domingo, 19 de abril de 2026

José Feldman (O Sim e o Padre Farofa)


O altar da Igreja Matriz de Santo Antônio parecia o cenário de um filme épico, se o filme épico fosse dirigido por um mestre do caos. Centenas de convidados se abanavam com os leques de papel, o calor era de deserto, e o silêncio era absoluto enquanto o Padre Juvenal, que tinha a alcunha de Padre Farofa — um homem de bochechas vermelhas e uma boa vontade inversamente proporcional à sua dicção — pigarreava para começar.

No centro, Beto suava tanto que sua gravata borboleta parecia um peixe moribundo tentando escapar do pescoço. Ao seu lado, a noiva, Clarice, estava radiante, embora tivesse um tique nervoso no olho esquerdo.

Padre Farofa abriu o livro e soltou a primeira pérola:

— Queridos irmãos, estamos aqui hoje para celebrar a união desta linda... pamonha!

Um murmúrio correu os bancos. Beto piscou, confuso.

— Pamonha, Padre? — sussurrou Clarice, entre dentes.

— Perdão, minha filha — disse o Padre, baixinho, antes de retomar com força total. — O amor é como um pássaro que voa livre pelo... esgoto!

— Esgoto não, Padre! Céu! É céu! — Beto corrigiu, sentindo o suor escorrer pelas costas.

— Calma, noivo. Eu sei o que faço. É que a minha língua às vezes toma um... sorvete! — O Padre sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo. — Vamos prosseguir. Beto, você aceita Clarice como sua legítima... geladeira?

A igreja explodiu em risadinhas abafadas. A mãe da noiva, na primeira fila, começou a se benzer freneticamente.

— Padre, com todo respeito — disse Beto, tentando manter a compostura —, eu aceito ela como minha esposa. Esposa!

— Foi o que eu disse! — teimou o Padre Farofa. — E você, Clarice, promete ser fiel, amar e respeitar o Beto, na saúde e na... farofa?

Clarice respirou fundo. O tique no olho aumentou.

— Na doença, Padre. Na doença!

— Isso, isso! Até que a morte os... atropele!

— Separe! — gritou um padrinho do fundo, já roxo de tanto rir.

O Padre limpou o suor da testa com o lenço. Ele parecia não entender por que todos estavam tão agitados. Para ele, as palavras faziam todo o sentido do mundo.

— Bom, se alguém aqui presente tem algo contra esta união, que fale agora ou cale-se para... o jantar!

— É "para sempre", Padre! — Clarice já estava com as mãos na cintura. — O senhor está trocando tudo! Está bêbado?

— Não me interrompa, menina! Estou tentando salvar a sua... pamonha! De novo essa palavra? — O Padre bufou. — Enfim, tragam as... metralhadoras!

O coroinha, já acostumado, entrou carregando as alianças em uma almofada de veludo. Beto pegou a joia com as mãos trêmulas.

— Beto — comandou o Padre —, repita comigo: "Receba esta aliança como sinal do meu amor e da minha... dentadura."

— Eu não vou dizer dentadura! — Beto se rebelou. — "Como sinal do meu amor e da minha fidelidade!"

— Ora, é a mesma coisa! — resmungou o Padre. — E agora, pelo poder a mim conferido, eu os declaro... assaltantes!

A igreja inteira veio abaixo. Alguns convidados já estavam dobrados nos bancos de tanto rir. O pai da noiva limpava as lágrimas com o lenço do paletó.

— É MARIDO E MULHER! — gritou a assembleia em coro.

O Padre Farofa deu de ombros, fechou o livro com força e apontou para o Beto com um sorriso vitorioso:

— Pode beijar a... mula!

Beto não esperou pela correção. Puxou Clarice para um beijo cinematográfico enquanto a igreja aplaudia de pé. No fundo, o Padre comentava com o coroinha:

— Que casamento lindo. Saímos todos daqui com a alma cheia de... maionese.

A recepção aconteceu no salão paroquial, que estava decorado com flores brancas e um buffet que cheirava a festa cara. O problema é que, por uma questão de protocolo (e uma pitada de masoquismo do casal), o Padre foi convidado para a mesa de honra.

Beto e Clarice tentavam manter a dignidade, mas o Padre, agora com um copo de ponche na mão, estava mais animado do que nunca.

— Um brinde! — gritou o Padre Juvenal, levantando a taça. O salão ficou em silêncio. — Quero dizer que este casal me lembra dois jovens... aspiradores!

Beto fechou os olhos e contou até dez. Clarice apenas deu um gole generoso no champanhe.

— O amor deles — continuou o Padre — é como uma brasa que nunca... desliga! Que vocês tenham uma vida cheia de paz e muita... gasolina!

— Saúde! — gritaram os convidados, que já tinham entendido que a regra da noite era substituir mentalmente as palavras do Padre.

Na hora do jantar, o Padre Farofa sentou-se ao lado da tia solteirona de Clarice, a Tia Gertrudes, que usava um chapéu maior que a própria cabeça.

— O senhor não acha a decoração divina, Padre? — perguntou a tia, tentando puxar assunto.

— Uma maravilha, minha senhora. As flores combinam perfeitamente com o seu... bigode!

Tia Gertrudes levou a mão ao rosto, horrorizada, enquanto procurava um espelho na bolsa. Clarice chutou a canela de Beto por debaixo da mesa para ele não rir.

— Padre — interveio Beto, tentando mudar de assunto —, o senhor gostou do buffet?

— O patê estava ótimo, mas achei o frango um pouco... explosivo. Mas não se preocupem, o que importa é a alegria de ver vocês trocando... pneus!

A festa prosseguiu até o momento mais esperado: o corte do bolo de cinco andares. O mestre de cerimônias entregou o microfone ao Padre para uma última benção sobre o doce.

— Que este bolo — começou Padre Juvenal, com o dedo em riste — simbolize a doçura da vida. Que cada fatia seja um pedaço de... cimento no coração de vocês. E que, daqui a nove meses, possamos nos reunir novamente para batizar o primeiro... dinossauro!

Clarice quase engasgou com um pedaço de morango.

— É um bebê, Padre! Um bebê! — corrigiu ela, rindo nervosamente.

— Foi o que eu disse, ora bolas! — resmungou o Padre, limpando a boca com o guardanapo. — Vocês são muito... crocantes.

No final da noite, enquanto os noivos se preparavam para sair em lua de mel, o Padre foi se despedir na porta do carro decorado com latas. Ele segurou as mãos de Beto e Clarice com carinho sincero.

— Vão com Deus, meus filhos. Que a viagem de vocês seja repleta de... picadas. E lembrem-se: o segredo de um bom casamento é nunca dormir... com fome!

— Finalmente ele acertou uma! — exclamou Beto, aliviado, enquanto acelerava o carro.

Mal sabia Beto que, lá no fundo do salão, o Padre Farofal terminava sua noite comentando com o garçom:

— Que noite agradável. Acho que vou levar um pouco de bolo para o meu... papagaio.

O garçom olhou para o Padre confuso.

— Mas o senhor não tem um papagaio, Padre.

— Meu filho, É que eu quis dizer... estômago. Ai, Santo Padre, hoje a coisa não foi careca… Moleza!  Moleza!
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence à Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Gaston Leonardo Stefani (Lágrimas de sangue)


Há poucas semanas, testemunhei um acontecimento que me deixou ao mesmo tempo estarrecido e com medo. Este episódio ocorreu numa cidade do interior de Minas Gerais e se eu não tivesse visto, não teria acreditado.

Tudo começou numa terça-feira. Estava passando as férias na casa de um amigo meu chamado Rodrigo. Uma de suas sobrinhas – a Carol – desfrutava alguns dias em sua casa.

O dia transcorria normalmente. Conversava com Rodrigo sobre os nossos velhos tempos de garotos, quando um barulho nos desviou a atenção. Eram gritos vindos do quarto de Carol. Disso tínhamos certeza. Fomos até lá ver porque ela gritava daquela maneira. Rodrigo imediatamente procurou por Carol. E lá estava ela, encolhida em um canto do quarto chorando. Dos seus olhos escorriam “lágrimas de sangue”. Olhei para aquilo estarrecido. Ela parecia estar em transe e da sua boca saíam palavras sem sentido. O meu amigo virou-se para ela e perguntou-lhe:

- O que está acontecendo?

E ela lhe respondeu:

- Não saia hoje à noite de carro. Vejo... dor... sofrimento e... morte. Um caminhão vindo em sua direção.

- Do que você está falando?

- Só... evite... sair hoje.

- Mas tenho um compromisso hoje à noite.

- Tio... Por favor, não vá!

De repente, seus olhos se fecharam e ela voltou a si. Perguntou a ele o que havia acontecido e ele lhe disse que ela havia desmaiado. Notei um certo temor em seus olhos. Queria entender melhor aquele fato ocorrido, mas não conseguia. Rodrigo me chamou e disse:

- Quero levar a Carol no médico. Vou levá-la amanhã de manhã. Não sei o que há com ela. Alguém nesta maldita cidade tem de saber o que é que ela tem. Como é que não descobrem nada?

- Peraí... você está querendo me dizer que isto já aconteceu antes? O que houve?

- Desculpe, mas tenho que me arrumar. Marquei uma reunião hoje para fechar acordo com uma empresa. Se der certo, começarei a vender os produtos através dela. Conversamos sobre isso amanhã.

- Espere um minuto. Você não pode ir. Sua sobrinha disse...

- Ah! Você não vai dar ouvidos ao que uma criança de seis anos diz quando desmaia, não é?

- Mas...

- Chega! Amanhã conversamos melhor. Se quiser, há uma lasanha na geladeira. Até logo!

E algumas horas depois, a polícia local telefonava para a casa de Rodrigo contando sobre um terrível acidente com ele. Um caminhão desgovernado batera de frente com seu carro. Infelizmente, ele ficara preso nas engrenagens e morrera em instantes. Fiquei boquiaberto com aquela notícia. Um frio na minha espinha invadia meu corpo e minha mente divagava em perguntas.

Andei até Carol e tentei contar-lhe o que acabara de ocorrer. Falei que o seu tio agora estava com “papai do céu”. Ela chorou e me abraçou. Senti-me naquele momento, impotente diante daquela situação. Pensei por alguns minutos e decidi ligar para seus pais. Procurei em uma agenda pelo telefone e logo a encontrei. Disquei os três primeiros dígitos e tive que interromper a ligação. Novamente, Carol agonizava em prantos e seus olhos se enchiam de “lágrimas de sangue” mais uma vez. Tentei confortá-la naquele momento, mas com um empurrão, ela me afastou. Foi então, que de novo voltou a falar daquela maneira tão estranha e irreal:

- Saia daqui agora. Não... fique... nem... mais um minuto. Vá... enquanto... é tempo.

- Mas o que está acontecendo? O que você vê? Diga-me o que você vê.

Inesperadamente, a porta da sala foi arrebentada a pontapés e vários homens vestidos de preto penetraram por ela. Carol me abraçava novamente e pedia para que eu corresse. Corri em disparada com Carol agarrada a meus braços. Entretanto, os invasores mandaram que eu não me mexesse. Decidi não obedecer e continuei a correr. Eis que uma bala parou minha trajetória e me fez cair. Tentava erguer-me, embora não conseguisse. Um deles virou-se para mim e disse:

- Não se meta nisso. Só queremos levar a garota conosco.

- Mas quem são vocês e o que querem?

- Se falarmos, teremos que matá-lo.

- Vocês não vão levá-la.

Os outros corpulentos sujeitos juntaram-se a ele e olharam para mim sarcasticamente. Aproveitei um minuto de distração e fugi com a garota. Peguei meu carro e sai em disparada. Eles tentaram me alcançar, mas felizmente não conseguiram. Por sorte, ganhava alguns minutos de vantagem.

Assim, teria algum tempo para pensar. Carol olhava-me comovida e chorava. Tentava perguntar-lhe se ela conseguia se lembrar de algo; ela não se lembrava. Não sabia para onde ia e nem de quem fugia. Tinha que buscar ajuda e rápido.

Uns instantes depois, eles já estavam atrás de mim. Tentaram a qualquer custo me fazer parar. Foi então, que num movimento brusco, joguei meu carro para o lado e o carro deles perdeu o controle, batendo contra uma árvore. Parei o automóvel e pude ver que estavam inconscientes ou mortos. Necessitava ir até lá para descobrir quem eles eram e o que queriam. Dei alguns passos e fiquei de frente para o carro. Peguei o documento de um deles e então, tudo o que havia surgido até aqui parecia ter mais nexo. Eles eram de uma agência governamental que estudavam casos paranormais e provavelmente, queriam a garota para futuras análises.

No dia seguinte, fui até a empresa que produzia um jornal local e decidi falar sobre a garota. Logo, consegui alcance nacional e a história virou capa dos principais jornais do Brasil.

Levei a garota até seus pais e me despedi dela. Mais uma vez, teve um surto daqueles. E, apenas me disse para ir ao médico e chorou.

Voltei para minha cidade e logo que cheguei lá, liguei para meu médico e pedi um check-up. Descobri que tinha um tumor no cérebro que não podia ser operado e que meu tempo de vida era curto.

Lembro-me constantemente do que aconteceu e fico feliz por Carol estar bem com seus pais. Quanto a mim, vou aproveitar os dias que me restam até ver o meu último pôr-do-sol.
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GASTON LEONARDO STEFANI (33), é natural de Maringá/PR. Escritor de contos, crônicas e poemas. Suas publicações frequentemente exploram temas fantásticos e reflexivos sobre a vida e o universo. Participou de diversas antologias, recebeu menções honrosas e prêmios em concursos literários. Principais Livros são Portal das Sombras: Histórias Fantásticas: Uma coletânea focada no gênero de contos fantásticos; 50 (Gas)tons de Poesia: Lançado em 2018, focado em versos poéticos; Rascunhando sobre a Vida nas Entranhas do Universo: Obra que combina reflexões existenciais e poéticas.

Fontes:
Gaston Leonardo Stefani. Contos fantásticos. e-book.
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Dicas de Escrita (O bom e o mau texto em escrita criativa)


Em escrita criativa, um bom texto não se define apenas por regras gramaticais corretas, mas pela sua capacidade de engajar, emocionar e transportar o leitor para o universo imaginado, utilizando a linguagem de forma expressiva. Já um mau texto é, geralmente, monótono, confuso, clichê ou excessivamente técnico, falhando em criar conexão emocional ou imersão. 

Não existem fórmulas mágicas para que uma pessoa se torne capaz de escrever bem. O exercício contínuo, aliado à prática da leitura de bons autores, e a reflexão são indispensáveis para a criação de textos.

São qualidades da redação que você deve cultivar: a concisão, a correção, a clareza e a elegância.

O que distingue um bom texto de um mau texto:

Mostre, não conte: 
Um bom texto descreve cenas e emoções através de ações e detalhes sensoriais, permitindo que o leitor sinta a experiência. 

Um mau texto apenas relata fatos de forma direta e seca ("ele estava triste" vs. "lágrimas rolaram, e ele apertou o punho").

Originalidade vs. Clichês: 
Bons textos evitam caminhos óbvios e frases feitas, trazendo uma perspectiva única do autor.

Ritmo e Estrutura: 
Bons textos alternam frases curtas e longas para criar tensão e interesse, mantendo o leitor imerso. 

Maus textos são repetitivos ou têm um ritmo "arrastado" que entedia.

Personagens e Voz: 
Um bom texto tem personagens complexos, com motivações claras, e uma "voz" autoral distinta.

Clareza e Propósito: 
Mesmo na ficção, a escrita criativa deve ser clara para que o leitor não fique perdido. 

Público leitor atingido:

Bom Texto: 
Atinge um público amplo ou específico que busca imersão, reflexão e entretenimento. Ele cativa leitores que desejam ser transportados emocionalmente, valorizando a originalidade e a experiência estética da leitura.

Mau Texto: 
Tende a afastar o leitor, que desiste da leitura devido à falta de envolvimento, clichês ou má estruturação. 

Em resumo, a escrita criativa é a arte de expressar ideias com originalidade, usando a técnica para garantir que a mensagem — seja ela literária, publicitária ou de entretenimento — seja memorável e impactante.

Fontes Principais:
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Leine Maria Luchese (Pacto Quebrado)


Acordo suada e amarrotada. Mais uma noite sem luz e sem brisa. Outro amanhecer sem teus beijos. Tento avivar o corpo me espreguiçando quase no mesmo momento em que tateio a beirada da cama para levantar. Consigo.

Reparo no vaso de flores murchas que está na mesinha de cabeceira. O cheiro da água turva repleta de folhas é nauseante e conforme os dias se movimentam, ainda não me sinto preparada para dispensar o passado.

Caminho lentamente até o banheiro, abro a torneira pesada e enxaguo com moleza o rosto e pescoço. A toalha, que está suspensa pela etiqueta, ainda tem o preço. Ela continua ali desde que tu foi embora e nem lembro quando. Talvez uma semana, talvez uns quinze dias.

Será que foi ontem?

Levanto a tampa do vaso, sento para urinar e com os cotovelos apoiados nas pernas, revivo o nosso último encontro. Aquele em que recebi o ramalhete de flores de campo. Tão lindas e coloridas. O perfume suave e adocicado das flores de mel e que se misturavam às demais, permanece como um vestígio de que tudo foi tangível.

Eu bem lembro desse dia. Estou de vestido jeans de alças e sandálias de tiras com salto quadrado. Nos cabelos negros e lisos uma tiara perolada e nos lábios um tom roseado. Pego a bolsa de crochê azul que está pendurada no cabide da entrada de casa, destranco a porta e, com as chaves na mão, saio. Desço pelas escadas, cumprimento com um aceno o porteiro e alcanço a rua.

Marcamos no parque, perto da fonte. De onde eu moro até lá não é longe. Caminho apreciando o sol, os canteiros em frente aos prédios recheados de margaridas e o aroma dos sonhos da padaria.

Aproveito cada passo para observar o tanto de folhas que as árvores das calçadas tem em seus galhos nessa época do ano. Inclusive, a quantidade de ninhos de passarinhos. Reflito que quando estamos felizes tudo se torna muito mais poético e livre. Sem amarras e desculpas.

Percorro o trecho da entrada do parque com uma certa inquietação. Apesar de saber que estou dentro do horário combinado, um arrepio percorre a nuca. Esbarro nos galhos de um salgueiro. Com os braços interrompo seus trejeitos e abro uma clareira contínua com as mãos. Enxergo o banco vazio. Aliás, nem tão vazio.

Agarro a bolsa e solto o nó. Vasculho cada pedacinho daquele espaço forrado e sem fecho e me deparo com batom, espelhinho, um passador de cabelos com fios arrebentados, lenço de papel, balas de goma e as chaves da casa. E o celular?

Cadê o celular? Onde está o celular? Em que lugar deixei o celular?

Não adianta mais procurar ou tentar imaginar que encontraria alguma mensagem tua cancelando o compromisso.

Espreito as pessoas próximas caminhando silenciosamente. Somente rostos desconhecidos e em preto e branco. A passos contidos me aproximo e do canto da boca surge um sorriso trêmulo dissipando a curiosidade: um ramalhete de flores atado com laços de palha. Refinado e assustador. Novamente olho nas redondezas. Apenas figuras distorcidas. Trancafio o buquê no meu peito e dentre os diversos pigmentos, um envelope em papel pardo e dentro um cartão:

- Sinto muito, não estou pronto para ti.
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LEINE MARIA LUCHESE é natural de Caxias do Sul. Escritora e artesã brasileira, residente em Porto Alegre Ela participou do curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose. Contribuiu para a antologia de contos "Resgate em Pamplona". Escritos românticos sensuais, contos que retratavam seu estado de espírito ou que lhe faziam transportar para um universo paralelo, onde tudo é possível. De todos os lugares que aventurou escolheu Porto Alegre para morar e formar sua família. É Bacharel em Administração. Integrou a primeira Oficina de Criação Literária da Metamorfose em 2016. Faz parte da Antologia Palavras de Quinta lançado em 2018. Atualmente participa do Curso Extensivo de Escritores, também pela Metamorfose, para explorar os diversos gêneros literários. Produz e comercializa acessórios manuais exclusivos, como colares e brincos feitos com sementes, pedras naturais, pérolas e madeira.

Fontes:
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sábado, 18 de abril de 2026

Asas da Poesia * 177 *


Trova de
AMÉRICO FERRER LOPES
Queluz/Portugal

Eva.. esse anjo encantador
que em pecados se desdobra,
fez do Adão um pecador
e diz... "A culpa é da cobra"!
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Poema de
BENJÚNIOR 
(Benevides Garcia Barbosa Júnior)
Porto União/SC

Grito de estrelas

"Um grito de estrelas vem do infinito
E um bando de luz repete o grito.
Todas as cores e outras mais
Procriam flores astrais.
O verme passeia na lua cheia"...

Hoje estou com vontade diferente
de ser outra gente
de outro bando e lugar.
Estou com vontade de andar
caminhar [vagar, voar,]
ser infinito
enquanto posso...
Quero libertar de
minhas janelas,
e conhecer a imensidão
dos amanhãs, que
são forjados
nas oficinas do tempo,
que ficam escondidas
em lugar nenhum.
Quero escapar,
dos caminhos que existem
dentro das coisas transparentes,
que refletem os cansaços
e as indecisões.
Quero viver a vida
em "slow motion"
no abrigo
dos corações invertidos,
pintados como trens
que de repente param
em nenhuma estação...
E assim,
como do fundo da música
brotam as notas
que, ora são lembranças,
ora esperanças,
emudeço o grito,
na pauta do silêncio
e da amargura...
E quando a noite vier,
cantarei alguma coisa
pra dormir,
no silêncio das paredes,
que refletem fantasmas
de minha alma...
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Aldravia de
MARILZA DE CASTRO
Rio de Janeiro/RJ 

sonhar
no
mar
salga
ideia
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

No dia da tua morte choveu

“No dia da tua morte choveu”
Como se este céu fosse o confidente
Das coisas que não contavas à gente
E soubesse o que o teu peito sofreu.

Com o desgosto o céu se escureceu
E a chorar fez questão de estar presente
Nessa hora em que te fizeste ausente
E essa pura amizade se fendeu.

A chuva molhou todo esse caminho
Por onde te levaram, com carinho
À última morada que terás.

Limpam-se as longas lágrimas terrenas
Que ao fim de tantas lutas, tantas penas
Tu, finalmente, vais viver em paz.
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Trova de
JORGE FREGADOLLI
(Maringá/PR)

Feliz quem desde menino,
pela boa educação,
do trabalho faz um hino
e da vida uma canção!
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Poema de
ADAIR DE FREITAS
Santana do Livramento/RS

“Meu canto tem cheiro de terra e pampa”

Meu canto não conhece desencanto
Vem peleando a tanto tempo
Mas não cansa de pelear
Hoje já se ouve a ressonância
Dessa voz de peão de estância
Conquistando seu lugar
Meu canto, se quiser eu te ofereço
Pois ninguém me bota preço
Quando não quero cantar
Meu canto, companheiro, não se iluda
É como um cavalo de muda
Que cansou de cabrestear

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando deste chão)

Meu canto, não é mágoa, não é pranto
Nem passado, nem futuro,
Que o presente é mais verdade
Hoje o amanhã não me fascina
Tenho o ontem que me ensina
Mas não vivo de saudade
Canto nesta terra onde me planto
Mas não pise no meu poncho
Que eu empaco e me boleio
Canto pra pedir mais igualdade
Quem não gosta da verdade
Que se aparte do rodeio

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando deste chão)

Canto, e minha voz quando levanto
Não traz ódio nem maldade
Coisas que não sei sentir
Não que seja mais que qualquer outro
Nem mais touro, nem mais potro,
Se disser eu vou mentir
Peço pra quem julga e dá conceito
Que esqueça o preconceito
E me aceite como sou
Manso como água de cacimba,
Mas palanque que não timbra
Porque o tempo enraizou

(Meu canto tem cheiro de terra e pampa
É um andejo que se acampa
Tendo o mundo por galpão
Grita pra que o mundo inteiro ouça
É raiz de muita força
Rebrotando neste chão)
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TROVA POPULAR

Os olhos de meu benzinho
são joias que não se vendem,
são balas que me feriram,
são correntes que me prendem.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Entardecer

Morre a tarde!... E, na dor do Sol poente,
há uma nesga de luz e nostalgia,
separando, de forma displicente,
os encantos e a dor do fim do dia!

Ante o drama sem volta e tão dolente,
ouço, ao longe, uma voz que me assedia;
é a de um sino que tange, lentamente,
os suspiros finais da Ave Maria!

Nesse instante, eu me sinto até covarde;
me envergonho, ante a dor do fim da tarde,
mas encaro de frente e olhos abertos…

E à distância, no olhar da eterna luz,
eu percebo dois braços numa cruz,
rodeados de luz entre os libertos!
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Trova de
OLYMPIO DA CRUZ S. COUTINHO
Belo Horizonte/MG

O livro é qual luz do sol,
luz que a todos ilumina;
Na escuridão, um farol
que o claro caminho ensina.
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Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Exaltação Ao Amor 

 Sofro, bem sei...Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar...colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco, talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor...com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu,
se é fogo que em meu peito se acendeu,
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs...Ninguém mais há de dispor...
Se esse amor não puder ser meu viver,
há de ser meu para eu morrer de Amor!
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Trova de
ADELMAR TAVARES
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

Saudade - doce transporte
da alma adejante e ferida...
- É viver dentro da morte!
- É morrer dentro da vida!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Sonhador e peregrino

MOTE:
Bem feliz vive o poeta,
peregrino e sonhador,
luzeiro que se completa
no sonho do trovador.
Vidal Idony Stocker 
Castro/PR, 1924 – 2014, Curitiba/PR

GLOSA:
Bem feliz vive o poeta,
pleno de amor e emoção,
pois sua musa secreta
mora no seu coração!

Segue em frente, noite e dia,
peregrino e sonhador,
na bagagem, a poesia
lhe dissipa qualquer dor!

Tem em sua alma de esteta 
um não sei que tão bonito,
luzeiro que se completa
como uma luz do infinito!

Segue assim, o seu caminho,
atapetado de amor,
colocando o seu carinho,
no sonho do trovador.
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Trova de
BASTOS TIGRE
Recife/PE, 1882 – 1957,  Rio de Janeiro/RJ

Dos versos os mais diversos       
já fiz: muita gente os lê…        
Mas “poesia” há nos versos    
que eu fiz pensando em você.    
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

A cor da minha tristeza

A tristeza em meus suspiros tão frequente,
não lhe vês o ar de órfã desolada,
não entendes sua voz — brado silente,
não lhe dás nunca razão, nem cor, nem nada..,

E ela tem, nítida, a cor do riso ausente...
É triste andante de faces desbotadas,
tem a cor dos pés descalços, do inclemente
abrigo sujo ostentado nas calçadas.

Tem a cor do pranto, alheio, sofre o espinho
que a tantas flores impede de brotar.
Tem a cor da nulidade de um caminho

que — acaso existe? — ninguém logra alcançar:
a cor de um mundo de risos tão mesquinho,
tão farto em dor, que dá cor ao meu penar...
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA 
São Paulo/SP

À mensagem não me rendo… 
Não abro… não quero ler… 
Para não ficar sabendo 
o que eu finjo não saber. 
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Poema de
IVY MENON
Maringá/PR

O Poema

O Poema jorra pétalas brancas
Rosas brancas, pálidas de espanto
ao vento, asas arremessadas, livres
pelo ar.

O Poema surpreendente doçura
mistura mel e terra, fruta-do-conde
Laranja craveira, sorva gomo a gomo

O Poema brota morno, doido
aos borbotões as lágrimas de gozo
inundam as mãos, ávidas mãos.
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Haicai de
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR

Tantas vezes fiz
este mesmo trajeto,
nunca foi o mesmo.
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Ramalhete de Trovas de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

"Café" da madrugada!

É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!

Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!

Despertando, reparei 
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
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Hino de 
OURO PRETO/ MG

Em cada aresta de pedra
Uma epopeia ressoa
Na terra formosa e boa
Onde a grilheta não medra

A terra, que um cento de anos
Três vezes viu passar
Possui dos ouropretanos
Em cada peito um altar

A névoa que cobre a rocha
Do mais brando e puro véu
Quando a manhã desabrocha
É um beijo que vem do céu

Os fatos de Vila Rica
Lembram raças titãs
Cuja memória nos fica
Para os mais nobres afãs

Guarda o seio das montanhas
Os áureos filões mais ricos
Contempla os altos picos
Das laceradas entranhas

Protege, Deus, estes lares
Dos filhos dos bandeirantes
Por estas serras gigantes
São outros tantos altares
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Ouro Preto: Uma Epopeia de Pedra e História
O 'Hino do Município de Ouro Preto' é uma celebração poética e histórica da cidade mineira, conhecida por sua rica herança cultural e importância no período colonial brasileiro. A letra da música exalta a beleza natural e a grandiosidade histórica de Ouro Preto, destacando a resistência e a bravura de seus habitantes ao longo dos séculos. Cada 'aresta de pedra' mencionada na canção simboliza as inúmeras histórias e lutas que ressoam na cidade, um lugar onde a 'grilheta não medra', ou seja, onde a opressão não prospera.

A canção também faz referência ao espírito dos ouropretanos, que carregam em seus corações um altar de devoção à sua terra natal. A névoa que cobre as rochas ao amanhecer é descrita como um 'beijo que vem do céu', uma metáfora que sugere a bênção divina sobre a cidade. A letra remete aos tempos de Vila Rica, antigo nome de Ouro Preto, e às 'raças titãs' que construíram sua história, preservando suas memórias para inspirar futuras gerações.

Além disso, o hino destaca a riqueza natural da região, com seus 'áureos filões mais ricos' escondidos nas montanhas. A letra pede a proteção divina para os lares dos descendentes dos bandeirantes, os desbravadores que exploraram o interior do Brasil. As 'serras gigantes' são vistas como altares, reforçando a ideia de que a natureza e a história de Ouro Preto são sagradas e dignas de reverência. O hino, portanto, é uma ode à resistência, à beleza natural e à herança cultural de Ouro Preto, celebrando sua importância no cenário histórico e cultural do Brasil. https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/1789134/ 
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Poetrix de
ANTONIO CARLOS MENEZES
Recife/PE

Melancolia

à beira do rio
sou pássaro que canta
em lugares sombrios.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Feliz o povo que pensa
e que se expressa à vontade.
Onde amordaçam a imprensa
morre à míngua a liberdade.
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Conto em Versos de
ARTHUR DE AZEVEDO
Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

Escola dos velhos

O Próspero Pimenta
Passava dos cinquenta,
Quando encontrou na vida
A mulher longamente apetecida
Entre sonhos, visagens e quimeras.
Ela contava apenas
Dezoito primaveras,
E era a mais deliciosa das morenas.

Ele encontrou-a, por acaso, um dia
Em que um novo dilúvio parecia
Desabar sobre a terra, e atencioso,
Ofereceu-lhe o braço e o guarda-chuva,
Que é, quando chove, rufião precioso.
Levou-a para casa. A sua vida
Ela contou-lhe muito comovida:
Tinha sido casada, era viúva.
Já viúva? É verdade!
Andava o dia inteiro na cidade,
Procurando um emprego...
Um destino... um aconchego...
O Próspero Pimenta era solteiro;

Tinha muito dinheiro
E um palacete mobilado tinha;
Por isso, a viuvinha
Ali ficou de casa e pucarinha.

Ele amou-a deveras;
Não era um homem gasto,
Um coração cansado que repasto
Outrora fosse de paixões violentas;
Ele podia ainda
Perpetuar a raça dos Pimentas,
Levar longe o seu nome;
Mas aquela menina ingênua e linda,
Se a imperiosa fome
De um exigente amor satisfazia;
Estranha sensação lhe produzia;
Ele ficava contrafeito quando,
Os seus lábios de púrpura beijando,
O doce mel do amor neles sorvia;
E pensava: — Estou velho, e certamente
Só me tolera porque sou, não rico,
Mas solícito, bom, condescendente;
Sinto que a sacrifico,
A consciência diz-me que a deturpo,
E o lugar de outro, menos velho, usurpo. 

Ora, um dia, o Pimenta
Foi avisado de que a sua amante,
De amor faminta e de prazer sedenta,
Tinha um amante que não era ele,
E pilhou-a em flagrante,
Furioso — meu Deus! Que dia aquele! —
Ia fazer escândalo e alvoroço,
Quando caiu em si, vendo que o moço
Com quem ela o enganava,
Nem trinta anos contava
E era um rapaz bonito;
Não lhe faltava nem um requisito
Para ser dela amado
— Afinal, tens razão, disse o coitado,
Quem não a tem é o meu amor absurdo,
Que me fez cego e surdo.
Amai-vos, pois, meus filhos,
Amai-vos à vontade!
Eu não ponho empecilhos
À vossa felicidade! —

E fez mais o Pimenta:
Dotou a viuvinha com quarenta
Contos de réis, e o belo moço amado
(Grande pulha!) com ela está casado.

Nasceu-lhes um filhinho,
E o Pimenta foi logo convidado
Para ser o padrinho.
(convertido para o Português atual por José Feldman)
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