumavam o cesto, falavam nisso, e a alegria parecia então desaparecer dos olhos e da boca da bela filha do curtidor.

Passeava os jovens pela floresta verde, e conversavam. O que diriam não o ouvira a garrafa, que ficara no cesto da merenda. Só depois de muito tempo é que ela foi retirada dali, mas já então tinha havido muita alegria. Riam todos, e também a filha do curtidor; mas a moça falava menos que antes, e nas faces brilhavam-lhe duas rosas vermelhas.

O pai pegou na garrafa cheia e no saca-rolhas. Sim, é coisa esquisita, quando desarrolham uma garrafa pela primeira vez, e o gargalo nunca pode esquecer aquele momento solene. Alguma coisa, lá no seu peito, dissera "poc! quando saltou a rolha. E que estranho glu-glu-glu fazia o vinho, ao ser deitado nas taças!

- Vivam! Vivam os noivos! - disse o velho pai.

E os copos foram esvaziados, e o jovem piloto beijou sua bela noiva.

- Sejam muito felizes! - disseram os pais.

O moço encheu de novo, as taças, dizendo:

- Regresso e casamento daqui a um ano!

Esvaziados os copos, apanhou a garrafa, ergueu-a bem alto, e disse:

- Tu, que estiveste presente no dia mais belo da minha vida, não tornarás a servir a mais ninguém!

E atirou-a para o ar.

Naquele instante, mal poderia a filha do curtidor imaginar que havia de ver outra vez voar aquela garrafa. E contudo, havia de ser assim!

Mas naquele momento a garrafa foi cair no denso caniçal que havia à beira do lago do bosque. O gargalo ainda tinha bem viva recordação do tempo que ali passara, pensando:

- Dei-lhes vinho, e eles me dão água do pantanal. Mas a intenção era boa, isso era....

Agora já não via os noivos, nem os alegre velhos, mas durante muito tempo ainda ouvira seus cantos de regozijo. Finalmente apareceram ali dois filhos de um camponês, que espiaram pelo juncal; descobriram a garrafa e levaram-na. Agora, estava ela bem guardada.

Em casa do camponês, na mata, o filho mais velho, que era marinheiro, estava preparando-se para uma longa viajem, e tinha vindo passar o dia com a família, em despedida. Naquele momento a mãe empacotava algumas coisas que ele devia levar; e o pai iria levar-lhe, à noite, o pequeno fardo, quando fosse vê-lo pela última vez, na cidade. Já fora embrulhada uma garrafinha de aguardente, infusão de ervas, quando entraram os meninos com a outra garrafa, maior e mais resistente, que acabavam de achar. Disseram à mãe que naquela caberia mais infusão, e que "aguardente era coisa muito boa para o  estômago, porque continha ervas". Achavam pois que era a garrafa grande, e não a pequena, que devia ir.

E foi assim que ela recomeçou a peregrinação. Foi para bordo com Peter Jensen, foi para bordo do mesmo navio em que navegava o jovem piloto. Mas este não viu a garrafa, nem a teria reconhecido, se a visse, e nem sequer imaginar que era a mesma com que tinham celebrado o noivado, e dado vivas ao regresso.

É verdade que ela já não oferecia vinho; mas abrigava agora no bojo uma coisa igualmente boa. Quando Peter Jensen a tirava da mala, os companheiros a chamavam de "farmácia", porque ela sempre lhes oferecia um excelente remédio, o remédio que curava o estômago. Fora uma quadra cheia de alegria, e a garrafa cantava, quando a acariciavam com a rolha: chamavam-na então a grande calhandra, a calhandra de Peter Jensen.

Passaram-se longos dias, e meses. A garrafa já se achava vazia, em um canto. Aconteceu então - se foi na ida ou na volta, não sabia dizer a garrafa, porque nunca desembarcara - aconteceu, porém, que se levantou uma tempestade. Enormes vagalhões se acercavam, pesados e sombrios, e erguiam e sacudiam o navio. Partiu-se o mastro grande. Uma vaga arrebentou uma da tábuas do costado. As bombas não davam vencimento. E à altas horas da noite o navio afundou. No ultimo instante o jovem piloto escreveu em uma folha de papel: "Em nome de Cristo, estamos naufragando!" Escreveu o nome da noiva, o seu, e o do navio; pôs a folha em uma garrafa que havia enchido, outrora, para ele e para noiva, a taça da alegria e da esperança. E agora anda aquela a garrafa balançando nas ondas, carregando no bojo a mensagem de despedida e a notícia fatal.

Afundou-se o navio, e com ele a tripulação, enquanto a garrafa voava como uma ave; afinal ela escondia em si um coração, uma carta de amor. O sol nasceu e tornou a se esconder. A garrafa sentia aquele mesmo anseio que experimentava quando nasceu nas brasas do fogão; sentia desejos de voar outra vez para o lugar de onde saíra - tinha saudades.

Passou por calmarias e sofreu novas tempestades. Contudo não bateu em nenhum recife, nem foi devorada por nenhum tubarão. Andou boiando, dias  e anos, ora para o lado do Norte, ora para o Sul, ao sabor da corrente. Afinal, ela era livre, senhora de seus atos; mas o certo é que até disso a gente pode sentir-se farta.

A folha escrita, o último adeus do noivo à noiva, levaria somente pesar, se um dia caísse nas mãos da destinatária; mas onde estavam aquelas mãos tão brancas e tão macias, que naquele dia do noivado tinham estendido sobre a fresca relva da mata verde a toalha tão branca? Onde estava a filha  do curtidor? Sim, onde estava o país, e qual era, dentre os outros países, o que lhe ficava ao lado? Não o sabia a garrafa; boiava, e continuava boiando, até sentir-se farta daquelas andanças, que não eram afinal, do seu ofício. E, ainda assim, prosseguiu vagando, até que um dia alcançou terra, num país estranho. Não entendia uma palavra do que ali diziam; não era aquele  o idioma que ouvira falar outrora. E, quando a gente não entende a língua, muita coisa se perde!

A garrafa foi pescada e examinada por todos os lados. retiraram o bilhete que trazia, e também este foi examinado e virado de todos os lados; mas as pessoas daquele lugar não entendiam o que estava escrito naquele papel. Compreenderam, é claro , que a garrafa tinha sido arrojada ao mar, e que o papel dizia alguma coisa a esse respeito, mas que diria ele? Isso ninguém podia saber. Tornaram pois a colocar o bilhete dentro da garrafa e puseram-na em cima de um grande armário. E ali ficou ela, na vasta sala de um casarão.

Cada vez que aparecia algum forasteiro o bilhete era retirado da garrafa; viravam-no e reviravam-no, e o texto, escrito a lápis, aí ficando de dia a dia menos legível. Afinal já não se via letra alguma no papel. E por mais um ano viveu a garrafa sobre o armário; dali a levaram para o sótão; e foi-se cobrindo de poeira e de teias de aranha.

Como se lembrava agora de dias melhores, do tempo em que, na fresca mata verde, oferecera vinho tinto; e dos anos que levara, dançando nas ondas do mar, guardando no seio um segredo, uma carta, um suspiro de adeus! E lá ficou naquele sótão vinte anos bem contados. Poderia ter ficado mais tempo, se não fora a reforma da casa. Demolindo o telhado, viram a garrafa. Falaram a seu respeito, é verdade; ela, porém, não entendia a língua - isso não se aprende, nem em vinte anos, só pelo fato de ficar lá no sótão.

- Se me tivessem deixado na sala - pensava ela - provavelmente saberia agora o idioma daqui.

Foi então lavada e enxaguada, o que era bem necessário. Viu-se clara e transparente, remoçada, apesar da idade; mas o bilhete que conservara fielmente, perdeu-se na lavagem.

Encheram-na de sementes. Ela não compreendia o que aquilo representava. Foi tampada e embrulhada com cuidado; tanto, que não via mais luz de vela nem da lanterna, e menos ainda o sol ou a lua. Ora, quando se viaja, é preciso ver alguma coisa; mas a garrafa nada viu; contudo, fez o que era mais importante; partiu e chegou ao lugar do seu destino, e lá foi enfim desembrulhada.

- Quanto trabalho tiveram eles, lá no estrangeiro, com esta garrafa! - ouviu ela que alguém dizia. - E agora, hão de ver que está quebrada!...

Não não estava, não. E a garrafa entendia o que diziam: era a língua que ouvira ao pé do fogão, e em casa do negociante de vinhos, e na mata e no navio; a única língua velha e boa, que a gente podia entender! Regressara à sua terra, e aquele idioma era para ela uma saudação de boas-vindas. De tanta alegria, quase saltou das mãos que a desenrolavam. Nem notou que lhe tiravam a rolha, e despejavam o conteúdo; transportaram-na depois para o porão, onde ficou guardada e esquecida. Mas a terra da gente é sempre o melhor lugar do mundo, ainda que seja para viver em um porão!

Nunca lhe passaria pela mente a ideia de verificar quanto tempo passou ali. Ficou bem acomodada, e isso durante anos e anos. Finalmente um dia desceu alguém, que levou todas as garrafas que havia no porão, e ela lá se foi com as outras.

Lá fora, no jardim, havia uma grande festa. Tinham feito fieiras de lâmpadas acesas, suspensas nos galhos; lanternas de papel, postas sobre colunas, pareciam grandes tulipas brilhantes. A noite estava esplêndida, clara e serena. As estrelas cintilavam. Era lua nova, mas avistava-se no céu o disco inteiro, azul-acinzentado, dourado na beira - um belo espetáculo para os que tinham boa vista.

Até os caminhos mais distantes do jardim tinham sido iluminados, de modo que as pessoas podiam andar por toda a parte. Entre a folhagem das sebes havia garrafa com velas acesas, e entre elas estava também aquela que já conhecemos, e que havia de acabar a carreira feito bebedouro. Ela achava tudo aquilo maravilhosamente belo: encontrava-se de novo ao ar livre, via-se outra vez no meio da alegria e da festa, ouvia cantos e música, e a  algazarra e o murmúrio de muitas pessoas que passavam, vindo principalmente da parte do jardim onde ardiam as lâmpadas, e as lanterna de papel ostentavam a pompa de suas cores. É verdade que estava em um caminho solitário, mas isso também tinha certo encanto, todo contemplativo: sustentava no gargalo sua vela, pois estava ali para utilidade e prazer dos outros, como é nosso dever. E num momento assim a gente até chega a esquecer os vinte anos passados no sótão, e esquecer também faz bem.

Passou junto dela um casal de namorados, como outrora aqueles noivos na floresta, o piloto e a filha do curtidor. Pareceu-lhe que viva tudo aquilo pela segunda vez. passeavam no jardim não somente os convidados, mas também outras pessoas, às quais fora permitindo olhar para aqueles, e admirar toda aquela pompa. Entre estas andava uma solteirona, que vivia só no mundo, pois não tinha parentes. E passavam-lhe pela cabeça os mesmos pensamentos que acudiam à garrafa; lembrou-se da mata verde, e de um jovem casal de noivos que lhe era muito caro, e cuja sorte muito lhe interessava: tomara parte no passeio, naquela hora - a mais feliz da sua vida. Uma hora assim nunca se esquece, nem mesmo depois da velha solteirona! Contudo, ela não reconheceu a garrafa, e nem esta lhe notou a presença. E é assim que neste mundo vamos passando uns pelos outros - até que um dia se dê o reencontro. E que tornara a se encontrar é certo, pois viviam ambas na mesma cidade.

Do jardim foi mais uma vez a garrafa levada à casa do negociante de vinhos; e venderam-na ao aeronauta que no domingo seguinte pretendia subir em um balão.

Grande era multidão que se reunira para "ver aquilo". Muitos preparativos tinham sido feitos, até uma banda de música fora contratada. Do cesto, onde se achava ao lado de um coelho vivo, a garrafa via tudo. o coelho estava pasmado, pois bem sabia que ia subir com o aeronauta, para ser lançado em um paraquedas. A garrafa, essa nada sabia de subidas nem descidas. Via apenas o balão, que se enchia, e ia ficando cada vez maior, maior, e quando não podia já aumentar de volume, ergue-se do chão, ficando cada vez mais inquieto. Foram cortados os cabos que o prendiam, e, levando consigo o aeronauta, o cesto, o coelho e a garrafa, lá subiu o balão, enquanto tocava a música e a multidão gritava:

- Viva! Viva!

- Que viagem esquisita, assim pelos ares! - pensava a garrafa. - É uma nova espécie de viagem à vela... Aqui em cima a gente ao menos não pode esbarrar em nada!

Milhares de pessoas acompanhavam o balão com os olhos, e a velha solteirona também olhou para ele. Estava à janela do seu sótão, sob a qual se via pendurada a gaiola do pintarroxo, que então ainda não possuía bebedouro: tinha de se contentar com uma xícara. No peitoril da janela havia também um vaso com um pé de murta; não fora posto no centro, para que não o deitasse abaixo a solteirona, quando se debruçasse a ver o que se passava na rua. E ela viu nitidamente o aeronauta e o balão, e viu-o descer o coelho no paraquedas; viu-o, finalmente, atirar a garrafa para o ar. Mas nenhum instante lhe veio à lembrança que já tinha visto aquela mesma garrafa a voar assim, e em honra de si própria e do seu noivo, naquele alegre dia, na mata verdejante, no tempo da mocidade.

A garrafa não teve tempo de meditar. Viera-lhe subitamente, da maneira mais inesperada, a sensação de que se achava no apogeu da existência. As torres e telhados ficavam muito distantes, lá embaixo ; e os homens pareciam uns pigmeus.

Mas agora ia caindo, caindo, e com uma velocidade muito diferente da do coelho! Ela dava cambalhotas no ar; sentia-se tão moça, e tão completamente livre!

Ainda continha vinho, até pelo meio, talvez; mas isso não durou muito. Que viagem! O sol fazia luzir, os homens olhavam par ela; o balão já estava longe, e em poucos minutos também a garrafa se sumia; caíra sobre um telhado e despedaçou-se, mas os cacos traziam tamanho impulso que não puderam ficar ali deitados, continuaram a saltar, e assim chegaram ao pátio, onde ficaram enfim parados, mas reduzidos a caquinhos ainda menores. Apenas o gargalo ficou inteiro: parecia cortado a diamante.

- Este dá um excelente bebedouro – disse alguém lá no porão.

Ora eles não possuíam gaiola, nem passarinho, e comprar uma coisa dessas, só porque agora tinham um gargalo que poderia servir de bebedouro, era exigir muito! Mas... e a solteirona, lá do sótão? Quem sabe se ela poderia aproveitá-lo?

E foi assim que o gargalo foi ter às suas mãos. Fecharam-no com uma rolha, e a parte que dantes ficava para cima foi parar embaixo, como acontece muitas vezes, nas revoluções. Deitaram-lhe água fresca, e suspenderam-no na gaiola do passarinho. que gorjeava alegremente.

- É, tu sim, podes cantar! - disse o gargalo.

E é de notar que era um gargalo notável, pois viajara em um balão. Não  se sabia mais nada da sua história. mas agora servia de bebedouro, ouvia de lá o zunzum da rua, e a voz da solteirona no quarto.

Fora visitá-la uma velha amiga, e conversaram - não a respeito do gargalo, não: falavam da  murta da janela:

- É isso: não precisas gastar um vintém com a grinalda de noiva de tua filha. Eu quero oferecer-lhe um belo ramalhete, bem cheio de flores. Vês como a planta se desenvolveu? Pois ela provém de um raminho que me deste no dia  em que contratei casamento: dessa muda eu devia tirar a minha grinalda de noiva, um ano depois. Mas... esse dia nunca chegou! Fecharam-se os olhos que estavam escolhidos para me iluminar a vida, para me trazerem bênçãos e alegria. E o meu leal amigo dorme no fundo do oceano... A murta cresceu, era já uma árvore, envelheceu, mas eu envelheci mais ainda, e quando a árvore estava já muito velha tirei o seu último raminho verde e plantei-o. Esse ramo chegou a ser uma grande árvore também; e a murta poderá afinal servir num casamento: será a coroa de noiva de tua filha.

A velha solteirona tinha os olhos cheios de lágrimas. Falou do amigo da infância, do noivado no bosque; vieram-lhe muitos pensamentos, mas nunca teve a menor ideia de que bem perto dela, mesmo ao pé da janela, estava outra recordação daqueles tempos: o gargalo da garrafa que dera um grito de júbilo quando a rolha estourara, na hora do noivado.

Mas o gargalo tampouco a reconheceu: não ouvia o que ela contava, porque só pensava em si próprio.
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HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. 
Disponível em Domínio Público

sábado, 4 de julho de 2026

Asas da Poesia * 198 *

  
Trova Humorística de 
JAIME PINA 
 São Paulo/SP

Só três?! (o paizão lamenta),
vendo os bebês no bercinho.
Ah, se a rede não rebenta,
"nóis" enchia esse quartinho!
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Soneto de
ÁLVARES DE AZEVEDO
(Manuel Antônio Álvares de Azevedo)
1831 – 1852, Rio de Janeiro/RJ

Soneto do anjo

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!
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Aldravia de 
CIDA PINHO
Mesquita/MG

colo
de
mãe
cantinho
de
céu
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Soneto de 
ARTHUR* DE AZEVEDO
(Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo)
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

Infantilidade

Que reboliço vai em casa de Marieta!
É que fugiu Mignonne, a gata favorita,
E tanto chora e chora a pobre pequenita,
Que o papai manda pôr anúncio na gazeta.

Da vizinhança alguém, com olho na gorjeta,
A trânsfuga encontrou, que andava de visita
Ao demo de um maltês filósofo que habita
De um canto de fogão a cálida saleta.

Marieta, ao ver Mignonne, estende-lhe os bracinhos.
Dá-lhe um banho de amor em beijos e carinhos,
Nervosa, a soluçar, e, ao mesmo tempo, a rir.

E entre afagos lhe diz: "Senhora, foi preciso
Pôr um anúncio! Veja o que é não ter juízo!"
E todo o anúncio lê para Mignonne ouvir...
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* Segundo registrado na Biblioteca Nacional, o correto é Arthur (com h após o t)
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Poema de 
EDLA FEITOSA
(Edla Feitosa Costa)
Recife/PE

Órion
 
Não está escuro!
Existe um jogo de luz e sombra
E um certo silêncio.
Órion muda de lugar
E me confunde ….
Um cão ladra ao longe
Um gato ágil escala telhados
A taça enche e esvazia
Como a maré que sussurra ao longe.
As nuvens cobrem as estrelas ….
E dói a solidão.
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Quadra Popular de 
ISIDORO CAVACO
(António Isidoro Viegas Cavaco)
Faro/Portugal

Destino que me condenas
a viver da dor tão perto,
não sendo ave de penas
de penas estou coberto.
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Soneto de 
FILINTO DE ALMEIDA
(Francisco Filinto de Almeida)
Porto/Portugal, 1847 – 1955, Rio de Janeiro/RJ

Cansaço

A velhice é cansaço... E esse cansaço
Não nos vem de trabalho ou movimento...
O que ora faço é demorado e lento
E acho mal feito o pouco que ainda faço.

Tudo me cansa: — até o pensamento!
Já pouquíssimo ando e arrasto o passo...
Quase sempre dorminte ou sonolento,
Vivo uma triste vida de madraço.

Nunca fui mandrião nem calaceiro,
Nem também muito ativo, é bem que o diga,
Mas domei sempre a inércia, sobranceiro.

Agora, a própria inércia me castiga,
Pois se acaso repouso um dia inteiro
Esse mesmo repouso me fatiga!
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Trova de
LISETE JOHNSON
Butiá/RS, 1950 – 2020, Porto Alegre/RS

Às vezes, da terra bruta
e de um par de pés no chão
que vêm o exemplo de luta
e ânsias de superação!
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Poema de 
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

As maritacas

No alto do ipê, com galhos ressequidos,
chegaram de repente
duas maritacas multicoloridas.
Pararam para conversar
e, encantaram meu olhar.

O ipê tão despido de flores,
agora é rico de vagens,
cheias de sementes.
Espera as visitas das aves,
que alegram o final das tardes.

O casal de maritacas, rodeando os galhos.
Mostravam os belos trajes,
abriam as asas avermelhadas.
Enchiam o peito esverdeado,
para gorjear com mais vaidade.

Com a janela aberta, apreciando a dança,
entrei no ritmo da fotografia.
Elas observavam, arranjavam pose,
haviam percebido
uma presença amiga…
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Haicai de 
ABEL PEREIRA
Ilhéus/BA

O Ocaso

No rio profundo,
o sol parece outro sol
a emergir do fundo.
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Sextilha de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos, 1951 – 2013, Natal+

Eu sempre passo o domingo
sentindo e dando alegrias,
visitando meus amigos
que não vejo há vários dias;
e caçando inspiração
pra fazer minhas poesias…
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Trova de 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Sozinho na madrugada,
cabelos brancos ao vento,
canta o boêmio... e a toada
é um triste e doce lamento!
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
 Fortaleza/CE

MOTE 
Chamaste meu pai de otário? 
Repete-o, se és homem... vem! 
- Chamei não, pelo contrário... 
Mas que ele tem cara, tem!
A. A. de Assis 
(Maringá/PR) 

GLOSA 
Chamaste meu pai de otário? 
Pois saiba..., mexeu comigo! 
Puxe logo o seu "rosário" 
pois vou furar teu umbigo! 

Cabra, não fale besteira! 
Repete-o, se és homem... vem! 
Pois comigo é na peixeira; 
não dou sopa pra ninguém! 

- Se eu chamei teu pai de otário? 
- Isto é pergunta que faça? 
- Chamei não, pelo contrário... 
acho-o até um "boa praça"! 

Eu juro, por Cristo, o Rei, 
e por São José, também, 
que, nem na "mente" eu falei.. 
Mas que ele tem cara, tem!
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Aldravia de 
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

árvores
alpinistas
escalam
montanhas
cumprimentando
nuvens
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Soneto de 
ELISA BARRETO
(Elisa Virgínia Kirsten Barreto Rolim de Moura)
São Paulo/SP, 1919 – 2005

Soneto Trágico III

É o fingido, o mentiroso
com olhos desmesurados
num sofrimento horroroso,
tributo dos seus pecados.

É o ladrão, o usurpador,
que sem dó nem piedade
fez de um puro e santo amor
um campo de crueldade.

É o opressor que suplica
aflito, desesperado,
comutação para a pena.

Minha alma em dúvida fica:
Que caos desesperançado
que sufoca e que envenena!
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Trova Premiada de
MARISA VIEIRA OLIVAES 
(Porto Alegre/RS) 

Inspiração, não me deixes 
neste mundo imerso em dor! 
– Sem ti, sou rio… sem peixes… 
Sou coração… sem amor…!
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Poema de 
FILEMON FRANCISCO MARTINS
São Paulo/SP

Prefiro ser...

Prefiro ser a flor
Que perfuma, ainda que fira com seus espinhos...

Prefiro ser o orvalho da noite
Que cai, aos poucos, umedecendo a terra
E deixando as plantas e flores com seiva e vida...

Prefiro ser o pássaro, em algazarra,
Pulando de galho em galho
No cantar das manhãs.

Prefiro ser a água que corre pelos rios
Entre serras e vales, contornando obstáculos
Até chegar ao oceano...

Prefiro ser o mar imenso e forte, 
que apesar de belo,
Traz na valentia a marca da morte...

Prefiro ser a praia com areia branca e fina
Beijando as ondas que vão e vêm... Inconstantes...
Como se fossem inquietos amantes.

Prefiro ser um sonho bom cheio de cores e sons
De quem ama e sonha... 
De quem nunca sonhou...

Prefiro ser a lua que vagarosamente ilumina a todos
E emociona os casais de namorados
Inspirando-lhes idílios de amor...

Prefiro ser o sol que brilha intensamente para todos
E até empresta sua luz à lua 
para iluminar a noite...

Mas prefiro ser mesmo
A esperança no rosto da criança que, infelizmente,
O mundo nunca viu e sempre a abandonou...
Mas traz, dentro de si, 
o futuro, a paz, o amor e o perdão!
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Triverso de 
A. A. DE ASSIS
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Na fila de idosos,
troca-troca de sintomas.
Quem não tem inventa.
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Setilha de 
MARCOS MEDEIROS
Natal/RN

A chuva mal começava,
a meninada partia
pra debaixo das biqueiras,
por onde a água escorria
e, depois na enxurrada,
morria de dar risada
extravasando alegria.
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Trova de 
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
Bauru/SP

A insônia que vai além
das horas da madrugada,
por teimosia mantém
minha saudade acordada...
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HINO DE 
PINHALÃO/ PR

Letra e Música: Lairton Trovão de Andrade

Sob a crista altaneira da serra,
proliferas febril Pinhalão.
Do humilde recanto da terra
surges meiga na imensa nação.

Bis: Nas sombras dos teus bosques
brilhou o céu de anil,
profundo desafio
a virgem selva em flor.

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.

Verdes campos de reses mimadas,
tremulantes jardins de cereais,
enobrecem tuas mãos calejadas
sobre o solo de mil minerais.

Bis: As ondas das colinas,
Planícies, serranias,
emitem melodias
do ouro vegetal.

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.

Terra amada de eterna bonança,
com firmeza aderiste ao Brasil.
Turbilhões em caudais de esperança
Revigoram-te o ardor varonil

Bis: "Rio Cinzas"!... "Boa Vista"!
"Triângulo" e "Serrinha"!
"Campina" e "Lavrinha"!
Oh! Salve! Salve! Salve!

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de 
ÂNGELA TOGEIRO
Belo Horizonte/MG

Leitura

Os dedos do cego
captam detalhes mais íntimos
nas rugas, leem o ego
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Soneto de 
DOM PEDRO II
(Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga)
Rio de Janeiro/RJ, 1825 – 1891, Paris/França

A Vida e o Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.

Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
‘Té que nele encontre o último repouso.
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Trova de 
PAULO R. O. CARUSO
(Paulo Roberto Oliveira Caruso)
Niterói/RJ

Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
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Poema de 
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Introspecção

MEU SER
Vou confessar-te agora
A distância me apavora
Sinto-me mal sem amor
Sem carinho, sem ternura...
Caminho na desventura
D’uma senda de amargor

Sou barco vagando ao léu
Nas ondas deste escarcéu
Que se acercam de mim...
Estou quase soçobrando
Triste batel esperando
Chegar afinal meu fim

Marinheiro sem guarida
Tão só, ilha perdida,
Sou proscrito de amor
Sinto sede de afeto
Este vil e pobre feto
Neste mar de amargor

E, quem eu não queria
Que fizesse companhia
Junto ao meu coração,
Antes da sua estada,
Deu seu nome na entrada:
“– Eu me chamo “SOLIDÃO”

SOLIDÃO
“...– Eu trouxe também comigo
Alguém pra ficar contigo
Com quem terás amizade
Vai falar-te no passado
Do que tenhas mais gostado
Seu nome é “SAUDADE...”

SAUDADE
“... Serei tua amiga inglória
Narrarei muitas histórias
De amor, de incertezas
Mas, se eu tiver que ir
Há de me substituir
Minha irmã – a TRISTEZA...”

TRISTEZA
“... Serei o teu destino
E também teu desatino
Quando estiveres a sós
Principalmente agora
Que o teu coração chora
Embargando tua voz...”

EU
Ah, meu ser, que loucura
Tamanha a desventura
Pela qual tenho passado...
Quisera morrer agora
Exatamente nesta hora
Estou abatido, acabado!

DOR
“... Espere, eu sou a Dor
Sinto imenso desamor
A corroer tua alma
Quero ao teu lado ficar
Te dar a paz e a calma
Mas preciso contigo morar"

EU
Assim falou-me a dor
Resoluta, com dulçor
Implorando pra ficar
Mas, ah, minha doce amada
Não te posso dar pousada
Se o meu amor regressar

Quisera ter em verdade
Comigo a Felicidade
Que se foi sem um adeus...
Deixou-me há muito tempo
Dando lugar ao Tormento,
Um dos parentes teus.

TORMENTO
"Também quero me aconchegar,
Ao teu lado, ser teu amigo,
Fazer parte do teu mundo...
Se não me deixares ficar,
Posso até vir a soçobrar,
Devido a desgosto profundo."

EU
"Não, Tormento, não te quero
Fica bem longe, peço que vá
Hoje, bem sei, estou perdido
Mas não me pilhei,
De todo, vencido,
Minha Amada breve retornará"

AMADA
"Que bom que acreditastes
Na minha volta, paixão
Se magoei teu coração
Perdoa, eis-me aqui
Acabou tua infelicidade
Sou tua Felicidade: voltei pra ficar."

Geraldo Pereira (Um novo século)

Os que estão na minha faixa de idade têm muitas histórias para contar e muita conversa para fiar, neste início de século, começo, também, do milênio. É que sou nascido na efervescência da Segunda Guerra Mundial e criado no pós-guerra. Assim, pude assistir de camarote ao desenvolvimento todo da ciência e pude participar das grandes mudanças que sofreram os hábitos e os costumes. Sou do tempo da rádio AM, dos telefones funcionando com quatro números, das ligações para Boa Viagem intermediadas pela telefonista e das radiolas enormes tocando discos long-play. Ou sou do tempo das cadeiras na calçada, das avós gordas e de longos cabelos, cegas ou quase cegas, com catarata e glaucoma. Ou ainda, dos colégios masculinos isolados dos femininos, da farda caqui e da gravata azul, dos alunos do Nóbrega brigando com os do Marista ou aqueles do Salesiano.

Quando o fim de ano chegava e as férias começavam – três meses de desespero para os pais –, pela manhã havia uma pelada jogada na rua, com bola de borracha ou de meia e à tarde outro futebol, no chão de terra batida da rua Padre Miguelinho ou se armavam os alçapões, um desses de rede, para aprisionar canários abarrancados do Parque 13 de Maio. À noite, a roupa bem passada, calça de mescla e camisa de buclê, tempos depois o nycron e a helanca. E os intermináveis passeios na Festa da Mocidade, sem respeitar as severas determinações paternas: “Tudo! Menos o teatro de rebolado! Tenho escrito no jornal artigos de condenação a essa prática, que atenta os costumes!” 

Assistíamos a tudo, aos ensaios e às apresentações da mulherada de Walter Pinto, todas bem compostas, se comparadas às de hoje. Às vezes, uma fé no jogo de azar, às escondidas do Marcha–Lenta, o cabo responsável pela segurança do lugar. Muito raramente, uma dose de Cinzano para animar.

Na noite do Natal, a Missa do Galo era parada obrigatória no mundano das coisas. Prestava-se mais atenção às meninas, de véu à cabeça na pureza do branco, que ao cura celebrante. Alguns dos penitentes, mais precoces que os outros, enlaçavam as namoradas e sussurravam juras deixadas nos ares. À hora do ritual, a confissão antecedia o ato de comungar e ao padre se dizia, aos cochichos, os pecados todos do ano, firmando-se o compromisso de nunca mais falhar. Passava-se uma semana, sempre, evitando os pensamentos, as palavras e as obras, mais os pensamentos que as palavras e mais as palavras que as obras. Vencida essa carência, repetia-se tudo, da mesma forma. E de culpa em culpa a rapaziada juntava remorsos e aguardava a próxima vez, para revelar aos santos ouvidos as malícias de todos os dias. Certo sacerdote dormia a sono solto no momento da escuta e se contava tudo e um pouco mais. Havia quem confessasse os próprios pecados e os dos outros, dos amigos ou dos colegas!

Quando chegava o dia de Ano Bom, era uma festa na casa de toda gente. O peru, cevado às custas de um pirão bem cuidado, empurrado de goela abaixo aos bolões, morto às vésperas, depois de ter sido anestesiado com aguardente da venda da esquina, sofria o necessário cozimento em panela apropriada, sob tempero das avós, especialistas naqueles tempos em aves e noutros acepipes. Preparava-se a mesa e autorizava-se o champanhe, mesmo aos meninos, impedidos pela idade de acesso a qualquer líquido alcoólico. Nas proximidades da meia-noite as luzes eram acesas, pois que se uma única restasse desligada seria de mal agouro, para o dono da casa, sobretudo. O Dr. F. Pessoa de Queiroz pronunciava seu discurso e o relógio tocava as doze badaladas, anunciando a mudança do calendário. Nos postes da iluminação pública, de ferro fundido naqueles anos, a molecada batia forte e o barulho do metal contra o metal estimulava os abraços. Feliz Ano Novo, diziam todos! E ninguém imaginava que assistiria o passar do século! E ninguém deu atenção às histórias das avós, sobre igual passagem noutros pretéritos!
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GERALDO JOSÉ MARQUES PEREIRA nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. 
Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas, tendo algumas no Recanto das Letras e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público