sábado, 24 de outubro de 2026

Álvaro Posselt (Céu pela janela) * 4 *

A noite chega mais cedo e a luz dos postes dá um ar de tranquilidade à rua. De vez em quando os faróis dos carros brilham no asfalto, mostrando as gotinhas pelo ar. Na falta de um guarda-chuva, acelero os passos. O caminho se torna mais curto. Estar em casa é sempre confortante.

Rastros pelo chão —
Trago um pouco da garoa
pra dentro de casa
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Álvaro Posselt (1971)
O poeta ÁLVARO MARIEL POSSELT é um dos principais nomes da poesia contemporânea paranaense, reconhecido especialmente por sua maestria na arte do haicai. Nasceu em Curitiba/PR, em 1971. Curitibano "de raiz", nasceu, cresceu e sempre morou em Curitiba. Graduado em Letras, atuou durante anos como professor de Língua Portuguesa, trabalhando com revisões de texto, aulas particulares e ensino de português para estrangeiros. Posteriormente, deixou as salas de aula tradicionais para se dedicar integralmente à carreira literária e cultural. Atualmente, administra a Casa Posselt, seu próprio lar transformado em centro cultural independente em Curitiba. No espaço, ele acolhe o público em geral e turmas escolares para a realização de oficinas, rodas de leitura e debates. 
Embora tenha começado a escrever aos 16 anos, seu primeiro livro foi publicado quando le tinha 40 anos. Seu grande despertar para o haicai aconteceu em 2003, durante uma visita à [Biblioteca Pública do Paraná. O estilo breve e preciso da poesia japonesa tornou-se sua principal marca registrada. Na dinâmica do mercado independente onde atua, Álvaro foca sua carreira na circulação autônoma, feiras e projetos de revitalização urbana, não acumulando grandes prêmios literários institucionais de cunho competitivo, mas colecionando homenagens públicas na capital paranaense. Possui mais de uma dezena de livros publicados (vários deles focados no haicai e na literatura infantil). Entre seus principais títulos destacam-se: Tão breve quanto o agora (2012); Um lugar chamado instante (2013); Entre arranhões e lambidas — haicais & gatos (2014); Kaki (2015); Na sopa do sapo (2016); etc.

Fontes:
Álvaro Posselt (Verônica Fukuda, ilustradora). Céu pela janela. Curitiba/PR: Insight, 2023.. Enviado pelo autor.
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Cantinho do Frata (Num só suspirar)

Procurei no dicionário e me arrepiei: a definição de idoso é braba!
Veja o que diz: idoso é o que ou quem tem muitos anos de vida; velho. Até aí, tudo bem. Sabemos que não somos mais aquela "Brastemp", mas ao analisarmos os termos semelhantes ao velho, sentimos o bombardeio. Eis aí: idoso se assemelha a ancestral, anoso, antigo, antiquado, arcaico, avelhantado, bolorento, borocoxô, broco, caduco, carcomido, decrépito, embolorado.
Se procurarmos em outros dicionários; os Michaelis, Brasileiro da Língua Portuguesa, Caldas Aulete, Priberam, Houaiss, Aurélio e o dicionário de Sinônimos, encontraremos por nossa conta e risco outros sinônimos a nos colocarem pra baixo.
Aí, eu ergo a minha espada (que não é a do He-Man) – lembram-se dele? Pois é, lá se vão os anos... para dizer que não aceito esses termos que reputo pejorativos. 
Posso até ser ancestral, mas por descendência dos bravos italianos que abandonaram a fome na Itália para enfrentá-la no Brasil, e conviver com ela por bom tempo. Posso ser antigo (as minhas pregas de pele juntadas à calvície, as pintas que não plantei, os músculos transformados em gordura e os cabelos que caíram porque quiseram), o dizem. 
Posso aceitar ser antiquado, afinal, presenciei a mudança desse mundão com o Elvis, os Beatles, o Cauby, em um "momento primordial da história da música com quebras de paradigmas em relação à do passado, e com seu ritmo ascendendo e superando barreiras"; também a modificação da indústria fonográfica, as conquistas tecnológicas, o comportamento das pessoas em nivel universal, a transformação do comportamento social, dos direitos e dos costumes, da própria religião e da política.
Presenciei o homem indo à lua e voltando dela, os experimentos humanos, a clonagem de seres, e a indústria farmacêutica a ficar trilionária. 
E posso ainda, de cara amarrada, aceitar que o velho é broco (que palavra feia!), pois seu significado é ser bronco, abobalhado, sem vivacidade, aquele que é passado pra trás e não revida, por não conseguir fazê-lo.
Convenhamos: por ser idoso, não sou isso. Não mereço esses adjetivos pejorativos. Não mereço.
Meus amigos não se enquadram nessa definição, nem minha mulher que me acompanha nos acertos e nos erros com seus sorrisos e suas queixas. Nem sou ou me considero bolorento, borocoxô, caduco, carcomido, decrépito, embolorado.
Ainda penso, reflito e produzo; ainda sei dizer sim e dizer não, ainda sinto na boca o gosto adocicado da manhã em meio ao jardim florido, ainda piso em gramas verdejantes a sentir sua maciez e ainda vejo, mesmo com a visão turvada, nas curvas rebolativas da vizinha que passa a fazer desfeita a mim que, do banco do jardim, cuido a atirar pedras para que essas malditas maritacas não descasquem os fios da minha casa...
A não ser que esse deslize seja coisa de quem está decrépito...
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Estante de Livros (“A loja de antiguidades”, de Charles Dickens)


1. CONTEXTO DA OBRA

Publicação e Recepção
- Publicada originalmente em fascículos, de 1840 a 1841, na revista Master Humphrey's Clock — formato que ditava o ritmo da narrativa, com capítulos que encerravam em momentos de tensão
- Iniciada com narrador em primeira pessoa (o próprio "Mestre Humphrey"), a obra migra para terceira pessoa, técnica que Dickens aprofundaria em romances posteriores
- O desfecho provocou comoção pública sem precedentes: multidões aguardavam em cais de Nova York o último fascículo, e a morte de Nell foi recebida como falecimento de uma pessoa real
- É uma das obras mais representativas do sentimentalismo vitoriano, ao mesmo tempo que expõe com crueza a miséria e a exploração na Inglaterra da época

Contexto Histórico
- Ambientada na Londres industrial e no interior inglês, retratando a miséria urbana, a desigualdade social e a fragilidade das famílias sem proteção
- A obra insere-se numa fase em que Dickens aprofunda a crítica social: denúncia da usura, do jogo, da negligência institucional e da degradação humana gerada pelo capitalismo descontrolado

2. ANÁLISE DAS PERSONAGENS

Nell Trent — A Inocência Perseguida
Protagonista moral; símbolo da pureza vitimada pelo mundo. Doce, corajosa, abnegada — protege o avô em vez de ser protegida. É criança, mas carrega responsabilidade de adulto; fragilidade física vs. força moral. Para alguns leitores, excessivamente idealizada; para outros, figura de compaixão universal. Sua morte não é derrota sem sentido: desperta bondade em quem a conheceu.

O Avô — Amor e Obsessão
Representa todos os avós, o pai de família vulnerável. Tem por motivação garantir segurança à neta — mas escolhe caminho ilusório: o jogo. Sua loucura gradual mostra que o desespero pode consumir o amor que o origina. Simbolicamente, é a sociedade que confia na sorte e na riqueza rápida em vez do trabalho honesto

Daniel Quilp — A Encarnação da Maldade
Um dos maiores vilões da literatura dickensiana: deformado fisicamente, também o é moralmente. Sádico, deleita-se em humilhar a esposa, aterrorizar devedores, perseguir os fracos. Não tem motivação "compreensível", o mal por si mesmo — o que o torna mais assustador. Afoga-se nas águas escuras, justiça poética. Na crítica atual, o recurso à deformidade física como marca de maldade reflete estereótipos hoje questionáveis.

Kit Nubbles 
Lealdade e retidão; recompensa da virtude comum. 

Dick Swiveller 
Evolução do desleixo à responsabilidade; prova que é possível redimir-se 

Sra. Jarley 
Bondade prática, mas limitada; ajuda, mas não pode salvar.

Família Garland 
Contraponto: lar estável, generosidade, proteção — o que Nell e o avô não tiveram.

3. TEMAS CENTRAIS

A Loja como Metáfora
- O espaço que dá título é símbolo vivo: objetos antigos, empoeirados, sem uso — representam uma sociedade que se apega ao passado e ao material, negligenciando o humano. A ruína da loja acompanha a ruína dos que nela habitam: quem só guarda coisas, perde as pessoas.

Inocência vs. Corrupção
- O contraste entre Nell e o mundo que a rodeia é absoluto: ela não se corrompe, mas não tem força para sobreviver. A obra levanta pergunta angustiante: por que o bem sofre e perece? A resposta de Dickens não é consolo fácil — a bondade transforma quem a testemunha, mesmo que não salve a vítima.

O Vício e a Falsa Esperança
- O jogo não é apenas defeito pessoal: é metáfora de sistema econômico que promete riqueza sem esforço. O avô não é vil, mas vítima de ilusão: crê que o dinheiro pode comprar segurança e afeto.
- A mensagem: confiar na sorte é abandonar a realidade — e a realidade cobra preço cruel.

Família e Desamparo
- Sem rede de proteção, os mais fracos ficam à mercê de agiotas, patrões desumanos e instituições omissas. A jornada de Nell é também denúncia: não há lugar seguro para criança sem família na Inglaterra vitoriana. O contraste entre a solidão do casal e os laços que se formam ao longo do caminho mostra que a comunidade pode ser abrigo — mas chega tarde demais.

Justiça e Redenção
- Quilp cai; Kit é absolvido; Dick Swiveller renasce — há ordem moral que se restabelece. Mas o preço é alto: os bons não vencem sem perda. A justiça existe, não devolve o que foi levado.

4. ESTILO E LINGUAGEM

      Tom = Alterna ternura e horror; melodrama vitoriano, mas com observação realista 
     Narrativa = Começa em primeira pessoa, transita para terceira — aproximação e distanciamento.
      Descrição = Detalhes sensoriais: o cheiro de mofo na loja, o frio da estrada, a luz doente no rosto de Nell.
       Personagens = Exagero deliberado — figuras que parecem desenhos vivos, para acentuar virtude ou vício. 
    Simbolismo = Cabelo, luz, sombra, caminho, repouso — cada elemento carrega peso emocional.

5. RECEPÇÃO E LEGADO

- Sucesso imediato: a morte de Nell comoveu leitores em todo o mundo; correspondência de personalidades e leitores comuns testemunha o impacto
- Crítica moderna: alguns apontam sentimentalismo excessivo e idealização de Nell; outros reconhecem a força da denúncia social e da compaixão
- A obra permanece essencial porque interroga sobre o preço de sermos bons num mundo que premia a astúcia
- A loja original, em Londres, tornou-se atração turística — prova de que a ficção se confundiu com a realidade

6. CONCLUSÃO

A Loja de Antiguidades é mais que uma história de lágrimas: é um espelho de sociedade. Dickens mostra que o que acumulamos em vida não são objetos, mas laços — e que quando invertemos a ordem, dando primazia à riqueza sobre o afeto, perdemos o que realmente importa. Nell não vence no mundo dos vivos, mas vence no que conta: deixa todos melhores do que os encontrou. É uma obra que dói, mas que também ensina: a bondade não é fraqueza — é a única coisa que, mesmo perdida, permanece.

7. SINOPSE COMPLETA

Parte I — A Loja
Nell Trent, uma menina de quase catorze anos e órfã, vive com o avô materno — cujo nome nunca é revelado — numa loja de objetos antigos e curiosidades em Londres. Os dois são muito apegados; Nell é dedicada e carinhosa, e seu único amigo é Kit Nubbles, jovem honesto que trabalha na loja e a quem ela ensina a escrever. O avô ama profundamente a neta e, temendo que ela venha a morrer na miséria como fizeram os pais dela, decide secretamente enriquecer através do jogo. Passa a sair todas as noites para jogar, mas perde sempre. Para continuar, contrai pesadas dívidas com Daniel Quilp, um agiota deformado, cruel e sádico. Quando o avô perde tudo o que restava, Quilp executa os empréstimos, apodera-se da loja e despeja os dois. O avô sofre um colapso mental; Nell, assustada mas corajosa, leva-o consigo e foge de Londres.

Parte II — A Jornada
Sem dinheiro e sem rumo, Nell e o avô percorrem vilarejos, feiras e cidades industriais do interior da Inglaterra. A menina cuida do avô, que vai perdendo gradualmente a lucidez; ela trabalha, pede ajuda e faz de tudo para mantê-lo seguro. Encontram pessoas generosas — como a dona de um museu de figuras de cera, Sra. Jarley, que a emprega temporariamente, e um mestre-escola que os acolhe — mas também enfrentam frio, fome e perigos. Em paralelo, Kit Nubbles, despedido por Quilp, consegue emprego com a bondosa família Garland e busca incansavelmente por Nell e o avô. Quilp, por sua vez, não desiste de persegui-los, contando com a ajuda de Fred, irmão de Nell, e de Dick Swiveller — que acreditam haver uma fortuna escondida e querem encontrá-la para se aproveitar.

Parte III — A Busca e as Intrigas
Dick Swiveller, inicialmente leviano e interessado apenas no dinheiro, vai amadurecendo aos poucos. Descobre um plano de Quilp e dos irmãos Brass para incriminar Kit por furto; com a ajuda de uma jovem criada da casa dos Brass — apelidada carinhosamente de "Marquesa" — consegue provar a inocência de Kit e desmascarar as mentiras. Entretanto, Quilp continua à solta. Um cavalheiro misterioso, que hospeda-se na casa dos Brass, revela ser o irmão do avô de Nell — ou seja, o tio-bisavô da menina — e há muito tempo procura o parente desaparecido. Reúne-se com Kit e organizam uma expedição para resgatar Nell e o avô, cujo paradeiro foi finalmente descoberto.

Parte IV — O Desfecho
Quando chegam ao vilarejo onde Nell e o avô se instalaram — numa casinha junto à igreja, onde Nell cuidava do jardim e do cemitério — já é tarde. Exausta pela jornada, pela fome e pelo desgaste, Nell falece. O avô, cuja razão já se fora, não compreende a morte da neta; senta-se junto ao túmulo dela, à espera de que volte, até que também ele adoece e morre. Quanto a Quilp, perseguido pela justiça e abandonado por todos, tenta fugir atravessando o rio Tâmisa e afoga-se. Dick Swiveller casa-se com a "Marquesa" e prospera; Kit é acolhido definitivamente pela família Garland e vive feliz. O tio-bisavô de Nell, embora rico, passa o resto da vida triste, visitando com frequência o túmulo da sobrinha-neta que não pôde salvar.

A obra encerra mostrando que a bondade de Nell, embora não tenha salvo a própria vida, tocou e transformou todos que a conheceram — um legado que sobrevive à morte.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Domingos Freire Cardoso (Semeando Trovas)

 

Além do horizonte temos
mais outro horizonte, além,
porque, por mais que sonhemos,
atrás de um sonho... outro vem!.

A maior felicidade
entre tantos desenganos,
é manter a mocidade
na alma ao correr dos anos.

A vida faz-se tecendo
finos elos que nos atam
aos sonhos que vão morrendo
e que, morrendo, nos matam...

Cada lágrima é cristal
puro, pequeno e brilhante,
com que me pagas o mal
que te causo a todo instante.

Em vai-e-vem de marés,
nessa valsa de salão,
teceram os nossos pés
enredos do coração…

Juntas, duas alianças,
no dedo da mão esquerda,
são permanentes lembranças
da minha infinita perda...

Levando vida tão crua,
com a fome pela frente,
qualquer criança de rua
vira adulto sem ser gente.

Nem o Tempo nem a História
vão lavar com seu perdão
a tortura da memória
das trevas da escravidão.

No meu relógio os ponteiros
são como dois namorados:
passa uma hora e, matreiros,
estão de novo abraçados...

Nossos corpos se entenderam
no samba, de tal maneira,
que nossas vidas nasceram
ao fechar-se a gafieira…

O meu lar é como um ninho
abrigando horas amenas
feitas de amor e carinho
e à mistura... algumas penas!

O riso na tua face
tão doce, puro, inocente,
é como luz que passasse
por um cristal transparente.

O silêncio inteligente,
próprio de quem tem razão,
pode ser mail eloquente
do que a mais sábia lição.

Pão nosso de cada dia
pedimos em oração
sem pedirmos a alegria
de a ninguém faltar o pão.

Perguntei ao coração
O que o fazia viver:
"Sonhos!... que só morrerão
Quando deixar de bater".

Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…

Quando chegaste ao portão
para saber quem batia,
batia o meu coração
que de saudades morria.

Roça: mata, fogo, chão,
Força, braço, homem, dor;
Plantas, flores, frutos, pão,
Terra, vida, infância, amor!!!…
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Domingos Freire Cardoso (1946)
DOMINGOS FREIRE CARDOSO é um dos mais prestigiados poetas, trovadores e investigadores da cultura popular contemporânea em Portugal. Com uma técnica poética refinada e um profundo amor às suas origens, ele se destaca internacionalmente no movimento trovadoresco e no resgate da identidade linguística e histórica da região de Aveiro. Nasceu em 1946, em Chousa-Velha, em Ílhavo, Portugal. Passou a infância e a juventude na região de Ílhavo e Aveiro. Licenciou-se inicialmente em Física pela Universidade de Coimbra e, posteriormente, concluiu o curso de Engenharia Químico-Industrial no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, em 1971. Após iniciar sua carreira docente, fixou residência na cidade do Porto, onde passou a maior parte de sua vida madura. Embora diplomado em engenharia, descobriu sua verdadeira vocação no ensino. Atuou por mais de 30 anos como professor de Física e Química no ensino secundário de Portugal (iniciando no Liceu Nacional de Leiria e lecionando longamente no Porto), tendo se aposentado em 2007.
Seus laços com a escrita poética iniciaram-se ainda na juventude, mas foi no verão de 1983 que ele começou a participar intensamente de Jogos Florais e concursos literários. Tornou-se mestre na poesia de formas fixas (especialmente o soneto e a trova), aproximando-se fortemente de agremiações e movimentos de trovadores tanto em Portugal quanto no Brasil. Frequentemente convidado para academias e associações culturais lusófonas devido ao seu prestígio literário transatlântico. Ele também é membro ativo da Academia de Saberes de Aveiro (AEJE). É um dos poetas contemporâneos portugueses mais laureados em certames de trovas e poesia. Venceu e foi classificado dezenas de vezes em prestigiados Jogos Florais e concursos literários tanto em Portugal quanto no Brasil, onde é imensamente respeitado no meio trovadoresco. Sua obra engloba a poesia lírica e a investigação histórico-cultural: O Terceiro Vértice – Livro inteiramente dedicado à sua refinada produção poética; Pedras sem Tempo do Cemitério de Ílhavo (2012) – Uma detalhada pesquisa histórica baseada em atas camarárias e na evolução social da sua terra natal; Palabras co bento no leba (2018) – Uma monumental obra de resgate linguístico (com mais de 500 páginas e acompanhada de um CD áudio) que cataloga expressões típicas, ditos e o falar característico do povo de Ílhavo.
A importância de Domingos Freire Cardoso para a literatura lusófona consolida-se como uma ponte onde ele atua como um dos maiores embaixadores da trova portuguesa contemporânea no Brasil, ajudando a revigorar o intercâmbio literário da poesia de métrica rígida e redondilha maior entre os dois países. Através de suas pesquisas lexicográficas e históricas, Domingos combate diretamente a uniformização da língua e a erosão do tempo. Ao registrar os falares das gentes de Ílhavo, ele imortaliza a identidade cultural e a memória oral de sua região na literatura.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet e livro do autor) 

José Feldman (Fuzuê no Cartório)

O relógio do Cartório do 1º Ofício de Registro Civil marcava dez da manhã, mas o clima no salão de espera lembrava o desembarque de um aeroporto em véspera de feriado, combinado com a queima de estoque de uma loja de departamentos.

Três casamentos civis estavam agendados com intervalos de exatos dez minutos. Devido a um atraso crônico do juiz de paz — que, segundo boatos, tentava desatolar o carro de uma poça de lama —, a sala de recepção tornou-se um caldeirão de ternos apertados, estresses pré-nupciais e salgadinhos contrabandeados em bolsas de madrinhas.

Havia três núcleos distintos que, inevitavelmente, começaram a colidir:

1. O Casamento Tradicional-Ostentação: Comandado por Beto e Marcela. Ela usava um vestido sereia com uma cauda de três metros que funcionava como uma rede de arrasto para poeira e canapés.

2. O Casamento Rocker-Gótico: Estrelado por Igor e Trevas (nascida Cleide). Ambos de preto, com coturnos pesados e convidados que pareciam saídos de um filme do Drácula.

3. O Casamento Natureba-Hippie: Liderado por Cauã e Luna. Roupas de linho cru, coroas de flores naturais e um aroma persistente de incenso de sândalo que brigava com o perfume adocicado das madames.

— Alguém tira o salto daquela mulher de cima do meu véu! — sibilou Marcela, os dentes trincados, apontando para uma convidada gótica.

— Relaxa, noiva, tudo é energia — disse Cauã, oferecendo um sorriso pacífico enquanto tentava ajeitar sua guia de miçangas sobre a bata branca. — O espaço é público, o amor é livre.

— Livre vai ser a minha mão na sua cara se você não tirar esse cheiro de defumador de perto de mim! — retrucou o pai de Marcela, um senhor cujo pescoço já estava roxo de tanto que o colarinho o sufocava.

Nesse momento, as portas da sala de audiências se abriram de chofre. Um escrevente magro, com óculos na ponta do nariz e cara de quem não dormia desde 2014, gritou com a voz pastosa:

— Próximo casal! Documentos na mão! Rápido, que o juiz está faminto!

O que se seguiu foi o equivalente humano a uma manada de antílopes cruzando um rio cheio de crocodilos. 

O cerimonialista de Marcela empurrou um grupo; a mãe de Igor soltou um grito de guerra; as madrinhas de linho de Luna começaram a cantar um mantra para "limpar o ambiente". No empurra-empurra, o véu de Marcela enganchou no coturno de Igor, que tropeçou em Cauã, que caiu nos braços da mãe de Beto.

Quando a poeira baixou e a porta da sala de assinaturas se fechou administrativamente, o cenário lá dentro era de pura demência burocrática.

O escrevente, sem olhar para cima, batia carimbos como se estivesse jogando fliperama.

— Nome do noivo! — exigiu ele.

— Carlos Roberto, mas me chamam de Beto... — começou o rapaz do casamento tradicional, olhando em volta, atordoado. Ele percebeu, com um sobressalto, que a mulher ao seu lado não tinha três metros de cauda. Tinha mechas roxas no cabelo e um batom preto retinto. Era Trevas.

— Nome da noiva! — cortou o escrevente.

— Trevas do Apocalipse. Mas no RG tá Cleide Souza — respondeu a noiva gótica, achando graça da gravata borboleta rosa-choque de Beto.

— Ótimo. Assina aqui, assina ali. Testemunhas!

Duas pessoas deram um passo à frente. Uma era a tia carola de Marcela, segurando um terço de ouro; o outro era um rapaz com uma tatuagem de guilhotina no pescoço e três piercings no supercílio.

— Espera aí! — gritou Beto, tentando puxar a caneta. — Ela não é a minha Marcela! Cadê a Marcela?

Enquanto isso, no corredor, a verdadeira Marcela avançava furiosa contra a porta trancada, segurada pelo braço por... Igor.

— Me solta, seu morcego de terno! — bofetava ela. — Beto! Beto! Estão roubando meu marido!

— Moça, meu nome é Igor e você está pisando no meu pé — disse o gótico, calmamente, embora seu delineador estivesse borrando com o suor. — E, tecnicamente, quem me pegou pelo braço e me arrastou até aqui foi a sua mãe.

— O quê?! — A mãe de Marcela olhou para o rapaz de preto, depois para o terno que tinha escolhido para o genro. — Valha-me Deus, achei que o Beto tinha mudado de estilo de última hora para me provocar!

Do outro lado do saguão, Cauã olhava encantado para Luna, que por sua vez estava de mãos dadas com um padrinho de smoking que chorava copiosamente de nervoso.

— Olha, Luna, a sincronicidade do universo — filosofou Cauã. — Fomos separados pela correnteza do destino, mas nossas almas continuam vibrando na mesma frequência.

— Cauã, seu pateta, aquela ali na mesa do juiz assinando os papéis com o seu nome é a noiva do terno rosa! — gritou Luna, apontando pela fresta do vidro.

Lá dentro, o caos se oficializava. O escrevente, operando no mais puro modo automático de fim de expediente, já estava na terceira certidão.

— Então fica assim: Carlos Roberto casado com Cleide Souza. Cauã Silva casado com Marcela Albuquerque...

— O QUÊ?! — Marcela arrombou a porta com uma ombrada digna de um zagueiro de futebol, desmanchando o coque de três mil reais. — Eu casada com um bicho-grilo que cheira a capim-santo? Nunca! Beto, o que você fez?!

— Eu não fiz nada! Essa moça de preto assinou primeiro! — defendeu-se Beto, desesperado.

— Ah, agora a culpa é minha? — protestou Trevas. — Você que pegou na minha mão e disse "vamos logo que eu não aguento mais essa burocracia, meu docinho de coco".

— Eu achei que era a Marcela! Eu estava tão nervoso que nem percebi!

O juiz de paz, um senhor de oitenta anos que até então parecia cochilar acordado atrás da mesa, bateu com o martelo de madeira na mesa.

— Silêncio no tribunal... digo, no cartório! Quem está casando com quem aqui? Organizem-se em pares!

A tentativa de organização foi ainda pior. Como as testemunhas e padrinhos já tinham entrado misturados, ninguém sabia quem deveria assinar o livro de quem. O padrinho gótico acabou assinando como testemunha do casamento hippie, enquanto a tia carola de Marcela, em estado de choque, carimbou o dedão no documento do casal gótico.

— Pronto — anunciou o escrevente, limpando o suor da testa com um lenço encardido. — Já foi para o sistema.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala.

— O que foi para o sistema? — perguntou Beto, com a voz fina.

— O casamento de Carlos Roberto com Cleide Souza, e o de Cauã com Marcela. Parabéns aos noivos. Podem beijar... quem quer que seja que vocês casaram.

Marcela olhou para Cauã, que lhe ofereceu um ramo de arruda. Ela soltou um grito estridente, agarrou a cauda do próprio vestido como se fosse uma corda e começou a abanar o rosto. Beto olhou para Trevas, que deu de ombros e disse: "Se você curtir heavy metal, a gente pode tentar fazer funcionar".

— Tem como cancelar? — perguntou Igor, que ainda estava perto da porta, segurando o buquê de flores do campo de Luna.

— Só por processo de divórcio ou anulação por erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge — recitou o escrevente, finalmente sorrindo. — Mas a taxa do divórcio é o dobro. Próximo!

No final das contas, os três casamentos foram desfeitos e refeitos judicialmente ali mesmo, numa sessão extraordinária regada a muitas ameaças de processo, choro e duas fatias de bolo gótico que Luna aceitou comer porque "não continha glúten".
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)

Estante de Livros (“Noites do sertão”, de Guimarães Rosa)

1. CONTEXTO E ESTRUTURA DA OBRA

Noites do Sertão reúne duas novelas — "Dão-Lalalão (o devente)" e "Buriti" — originalmente publicadas em 1956 dentro do volume Corpo de Baile, conjunto de sete narrativas que o autor posteriormente dividiu em livros independentes. A obra insere-se na fase de maturidade de Guimarães Rosa, entre a publicação de Corpo de Baile (1956) e Grande Sertão: Veredas (1956), consolidando sua escrita inovadora e a dimensão metafísica do sertão.
O título não é casual: a noite funciona como metáfora central — espaço de revelação, de mistério, de despertar do inconsciente e das verdades ocultas. Como observa-se no texto: "O sertão é de noite" — é sob a escuridão que as máscaras caem e a essência dos seres se revela.

2. ANÁLISE DE "DÃO-LALALÃO (O DEVENTE)"

Enredo e Narrador
Contada em primeira pessoa por Soropita, ex-jagunço que se casa com Doralda, mulher de passado livre — ex-"militriz", como o próprio texto sugere. A princípio, o amor é intenso e arrebatador; mas aos poucos, o ciúme toma conta do narrador, que deixa de viver no presente e passa a consumir-se por imaginações sobre o passado da esposa. A obsessão cresce até o desfecho trágico: Soropita mata Doralda, convencido de que ela o trai — sem que haja prova concreta.

TEMAS PRINCIPAIS

Ciúme e autodestruição
O drama não está na traição, mas na paranoia que tudo inventa. O que destrói Soropita não é a realidade, mas a sua própria imaginação. A novela expõe com crueldade como a insegurança pode se transformar em sistema de crença, onde cada gesto inocente é lido como confirmação de culpa.

Amor, desejo e condenação
A narrativa dialoga com o Cântico dos Cânticos bíblico — Soropita e Doralda como "Amado" e "Amada" — mas esse amor arquetípico é contaminado pela violência e pelo julgamento patriarcal. O desejo é ao mesmo tempo força sagrada e fogo que consome; o "devente" do subtítulo refere-se ao que vem à tona, ao que irrompe e devasta.

Olhar masculino e posse
Soropita não aceita que Doralda tenha existência própria anterior a ele. Reduz a mulher a propriedade cujo passado deveria ser apagado — quando não consegue, destrói o objeto. A novela é crítica à mentalidade que confunde amor com domínio.

Linguagem e estilo
O ritmo é febril, com repetições, nomes que cantam e ecoam — "Dão-Lalalão" é onomatopeia de sino, som que marca, que vigia, que anuncia a morte. A linguagem aprofunda a instabilidade mental do narrador.

3. ANÁLISE DE "BURITI"

Enredo e Personagens
A história se passa na fazenda Buriti Bom, propriedade de Liodoro, viúvo, com quatro filhos. A chegada de Lalinha — mulher jovem, de origem urbana, trazida por um dos filhos como esposa — reconfigura todas as relações. O que se desenrola não é um drama de ação, mas de tensões silenciosas: desejos não ditos, olhares, atrações que cruzam gerações e laços familiares.

- Liodoro — patriarca que sente reviver a juventude e o desejo perante Lalinha.
- Lalinha — catalisadora; não age deliberadamente, mas sua presença desestabiliza todos.
- Maria Behú e Maria da Glória — filhas, representam posturas diante da vida e da liberdade.
- Miguel — jovem que retorna à fazenda e percebe as transformações do espaço e das pessoas.

TEMAS PRINCIPAIS

Desejo que não tem nome
Ao contrário de "Dão-Lalalão", aqui nada é declarado. O conflito não vem da palavra, mas do silêncio carregado. O desejo transborda fronteiras: idade, parentesco, convenção. A novela mostra que a atração não se deixa comandar por regras sociais.

O sertão como espaço de transformação
A fazenda Buriti Bom não é apenas cenário; é ser vivo, respira e muda. A árvore que dá nome ao lugar é símbolo de força, raiz, continuidade — mas também de abalo: quando a ordem se desestrutura, o próprio espaço responde.

Olhares e múltiplas verdades
A narrativa é polifônica: não há um único foco; cada personagem vê a mesma realidade de modo diferente. O que é inocência para uns é provocação para outros. A verdade não é uma — é relativa, dependente de quem a conta.

Tradição e mudança
A chegada de Lalinha traz o mundo de fora para dentro. O velho mundo rural, estável, patriarcal, é abalado por uma presença que traz outra maneira de ser e de desejar. Não há vencedores nem perdedores — apenas a consciência de que nada permanece igual.

4. TEMAS COMUNS ÀS DUAS NOVELAS

Desejo 
Dão-Lalalão = Explosivo, possessivo, destrutivo 
Buriti = Sutil, difuso, transformador |

 Noite  
Dão-Lalalão = Cenário de obsessão e crime 
Buriti = Tempo de revelação e percepção profunda

Olhar 
Dão-Lalalão = Olhar único, fechado, que julga 
Buriti = Olhares múltiplos, que se cruzam e se confundem 

Verdade 
Dão-Lalalão = Imposta pela paranoia — cega e fatal 
Buriti = Relativa, parcial, nunca totalmente dita 

Passado 
Dão-Lalalão = Fantasma que não se deixa sepultar 
Buriti = Herança que se renova e reinterpreta 

Mulher 
Dão-Lalalão = Vítima do olhar que a possui e destrói 
Buriti = Catalisadora que desestabiliza sem querer 

Ambas giram em torno da mesma pergunta: o que acontece quando o que sentimos não cabe no que dizemos?

5. ESTILO E INOVAÇÃO LINGUÍSTICA

Guimarães Rosa reinventa a língua:
Neologismos e arcaísmos — palavras inventadas e resgatadas, que dão ao texto som e densidade próprias.
Ritmo oral — a escrita imita a fala, a cadência do sertanejo, com pausas, repetições, cantos.
Concentração poética — cada frase pesa, cada palavra tem função; não há o que seja supérfluo.
- Metáforas orgânicas — a natureza não é decoração, está entrelaçada ao destino dos personagens.

O autor escreveu: "Os meus livros em essência são 'antiintelectuais' — defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração" — e é por essa via que se percorre Noites do Sertão: mais sentindo do que compreendendo.

6. SIGNIFICADO E LEGADO

Noites do Sertão não é livro de grandes feitos ou aventuras externas — é livro de viagens para dentro. Mostra que o sertão verdadeiro não é apenas geografia, mas estado da alma: onde o amor pode virar fúria, onde o desejo reescreve os laços, onde a noite traz não só escuridão, mas a clareza de quem finalmente vê — mesmo que tarde demais.

- Soropita nos alerta: a imaginação sem freio é veneno
- Buriti nos lembra: o que não se nomeia nem por isso deixa de existir

Juntas, as novelas formam um diptico sobre a força avassaladora do sentimento humano — seja ele ciúme ou anseio — e sobre como cada um de nós habita a própria noite, às vezes iluminada, às vezes perdida.

7. CONCLUSÃO

Noites do Sertão é uma obra sobre o que sentimos e não sabemos nomear. Em "Dão-Lalalão", a impossibilidade de confiar leva à destruição; em "Buriti", a impossibilidade de falar gera um silêncio que reescreve laços. Juntas, as novelas mostram que o ser humano é complexo, contraditório — e que a noite, metáfora de tudo o que não vemos com clareza, é onde às vezes se descobre mais sobre si mesmo do que em pleno dia.

8. RESUMO

1. "DÃO-LALALÃO (O DEVENTE)"

Soropita conhece Doralda, mulher de passado ligado à vida pública, e a retira desse meio para casar com ela. No início, o amor é intenso e pleno — ele a vê como algo precioso, único. Mas aos poucos, o ciúme obsessivo toma conta: não suporta que alguém a reconheça, que se lembre de quem ela era antes de pertencer-lhe.
A paranoia cresce sem que haja prova real de traição. Tudo — um olhar, um sorriso, uma palavra — é interpretado como confirmação de infidelidade. Soropita deixa de viver no presente e passa a ser consumido pelo passado que não consegue apagar. A imaginação devora a realidade.
No desfecho, em meio à noite, mata Doralda, convencido de que ela o trai. Depois do crime, fica com a certeza de ter agido com justiça — mas também com o vazio e a culpa que não consegue nomear. O som que dá título ao livro — "Dão-Lalalão", como o badalar de um sino — marca não só a posse, mas a morte e o lamento.

Mensagem
A tragédia não vem de fora, nasce dentro: a insegurança e a necessidade de dominar o outro são capazes de inventar uma realidade e destruir quem se ama. O amor confundido com propriedade torna-se prisão e, por fim, instrumento de morte.

2. "BURITI"

A história se passa na fazenda Buriti Bom, cuja árvore imponente é símbolo de raiz, força e continuidade. A chegada de Lalinha — estrangeira, de outro mundo — reconfigura todas as relações sem que ela procure fazê-lo.
Desenrola-se um drama de tensão:
Liodoro, que costumava agir sem disfarce, passa a sentir por Lalinha um desejo que não pode declarar. Lalinha, isolada, desperta olhares e sentimentos cruzados entre os homens e mulheres da casa. Miguel, que conhece o lugar desde criança, percebe as transformações invisíveis — o que muda nas pessoas, no ar, na própria terra
Ninguém declara abertamente o que sente. Não há assassinato nem confronto direto. O conflito vive no não dito: no olhar que se demora, na palavra que se cala, na noite que aproxima o que a luz separa. Cada personagem reage à sua maneira — uns recuam, outros se calam, outros sonham em segredo.
Ao final, a fazenda continua de pé, o buriti permanece — mas ninguém é o mesmo. A presença de Lalinha mostrou que o desejo não obedece a regras de parentesco, idade ou convenção; e que a vida, mesmo contida, segue seu curso imprevisível.

Mensagem
Há verdades que não precisam ser ditas para existir. O que não tem nome nem por isso deixa de agir. A chegada de alguém diferente pode revelar o que estava adormecido em todos — e o reconhecimento desses desejos, ainda que silencioso, já é transformação.

Aparecido Raimundo de Souza (Êxtase)

“Eu nem sonhava te amar desse jeito, hoje nasceu novo Sol no meu peito, quero acordar te sentindo ao meu lado, viver o Êxtase de ser amado”.
(“Êxtase”, de Guilherme Arantes) 

NÃO É BARULHO. Tampouco algo que se possa classificar como tumulto, desordem, alvoroço ou zoeira descomedida. Também, do mesmo modo, não é um evento, tipo uma solenidade comemorativa ou uma concentração semelhante a uma festa repleta de blandícias. A maioria das pessoas, carregam na mente, ou melhor dizendo, pensam e imaginam que o êxtase é um grito eufórico, uma explosão excitada, um momento de exultação que dura pouco e depois aflora e se esvai como uma folha seca em meio a um vendaval. Nada disso! 

O verdadeiro êxtase, aquele considerado jubiloso, ou revestido de jovialidades e alacridades nada mais é que silêncio. Isso mesmo. Silêncio. É aquele instante mágico em que o tempo entra num desvio da caminhada e estanca, para ficar quieto, se condescende, como se o mundo inteiro à nossa volta tivesse segurado a respiração só para que o nosso “eu” interior se ligasse e percebesse que está vivo. Algumas vezes, confesso, já senti na pele esse estado contemporizado, harmonicamente ligado a um relaxamento agradável de regozijos sem explicações. 

E esse instante pode acontecer assim do nada, ou diante de um pôr do sol que pinta o céu de cores inexplicáveis que a gente nem sabia que existiam.  Pode ser, e de fato é, também no encontro de um olhar meigo e cativo que, sem dizer nada, fala tudo e o mais espantoso, se mostra, se amolda sem precisar de uma única palavra. Pode ser mesmo o som de uma risada obsequiosa que acalma o âmago como uma canção antiga, daquelas dos tempos da nossa infância, O êxtase não corre, não sai desembestado, não exige nem clama por pressa. Ele chega de mansinho, sem fazer barulho, sem fazer alarde, tipo assim, como quem não quer nada, e de repente a gente percebe quando ele em voz quase inaudível sussurra: “aqui estou, aqui sou, aqui respiro, aqui vim para fazer morada e ficar”. 

Em contrapartida, o êxtase se molda naquela sensação indescritível de que, por um momento curto e eterno, a nossa alma, a nossa vida, o nosso interior pertence ao universo inteiro. Descobrimos, espantados e atônitos, que não há passado pesando nos ombros, nem futuro causando ansiedades ou descambando para dissabores. Nessa hora, percebemos, tomamos consciência de que só existe o agora, o “já” inteiro e perfeito, como uma pétala que sumiu de algum jardim de dentro de nossa vida atribulada e pousou suavemente sobre as águas tranquilas de um rio ao sabor da mais pura e plena felicidade.

Esse instante lindamente mágico, não se explica com palavras, mas se sente em cada pedacinho do corpo. É como se, naquele momento, a gente não estivesse mais apenas nesse mundo, mas sim com o planeta inteiro aos nossos pés. A gente aprende que os limites entre o nosso ser e tudo o mais ao redor, parecem se dissolver, se desmanchar como uma névoa que o sol vai dissipando devagarzinho, sem pressa, sem alardes, sem intenção de ter ou de ser aquele afoito desesperadamente aterrador.

Pode durar todo esse processo, um segundo, e mesmo assim parecer para nós, mortais, uma eternidade. 

A bem da verdade, não importa, não faz diferença quanto tempo fica, quanto tempo dura. O que fica é a marca indelével de uma paz acolhedora. Uma tranquilidade de onde a gente sai diferente, de onde a gente se desagrega como se houvesse bebido a água pura de uma nascente mágica que renova a alma. Aprendi, aos setenta e três anos, que nessa hora, invade a nossa mente aquela certeza quieta e calma de que a vida, apesar de todos os pesares, se transforma como num passe de mágica, em momentos inebriantes e acolhedores, que valem por si mesmos, que chegam sem explicação e permanecem sem motivo, apenas...  apenas porque existem.

O êxtase não é uma precipitação desesperada ou desenfreada de fuga. Pelo contrário, é a presença total da paz eterna e duradoura. É quando a gente está tão inteiro e empaturrado no “agora”, que esquece de perguntar o motivo, o "por quê?". E apenas tudo ao nosso redor se abre num sorriso, sem sabermos explicar por que tudo se debulha em contrair os músculos faciais explodindo felicidades plenas. Porque, nesse instante, e só nesse instante, devemos entender e compreender, nada mais é ou se faz necessário. Basta apenas vivermos, sentirmos, gozarmos este momento. Trazermos do fundo da alma em festa, aquela música melodiosa que toca sem instrumentos, todavia que soa diretamente dentro do coração.

É quando tudo ao nosso redor passa com suavidade perene, tipo uma sensação aprazível que não some completamente. E que ao final, deixa um brilho nos olhos, uma leveza no peito, uma certeza doce no corpo cansado. Isso é estar vivo de verdade. A gente segue em frente, carregando aquele raio de luz dentro de nós, esperando o momento certo dele brilhar efêmero outra vez... e outra vez, e outra vez, indefinidamente... 

O êxtase a bem da verdade, o êxtase sem tirar nem pôr, acreditem, o êxtase é bastante semelhante àquela música composta por Guilherme Arantes. Indo mais além, é a nossa alma em toda a sua exaltação mística gritando, ou mais acentuadamente berrando, se expandindo em um querer incomensurável aos quatro cantos do mundo, ou melhor escrito nesta crônica, é o nosso mais profundo promovendo galhardias e a Paz que buscamos. Nessa hora, ouvimos a sua voz delicada se fazendo ser ouvida: “Obrigado, muito obrigado por estar aqui”. 
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O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade). É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. 

Fontes: 
Texto enviado pelo autor. 
Excerto biográfico por Jfeldman para o blog.