segunda-feira, 13 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa 195 = O velho e o neto

AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos tremendo. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava sopa na toalha e, quando, afinal, acertava a boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos.

O filho e a nora dele achavam que era uma porcaria e ficavam com nojo. Finalmente, acabaram fazendo o velho se sentar num canto atrás do fogão. Levavam comida para ele numa tigela de barro e - o que era pior - nem lhe davam bastante.

O velho olhava para a mesa com os olhos compridos, muitas vezes cheios de lágrimas.

Um dia, suas mãos tremeram tanto que ele deixou a tigela cair no chão e ela se quebrou. A mulher ralhou com ele, que não disse nada, só suspirou.

Depois ela comprou uma gamela de madeira bem baratinha e era aí que ele tinha que comer.

Um dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o neto do velho, que era um menino de oito anos, estava brincando com uns pedaços de pau.

- O que é que você está fazendo? - perguntou o pai.

O menino respondeu:

- Estou fazendo um cocho para papai e mamãe poderem comer quando eu crescer.

O marido e a mulher se olharam durante algum tempo e caíram no choro. Depois disso, trouxeram o avô de volta para a mesa. Desde então passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.
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Desta história, há uma música sertaneja, da dupla Teddy Vieira e Palmeira:

Couro de Boi

Conheço um véio ditado desde do tempo do Zagai
Um pai trata dez fio, dez fio não trata um pai
Sentindo o peso dos ano sem poder mais trabalhar
O véio peão estradeiro com seu fio foi morar
O rapaz era casado e a mulher deu de implicar
Vancê manda o véio embora se não quisé que eu vá
E o rapaz, coração duro, com o véinho foi falar

Para o senhor se mudar, meu pai, eu vim lhe pedir
Hoje, aqui da minha casa o senhor tem que sair
Leva este coro de boi que eu acabo de curtir
Pra lhe servir de coberta aonde o senhor durmir

O pobre véio, calado, pegou o coro e saiu
Seu neto de oito ano aquela cena assistiu
Correu atrás do avó, seu palito sacudiu
Metade daquele couro, chorando, ele pediu

O véinho, comovido, pra não ver o neto chorando
Cortou o coro no meio e pro netinho foi dando
O menino chegou em casa, seu pai foi lhe perguntando
Pra que você quer esse couro que seu avô ia levando?

Disse o menino ao pai: Um dia vou me casar
O senhor vai ficar véio e comigo vem morar
Pode ser que aconteça de nós não se combinar
Essa metade do coro vou dar pro senhor levar

Sammis Reachers (Em busca do fliperama perdido)


Durante minha infância e primeira adolescência, talvez o prazer maior, dos muitos que tínhamos, mesmo pobres, eram os games. Digo muitos prazeres pois na época (e isso a juventude de hoje precisa recuperar) dosávamos as atividades ao ar livre com as virtuais. Dentre as diversas amizades comuns à idade, cresci mantendo um núcleo principal de três amigos – Wilson, Ronaldo e Wilson – amizade que dura até hoje (tenho 41 aninhos já). Jogar nos consoles era ótimo, mas a experiência mais gratificante era com certeza os fliperamas. Primeiro porque a qualidade dos games era melhor: se em casa eu me debatia com um Phantom System, console nacional da Gradiente que operava o sistema Nintendo 8 Bits, ligado numa pequena TV em preto-e-branco, nos arcades eram placas do então poderoso, quase divino Neo Geo, e outras placas (e jogos) fenomenais da Sega, Capcom etc.

Eu e meus amigos nos digladiávamos para conseguir dinheiro para jogar algumas fichas. Era algo religioso: Não podíamos passar um dia sem “pranchar” ou “apertar uma ficha” – as gírias locais para jogar uma partidinha. O ritmo era de franca fraternidade: aquele que possuía grana no dia pagava para os outros. Com pena, mas pagava... Por vezes, catávamos ferro-velho (reciclagem) para conseguir algum money. Certa vez, desconhecedores das leis ambientais, fomos para a mata cortar lenha para vender a uma padaria que mantinha um forno à lenha (graças a Deus hoje os fornos são elétricos ou a gás!).

Quantas aventuras e andanças, em nossas velhas bicicletas ou no poder das finas canelas, em busca de novos fliperamas que abriam aqui e ali, e novos jogos que de quando em quando chegavam! Amigos, naquele tempo o momento máximo da experiência com arcades era jogar numa cabine para quatro jogadores. Isso mesmo: elas eram raras e enormes, pois apenas alguns jogos (geralmente de beat ‘em up) permitiam tal “luxo”. Como era maravilhoso chegar no maior fliperama das redondezas, ou ir até o shopping no centro da cidade de Niterói (RJ), em conjunto com meus três amigos, e poder jogar Tartarugas Ninja 2, Captain Commando, X-Men ou mesmo Cadillacs and Dinosaurs. Era um pandemônio, um arranca-rabo, um salseiro danado!!!

Cada um tinha seus personagens certos para jogar. E a jogatina tinha lá sua estratégia: eu era quase sempre o melhor jogador; assim, eu e mais um cuidávamos dos chefões, enquanto os outros cuidavam da arraia miúda, os retardatários que enchiam a tela na parte dos chefões. Por ser o melhor jogador, às vezes eu jogava com o pior personagem, para equilibrar a aventura (no Captain Commando, era o Baby; no Cadillacs, era a mulher ou o Jack). Eram exercícios de estratégia em conjunto, fraternidade e empatia. A regra geral era não deixar o companheiro ser moído na pancada!

Pois hoje há quem diga (e acredite: naquela época também!) que os games são instrumentos de solidão, que encerram jovens em seus quartos e corações. Não creio nisso.

Fiz dezenas de amigos de perto e longe em minha juventude, apenas frequentando fliperamas ou trocando (por empréstimos) fitas de videogame nintendinho, depois CDs de Playstation 1 ou mesmo Dream Cast.

A amizade com meus amigos fortaleceu-se em muito devido a essa convivência gamemaníaca. O tempo gasto com jogos era tempo em que permanecíamos juntos, estreitando nossos laços, nos conhecendo melhor, rindo, discutindo, sendo mais humanos.

A Bíblia diz que há amigo mais chegado que irmão. Esses meus amigos, os Três Mosqueteiros do Jardim Nazareth (eu era o Dartagnan) foram e de certa maneira são os irmãos que não tive, e devo isso em parte aos games. Nossa relação se tornou mesmo familiar, e minha casa era cidade aberta onde eles vinham praticamente todos os dias: dois deles, irmãos, perderam a mãe na infância e o pai, desequilibrado, os renegou; outro perdeu o pai igualmente ainda na infância. Hoje os três, mesmo absorvidos pelas responsabilidades da vida adulta e morando um pouco distantes uns dos outros, não deixaram de jogar seus consoles, e todos iniciaram seus filhos no mundo dos games, e jogam com eles, mantendo a corrente, construindo estratégias em conjunto, se divertindo, dando do que da vida não receberam e sendo o que pais e filhos devem ser: amigos.
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SAMMIS REACHERS é o pseudônimo literário de Sammis Reachers Cristence Silva, uma expressiva voz da literatura independente fluminense. Notabilizou-se no cenário nacional não apenas como um prolífico poeta e ficcionista, mas principalmente por sua intensa atuação como editor e um dos maiores organizadores de antologias literárias do país no século XXI.
Nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1978. Apesar do nascimento em Niterói, cresceu, vive e reside desde sempre no município de São Gonçalo/RJ. O cotidiano, a periferia e a identidade gonçalense são as principais raízes geográficas de sua escrita. Além da forte vocação para as letras, ele atua profissionalmente como professor de Geografia na rede de ensino. Ele costuma brincar dizendo que escreve "no tempo que lhe resta – ou vice-versa". Atua fortemente no universo editorial independente por meio de plataformas de auto-publicação (como a UICLAP) e selos alternativos, ajudando a viabilizar fisicamente e digitalmente obras de novos autores. 
Sammis iniciou sua trajetória literária no final da década de 1990, estreando com versos fortemente vinculados à sua vivência regional. No decorrer de mais de duas décadas de produção ininterrupta, ele construiu um vasto catálogo de títulos individuais. Paralelamente, o autor se consolidou no cenário nacional por uma impressionante atuação como antologista. Ele já idealizou e organizou mais de 50 antologias e coletâneas literárias temáticas (muitas de distribuição gratuita em formato digital), reunindo milhares de poemas e contos de centenas de autores marginais, cristãos e independentes de todas as regiões do Brasil. Focado no mercado literário periférico, alternativo e na internet, Sammis Reachers não integra o quadro de membros efetivos das Academias de Letras tradicionais de grande porte (como a ABL), mas se destaca ocupando uma cadeira na Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Sua atuação se dá de maneira descentralizada, dialogando diretamente com coletivos de escritores, jornais culturais locais (como o Jornal Daki e Editora Apologia Brasil) e plataformas de escrita. No Concurso Nacional de Divinópolis (2023) teve sua excelência literária reconhecida nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Concurso Nacional de Literatura, promovido pela Câmara de Vereadores de Divinópolis, em Minas Gerais.
Seu catálogo expandiu-se e conta com mais de doze livros de poesia, cinco volumes de contos/crônicas e incursões pelo romance histórico/ficcional.
Poesia: São Gonçalo de Todos os Santos (1999); Uma Abertura na Noite (2006); A Blindagem Azul (2007); Poemas da Guerra de Inverno (2012); Deus Amanhecer (2013); Pulsátil – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014); Grãnadas (2015); Cartas e retornos (2021).
Prosa: A Ordem Luterana da Cruz Combatente (Romance); 2000 Citações Missionárias (Pesquisa e Compilação); Poesia em 1000 Citações (Compilação Reflexiva); Renato Cascão e Sammy Maluco - uma dupla do balacobaco (histórias sobre a infância dele); Rodorisos (histórias hilárias sobre os motoristas rodoviários da época que ele era motorista). 
Organizou as antologias poéticas: Segunda Guerra Mundial - Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã, Poemas sobre Sua Majestade, o livro, etc.
A grande relevância de Sammis Reachers para a literatura brasileira contemporânea reside no seu papel de democratizador do fazer literário e articulador de pontes culturais. Em um país onde o mercado editorial tradicional é altamente centralizado e restrito a poucos nomes, ele utiliza a internet e as antologias cooperativas para retirar do anonimato centenas de novos talentos que não teriam recursos para publicar sozinhos.
Como escritor, sua obra poética transita com competência entre o lirismo cotidiano, a temática histórico-militar e a literatura de inspiração cristã-protestante, descentralizando a narrativa dos grandes eixos urbanos e provando que a periferia do estado do Rio de Janeiro abriga uma produção estética erudita, consciente e de alto impacto social.

Fontes:
Sammis Reachers. Fliperamigos: resenhas e crônicas retrogamers. São Gonçalo/RJ: Ed. do Autor, 2025, (ebook). Publicado originalmente no livro Muito Além dos Videogames: Crônicas dos Meus Amigos  em 13/07/2019
Biografia = Sites consultados: Amazon, Recanto das Letras, UICLAP, Apologia Brasil, Jornal Daki.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 1 – Conceito de Cidadania

Nota do blog:
Recebi do trovador potiguar Gonzaga da Silva o livro Trova e Cidadania, onde ele organiza uma compilação de trovas de trovadores de diversas regiões referentes a tópicos que envolvem a Cidadania. A partir de hoje coloco no blog, periodicamente alguns tópicos em trovas do excelente livro deste trovador. 
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CONCEITO DE CIDADANIA

O termo cidadania deriva do latim civitas, cidade. O conceito tem origem na Grécia antiga e designava o exercício dos direitos e deveres de cidadão, ou seja, do sujeito que vivia na cidade e que participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Entretanto, mesmo na Grécia, nem todos eram considerados cidadãos, ficando excluídos desta categoria os escravos, as mulheres, as crianças e os estrangeiros.

Atualmente, o termo cidadania está mais relacionado ao exercício dos chamados direitos fundamentais ou direitos humanos, previstos nos Tratados internacionais e nas Constituições dos estados. Mas esta previsão não assegura, por si só, o direito de cidadania.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?
Amália Max - PR

É necessário um esforço contínuo dos cidadãos para que os seus direitos sejam efetivados e respeitados. Nossos trovadores dizem o que é cidadania e como ela pode ser exercida.

Cidadania é civismo;
sobretudo é comunhão:
é ajuda mútua, é altruísmo,
partilha Justa do pão!
A. A. de Assis - PR

Exerce a cidadania
quem faz valer seu direito
e luta, no dia a dia,
por um mundo mais perfeito!
Renata Paccola - SP

Exercer cidadania,
em meio à desigualdade,
é conquistar, dia a dia,
um quinhão de liberdade!
Marisa Vieira Olivaes - RS

Exercer cidadania
é postar-se vigilante,
e com serena ousadia
lutar pelo semelhante.
Gonzaga da Silva - RN

Cidadania é o dever
do ser humano exemplar
gritar, com o seu poder,
por quem não pode gritar!
José Valdez de Castro Moura - SP

Com sentimento profundo
de pura cidadania
é que um povo afirma ao mundo
a sua soberania.
Sandro Pereira Rebel - RJ

Cidadania, em seus pleitos,
toda a grandeza contém
no conjunto dos direitos,
mas de deveres também.
Alonso Rocha - PA

Cidadania se exerce
com consciência e respeito,
pois se assenta no alicerce
do dever e do direito...
Élbea Priscila Souza e Silva - SP
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.

Sílvio Romero (A mãe falsa ao filho)

(Folclore do Rio de Janeiro)

HAVIA UM HOMEM DE FORÇA e de coragem, de nome Pedro, que retirou-se para a roça com sua mulher chamada Maria. Foram viver nos ermos, sustentando-se com caças do mato.  

Lá nos ermos nasceu-lhes um filho que se chamou João. Quando o menino tinha sete anos de idade morreu seu pai. Vendo o rapazinho que a vida dos ermos era rústica, pediu à sua mãe para se retirarem para a cidade, com o que concordou a mãe. 

Juntaram os seus bens, que consistiam num cavalo, uma espingarda e um facão, e entraram na cidade já pela noitinha. Correu o João toda a cidade e não encontrou ninguém; bateu em todas as portas e ninguém lhe respondeu. Foi ter a um sobrado, que foi o único que achou aberto, entrou, falou e ninguém lhe respondeu. Subiu a escada, correu toda a casa e não viu viva alma. Havia um único quarto que estava fechado, estando todos os mais abertos. Então aí se arranchou com sua mãe e passaram a noite. 

No dia seguinte não viu ninguém na cidade, nem sentiu movimento algum e, não tendo o que comer, foi para o mato caçar, conforme usava o seu pai. Quando ele estava no mato, apresentou-se à sua mãe no sobrado um gigante, dizendo-lhe que a havia de matar por ter ela se apoderado daquela casa sem a sua licença; mas que, por ser ela mulher, não a mataria com a condição de viverem juntos. 

A mulher lhe respondeu que tinha um filho na sua companhia. 

O gigante lhe disse: “O teu filho eu o como.” 

— “O senhor não pode com meu filho.” 

— “Então não é ele um homem?” 

— “Sim, é um homem.” 

— “Como não poderei eu com ele, se pude com todo o povo desta cidade, e acabei com todo ele?” 

— “O senhor não pode com meu filho, que tem muita força.” 

— “Pois se não posso com ele, aqui tens uma boa forma de lhe dar fim: quando ele chegar, tu deves te fingir de doente, gritando com uma dor nos olhos, e que tu sabes que o único remédio que existe para este mal é a banha de uma serpente que há no mato; ora, não podendo ele com a serpente, ela lhe dará cabo da pele.” 

Chegando o filho da caçada; assim fez a mulher, como lhe ensinou o gigante. O moço então voltou para as matas. No caminho encontrou um velho que lhe perguntou aonde ia. Respondeu que matar a serpente para tirar a banha para deitar nos olhos de sua mãe que estava doente. 

O velho lhe disse: “Não vás lá, que não podes com a serpente.” 

— “Como é para minha mãe, hei de ir, aconteça o que acontecer”, respondeu o mocinho. 

O velho lhe disse: “Pois vai, que serás feliz.” 

Foi ele e matou a serpente e tirou a banha. Na volta passou por casa do mesmo velho, que o reteve para jantar. Quando estava o mocinho jantando o velho mandou matar uma galinha e tirar a banha e trocar pela banha da serpente. Assim fez a moça que o velho criava em casa. 

João seguiu, e deitou o remédio nos olhos de sua mãe, que não tendo nada, nada sofreu. 

O gigante, no dia seguinte, ficou admirado, e, estando o João na caça, disse à mulher: 

– “É verdade; esse teu filho é homem. Amanhã, quando ele vier, faze o mesmo, e dize-lhe que nestas matas há um porco-espinho, cuja banha é o remédio que te pode servir; ele, que não pode com o porco-espinho, morrerá, e ficaremos livres dele.” 

Tudo fingiu a mulher, e o filho lá voltou para as matas a matar o porco espinho. Tornou a passar por casa do velho, que lhe fez outra recomendação, a que ele resistiu. 

“Vai, disse o velho, e serás feliz.” 

Foi e matou o porco-espinho. Tornou a passar por casa do velho que o reteve para jantar. Mandou matar outra galinha e trocou a banha do porco-espinho pela banha da galinha. João seguiu para a cidade e botou a banha nos olhos de sua mãe, que nada tinha. 

No dia seguinte, indo ele para a caça, apareceu o gigante e ficou ainda mais admirado da valentia do rapaz, e disse à Maria: 

– “Agora tu pegas estas cordas, e dize-lhe que ele não é capaz de as arrebentar.” 

Assim fez a mulher. Chegando o filho, ela lhe disse: “Tu és um homem, que nem mesmo teu pai fazia o que tu fazes; mas tu não és capaz de quebrar estas cordas em te enleando com elas.” 

João aceitou a proposta; a mãe o enleou, e ele forcejou e quebrou as cordas. 

A mãe lhe disse: “És homem como trinta!” 

João seguiu para a caça no dia seguinte. Veio o gigante, e, sabendo do acontecido, ficou ainda mais pasmado. 

“Amanhã, disse o gigante, dize-lhe que ele não é capaz de quebrar estas correntes.” 

Assim fez Maria, quando seu filho veio. 

“Isto não, minha mãe, correntes não posso quebrar.” 

— “Tu podes, meu filho, experimenta.” 

— “Vosmecê quer, vamos ver.” 

A mulher enrolou o filho com as correntes; ele forcejou e não as pôde quebrar. Aí apareceu o gigante armado de um facão e se arrojou ao menino para o matar. 

“Pode matar, disse João, só quero que me cumpra três pedidos que lhe quero fazer.” 

— “Cumprirei vinte, quanto mais três.” 

Os pedidos de João eram: não quero que faça uso dos objetos que meu pai deixou, nem do cavalo, nem da espingarda, nem do facão; quando me matar não me estrague o corpo e parta-me em cinco partes; bote-me dentro de dois jacás no cavalo com a espingarda e o facão.

Assim cumpriu o gigante. O cavalo seguiu desordenadamente e foi ter à casa do velho. Chegou a moça na janela e, conhecendo que era o cavalo de João, chamou o velho. Este chegou e disse: “Minha filha, o que ali vês é João que vem morto dentro dos jacás; traz-me para aqui o cavalo, que quero dar vida ao nosso João.” 

O velho pediu a banha de serpente, e juntou os diferentes pedaços do corpo de João, que logo sarou. 

– “Não sentes coisa alguma, nem te falta nada?”, perguntou o velho. 

Respondeu João: “Falta-me a vista.” 

O velho pediu a banha do porco-espinho, e untou com ela os olhos do rapaz, que logo recobrou a vista. 

– “Pega nas tuas armas, disse então o velho, e vai à casa de tua mãe e faz o mesmo ou pior.”  

João partiu; lá chegando encontrou a mãe dormindo com o gigante; pôs o seu facão nos peitos do monstro e o matou. A mãe se lhe atirou aos pés, pedindo que a não matasse; e ele a fez levantar-se dizendo-lhe que a não ofendia, por ser sua mãe. Voltou à casa do velho, contou-lhe o que tinha feito, salvando sua mãe.

O velho louvou a sua ação, e disse que era o seu anjo da guarda que o tinha vindo defender. Desapareceu, subindo para o céu, e João se casou com a moça que ele tinha criado.
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SÍLVIO ROMERO (nome literário de Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero) foi um dos maiores intelectuais, críticos literários, ensaístas e historiadores do Brasil no século XIX e início do século XX. Homem de personalidade combativa e polêmica, ele revolucionou a forma de se pensar a identidade nacional, sendo o pioneiro na historiografia literária científica no país e um dos maiores defensores do folclore e da cultura popular como bases da nossa literatura. Nasceu na Vila de Lagarto (atual município de Lagarto), Sergipe, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (então capital federal), em 1914, aos 62 anos. Passou a infância e as primeiras letras no Sergipe. Mudou-se para Recife/PE para realizar seus estudos preparatórios e superiores na Faculdade de Direito. Fixou residência definitiva a partir de 1880, no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira profissional, literária e política até o fim da vida. Foi professor de Filosofia no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cargo que conquistou por meio de um célebre e disputado concurso público em 1881. Posteriormente, lecionou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Atuou como advogado e foi promotor público na província de Minas Gerais (em Estrela do Sul) e em sua terra natal. Com a Proclamação da República, ingressou na vida política ativa. Foi eleito Deputado Federal por Sergipe em duas legislaturas (1891–1893 e 1900–1902), participando ativamente dos debates jurídicos e culturais da nova República.
Iniciou sua vida literária ainda estudante em Recife, colaborando com jornais acadêmicos. Ele fez parte da chamada Escola de Recife, um movimento intelectual liderado por Tobias Barreto que introduziu o positivismo, o evolucionismo e o criticismo filosófico alemão no Brasil. Romero abandonou cedo a poesia para se dedicar à crítica literária e ao ensaio sociocultural. Ele utilizava as teorias científicas de sua época (como o determinismo de Taine e o evolucionismo de Spencer) para analisar a produção literária brasileira sob uma ótica sociológica. Ficou conhecido por suas polêmicas ferozes com outros intelectuais da época, como Machado de Assis e José Veríssimo. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Participou ativamente das reuniões de fundação em 1897 ao lado de Machado de Assis, embora mantivesse uma postura crítica em relação ao formalismo excessivo da instituição.  Foi membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando o espaço para suas pesquisas historiográficas e geográficas. Na virada do século XIX para o século XX, não existiam prêmios literários institucionais de grande porte no Brasil (como o Prêmio Jabuti ou o Prêmio Camões, criados décadas mais tarde). O reconhecimento de Sílvio Romero deu-se por meio do enorme prestígio acadêmico, aclamação pública de seus pares e pela rápida consagração de suas obras como manuais de estudo obrigatórios nas faculdades do país.
Sua produção foi vasta e abrangeu a poesia, a crítica, a história e o folclore:
Historiografia e Crítica Literária: História da Literatura Brasileira (1888) — Sua obra-prima absoluta e divisora de águas; Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897); Evolução da Literatura Brasileira (1905).
Estudos de Folclore e Cultura Popular: Cantos Populares do Brasil (1883 e 1885)
Poesia (Fase Inicial): Cantos do Fim do Século (1878).
A importância de Sílvio Romero é monumental porque ele foi o fundador da crítica literária moderna e da historiografia científica no Brasil. Antes dele, a história da nossa literatura era vista de forma amadora ou meramente biográfica. Romero foi o primeiro a estruturar uma análise que conectava a produção artística à formação social, étnica e psicológica do povo brasileiro. Ele teve a sensibilidade genial de perceber que a verdadeira literatura brasileira não nascia da cópia dos modelos europeus, mas sim da mestiçagem cultural. Ao recolher, catalogar e publicar os cantos, contos e mitos do interior do país, ele salvou o folclore nacional do esquecimento e provou que as manifestações populares eram a base autêntica da nossa identidade. Sua obra abriu caminhos diretos para o Modernismo de 1922 e para os estudos sociológicos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Ebiografia, Wikipedia, Ricardo Velez, Cia. das Letras, Academia Brasileira das Letras, Infopedia, Revista da USP, Amazon, etc.

Coelho Neto (Selemnus)


Pela esmeralda das campinas úmidas, soprando a avena suave, o meigo pastor Selemnus passeava o seu rebanho de ovelhas e de cabras.

Argyra, ninfa dos cabelos de ouro, mal o descobria, sentado entre os ramais de mirto verde, deixava a espuma jônica e, célere, a sorrir, saltando pelas pontas dos penedos, vinha cair nos braços desejados.

Os hirsutos tritões glaucos, de ciúme, punham-se a soprar nos búzios torsos, arrepelavam o mar espadanando vagalhões medonhos para ver se os amantes assustavam-se; os dois, porém, unidos peito a peito, mal o sussurro dos lábios percebiam.

As náiades, à noite, à sabida da lua, apareciam em bando à flor das vagas, cantando para tentar o namorado e Selemnus pensava unicamente na bela ninfa dos cabelos de ouro.

Um dia, Argyra descobriu rugas no rosto do pastor e fios brancos na cabeleira escura. Riu de cima da penha e, sem beijá-lo, de novo mergulhou no mar inquieto.

Selemnus debalde foi à praia vê-la, chorou debalde; à toda onda que subia à areia confiava um segredo para Argyra. E a ninfa, cavalgando o dorso verde e altivo de uma vaga, fez-se ao largo, rindo do pastor desventurado.

Dias e noites, entre as penedias, Selemnus soluçou pedindo a morte até que os deuses se compadeceram.

Vênus, porém, a deusa protetora dos amores, para tornar eterna a triste história, transformou o pastor em rio — mas, apesar de transformado, o amante não esqueceu a pérfida e, fugindo por entre os salgueirais, o nome Argyra soluçava sempre.

Foi preciso que a deusa o socorresse dando-lhe como remédio o esquecimento.

E nunca mais Selemnus suspirou sentido — pôs-se a correr silenciosamente através das pradarias de esmeralda— matando a sede às brancas ovelhinhas.

As vítimas do amor, os desgraçados, quando a paixão minava-lhes a vida, para esquecerem a causa dos tormentos, mergulhavam nas águas de Selemnus. E os que levavam nomes dentro da alma nem saudade traziam de tais nomes.

Eu vivia feliz pastoreando as minhas ilusões — sem martírios, sem mágoas, sem desgostos. Apareceste e tudo esqueci porque teu amor encheu-me o coração. A minha vida vinha de teus olhos, o teu prazer o meu prazer criava e nunca descobri pranto em teus olhos sem que nos meus não visses mais copioso. Deixaste-me sem luz.

Meu coração morreu e transformou-se em lutuoso rio de agonias. Corre pelo meu rosto, como por um vale, esse fio de lágrimas ardentes — é o meu amor, é toda a minha vida que se esvai nesse pranto.

Falta-me o esquecimento! Falta-me o esquecimento!

Mas para isso é preciso que o meu coração desmanche-se e que eu fique sem a saudade que, no correr das lágrimas, balbucia para a minha alma debruçada sobre o meu coração, o teu nome, como Selemnus, o rio namorado, dizia aos salgueirais o doce nome da formosa Argyra.
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HENRIQUE MAXIMIANO COELHO NETO nasceu em Caxias/MA, em 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934 (70 anos). Conhecido como o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", ele foi um dos intelectuais mais lidos, influentes e prolíficos de sua época. Viveu a primeira infância no Maranhão. Mudou-se com a família em 1870 para o Rio de Janeiro, a Capital Federal na época. Morou nela na maior parte da vida, onde estudou e consolidou sua trajetória profissional. Residiu temporariamente em São Paulo e Recife durante a juventude para cursar as faculdades de Direito. Lecionou História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Também ensinou Literatura no Colégio Pedro II e História do Teatro na Escola de Arte Dramática. Exerceu cargos na administração pública, incluindo o de secretário de Governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito deputado federal pelo estado do Maranhão por três legislaturas. Atuou intensamente na imprensa carioca. Escreveu crônicas e artigos de opinião para veículos como a Gazeta da Tarde e A Notícia.
Iniciou a carreira engajado nas causas sociais, lutando ativamente pelo fim da escravidão ao lado de amigos como Olavo Bilac. Transitou por múltiplas correntes da época, misturando elementos do Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, situando-se no que a crítica classifica como Pré-Modernismo. Foi um verdadeiro fenômeno de público no Brasil e em Portugal no início do século XX. Chegou a rivalizar com Machado de Assis em número de leitores. Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou cadeira e exerceu a presidência no ano de 1926. Foi homenageado e consagrado como patrono na Academia Maranhense de Letras. Em sua época, o maior reconhecimento era dado pelo público e por títulos honoríficos. Recebeu o título informal, porém oficializado pelos intelectuais, de "Príncipe dos Prosadores". Em 1933, alcançou o marco histórico de ser o primeiro escritor brasileiro oficialmente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. O autor teve uma produção monumental, publicando cerca de 130 livros e centenas de contos e crônicas, sendo entre muitos: A Capital Federal (1893); Miragem (1895); Sertão (1896); O Morto (1898); Turbilhão (1906); Rei Negro (1914), etc.
Coelho Neto foi o pilar da literatura institucional da República Velha. Sua importância reside em sua riqueza vocabular insuperável e na capacidade de documentar a transição social do Brasil imperial para o republicano. Ele também entrou para a história cultural por ter cunhado a expressão "Cidade Maravilhosa" para se referir ao Rio de Janeiro. Embora tenha sofrido forte rejeição dos modernistas na Semana de Arte de 1922, que criticavam seu estilo rebuscado e acadêmico, sua vasta produção é fundamental para compreender o gosto estético e a transição cultural brasileira do início do século XX.

Fontes:
Coelho Neto. Rapsódias. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Universidade Federal do Maranhão, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Ebiografia, Nossos Vizinhos Ilustres, etc.

domingo, 12 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 17 *


É tão carola a velhinha,

que, quando se sente mal,
faz primeiro uma rezinha,
depois toma um São Risal.
A. A. DE ASSIS
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Inspirado na bonança,
de pensamentos diversos,
o poeta é uma criança
brincando de fazer versos.
ADOLFO MACEDO
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Que exemplo o do vaga-lume
que vive na noite escura;
quanto maior é o negrume,
mais ele voa e fulgura!
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
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Quem vive ofensas perdoando
e por amor tudo faz,
vai sempre em punho levando
uma bandeira de paz!
ANALICE FEITOSA DE LIMA
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Qual fantasia perdida
que se desfaz na amplidão,
tudo é efêmero na vida,
feito bolha de sabão!
ANTÔNIO COUTINHO
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Passa na estrada um camelo
e um corcunda palpitante
de alegria, disse ao vê-lo:
- “Mas que animal elegante!”
ANTÔNIO SALES
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Ralha o chefe, quando chego
atrasado e irritadiço...
Eu até gosto do emprego;
só não gosto é de serviço!
ANTONIO VALENTIM RUFATTO
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Sede balança amiúde
ao pesar os vossos feitos;
vereis gramas de virtude,
toneladas de defeitos.
ARISTÓTELES LACERDA JÚNIOR
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Destino é força que esmaga...
– Credor austero, tremendo,
manda a conta e a gente paga
sem saber que está devendo.
BARRETO COUTINHO
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Traça os rumos com carinho,
pondo firmeza nos traços,
que a retidão do caminho
dá segurança aos teus passos.
CAROLINA RAMOS
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Veleiro de vela panda,
perdeste o rumo e, a bailar,
vais brincando de ciranda
nas águas verdes do mar!
CÉLIO GRUNEWALD
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Já com cabelos grisalhos,
mas inda pensando em ti,
vejo a saudade em retalhos
nas cartas que recebi.
CIDOCA DA SILVA VELHO
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Range a carroça, à distância,
e o boi num passo indolente
me traz lembranças da infância,
faz do passado... presente.
CINCINATO PALMAS AZEVEDO
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Um abajur sobre a mesa,
na velha jarra uma flor;
um “Tango para Teresa”,
saudades de um velho amor.
DALMIR PENA
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Tenho, sim, muito mais ouro
e fortuna que um ricaço:
não há no mundo tesouro
que pague as trovas que eu faço!
DARLY ANGÉLICA O. BARROS
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Num reino que tanto mata,
onde a ambição desatina,
mesmo sem ouro e sem prata,
o rei... é quem se domina!
DICHE GALVÃO CAMPOS
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A união se faz maior
em noite fria que tenha
uma família ao redor
de um velho fogão de lenha!
EDUARDO A. O. TOLEDO
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Assim é este mundo,
todo cheinho de loucos...
E mais este vagabundo
que te quer bem como poucos!
FRANCISCO C. ROCHA
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Nem sempre a briga é conflito
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
HAROLDO RODRIGUES DE CASTRO
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Eu prefiro a arte caduca,
pois receio a evolução.
Quanto mais ela se educa,
mais aumenta a confusão.
HUMBERTO DEL MAESTRO
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Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não faz por merecê-lo.
IZO GOLDMAN
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Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– Por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
JAIME PINA DA SILVEIRA
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Sacudiram minha vida,
duas coisas, te confesso:
a tua triste partida
e o teu alegre regresso.
JOÃO BATISTA SERRA
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Não foste a minha metade,
pois jamais me deste um “sim”…
Mas fizeste que a saudade
fosse a metade de mim.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
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Se alguém brigou por amor,
ou é ciúme, ou intriga...
– Quem ama não tem rancor,
e por amor ninguém briga!
JOSÉ VITOR DE PAIVA
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Se aos outros deres bom trato,
respeito, a qualquer momento,
receberás – de imediato,
o mesmo e igual tratamento.
JOSIAS PAIVA PINHEIRO
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Cabeça, triste é dizê-lo!
Cabeça, que desconsolo!
por fora não tem cabelo,
por dentro não tem miolo!
LAURINDO RIBEIRO
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O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
LILINHA FERNANDES
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A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.
LUIZ DAMO
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor;
não pintei nada na tela;
como é que se pinta a dor?
LUIZ POETA
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Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer…
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
MAGDALENA LÉA
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Ai, meu Brasil, quem me dera
eu partir de Portugal
numa linda caravela
bem ao lado de Cabral!...
MANOEL FERNANDES MENENDEZ
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Respeita o empenho constante,
o eterno recomeçar
de quem erra e segue avante,
na esperança de acertar.
MARIA H. C. M. DUARTE
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Quando o verso é costurado
com sentimento e magia,
parece vir cravejado
de ternura e de poesia.
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
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De um cantinho da Bahia,
chamado Porto Seguro,
parte o Brasil – sob a guia
de Iemanjá – rumo ao futuro.
MARIA MADALENA FERREIRA
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Numa alegria sem fim,
o meu coração criança
faz da ilusão trampolim
e mergulha na esperança...
MARTA MARIA P. BARROS
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Se de amor, em asas plenas,
um "sim" disseres, discreto,
com as três letras apenas
me darás o céu completo.
MIGUEL EPSTEJN RUSSOWSKY 
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Mal termina a serenata,
um silêncio, sorrateiro,
derrama gotas de prata
nos olhos do seresteiro...
MILTON SEBASTIÃO SOUZA 
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Sem ter fé, és indefeso 
no estirão para o futuro; 
Igual não teres aceso 
nenhum fósforo no escuro.
NAIKER DÁMASO
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Esperar muito da vida,
das pessoas, é ilusão.
É um beco sem saída
que termina em decepção.
NILSA ALVES DE MELO
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Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO
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A existência é dividida
em dois extremos da idade:
- um, alvorada da vida,
outro, arrebol de saudade!
PROFESSOR GARCIA
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Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
RENATO ALVES
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Não temo quedas, barreiras,
por mais que a tristeza insista.
Águas que são cachoeiras
não tem lodo que resista!
RITA MARCIANO MOURÃO
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O rancho de tantos causos
alegres, sempre bravios
desperta muitos aplausos
e afasta os dias sombrios.
SINCLAIR POZZA CASEMIRO
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As águas em calmaria
brotando em tua nascente,
são rios em romaria
em um queixume doente.
SOLANGE CALOMBARA
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Nós precisamos sorrir,
mesmo sendo vergastados,
pois ninguém leva, ao partir,
os patrimônios roubados.
SWAMI VIVEKANANDA
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Ao pai dela, o cafajeste
explica: "Foi num pagode"...
O velho é um "cabra da peste"
e a moça explica: "Deu bode!”
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Velha viola, na orfandade,
calou-se, pois seus segredos
não suportam a saudade
nem o toque de outros dedos!
ZAÉ JÚNIOR
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