quarta-feira, 15 de abril de 2026

Mensagem na Garrafa 172 = O Anjo

Autor Anônimo
 
Descalça e suja, a garotinha passava as tardes no parque olhando as pessoas passarem. Ela nunca tentava falar, não sorria, não dizia uma única palavra.

Muitas pessoas passavam por ela, mas nenhuma sequer lhe lançava um simples olhar, ninguém parava, inclusive eu.

No outro dia, eu decidi voltar ao parque curiosa para ver se a pequena garota ainda estaria lá.

Ela estava empoleirada no alto do banco com o olhar mais triste do mundo. Mas, desta vez, eu não pude simplesmente passar ao largo, preocupada somente com meus afazeres. Ao contrário, vi-me
caminhando ao encontro dela.

Pelo que todos sabemos, um parque cheio de pessoas estranhas não é um lugar adequado para
crianças brincarem sozinhas.

Quando me aproximei dela, pude ver que as costas do seu vestido indicavam uma deformidade. Conclui que esta era a razão pela qual as pessoas simplesmente passavam e não faziam esforço algum em se importar com ela.

Quando cheguei mais perto a garotinha deliberadamente baixou os olhos para evitar meu olhar.

Pude ver o contorno de suas costas mais claramente. Ela era grotescamente corcunda.

Sorri para lhe mostrar que tudo estava bem e que estava lá para ajudar e conversar. Sentei-me ao lado dela e disse um olá.

A garota reagiu chocada e balbuciou um "oi" após fixar intensamente meus olhos. Eu sorri e ela timidamente sorriu de volta.

Conversamos até o anoitecer e o parque já estava completamente vazio. Todos tinham ido e estávamos sós.

Eu perguntei porque a garotinha estava tão triste.

Ela olhou-me e disse: "Porque eu sou diferente".

Respondi-lhe, sorrindo: "Sim, você é".

A garotinha ficou ainda mais triste, dizendo: "Eu sei".

"Garotinha", eu disse, "você me lembra um anjo, doce e inocente".

Ela olhou para mim e sorriu lentamente, levantou-se animada: "De verdade?".

"Sim, querida, você é um pequeno anjo da guarda mandado para olhar todas estas pessoas que passam por aqui.

Ela acenou com a cabeça e disse sorrindo "sim", e com isto abriu suas asas e piscando os olhos falou: "eu sou seu anjo da guarda".

Eu fiquei sem palavras e certa de que estava tendo visões.

Ela finalizou, "quando você deixou de pensar unicamente em você, meu trabalho aqui foi realizado".

Imediatamente, levantei-me surpresa e perguntei:

"Espere, porque então ninguém mais parou para ajudar um anjo?"

Ela olhou para mim e sorriu: "Você foi a única capaz de me ver" e desapareceu.

Com isto minha vida foi mudada drasticamente. Quando você pensar que está completamente só, lembre-se: seu anjo está sempre tomando conta de você.

O meu estava... Como diz a história, todos precisamos de alguém. Cada um de seus amigos é um anjo em sua própria maneira de ser.

J. Mendes (Bingles)


Aproxima-se a hora do pão nosso de cada dia, alimento preferido dos estudantes, principalmente daqueles que moram longe dos pais, ou melhor, das mães, é óbvio.

Subimos rapidamente pela André de Barros, eu e minha amiga Madalena, faceiros como nunca, reparando em tudo e em todos. Nossa alegria maior era buscar o pão quentinho na panificadora Real da Rui Barbosa, aquela dos Expressos, como fazíamos todas as tardes.

Na praça, a mesma poluição, o mesmo rush, as mesmas caras e bocas de sempre, filas e filas de batalhadores visivelmente cansados à espera do ônibus que nunca chega quando se tem um pouco mais de pressa .

O visual do estabelecimento era rotina, fila para pedir, pagar e levar, fila de pedintes e, disfarçadamente, fila de trombadinhas doidos pela nossa carteira cheia de documentos, dinheiro era raro.

Estudante de interior compra pão e mais nada. Vez por outra, um pãozinho de queijo e, quando muito, entre cinquenta e cem gramas de mortadela.

Posicionados na fila, entreolhares correm soltos, de fila para fila, cliente para cliente, cliente para balconistas, vigia para clientes e transeuntes na calçada ou do outro lado da rua, onde as freadas do Expressão distraem a atenção da torcida com possibilidades constantes de atropelamento.

Madalena sorridente, companheira inseparável de quarto e sala de aula, sempre animada, dentes à mostra, mais aberta que armário de estudante solteiro longe dos pais.

À porta, um momento de distração do vigia, preocupado com os pedintes que se aglomeram na entrada incomodando a clientela.

Enquanto aguardamos na fila, olhamos para o chão e avistamos um ticket de caixa registradora, ainda sem carimbo e nenhuma rasura, tal como exigiam as balconistas no atendimento. Era nosso dia de sorte, bastava escolher.

- Qual o valor, Madá ?

- R$ 3,00, cara !

- Uh, que beleza, dá pra comprar 30 pãezinhos.

- Que pãozinho nada, vamos escolher algo melhor !

Aguardamos pacientes a nossa vez de fazer o pedido, embora apreensivos, com o ticket valioso nas mãos e buscando na tabela de preços alguma coisa que coincidisse com o valor autenticado. Corremos os olhos para cima e para baixo e estava lá, o último item do canto inferior esquerdo, meio apagado, mas legível. Nosso estado emocional oscilava a olhos vistos. Malandros inexperientes, nunca ousamos nada semelhante.

Próxima parada: fila para pagar, o pão somente, onde o rapaz do caixa nunca foi visto bem humorado. Última parada: fila para retirar. Dividimos a responsabilidade, um com o pão e outro com a novidade, grátis.

Senhor de si , grita Madalena, cheio de razão :

- Um BINGLES, por favor !

Todos os olhares de espanto se voltam para ele.

- O quê? - Retruca a balconista, perplexa.

- Isso mesmo que você ouviu, tá na tabela, o último item ali.

Na hora contive o riso no dedão do pé, mais vermelho que pimentão, mas aguentei firme, nossa reputação estava em jogo.

- Que BINGLES o quê, moça! É b ponto inglês, Bolo Inglês.

Sem saber se ríamos ou chorávamos, Madalena suaviza com presença de espírito impressionante :

- Tô brincando, é isso mesmo !

Nunca vi Madalena tão séria, mas nossa cara lavada garantiu o reforço do lanche noturno. Jantar, nem de longe. Suamos um pouco e saímos felizes da vida. A volta para casa foi animada, quase molhamos nas calças de tanto rir, apesar do susto. Se contarmos hoje para o dono, duvido que ele acredite.

Ficou a lição : MENTIRA TEM PERNA CURTA.

Fontes:
Jerônimo Mendes. Muito além do cotidiano: crônicas. Curitiba/PR: 2001.
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Silmar Bohrer (Croniqiuinha) 157


Viver de vagares, divagações, dias augustos, outros de angústias, dispersivos, circunspectos, ora reclamando, ora comemorando, farto de ilusões e desilusões. Eis a crônica da vida desde o berço.

E pensamos saber tanto. Sabemos nada. Lá na frente num belo dia o pouco que sabemos apagará da lousa da memória. Fim de uma história. As vitórias nos anais, as perdas esquecidas, os saberes buscados, lauréis conquistados. Conhecimentos consagrados.

Mas conhecimentos - para que tantos? Para armazenar nas prateleiras, nos labirintos do ser?  A verdadeira validade do saber sabido é tê-lo socializado de forma universal, repassando a tantos e quantos.

Ademais, é a boa maneira de deixarmos nossas marcas, pensamentos e realizações. Como disse a escritora Tuth Ginsber, "A pessoa não vive apenas para si mesma mas para sua comunidade". 

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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terça-feira, 14 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 9. O espelho da alma


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.

Havia em Isfahan um joalheiro tão habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que caíram no deserto.

A fama do objeto chegou aos ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao seu redor. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas adagas". 

Ele comprou o espelho e o colocou no salão principal de seu palácio.

O enigma era simples, mas terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o estado de sua "nafs" (alma). Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.

O Vizir convocou todos os seus cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se um lugar de silêncio e medo.

Por fim, o próprio Vizir parou diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade. 

"Shukran" (obrigado), sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro ousou me dar".

O Vizir quebrou o espelho em mil pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Nilto Maciel (Rosa dos Ventos)


Nenhum livro dormia à cabeceira da cama, nem havia copo ou comprimido à espera da mão sonâmbula de Rosa, que apalpava a cabeça, assanhava o cabelo, os olhos feito tochas a incendiar o quarto. Com a mão direita amassava o lençol e as dobras do pano fugiam-lhe entre os dedos. Com a outra buscava o corpo ausente de José, seu peito cabeludo, seus largos ombros, suas coxas grossas, seu duro queixo.

Escorregou para ele, a boca cheia de gemidos, os seios doloridos, a latejar. Esfregou-se, contorceu-se, enrodilhou-se em si mesma — alva serpente a chocalhar de vida.

Meio corpo ergueu, para a frente engatinhou e de novo sentou-se, entre as pernas da cama. Pôs-se de pé, andou pelo quarto, por seus quatro cantos, a camisola amarrotada, transparente, incapaz de esconder tanto pecado. Transpôs a porta, alcançou o corredor, a pisar maciamente, como se voasse à maneira das gaivotas. E num instante esteve no banheiro, nos quartos, na cozinha, na sala.

Os filhos dormiam, maleáveis, feito bonecos. Ajeitou-os, moldou-os à semelhança de homens, cobriu-os de lençóis e carinhos, maternalmente.

Uma barata andava tonta de norte a sul da cozinha, doida no país das panelas.

No espelho do banheiro Rosa mirou-se, sorriu, meteu entre os cabelos o pente das mãos.

Na sala, aninhou-se num sofá, acendeu um cigarro, fechou-se os olhos e pôs-se a olhar para os quatro cantos do tempo — o homem que a chamou de beleza, o olho viril de José, seus próprios seios mal cobertos. Naquela rua passavam todas as pernas do mundo – mulheres gordas e magricelas, bonitas e desbotadas; homens apressados e bem vestidos, velhos e malandros. Todos a farejar deslizes, aventuras, libertinagens. Os mil olhos do monstro, cobiçosos, acesos, danados. As mãos safadas e sujas, penduradas feito cachos de banana. Pegajosas, cobertas de nódoa.

Sugou o cigarro, soprou a fumaça, abriu e fechou os olhos. O carro de bois do quadro gemia pelo caminho da parede, a ferir a lei da gravidade. Tão pobre aquela vida no campo! Talvez fizesse melhor comprando um quadro feérico — uma corrida de cavalos, apostas, binóculos, mulheres de leque, homens de cachimbo. Ou uma tourada, Pablo, Juanito, um toureiro de muita fama, manchete de jornal. A viagem de navio, com festas, champanhas, eróticos play-boys, astros e estrelas, strip-tease, camarins fabulosos. E a aparição de Sherlock Holmes depois do suicídio da princesa.

Esfregou o cigarro no fundo do cinzeiro, levantou-se do sofá, chegou à janela. A cidade piscava feito um chão de estrelas.

Tocaram a campainha, insistiram. Assustou-se, resvalou no rumo da porta. Um dos meninos tossiu. José gemeu do lado de fora.

Rosa abriu a porta. O vento assobiava uma cançãozinha que falava de bares e mulheres perdidas.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.

Laé de Souza (Economia de Guerra)


Matilde assistia, pela televisão, pessoas opinando sobre a redução do consumo de energia e se espantou, quando reconheceu o marido sendo entrevistado pelo repórter. Contrário a todos que diziam da dificuldade em diminuir o consumo, Aristides achava possível e até disse que se todos colaborassem e tivessem espírito cívico conseguiriam ultrapassar os 20%. O repórter instigou e Aristides, inflamado, disse que, com certeza, sua família chegaria aos 50%. Matilde balançou a cabeça e comentou com os filhos que se preparassem porque o aperto seria grande. Relembrou que o marido fora um dos fiscais do Sarney, na época do tabelamento de preços, anotando preço por preço dos produtos; querendo ajudar a buscar os bois no pasto; denunciando e criando inimizades com os comerciantes da vizinhança.

Aristides chegou em casa e todos fizeram de conta que não tinham visto nada para ver se a coisa se esfriava, mas qual nada. Chamou mulher e filhos para a mesa, não sem antes apagar todas as luzes, deixando apenas a da sala. E começou a desfiar o rosário. “Antes que a coisa fique mais grave, vamos nos precaver” e começou a ditar as novas regras: “Banho com o chuveiro no frio.” Zequinha questionou que a informação que se tinha era de que o chuveiro deveria estar no verão, ao que Aristides, com o olhar severo, respondeu que na sua casa seria no frio. 

“Passar roupas, Matilde, você pode quando quiser, desde que seja durante o dia. Aqui, está o ferro, o saco de carvão e já encomendei um fole ao marceneiro. Pode encaixotar o micro-ondas, a cafeteira e o ventilador, pois só voltaremos a usá-los depois de dois mil e doze. Televisão, só na hora do jornal.” 

Matilde pensou em pedir para que se esticasse até o final da novela, mas desistiu, por pensar que seria um crime contra a pátria. Aristides, depois de enfiar pregos nas paredes, abriu uma caixa, retirou candeeiros e espalhou pelos cômodos. Depois, com paciência, ensinou aos filhos o manuseio. 

“Nós estamos mal-acostumados. Se não fosse esse modernismo todo, não teria chegado na situação em que estamos. Máquina de lavar, secador, computador e outras coisas mais, levando ao exagero do consumo de energia. Nós vamos dar o exemplo. E, a partir de agora, começa a vigorar aqui a lei seca. Economia de guerra!”

Soninha tentou avisar que o racionamento era, a partir de junho, enervando Aristides, que achava falta de bom-senso a observação da filha, esbravejou um “Aqui, quem manda sou eu e a coisa começa já. E aquele teu namorado folgado que costuma ficar duas horas no banho, pode avisar que mesmo sendo frio vou controlar o tempo.” 

Sandrinha resmungou que o pai cismava com o coitado do Kiko e fez uma cara de choro. Matilde e os filhos já sabiam que iriam sofrer o diabo nos próximos dias e seriam vigiados. Aliás, não só eles, mas também os vizinhos. Seriam brigas e mais brigas, Aristides reclamando e exigindo colaboração de todos no racionamento. Certamente, como da outra vez, faria visitas aos moradores do bairro, num trabalho de conscientização e, depois, de fiscalização.

Matilde suplicou aos filhos que, junto com ela, rezassem para que o presidente da República estivesse virando profeta e a chuva viesse mesmo em setembro.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fonte:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Asas da Poesia * 175 *


Poema de
LUCIAN BLAGA
Lancram/Romênia (1895 – 1961)

Aos leitores

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim com colmeias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre as grades
e esperam que eu fale.  ... Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões 
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.
(tradução: Caetano Waldrigues Galindo)
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Aldravia de
MARILENE BORBA
Osório/RS

Em
meus 
versos
líricos
nostálgica
saudade.
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Soneto de
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL 
Salvador/ BA

Árvore
 
Abrigas, sem vaidade, a tantos quantos,
vindos de lutas, buscam refrigério;
não cobras um real por serem tantos,
não usas esse sórdido critério.
 
Ao que sorri feliz, ao triste, ao sério,
dás, a todos, os mesmos acalantos…
és um delubro* puro e sem mistério,
templo das alegrias e dos prantos.
 
E ainda dás o fruto ao que tem fome,
sem sequer perguntar nem mesmo o nome
ao cansado e faminto repousante.
 
Oh! Árvore! tu és, não só um templo,
és, também, um belíssimo exemplo
de bondade – frondosa e verdejante! 
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* delubro = templo pagão
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Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

O Silêncio da poesia

Quem pode encher as palavras de sustento?
Se no silêncio da alma há tão pouco alimento!
O vazio das respostas inibe as perguntas
Quando nem você é aquilo que vejo ou invento
 
Se posso criar minha paz viveria eu em guerra?
O silêncio desta pergunta ecoará no tempo
E não haverá resposta, pois isso se torna um delito
Já que, há aqueles que, não vivem sem seus conflitos
 
Onde errei quando decidi acertar?
Quando ao invés de só falar de amor resolvi amar
Saio do sonho, passo a viver a realidade
Entro na vida pra vivê-la em sua totalidade
 
Quem me dirá não tendo Deus dito Sim?
Agora que este vazio encheu-se de mim
Recolho do mundo meu sentimento
Minhas palavras, meu coração...
 
Deixo minha poesia vagando pelo ar?
Sim, buscando qualquer porto a ancorar
Descomprometida e responsável
A poesia tem em si, um todo razoável.
 
Quem eu gostaria que me amasse 
Senão aquele a quem amo?
Minha vida deixou de ser só e vazia
Voltarei para escrevê-la um dia...
 
 Vim apenas deixar,
 O meu silêncio nesta poesia...
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TROVA POPULAR

Os olhos de meu benzinho
são joias que não se vendem,
são balas que me feriram,
são correntes que me prendem.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Aquela passagem perdida

Data perdida, tempo já passado!
Dinheiro não resgata voo, mas alerta;
o novo cheque pôs destino alado,
ao salvador da pátria, em mente aberta.

As horas passam, basta ver marcado
por certo ao centro ter poltrona certa;
ponteiros voltam, checam sinal dado,
razão à AM que vê desculpa incerta.

Trânsito em aços, transporte não anda!
Aeroporto cheio! Todos clamam!
Os passageiros cobram, mais demanda...

Vários eventos não serão mais feitos!
Aeromoças testam, nem reclamam:
– A gripe mata, mostra causa e efeitos.
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Trova de
ANIS MURAD
Rio de Janeiro/RJ (1904 – 1962)

Há uma lâmpada encantada,
acesa no coração,
que tem a chama sagrada,
que se chama inspiração.
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Poema de
ELSE SANT´ANNA BRUM
Joinville/SC

Independência

Do alto de uma colina
Espalhou-se aos quatro ventos
O brado de independência.
Independência menina
Deste Brasil que a amou.
Tornou-se a linda menina
A eterna companheira
Desta terra brasileira
Que seu povo fez crescer.
Quando há difíceis momentos
Vê-se o aceno da menina
Que do alto da colina
Faz o Brasil reviver.
Porque ser independente
É o grande e maior presente
Que um país pode ter.
Quando de setembro a aragem
Envolve aquela colina
Ouve-se, então, da menina,
Uma sublime mensagem:
- Brasil, o teu povo é forte,
Teu povo sempre venceu.
Entre "Independência ou Morte"
A Independência escolheu!
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Uma Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Bendição

Em versos, sementes espalho;
meu solo é o papel, que aceita…
Entrego a Deus o trabalho
e espero pela colheita!…

Bendigo, aqui, a grandiosa obra de Deus:
o sol, a lua, estrelas – maravilhas.
Todo o ar da terra; a vida em jubileus;
montanhas, vales, rios, mares e ilhas!

Bendigo os homens – nobres e plebeus -
e os outros animais em suas trilhas;
todas as plantas que em seus apogeus
se reproduzem entre vastas milhas!

Da Natureza, assim, bendigo a lida,
com força ativa, segue destemida
a perpetuar a criação, perfeita.

Bendito o grão, que é dado a semear,
bendita a chuva, pois irá germinar…
Bendito o lavrador, pela colheita!
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* Dobradinha poética = inicia com uma trova e em seguida um soneto.
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Spina de
RICHARD ZAJACZKOWSKI
Francisco Beltrão/PR

Astro

Traçada na alma,
desenhada nas estrelas,
escrita no coração.

Nos holofotes da vida celestial,
repousam as glórias da esfera.
Mundo rotundo repleto de adoração.
Espíritos sequiosos de paz cordial,
mitigam anseios anímicos com afeição.
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Soneto de
WALDIR NEVES
Rio de Janeiro/RJ (1924 – 2007)

Minha casa

Ela é um velho chalé de toques suburbanos.
Modesta, do portão à fachada singela,
nada existe invulgar, por fora ou dentro dela,
capaz de comover sicranos nem beltranos.

Mas é a mesma onde vi, já se vão tantos anos,
pela primeira vez abrir-se uma janela
aos raios matinais da ensolarada umbela,
sublime no esplendor dos halos soberanos.

No seu mesmo aconchego acolhedor de outrora,
intensamente eu vivo, em meu “aqui e agora”,
a paz familiar e as bênçãos da amizade.

Em saudade é comum que ela more na gente;
mas Deus me deu, estranha e afortunadamente,
a ventura maior de morar na Saudade...
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Poema de
AMÁLIA RODRIGUES
(Amália da Piedade Rodrigues)
Lisboa/ Portugal, 1920/22 – 1999

Ó Gente da Minha Terra

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

De pai para pai:
Caro colega Noel,
só quero carinho.
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Setilha de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Vemos com grande emoção:
se aproxima a primavera,
cheia de cor e beleza;
se vai a estação severa.
Nascem novas esperanças,
ansiosas como crianças...
Terminou a nossa espera!
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Hino de 
AQUIDAUANA/ MS

Viva sempre esta terra idolatrada
Este belo torrão de Mato Grosso,
E as belezas sem fim deste colosso,
Da minha grande pátria sempre amada.

Viva sempre esta terra encantadora,
E o bom sonho de gênio altipotente,
Desta raça valente e vencedora,
Que um astro bem tirou do céu luzente.

Juntos cantemos, e alto proclamemos,
Quer aqui, quer também em toda parte,
A bravura, o trabalho, e o amor destarte,
Que, em folhas d'ouro sempre guardaremos.

Salve o Brasil, seus homens e sua história,
Que, tornando o sertão bendita terra,
Elevaram o país que tudo encerra,
Belezas naturais, grandeza e glória.

Honra e glória aos heroicos fundadores,
Desta linda Aquidauana fulgurante,
Graciosa filha do Brasil gigante,
Cheia de vida, repleta de esplendores.

Galante sob um céu risonho e azul,
Ela, a cidade, espelha-se num rio,
Que, em formosura, faz-lhe desafio,
Num calmo deslizar, de norte à sul.
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Aquidauana: Um Hino de Amor e Orgulho
O 'Hino de Aquidauana - MS' é uma celebração poética e musical da cidade de Aquidauana, localizada no estado de Mato Grosso do Sul. A letra exalta a beleza natural e a importância histórica da região, destacando o orgulho dos habitantes por sua terra natal. Desde o início, a música enaltece a 'terra idolatrada' e as 'belezas sem fim' do lugar, criando uma imagem de um paraíso natural que é parte integrante da grande pátria brasileira.

A canção também faz referência à bravura e ao trabalho dos habitantes de Aquidauana, descrevendo-os como uma 'raça valente e vencedora'. Essa descrição não só reforça o orgulho local, mas também conecta a cidade à história mais ampla do Brasil, celebrando os esforços e conquistas dos seus fundadores. A letra menciona a importância de preservar a memória e os feitos desses heróis, guardando-os 'em folhas d'ouro'.

Além disso, o hino presta homenagem ao Brasil como um todo, reconhecendo a contribuição de Aquidauana para a grandeza e glória do país. A cidade é descrita como uma 'graciosa filha do Brasil gigante', refletindo a sua beleza e vitalidade. A imagem final da cidade espelhando-se num rio sob um 'céu risonho e azul' encapsula a tranquilidade e a majestade natural de Aquidauana, reforçando a conexão íntima entre a cidade e seu ambiente natural.
https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/943187/ 
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Poetrix de
JUSSARA MIDLEJ
Ipiaú/BA

troca-se

O luar e a gente do sertão
Pelas chuvas e o verde
De outra região!
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Soneto de
DIVENEI BOSELI
São Paulo/SP

Lucidez 

Se eu te disser que sou feliz agora,
nesse momento em que a razão cochila
e, na modorra, enxerga só a mochila
que carregavas quando foste embora;

que o meu rancor, agora, não destila
o fel que dentre estas paredes mora,
e que saudade alguma hoje devora
o coração que recobri de argila;

se eu te disser que a porta do meu quarto
por onde tu partiste foi o parto
da solidão que eu quis, sem dor, sem ira,

por hoje, podes crer, mas toma tento:
È falsa a lucidez do meu tormento
e tudo o que eu disser, hoje, é mentira!... 
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Trova de
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba/PR

O trem, na sua partida,
leva o sonho... e por maldade,
volta trazendo escondida
a bandida da saudade!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O rato caseiro e o rústico

Convida, uma vez, ratinho
Mui galante e cortesão,
Certo arganaz* montesinho
A sobras dum perdigão.

Em guedelhudo* tapete
Luzia o esplêndido talher.
São dois, mas valem por sete.
Que apetite! Que roer!

Foi folgança* regalada;
Nada inveja um tal festim.
Se não quando, na malhada*,
Pilha-os súbito motim.

Passos à porta da sala...
Param os nossos heróis.
E o terror, que pronto os cala,
Lança em pronta fuga os dois.

Foi-se a bulha*. Muito à mansa
Vêm-se chegando outra vez.
“Demos remate à folgança,
Diz o da corte ao montês.

— Nada. Mas vem tu comigo
Jantar amanhã; bem sei
Que lá me não gabo, amigo,
Desta vidinha de rei.

Mas ninguém me turba em meio
Do jantar; sobra o lazer.
Que pode aguar um receio,
E adeus. Figas ao prazer.”
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*Vocabulário: 
Arganaz = pequeno roedor parecido com esquilo.
Bulha = gritaria, desordem.
Folgança = folguedo, farra.
Guedelhudo = cabeludo.
Malhada = toca.
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