Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Nilto Maciel (Coisas da Natureza)


José Maria teve um sonho horrível. E nem o contou a Maria. Ou devia contá-lo? Não havia almas gêmeas!

José não chegou a biólogo. Alias, nunca chegou à Universidade. Apesar disso, interessava-se sempre por generalidades e curiosidades científicas, especialmente as da área da biologia. Sem esquecer os traços biográficos de alguns cientistas. Assim, conhecia Mendel como poucos mendelianos ou mendelistas, austríacos ou biógrafos do botânico.

Zé-Maria, no entanto, não compreendia tudo das ciências biológicas. Talvez porque lesse excessivo número de livrinhos de divulgação pseudocientífica, do tipo Como fazer enxertos, Novos métodos de implante dentário ou Vida e morte dos parasitas.

Maria não se incomodava com as manias de seu marido. Antes, se sentia orgulhosa da inteligência dele. Se alguém falava de plantas ou animais, ela se lembrava logo dele. “Fale com Zé-Maria. Ele é doutor em buganvílias. Sabe tudo de gafanhotos”.

Se José voltava para casa agarrado a um livrinho, Maria corria aos braços dele. “E agora, sabichão?” Ele ria e mostrava a capa: Assim se produzem gêmeos.

Unidos há alguns anos, José e Maria não tinham filhos. A culpa disso, ele garantia, não vinha dele nem da biologia. Ela retrucava — nem de mim. E o agarrava, como se abraçasse um livrinho.

Confuso, José vasculhava dicionários e enciclopédias, em busca de uma ordem de conhecimentos. Dos gêmeos chegava à mitologia e desta às constelações. “Se tivéssemos filhos — sonhava — eles se chamariam Castor e Pólux”. Dengosa, Maria se amuava. Não, não gostava nada daqueles nomes. Preferia Cosme e Damião. E desfiava um rosário de nomes de santos e mártires do catolicismo.

Cansado de conversas sem termo, Zé-Maria corria atrás de seres minúsculos. Coçava a cabeça, como se aninhasse piolhos. Vinham-lhe à mente os tempos de rapaz. As diversões, as mulheres, as doenças venéreas, os chatos. Revirava os livros à cata de parasitos, anopluros, insetos. Maria conchegava-se dele novamente. “Está lendo o quê, sabichão?” Ele soltava os parasitos e corria atrás de outra curiosidade. Voltava à cadeira agarrado a monstros xifópagos.

José parecia um cidadão muito normal, trabalhador, dedicado ao lar, sem vícios. Não freqüentava bares, não procurava mulheres, não fumava. Elogiavam-no na rua onde morava, na empresa onde trabalhava. Maria, no entanto, reclamava de tanta normalidade. “Vamos ao cinema?” Zé não gostava de cinemas nem de teatros nem de circos nem de zoológicos nem de igrejas. “É ateu?” Respondia com aulas de biologia. E à noite, cansado de anopluros, gêmeos e enxertos, visitava todos os canais da televisão, à cata de notícias bizarras, documentários científicos e filmes de horror. “Maria, vem ver isso”. O locutor falava do homem que havia introduzido no próprio ânus uma cenoura.

Noutras noites José se dedicava a rever desenhos e fotografias de seres anômalos: porcos com duas cabeças, hermafroditos, vegetais enxertados.

E ia para a cama, satisfeito. Maria, contudo, ainda o esperava. “E o porco?” Ele tentava dormir. “Coisas da natureza, mulher”. Ele ria: “Vem cá, meu porquinho de duas cabeças”.

Grunhiam por alguns instantes e depois caíam em sossego. No outro dia ela contava sonhos sem fim. Falava de borboletas azuis, anjinhos e outros seres alados. Ele resmungava, ia trabalhar e voltava coberto de parasitas.

“Você nunca me conta os seus sonhos”, queixava-se Maria. E acolhia-se ao peito de Zé-Maria. “Não tenho sonhos, ou não me lembro deles”. Lembrava-se de monstros xifópagos e queria buscar livros na estante. Com a ponta do dedinho, ela descobria o umbigo dele. E ria. “Sossega, Maria José”. Ela sossegava, mas voltava aos sonhos. “Eu também sonho com borboletas e anjos”.

José sonhava outros sonhos. Aqui devorado por ele mesmo. Ali multiplicado por mil. Ontem unido a Maria. Quatro pernas, quatro braços, duas cabeças. Um monstro. Coisas da natureza.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Pescoço de Girafa na Poeira, contos. Brasília: Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, 1999.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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