
Narizinho admirou-se, porque não havia gatos no sítio.
— Emília — disse ela de ouvido à escuta — este miado está me parecendo miado do gato Félix...
Era a primeira vez que a boneca ouvia falar em semelhante personagem.
— Quem é esse cidadão? — indagou.

— Nem Tom Mix?
— Tom Mix vê o gato Félix e bota-se!...
Emília deu um suspiro.
— Ai, ai! Era com uma pessoa assim que eu desejava ser casada...
Nisto uma cara de gato apareceu numa moitinha próxima, a olhar para as duas com muita curiosidade.
— É ele mesmo! — exclamou a menina. — Juro que é o Félix!... e fez pshuit, pshuit...
O gato saiu da moita, vindo com toda a sem-cerimônia sentar-se no colo dela. Narizinho alisou-lhe o pêlo e indagou:
— Como é que anda por aqui, Félix? Pensei que morasse nos Estados Unidos.
— Ando viajando — respondeu ele. — Estou correndo mundo para fazer um estudo sobre ratos. Quero saber qual o país de ratos mais gostosos. Até no fundo do mar já estive, onde me empreguei numa corte muito bonita de um tal príncipe Escamado.
— Que bom! — exclamou a menina batendo palmas. — Não sabe que me casei com esse príncipe?
— Sei, sim. Ele mesmo me contou. Por sinal que anda morto de saudades da menina.
— E não me mandou nenhum recado?
— Mandou, sim. Mandou dizer que hoje, sem falta, vem ao sítio de dona Benta fazer uma visita à sua querida esposa. Quer matar as saudades e também conhecer sua vovó.
— Sua de quem? Minha ou dele?
— Sua e dele. O príncipe chama dona Benta de vovó.
Narizinho enterneceu-se.
— Vê, Emília? Vovó virou avó dele também... Que amor!
E voltando-se para o gato:
— Mas vem hoje mesmo ou é um modo de dizer?
— Vem, sim. Quando saí de lá, o príncipe estava aprontando a malinha de viagem, com o coche de gala já à espera na porta.
— Como é a malinha dele? — perguntou a boneca.
— Não meta o bedelho, Emília — advertiu Narizinho. — Antes vá avisar vovó e tia Nastácia da visita do príncipe. Mexa-se...
A boneca amarrou o burrinho, pois estava curiosa de ouvir a conversa do gato, e foi andando de corpo mole em direção à casa, sem a menor pressa de chegar. Enquanto isso a menina dizia ao gato:
— Continue, senhor Félix!
— Não me lembro onde estava...
— No coche...
— É verdade. O coche já está à espera dele. Vem o príncipe, vem o doutor Caramujo, vem o Bernardo Eremita, vêm todos.
Narizinho bateu palmas, e de tão contente chegou a dar um beijo no focinho do gato Félix.
— Vai ser uma lindeza! A boba da vovó e tia Nastácia vivem duvidando do que eu conto. Quero só ver a cara delas agora...
Depois chamou a boneca, que já ia meio longe:
— Emília!...
— Que é, Narizinho?
— Para onde vai indo com “tanta pressa”?
— Dar o recado que você mandou.
— Volte, boba! Não viu que falei de mentira? Emília voltou, no seu passinho duro de boneca.
— Escute — disse-lhe a menina. — Vamos hoje pregar uma grande surpresa em vovó e preciso combinar tudo com Pedrinho. Vá chamar Pedrinho. Diga-lhe que venha correndo.
— Chamar de mentira?
— Não! Desta vez é de verdade. E depressa! Vá num pé e volte noutro.
Pedrinho veio e os quatro levaram uma porção de tempo combinando a surpresa que iam pregar na pobre vovó. O gato Félix foi mandado ao encontro do príncipe para avisá-lo da hora justa em que devia chegar. Em seguida Narizinho fez recomendações à boneca.
— A surpresa vai ser no finzinho do almoço. Mas você não pegue a fazer cara de muito sabida, que vovó desconfia.
Chegada a hora do almoço, todos foram para a mesa. Nada se passou de extraordinário até o momento do café. Aí dona Benta fixou os olhos na cara da Emília e disse:
— Estou desconfiada de que vocês estão me armando alguma peça. Esse ar de sonsa da Emília não me engana.
Emília nunca soube fingir. Quando ia fingir, fingia demais e estragava o fingimento. Mas Narizinho sossegou a boa velha.
— Não é nada, vovó. Emília é uma bobinha. Nisto ouviu-se rumor lá fora, seguido de batida na porta — uma batidinha muito delicada, tic, tic, tic...
— Quem será? — exclamou dona Benta, estranhando aquele modo de bater. E gritou para a cozinha: “Nastácia, venha ver quem bate.”
A negra apareceu, de colher de pau na mão. Foi abrir, mas de acordo com o seu costume espiou primeiro pelo buraco da fechadura.
Espiou e ficou assombrada.
— Que é, filha de Deus? — perguntou dona Benta inquieta.
— Credo! — exclamou a preta. — O mundo está perdido, sinhá!...
— Mas que é, rapariga ? Desembuche...
— É uma bicharia, que não acaba mais, sinhá! O terreiro está “assim” de peixe, de concha, de caranguejo, de quanto bichinho esquisito há lá no mar. Até nem sei se estou acordada ou dormindo... — e beliscou-se para ver.
— Eu bem estava adivinhando que ia haver coisa hoje! – disse dona Benta erguendo-se da mesa para espiar também. Arrumou os óculos e, afastando tia Nastácia, olhou pelo buraco da fechadura. E ficou ainda mais assombrada do que a preta ao ver toda a população miúda do mar rodeando a casa.
— Que significa isto? — perguntou voltando-se para Narizinho.
— Não é nada, vovó. É o príncipe Escamado com sua corte que vem nos visitar. Ele quer muito conhecer a senhora.
Dona Benta olhou para tia Nastácia, de boca aberta, sem saber o que dizer.
— Eles são todos muito boa gente — continuou a menina. – Vão passar aqui a tarde e garanto que não desarrumam coisa nenhuma. Vovó pode ficar descansada.
— Mas que idéia, Narizinho, de virar esta casa em jardim zoológico! Onde iremos parar com tais brincadeiras?
— Não deixe, sinhá! — interveio a preta. — Não abra a porta. É tanto bicho esquisito que até estou tremendo de medo.
Narizinho deu uma risada.
— Eles não mordem, boba! São criaturinhas civilizadas e de muito boa educação. A preta não se convenceu.
— Eu sei! — disse ela. — Certa ocasião um caranguejo me ferrou neste dedo que até marca deixou. Não consinta, sinhá! Não deixe entrar em sua casa essa bicharia sem jeito.
E foi tratando de botar a tranca na porta. Vendo que a tranca na porta iria estragar todo o seu plano, Pedrinho saiu pelos fundos para entender-se com o príncipe, ao qual disse:
— Vovó e tia Nastácia estão tremendo de medo, sem coragem de abrir a porta. Umas bobas. Pensam que vocês são desses bichos malvados que mordem.
O príncipe, que esperava uma calorosa recepção por parte de dona Benta, ficou muito ressentido.
— Nesse caso prefiro voltar — disse com dignidade. — Não me julgo com direito de perturbar o sossego duma tão respeitável senhora.
— Isso é que não !— retorquiu Pedrinho. — Já que vieram, têm que entrar, quer as velhas queiram, quer não queiram. Se não puderem entrar pela porta, entrarão pela janela. Esperem aí...
E foi correndo buscar uma escada.
––––––––
Continua... Aventura do Príncipe – II – Entram Todos
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa
Nenhum comentário:
Postar um comentário