sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Estante de Livros (“Noites do sertão”, de Guimarães Rosa)

1. CONTEXTO E ESTRUTURA DA OBRA

Noites do Sertão reúne duas novelas — "Dão-Lalalão (o devente)" e "Buriti" — originalmente publicadas em 1956 dentro do volume Corpo de Baile, conjunto de sete narrativas que o autor posteriormente dividiu em livros independentes. A obra insere-se na fase de maturidade de Guimarães Rosa, entre a publicação de Corpo de Baile (1956) e Grande Sertão: Veredas (1956), consolidando sua escrita inovadora e a dimensão metafísica do sertão.
O título não é casual: a noite funciona como metáfora central — espaço de revelação, de mistério, de despertar do inconsciente e das verdades ocultas. Como observa-se no texto: "O sertão é de noite" — é sob a escuridão que as máscaras caem e a essência dos seres se revela.

2. ANÁLISE DE "DÃO-LALALÃO (O DEVENTE)"

Enredo e Narrador
Contada em primeira pessoa por Soropita, ex-jagunço que se casa com Doralda, mulher de passado livre — ex-"militriz", como o próprio texto sugere. A princípio, o amor é intenso e arrebatador; mas aos poucos, o ciúme toma conta do narrador, que deixa de viver no presente e passa a consumir-se por imaginações sobre o passado da esposa. A obsessão cresce até o desfecho trágico: Soropita mata Doralda, convencido de que ela o trai — sem que haja prova concreta.

TEMAS PRINCIPAIS

Ciúme e autodestruição
O drama não está na traição, mas na paranoia que tudo inventa. O que destrói Soropita não é a realidade, mas a sua própria imaginação. A novela expõe com crueldade como a insegurança pode se transformar em sistema de crença, onde cada gesto inocente é lido como confirmação de culpa.

Amor, desejo e condenação
A narrativa dialoga com o Cântico dos Cânticos bíblico — Soropita e Doralda como "Amado" e "Amada" — mas esse amor arquetípico é contaminado pela violência e pelo julgamento patriarcal. O desejo é ao mesmo tempo força sagrada e fogo que consome; o "devente" do subtítulo refere-se ao que vem à tona, ao que irrompe e devasta.

Olhar masculino e posse
Soropita não aceita que Doralda tenha existência própria anterior a ele. Reduz a mulher a propriedade cujo passado deveria ser apagado — quando não consegue, destrói o objeto. A novela é crítica à mentalidade que confunde amor com domínio.

Linguagem e estilo
O ritmo é febril, com repetições, nomes que cantam e ecoam — "Dão-Lalalão" é onomatopeia de sino, som que marca, que vigia, que anuncia a morte. A linguagem aprofunda a instabilidade mental do narrador.

3. ANÁLISE DE "BURITI"

Enredo e Personagens
A história se passa na fazenda Buriti Bom, propriedade de Liodoro, viúvo, com quatro filhos. A chegada de Lalinha — mulher jovem, de origem urbana, trazida por um dos filhos como esposa — reconfigura todas as relações. O que se desenrola não é um drama de ação, mas de tensões silenciosas: desejos não ditos, olhares, atrações que cruzam gerações e laços familiares.

- Liodoro — patriarca que sente reviver a juventude e o desejo perante Lalinha.
- Lalinha — catalisadora; não age deliberadamente, mas sua presença desestabiliza todos.
- Maria Behú e Maria da Glória — filhas, representam posturas diante da vida e da liberdade.
- Miguel — jovem que retorna à fazenda e percebe as transformações do espaço e das pessoas.

TEMAS PRINCIPAIS

Desejo que não tem nome
Ao contrário de "Dão-Lalalão", aqui nada é declarado. O conflito não vem da palavra, mas do silêncio carregado. O desejo transborda fronteiras: idade, parentesco, convenção. A novela mostra que a atração não se deixa comandar por regras sociais.

O sertão como espaço de transformação
A fazenda Buriti Bom não é apenas cenário; é ser vivo, respira e muda. A árvore que dá nome ao lugar é símbolo de força, raiz, continuidade — mas também de abalo: quando a ordem se desestrutura, o próprio espaço responde.

Olhares e múltiplas verdades
A narrativa é polifônica: não há um único foco; cada personagem vê a mesma realidade de modo diferente. O que é inocência para uns é provocação para outros. A verdade não é uma — é relativa, dependente de quem a conta.

Tradição e mudança
A chegada de Lalinha traz o mundo de fora para dentro. O velho mundo rural, estável, patriarcal, é abalado por uma presença que traz outra maneira de ser e de desejar. Não há vencedores nem perdedores — apenas a consciência de que nada permanece igual.

4. TEMAS COMUNS ÀS DUAS NOVELAS

Desejo 
Dão-Lalalão = Explosivo, possessivo, destrutivo 
Buriti = Sutil, difuso, transformador |

 Noite  
Dão-Lalalão = Cenário de obsessão e crime 
Buriti = Tempo de revelação e percepção profunda

Olhar 
Dão-Lalalão = Olhar único, fechado, que julga 
Buriti = Olhares múltiplos, que se cruzam e se confundem 

Verdade 
Dão-Lalalão = Imposta pela paranoia — cega e fatal 
Buriti = Relativa, parcial, nunca totalmente dita 

Passado 
Dão-Lalalão = Fantasma que não se deixa sepultar 
Buriti = Herança que se renova e reinterpreta 

Mulher 
Dão-Lalalão = Vítima do olhar que a possui e destrói 
Buriti = Catalisadora que desestabiliza sem querer 

Ambas giram em torno da mesma pergunta: o que acontece quando o que sentimos não cabe no que dizemos?

5. ESTILO E INOVAÇÃO LINGUÍSTICA

Guimarães Rosa reinventa a língua:
Neologismos e arcaísmos — palavras inventadas e resgatadas, que dão ao texto som e densidade próprias.
Ritmo oral — a escrita imita a fala, a cadência do sertanejo, com pausas, repetições, cantos.
Concentração poética — cada frase pesa, cada palavra tem função; não há o que seja supérfluo.
- Metáforas orgânicas — a natureza não é decoração, está entrelaçada ao destino dos personagens.

O autor escreveu: "Os meus livros em essência são 'antiintelectuais' — defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração" — e é por essa via que se percorre Noites do Sertão: mais sentindo do que compreendendo.

6. SIGNIFICADO E LEGADO

Noites do Sertão não é livro de grandes feitos ou aventuras externas — é livro de viagens para dentro. Mostra que o sertão verdadeiro não é apenas geografia, mas estado da alma: onde o amor pode virar fúria, onde o desejo reescreve os laços, onde a noite traz não só escuridão, mas a clareza de quem finalmente vê — mesmo que tarde demais.

- Soropita nos alerta: a imaginação sem freio é veneno
- Buriti nos lembra: o que não se nomeia nem por isso deixa de existir

Juntas, as novelas formam um diptico sobre a força avassaladora do sentimento humano — seja ele ciúme ou anseio — e sobre como cada um de nós habita a própria noite, às vezes iluminada, às vezes perdida.

7. CONCLUSÃO

Noites do Sertão é uma obra sobre o que sentimos e não sabemos nomear. Em "Dão-Lalalão", a impossibilidade de confiar leva à destruição; em "Buriti", a impossibilidade de falar gera um silêncio que reescreve laços. Juntas, as novelas mostram que o ser humano é complexo, contraditório — e que a noite, metáfora de tudo o que não vemos com clareza, é onde às vezes se descobre mais sobre si mesmo do que em pleno dia.

8. RESUMO

1. "DÃO-LALALÃO (O DEVENTE)"

Soropita conhece Doralda, mulher de passado ligado à vida pública, e a retira desse meio para casar com ela. No início, o amor é intenso e pleno — ele a vê como algo precioso, único. Mas aos poucos, o ciúme obsessivo toma conta: não suporta que alguém a reconheça, que se lembre de quem ela era antes de pertencer-lhe.
A paranoia cresce sem que haja prova real de traição. Tudo — um olhar, um sorriso, uma palavra — é interpretado como confirmação de infidelidade. Soropita deixa de viver no presente e passa a ser consumido pelo passado que não consegue apagar. A imaginação devora a realidade.
No desfecho, em meio à noite, mata Doralda, convencido de que ela o trai. Depois do crime, fica com a certeza de ter agido com justiça — mas também com o vazio e a culpa que não consegue nomear. O som que dá título ao livro — "Dão-Lalalão", como o badalar de um sino — marca não só a posse, mas a morte e o lamento.

Mensagem
A tragédia não vem de fora, nasce dentro: a insegurança e a necessidade de dominar o outro são capazes de inventar uma realidade e destruir quem se ama. O amor confundido com propriedade torna-se prisão e, por fim, instrumento de morte.

2. "BURITI"

A história se passa na fazenda Buriti Bom, cuja árvore imponente é símbolo de raiz, força e continuidade. A chegada de Lalinha — estrangeira, de outro mundo — reconfigura todas as relações sem que ela procure fazê-lo.
Desenrola-se um drama de tensão:
Liodoro, que costumava agir sem disfarce, passa a sentir por Lalinha um desejo que não pode declarar. Lalinha, isolada, desperta olhares e sentimentos cruzados entre os homens e mulheres da casa. Miguel, que conhece o lugar desde criança, percebe as transformações invisíveis — o que muda nas pessoas, no ar, na própria terra
Ninguém declara abertamente o que sente. Não há assassinato nem confronto direto. O conflito vive no não dito: no olhar que se demora, na palavra que se cala, na noite que aproxima o que a luz separa. Cada personagem reage à sua maneira — uns recuam, outros se calam, outros sonham em segredo.
Ao final, a fazenda continua de pé, o buriti permanece — mas ninguém é o mesmo. A presença de Lalinha mostrou que o desejo não obedece a regras de parentesco, idade ou convenção; e que a vida, mesmo contida, segue seu curso imprevisível.

Mensagem
Há verdades que não precisam ser ditas para existir. O que não tem nome nem por isso deixa de agir. A chegada de alguém diferente pode revelar o que estava adormecido em todos — e o reconhecimento desses desejos, ainda que silencioso, já é transformação.

Aparecido Raimundo de Souza (Êxtase)

“Eu nem sonhava te amar desse jeito, hoje nasceu novo Sol no meu peito, quero acordar te sentindo ao meu lado, viver o Êxtase de ser amado”.
(“Êxtase”, de Guilherme Arantes) 

NÃO É BARULHO. Tampouco algo que se possa classificar como tumulto, desordem, alvoroço ou zoeira descomedida. Também, do mesmo modo, não é um evento, tipo uma solenidade comemorativa ou uma concentração semelhante a uma festa repleta de blandícias. A maioria das pessoas, carregam na mente, ou melhor dizendo, pensam e imaginam que o êxtase é um grito eufórico, uma explosão excitada, um momento de exultação que dura pouco e depois aflora e se esvai como uma folha seca em meio a um vendaval. Nada disso! 

O verdadeiro êxtase, aquele considerado jubiloso, ou revestido de jovialidades e alacridades nada mais é que silêncio. Isso mesmo. Silêncio. É aquele instante mágico em que o tempo entra num desvio da caminhada e estanca, para ficar quieto, se condescende, como se o mundo inteiro à nossa volta tivesse segurado a respiração só para que o nosso “eu” interior se ligasse e percebesse que está vivo. Algumas vezes, confesso, já senti na pele esse estado contemporizado, harmonicamente ligado a um relaxamento agradável de regozijos sem explicações. 

E esse instante pode acontecer assim do nada, ou diante de um pôr do sol que pinta o céu de cores inexplicáveis que a gente nem sabia que existiam.  Pode ser, e de fato é, também no encontro de um olhar meigo e cativo que, sem dizer nada, fala tudo e o mais espantoso, se mostra, se amolda sem precisar de uma única palavra. Pode ser mesmo o som de uma risada obsequiosa que acalma o âmago como uma canção antiga, daquelas dos tempos da nossa infância, O êxtase não corre, não sai desembestado, não exige nem clama por pressa. Ele chega de mansinho, sem fazer barulho, sem fazer alarde, tipo assim, como quem não quer nada, e de repente a gente percebe quando ele em voz quase inaudível sussurra: “aqui estou, aqui sou, aqui respiro, aqui vim para fazer morada e ficar”. 

Em contrapartida, o êxtase se molda naquela sensação indescritível de que, por um momento curto e eterno, a nossa alma, a nossa vida, o nosso interior pertence ao universo inteiro. Descobrimos, espantados e atônitos, que não há passado pesando nos ombros, nem futuro causando ansiedades ou descambando para dissabores. Nessa hora, percebemos, tomamos consciência de que só existe o agora, o “já” inteiro e perfeito, como uma pétala que sumiu de algum jardim de dentro de nossa vida atribulada e pousou suavemente sobre as águas tranquilas de um rio ao sabor da mais pura e plena felicidade.

Esse instante lindamente mágico, não se explica com palavras, mas se sente em cada pedacinho do corpo. É como se, naquele momento, a gente não estivesse mais apenas nesse mundo, mas sim com o planeta inteiro aos nossos pés. A gente aprende que os limites entre o nosso ser e tudo o mais ao redor, parecem se dissolver, se desmanchar como uma névoa que o sol vai dissipando devagarzinho, sem pressa, sem alardes, sem intenção de ter ou de ser aquele afoito desesperadamente aterrador.

Pode durar todo esse processo, um segundo, e mesmo assim parecer para nós, mortais, uma eternidade. 

A bem da verdade, não importa, não faz diferença quanto tempo fica, quanto tempo dura. O que fica é a marca indelével de uma paz acolhedora. Uma tranquilidade de onde a gente sai diferente, de onde a gente se desagrega como se houvesse bebido a água pura de uma nascente mágica que renova a alma. Aprendi, aos setenta e três anos, que nessa hora, invade a nossa mente aquela certeza quieta e calma de que a vida, apesar de todos os pesares, se transforma como num passe de mágica, em momentos inebriantes e acolhedores, que valem por si mesmos, que chegam sem explicação e permanecem sem motivo, apenas...  apenas porque existem.

O êxtase não é uma precipitação desesperada ou desenfreada de fuga. Pelo contrário, é a presença total da paz eterna e duradoura. É quando a gente está tão inteiro e empaturrado no “agora”, que esquece de perguntar o motivo, o "por quê?". E apenas tudo ao nosso redor se abre num sorriso, sem sabermos explicar por que tudo se debulha em contrair os músculos faciais explodindo felicidades plenas. Porque, nesse instante, e só nesse instante, devemos entender e compreender, nada mais é ou se faz necessário. Basta apenas vivermos, sentirmos, gozarmos este momento. Trazermos do fundo da alma em festa, aquela música melodiosa que toca sem instrumentos, todavia que soa diretamente dentro do coração.

É quando tudo ao nosso redor passa com suavidade perene, tipo uma sensação aprazível que não some completamente. E que ao final, deixa um brilho nos olhos, uma leveza no peito, uma certeza doce no corpo cansado. Isso é estar vivo de verdade. A gente segue em frente, carregando aquele raio de luz dentro de nós, esperando o momento certo dele brilhar efêmero outra vez... e outra vez, e outra vez, indefinidamente... 

O êxtase a bem da verdade, o êxtase sem tirar nem pôr, acreditem, o êxtase é bastante semelhante àquela música composta por Guilherme Arantes. Indo mais além, é a nossa alma em toda a sua exaltação mística gritando, ou mais acentuadamente berrando, se expandindo em um querer incomensurável aos quatro cantos do mundo, ou melhor escrito nesta crônica, é o nosso mais profundo promovendo galhardias e a Paz que buscamos. Nessa hora, ouvimos a sua voz delicada se fazendo ser ouvida: “Obrigado, muito obrigado por estar aqui”. 
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O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade). É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. 

Fontes: 
Texto enviado pelo autor. 
Excerto biográfico por Jfeldman para o blog.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Dorothy Jansson Moretti (Tertúlia da saudade)


 A brisa afasta a cortina,
e uma nesga de luar,
fugindo à fria neblina,
vem aos meus pés se abrigar.

A carícia do Nordeste
às lindas praias morenas
é magia que reveste
as suas noites serenas.

Acorda a nossa consciência
o drama da moto-serra
que mesmo em sua inocência,
sela o destino da Terra.

A existência é definida
não por azar, mas por sorte:
quanto mais cheios da vida,
mais perto estamos da morte.

- Ai, doutor, não acredito...
Picada por um "barbeiro"?
Veja só, pois o maldito
me disse que era engenheiro!

A lua, em passo indeciso,
muda o andante da sonata,
pondo pausas de improviso
no pentagrama de prata.

A nova rica não topa
sugestão de amigo seu.
Diz que não vai para a Europa
porque não fala europeu.

"Ao céu vai o bem dotado.
E o criminoso aonde vai?"
Diz o filho do advogado:
"Não sei... isso é com meu pai..."

Após trabalho incessante,
num pipilo, o passarinho
anuncia, triunfante,
a festa de um novo ninho.

A rosa, o lírio, a violeta
dão o tom com seus olores,
e o jardim abre a retreta
em sinfonia de cores.

A roseira solferina
num cantinho do jardim,
guarda os sonhos da menina
que o tempo mudou, em mim.

Até por gênios deixada,
a floresta a vida encerra,
e deserta, devastada,
sela o destino da Terra.

Bem outro seria o clima
se em tantos gritos cruzados,
fosse ouvida, lá de cima,
a prece dos desgraçados!

Cheguei tarde para a festa...
De véu, grinalda e um sorriso,
ela é a imagem que me resta
de um pretenso paraíso.

Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí, à toa,
e somos nós que voamos.

Dizem que amas de mentira,
mas gosto de acreditar,
e até que um dia eu confira,
vou-me deixando enganar.

Do coveiro, a noiva, rente
É tão magra o estrupício
Que ele diz: "Literalmente:
Casei com os ossos do ofício."

Do que agitou nossas almas,
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados!

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.

Em cada tarde a cair,
vejo a vida em agonia,
aos poucos se despedir
na morte de mais um dia.

Envolto em nívea camada,
sonha, em repouso, o jardim.
Vem o sol, derrete a geada…
Negro, o sonho chega ao fim.

- Este bolso é meritório,
nunca viu nada roubado!
Perguntam lá do auditório:
- Terno novo, Deputado?

Eu me faço de blindado.
Amor? Bobagem... Pieguice...
Meu medo é que, apaixonado,
eu me envolva na tolice.

Fala a gota que se esconde
no cálice de uma flor;
fala o mar, tudo responde,
quando fala o Criador,

Garoto à fome minguando,
na calçada sentadinho,
e o vendedor apregoando;
"Olha gente, o pão quentinho!”

Guardo os bons tempos da vida,
e os maus procuro esquecer,
mas a memória, atrevida,
teima em roubar-me o prazer.

Guri do boné virado,
estilingue... palavrão...,
hoje, vigário ordenado: –
Pax vobiscum, meu irmão! 

Irrequieto, o molecote,
no jeitinho turbulento,
parece um mini-quixote,
perseguindo um cata-vento.

Matuto filosofante
vendo filme que arrepia:
“E esse era o ”inferno de Dante...”
“Imagine o de hoje em dia!”

Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos...
e eis-me sonhando outra vez!

Na capelinha da aldeia,
os contornos esfumados
brilham à luz da candeio
da fé dos seus devotados.

Na praça, neste banquinho,
passou correndo a amizade;
sentou o amor, só um pouquinho,
ficou pra sempre a saudade.

Nas águas de um turvo horrível
espelha-se um céu cinéreo,
onde a ganância, insensível,
já pôs também seu império.

Na taça de cada dia,
a transbordar de amargura,
cai um pingo de alegria,
e o fel se torna doçura.

Nem sonhos maus acontecem
nas noites mais tormentosas.
Se teus abraços me aquecem,
durmo num leito de rosas.

No mar a lua se espelha,
mas o gigante, enciumado,
reduz a cocos de telha
o lindo disco prateado.!

Nossa terra e a terra lusa,
na doce língua que as liga,
são cordas nas mãos da musa,
cantando a mesma cantiga.

Num estranho automatismo,
lá do fundo, os meus gemidos
voltam ò tona do abismo,
procurando os teus ouvidos,

O amor, ao termo da vida,
deixa na pauta apagada
uma só nota sentida,
canto de cisne... mais nada.

O cara dentro do armário
diz: “Não é o que você pensa”...
“Eu já sei”, responde o otário,
“o gajo é o lá da despensa”.

Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés de um Nada.

Os erros que fiz na vida
quero apagar sem alarde
mas, a consciência revida
e, aos brados, me diz: é tarde!

O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.

Pancada de chave inglesa
amontoou o Garcês,
que para a própria surpresa,
acordou falando inglês!

"Para sempre!" Será mesmo?
Não importa a duração;
é promessa feita a esmo,
mas aquece o coração.

Parecemos - tu chorando
e eu num discreto lamento -
dois violinos ensaiando
a charanga atroz do vento.

Por que é que eu te chamo, Nei,
de 'porquinho' ... faz favor?
É que ainda eu não cheguei
ao tamanho do senhor...

Presença eterna do ausente,
perfume em frasco vazado,
saudade é sombra incoerente
num coração apagado.

Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.

Que bela seria a vida
se, acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!

"Que tanto estudas, Leal?"
"Geografia, Seu Garcês."
"Humm... e onde está Portugal?"
"Na página cento e três."

Se enfrento a agressão do frio,
do gelo pelos caminhos,
é porque me refugio
sob o sol dos teus carinhos.

Se me abrigo no teu braço
das noites na travessia,
até da insónia, o cansaço
torna doce a companhia.

Sem motivo, sem palavra,
no adeus insinuado em calma,
deste o golpe que escalavra
os pilares de minha alma.

Sinto, e é quase transparente
que estás a te divertir,
mas falta ao meu ser carente
coragem pra conferir.

Somos tão bem afinados,
que, em termo gramatical,
podíamos ser chamados
"encontro consonantal"!

Talvez um simples "Bom dia"
dito em casual diapasão,
seja a nota de alegria
que faltava ao teu irmão.

Tecendo trovas ao vento
nascidas do coração,
num pouco de luz e alento,
Eu disfarço a solidão.

Toda enfeitada, a capela
faceira põe-se a esperar
de algum artista a chancela
que a venha imortalizar.

Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!”

Triste e sozinha eu me deito,
mas encontrando um desvão,
a lua invade o meu leito,
e afugenta a solidão.

Uma certeza me encanta
e traz minha alma aquecida:
Se o orvalho reanima a planta,
a fé é o orvalho da vida.

Vendo, em mudo sofrimento,
a vida me desertar,
entendo, enfim, porque o vento
se recusa a silenciar.

Você, absurda e volúvel,
que ora quer, ora recusa,
é, o grande enigma insolúvel
em minha vida confusa.

"Vovô, feche os olhos já!
Vi papai dizendo à Guida
que quando você fechá,
vamo ficá bem de vida!”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Dorothy Jansson Moretti (1926 – 2017)
DOROTHY JANSSON MORETTI foi uma das mais refinadas e importantes poetisas e trovadoras da literatura paulista e brasileira. Amplamente respeitada no meio literário, destacou-se pela maestria em formas poéticas fixas, em especial o soneto e a trova, além de sua profunda dedicação à preservação histórica e cultural. Nasceu em 1926, em Três Barras/SC, filha do renomado fotógrafo sueco Claro Jansson (cuja obra documental é essencial para a história da Guerra do Contestado). Faleceu em 2017, em Sorocaba/SP, aos 91 anos de idade. Mudou-se para Itararé/SP com apenas dois anos de idade. Mais tarde, residiu no Paraná, passando por cidades como Castro e Londrina. Em 1956, radicou-se definitivamente em Sorocaba/SP, onde passou a maior parte de sua vida. Formou-se em Letras na capital paulista e atuou por muitos anos como professora de Inglês. Escreveu artigos, crônicas e poesias de forma assídua para jornais e periódicos das cidades onde morou, incluindo O Itararé, O Guarani e os jornais sorocabanos Cruzeiro do Sul, Diário de Sorocaba e Folha de Sorocaba. Também atuou fortemente na preservação e divulgação do acervo fotográfico de seu pai sobre o sul do Brasil.
Começou a escrever aos 16 anos, focando inicialmente em acrósticos. Com o tempo, desenvolveu uma técnica refinada para o soneto e para a trova. Teve uma faceta marcante como autora de hinos. É dela a autoria da letra do Hino Oficial do Município de Itararé (musicado por Gerson Gorski Damaceno). Livros Publicados: Entre suas obras individuais e participações em antologias, destacam-se: Chá da Tarde (2006) – Livro dedicado exclusivamente a trovas; Instantâneos (2012). Foi um nome central no associativismo literário do interior paulista, vinculando-se a várias instituições importantes: Além da entidade troadoresca a Associação Paulista de Imprensa (API). Participou ativamente dos movimentos e academias literárias locais de Sorocaba e região, promovendo saraus. Recebeu a honraria na categoria "Poesia" pelo seu livro Chá da Tarde em Sorocaba. 
    A importância de Dorothy reside ao manter viva a trova, ao compor o hino de Itararé e colaborar ativamente com a imprensa do interior, Dorothy consolidou-se como um pilar de identidade cultural paulista e regional, unindo sensibilidade lírica com amor pela terra.  

Mensagem na Garrafa 215 = Orfanato


Arthur Thomaz 
Campinas/SP

Quando você achar que alcançou uma estabilidade, seja no campo profissional, familiar ou pessoal, tire um dia inteiro da sua existência e vá visitar um orfanato.

Entre em contato antes com a diretoria, informe-se do número de crianças e quantas são meninas e meninos.

Compre uma bonequinha de pano para cada menina e um caminhãozinho de madeira para cada menino.

Passe em uma loja e leve doces e salgados suficientes para não faltar a nenhum deles. Nessa hora, lembre-se de que essas crianças têm poucas chances de comer estas guloseimas.

Ao chegar, repare no olhar de esperança dessas criaturinhas em que você veio até ali para levá-las. 

Quando você  entregar um por um dos presentinhos, repare na ansiedade deles em agarrar cada  brinquedo, como se alguém os pudesse tirá-los deles.

Sinta quando elas o abraçarem, o temor de que aquele abraço se desfaça e elas voltem à solidão do abandono.

Procure passar o maior tempo possível com elas, almoce junto e tenha o dia mais emocionante de sua vida.

Ao sair, não se envergonhe em chorar por ter se deparado com um mundo que você nem sonhava existir, e nada glamoroso como o seu.

Retorne à  sua vida e perceba que ela jamais será a mesma.

Sonhe com aqueles olhares carentes pedindo que alguém as leve para um lar.

Somente volte lá para levar uma ou mais delas para a sua família.

Neste dia, você poderá dizer que agora realmente alcançou  plenamente a sua estabilidade existencial.

(Texto enviado pelo autor)

Célio Simões* (O Nosso Português de Cada Dia) “Camisa de onze varas”

Quem informalmente ainda não ouviu sobre alguém ter feito uma bobagem sem tamanho e por causa disso acabou metido em uma “Camisa de onze varas"?... A expressão significa exatamente isso. Que o sujeito, por interesse, curiosidade ou mesmo de graça, se envolveu em um problemão, assumiu compromisso muito superior à sua capacidade de realização ou entrou sem necessidade em uma situação difícil, de complicada e impossível saída. 

Em resumo, a criatura, que nada tinha a ver com a bronca alheia, meteu a colher enferrujada, assumiu a responsabilidade e como também dizem, “entrou numa fria”, “arranjou sarna para se coçar”, “cutucou a onça com vara curta”, enfim... “achou pro dele”... 

Sua origem remete ao conceito histórico de uma insuspeita medida de comprimento linear, subdividida em outras unidades antropométricas baseadas no corpo humano antigamente utilizada - e também de um conceito punitivo, de penalidade e execração públicas. 

Como medida de comprimento tradicional utilizada em Portugal - e no Brasil até a adoção do sistema métrico decimal no século XIX - uma vara equivalia a 110 centímetros. Assim, uma camisa de onze varas, teria pouco mais de absurdos 12 metros de pano e isso não é pouca coisa!

É considerada avantajada uma camisa deste tamanho? Claro que sim! A título de simples cotejo, basta lembrar que uma camisa masculina de um adulto (seja tamanho M ou G) consome geralmente entre 1,5 e 2 metros de tecido. Assim, 12 metros equivalem de 6 a 8 vezes o padrão de uso de um homem feito, destinada a uma estrutura corporal gigante, um figurino cênico exagerado ou ainda, uma peça artística monumental. Imensa, anedoticamente é quase a lona de um circo, ou a somatória da vela grande mais a bujarrona de uma igarité...

Em sua conotação punitiva, duas explicações históricas justificam essa túnica gigante. Durante o período da Inquisição Episcopal (a partir de 1184) traduzia a atuação dos tribunais eclesiásticos criados pela Igreja Católica, posteriormente controlados por coroas monárquicas, com o objetivo de identificar, julgar e punir pessoas acusadas de heresia, que professavam crenças, doutrinas ou práticas contrárias aos ensinamentos da fé cristã. Era a vestimenta (também denominada de “alva") imposta aos condenados nos rituais de punição pública. Aparecer vestido com essa peça, significava já estar sob séria condenação ou ainda, em processo de severo julgamento. 

Também a usavam compulsoriamente os condenados à morte, depois de serem submetidos a cruéis torturas, como revelam certas tradições do antigo direito penal, pois vestir um camisolão excessivamente longo, pesado e sufocante, antes de subir ao patíbulo ou arder nas fogueiras do Santo Ofício, servia tanto para imobilizar o réu, quanto para humilhá-lo publicamente. 

Assim, por envolver o uso de uma roupa absurdamente incômoda, associada quase sempre a um destino trágico, o ato de "se meter" nessa abominável túnica ou camisa virou metáfora para descrever situações nas quais a pessoa se encalacrou de vez, numa complicação que em princípio poderia ter sido evitada.

No imaginário diálogo entre dois conspiradores, durante o célebre levante urdido por civis, sargentos, cabos e soldados do Exército, que numa noite aprisionaram toda alta oficialidade do antigo 4.º Grupo de Artilharia de Costa, única tropa fora de São Paulo que aderiu à Revolução Constitucionalista de 1932, o genial escritor e mestre da ficção Ildefonso Guimarães (“Os dias recurvos”, p. 26) utilizou com admirável criatividade essa expressão:

“- Sinceramente Heráclito, o que você acha de tudo isto? – indaga Pereira, rompendo, finalmente, o mutismo de ambos. Será que no frigir dos ovos não vamos acabar metidos numa camisa de onze varas?

- Pela parte que me toca – responde o outro – irei até o fim da linha para ver que bicho dá. Se nada tiver a ganhar, a perder é que não tenho, porque f.... eu já estou, de qualquer maneira. Tudo o que pode acontecer, para mim é melhor do que não tentar qualquer coisa para acabar com a catinga de barata (**) que empesta o nosso Estado há mais de dois anos”.

Na MPB, a excelente cantora Alcione, em "O samba sempre foi samba", traz a expressão no verso "O traje que o samba usa / é camisa de onze varas", utilizando a imagem para ilustrar as dificuldades, a resistência e a história de luta do samba ao longo do tempo. Também aparece ela no Teatro de Revista, em musicais do século XIX e do início do XX (espetáculos citados na Revista Brasileira de Música da UFRJ), associando a vestimenta a enredos e casos populares. Está presente também em registros fonográficos antigos, no acervo da discografia brasileira com o título "Camisa de Onze Varas" (gravações no selo Victor, dos anos iniciais do século XX).
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(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Formado em Direito pela UFPA e pós-graduado em Direito do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). É membro da Academia Paraense de Letras, de Letras Jurídicas, de Jornalismo, Artística e Literária de Óbidos, Literária Interiorana, de Letras e Artes da Polícia Militar do Pará, da Confraria Brasileira de Letras de Floresta (PR), do Instituto dos Advogados do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós e da União dos Juristas Católicos de Belém. É autor de seis livros e recebeu três prêmios literários.

(**) O general Joaquim de Magalhães Cardoso Barata  foi um militar de carreira e político, nomeado interventor federal no Pará de 12/11/30 a 12/04/35, governando com poderes quase absolutos, pois se vivia no País em regime de exceção, por isso colecionou grandes amizades e muitas inimizades. “Catinga de barata”, em alusão ao seu sobrenome, era uma expressão muito usada pelos seus ferrenhos adversários, para espezinhá-lo ou a seus fiéis adeptos. 

Fonte:
Texto, biografia e imagem enviados pelo autor. 

A. A. de Assis (City tour na Blutopia)

De aeronave, conhecendo o lugar onde mora o azul.

Atenção, senhoras e senhores, cabine preparada para pouso. Bem-vindos à Blutopia – o lugar onde mora o azul.

Da porta da aeronave fomos levados diretamente a uma plataforma onde nos esperava para o primeiro city tour um veículo sem piloto, sem rodas, sem ruídos, movido por um tipo de energia que em nada prejudicava o entorno.

Ao longo do percurso fomos observando a paisagem: muito verde, casas sem muros,  nenhum policial nas esquinas, tudo muito limpinho. Fizemos algumas paradas para conhecer de perto os marcos principais. A certa altura paramos diante de um prédio grande, antigo mas bem conservado. O guia da excursão falou:

– Este edifício foi inicialmente um presídio; hoje é um grande espaço equipado para a prática de múltiplas atividades culturais, artísticas e esportivas. É preservado como símbolo de uma sábia reforma educacional que envolveu desde a escolinha das crianças até as universidades e garantiu o sucesso de uma nova política adotada para a reabilitação das pessoas outrora chamadas “criminosas”.

– Reconheceu-se que alguns seres humanos, por motivos diversos, não tinham condição de viver livremente, visto que constituíam grave perigo para a sociedade: roubavam, matavam, estupravam, cometiam maldades de todo tamanho. Seria então necessário isolar essas pessoas a fim de torná-las sociáveis.

– A primeira medida foi endurecer as penas. Isso diminuiu consideravelmente a criminalidade, contudo não foi suficiente. A providência seguinte foi estabelecer que todo juiz tivesse formação não só em direito, mas também em psicologia. Desse modo os pacientes (antes chamados “réus”) passaram a ser avaliados não apenas pelos delitos cometidos, mas principalmente pelas razões que os levaram a delinquir.

– Dentro dessa mesma política, as cadeias e as penitenciárias foram transformadas em clínicas e hospitais especializados na cura de desvios psíquicos e desajustes sociais. No início foi difícil. Muitos diziam que aquilo seria inviável, que seria uma perda de tempo, que quem nasce torto morre torto, coisas assim.

– Porém deu certo sim. Duas décadas após a experiência ser colocada em prática, não havia mais na Blutopia (por desnecessidade) nenhum policial, nenhum guarda de trânsito, nenhum agente de segurança. Somente uma corporação formada por socorristas que ajudam a população em casos de intempéries e outras emergências.

– Hoje somos conhecidos como “um lugar azul”.

Fonte:
Portal do Angelo Rigon. 25/09/2026.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Amilton Maciel Monteiro (Semeando Trovas)

 
1
A alegria das crianças
faz tão bem a todos nós,
renovando as esperanças
dos pais, dos tios e avós!
2
A beleza da floresta
é tamanha aos olhos meus
que ao fitá-la, só me resta,
dar muitas graças a Deus!
3
Abraço a Literatura
sempre com muito prazer,
pois sua desenvoltura
é que me ajuda a crescer!
4
A estrada da minha vida
é cheia de sobe e desce,
mas na subida ou descida
um sol radiante aparece!
5
Ainda bem que a Ecologia
está educando a gente
e, mais dia, menos dia,
só haverá gente decente!
6
Amigos também são Anjos
com que Deus cuida de nós;
eles sempre têm arranjos
que desatam nossos nós…
7
A natureza agredida
não se defende e nem xinga,
mas no decorrer da vida
cedo ou tarde, ela se vinga.
8
A noiva diz que "ele aceita"
e vai se casar feliz,
porque está bem satisfeita:
achou o noivo que quis!
9
Aprendi, vendo um faquir,
algo que ninguém me disse:
é importante saber rir
com a própria caduquice!
10
A vida já me ensinou,
tal qual um bom professor,
que, quase tudo que eu sou,
aos outros devo o favor!
11
Céu calmo, rede macia,
no peito um grande calor...
Você falava, eu ouvia
embriagado de amor!
12
De bom exemplo um só grama
vale muito, muito mais,
que uma arenga que se inflama
com mil conselhos banais.
13
De fato, não há ciência,
pois é caso constatado,
somos todos consequência
do que fomos no passado.
14
Eu oro a Deus todo dia
pedindo paz em meu lar
e muita sabedoria
em meu agir e falar!
15
Há um farol em teu olhar
que ilumina a minha vida;
sem ele (estou a cismar),
ficarei cego, querida!
16
Inteligência apurada
tem o meu cão lavrador;
só olho, sem dizer nada,
e ele para ao meu dispor!
17
Inteligência maior
que eu possuo é a do meu corpo;
sempre me aplica de cor
qualquer tipo de anticorpo!
18
Juntemos as nossas mãos
para elevar nossa Terra,
que também é dos irmãos
com maravilhas que encerra!
19
Meu barquinho de papel
não só conduz ilusão,
vagando de déu em déu,
te leva  o meu coração!
20
Minha maior alegria
foi saber que Deus me ama!
Isso é tudo o que eu queria,
para por fim ao meu drama!
21
Não importa a cor da pele
e nem a força dos braços;
mais vale o que nos impele
aos amorosos abraços!
22
Não suporto mais o gato,
um xodó do meu vizinho,
que ao invés de comer rato,
quer caçar meu canarinho!
23
Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
24
Nossa vida é mesmo assim,
qual um rolo de papel...
quanto mais perto do fim,
mais dispara o carretel!
25
O clarão desse luar,
de tom azul-celestial,
me lembra teu meigo olhar
tão profundo e divinal!
26
O fogo do teu amor
é lindo e polivalente,
que amacia o trovador
e arrebenta até corrente!
27
O medo é perturbador
e afeta a nossa razão;
faz que coisas sem valor
pareçam mais do que são.
28
Onde o chão tem muita pedra
é difícil cultivar;
o que se planta não medra
e nem adiante adubar!
29
O porte de uma palmeira
me fascina e até me assombra,
pois apesar de altaneira
a ninguém ela faz sombra!
30
Pachorra não é fobia
de trabalhar obrigado;
penso que seja mania
de se achar sempre cansado.
31
Paraíso ou Liberdade?
Eis minha grande questão!
Placas de Rua em verdade
perturbam o meu coração!
32
Pode pintar na fumaça...
Pinte o sol onde quiser,
mas duvido que ele faça
brilho igual ao da mulher!
33
Por sentir-me inacabado,
tenho que me retocar,
pois quero estar alinhado
para levá-la ao altar!
34
Procure a felicidade
que sempre existe em doar-se
a quem tem necessidade.
Mas sem alarde. Disfarce...
35
Qualquer coisa feito bola
que os guris possam chutar,
fez do futebol escola
do esporte mais popular!
36
Qual vertente transbordante
sob os fortes temporais,
meu peito não é bastante
à enxurrada de seus ais!
37
Quanto mais vivo, mais creio,
pelo que vejo na vida,
que só o amor sabe o meio
de curar alma ferida!
38
Quem busca a Felicidade
acha mil bifurcações,
mas siga a fidelidade...
Não tem contra-indicações.
39
Quem quiser bem conhecer
alguém em profundidade
basta só lhe conceder
um pouco de autoridade...
40
Quem vê o verde da mata
e esse céu da cor de anil,
cheio de araras, constata,
só pode ser o Brasil!
41
Quer saber por que razão
 eu uso tanto “por quê”?
 Só tem uma explicação:
 porque rima com você!
42
Se amamos todos a vida
(ninguém deseja ser morto...);
que estupidez essa lida,
dos que defendem o aborto!
43
Sinal de maturidade
de alguém em qualquer momento
é manter serenidade,
se lhe assalta o sofrimento.
44
Todo dia nós chegamos
mais perto da eternidade
e deixamos nossos ramos
formando a posteridade!
45
Tomara Deus eu consiga,
para melhorar meu ser,
agir tal qual a formiga
que do querer faz poder!
46
Um casamento feliz,
sem danos ou dissabores,
é feito, como se diz,
de dois bons perdoadores.
47
Vate sem inspiração
é igual à faca sem corte,
pior que braço sem mão
e riqueza após a morte!
48
Velho trem me faz lembrar
os meus tempos de menino,
em que eu me punha a cismar
qual seria o meu destino...
49
Vendo este mar doce e calmo,
como o seu quadro retrata,
penso em Deus e rezo um Salmo
por minha vida pacata!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Amilton Maciel Monteiro (1931)
AMILTON MACIEL MONTEIRO é um proeminente advogado, professor, historiador, poeta e trovador brasileiro. Conhecido no meio literário como uma das vozes mais ativas do Vale do Paraíba, ele dedicou grande parte de sua produção intelectual a resgatar e preservar a história e os grandes nomes da região de São José dos Campos. Nasceu em 1931, na cidade de Guaratinguetá/SP,  Mudou-se para São José dos Campos/SP em 1959. Fixou residência definitiva na cidade, onde viveu por mais de meio século e construiu toda a sua vida familiar e profissional. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1969 pela então Faculdade de Direito do Vale do Paraíba. Atuou como advogado e obteve aprovação em concurso público para Juiz do Trabalho. Trabalhou durante muitos anos como funcionário do Banco do Brasil, de onde se aposentou. Desenvolveu carreira como professor universitário. Lecionou disciplinas como Direito Constitucional e Teoria do Estado por mais de dez anos na instituição onde se formou (atual Univap - Universidade do Vale do Paraíba), além de ministrar aulas no ensino básico estadual. Colaborou também com o CTA (Centro Técnico Aeroespacial). 
Começou a escrever suas primeiras poesias e sonetos na juventude, influenciado por professores e por sua irmã mais velha, Maria Antonia. Seu primeiro trabalho marcante foi o soneto "Súplica". Destacou-se tanto na prosa de caráter histórico quanto na poesia clássica (sonetos) e na trova. Atuou ativamente em congressos, saraus e grêmios literários do Vale do Paraíba. No universo da trova, é fortemente ligado aos movimentos trovadorescos, representando a vertente poética joseense. Conquistou diversas premiações, classificações e menções honrosas em concursos de trovas de âmbito nacional e regional. Entre elas, destacam-se a Menção Especial em Natal (2008) e classificações de destaque no tradicional Concurso de Trovas de Taubaté (2008), além de participações frequentes em coletâneas nacionais de trovas temáticas. Livros Publicados: Mitos, Fatos e Memória – Sobre a origem e os primeiros avanços de São José dos Campos; Elementos Históricos da UNIVAP e de seu Berço: São José dos Campos (2002); Cassiano - Fragmentos para uma Biografia (2003) – Um denso estudo de mais de 400 páginas que serviu de base para documentários sobre o célebre poeta modernista Cassiano Ricardo.
A importância de Amilton Maciel Monteiro firma-se como pesquisador, sua contribuição foi vital para preservar os passos de grandes nomes das letras nacionais nascidos na região, em especial sua monumental pesquisa biográfica sobre o poeta modernista Cassiano Ricardo. No campo da poesia pura, ele ajudou a manter viva a tradição poética da trova e do soneto nas cidades paulistas do Vale do Paraíba. Através do humor fino, da sensibilidade e do rigor métrico de seus versos, ele garantiu que a trova seguisse como um patrimônio cultural acessível e vivo no cotidiano joseense. 

Biografia = Genealogia Mineira, Portal CEN, O Secular Soneto, Centro de Documentação Musical de SJC,