Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Caldeirão Poético XXXII


BENI CARVALHO
(1886-1959)

ESSÊNCIA IMPERECÍVEL


De ti, de teu casulo material
Todo o eflúvio de carne embriagador
Há de passar, há de fugir, tal qual
Se vai, da murcha rosa, o aroma e a cor.

De teu olhar o cálido fulgor,
De teus lábios a música auroral,
Tudo se extinguirá, quando se for
De teu corpo a dinâmica vital.

Não morrerás, no entanto; eterna e viva,
Brilharás nos lampejos de tua alma,
Que a Morte não domina, não cativa.

E, então, como Virtude, hás de viver
Desfeita em branda luz, na suave, e calma
E espiritual essência do teu Ser!

BRUNO BARROSA
(1886-1956)

ÂNSIA INFINITA


Alma! sobe, desvenda, alcança outras planuras,
Quebra o grilhão fatal, quebra a maldita algema
Que te prende no chão, e voa nas alturas,
Embora o sol desmaie, embora a nuvem trema.

Povoa a solidão das noites mais escuras...
Tira da luz a crença, esta verdade extrema
Que te falta e, se um deus é o que, ardente, procuras,
Faze um deus que contigo as dores sinta e gema.

Mas, que vejo? Voaste, asas abertas, frio
O ar, a nuvem que passa e foge, a imensidade
Viste e viste sem luz o espaço, ermo e vazio.

Baldado é teu esforço, inútil é teu grito:
És pequena demais, mesquinha humanidade,
E esmaga-te a cabeça o peso do infinito.

COSTA E SILVA
(1885-1950)

EGO


Sou, talvez, o mais triste ser humano
Que vive sob o céu ou sobre o solo,
Porque possuo o espírito de Apolo
Na feia catadura de Vulcano.

Malgrado esta desdita e o desengano
A que Amor me votou, eu me consolo
Na esperança de ainda sobre um colo
De Nereida dormir tranquilo e ufano.

É que, sem mesmo as correções marmóreas
Que teve o deus para os cinzéis helenos,
Com a sacra flama e com os pulmões de Bóreas,

Hei de, em carnes polífonos, ao menos,
Vencendo as glaucas vastidões equóreas,
Enternecer o coração de Vênus.

HEITOR LIMA
(1887-1945)

RENÚNCIA


Fugir, deixando um bem que o braço já tocava
Pela incerteza atroz de uma fé que redime...
Fugir para ser livre, e sentir, na alma escrava,
A sujeição fatal de uma paixão sublime.

Fugir, e, surdo à voz da consciência, que oprime,
Opor diques de gelo a torrentes de lava,
Sentindo, na renúncia, o alvoroço de um crime
Que a ingratidão aumenta e a covardia agrava.

Fugir, tão perto já da enseada, vendo, ao fundo,
Gaivotas esvoaçando entre velas e mastros,
Na glorificação triunfal do sol fecundo.

Fugir do amor - fugir do céu, fugir de rastros,
Sufocando um clamor que abalaria o mundo
E abafando um clarão que incendiaria os astros!

HERMES FONTES
(1888-1930)

IN EXCELSIS!


Glória a ti, que és perfeita, em quanto, humanamente,
possa alguém atingir à perfeição moral!
Glória! Ao desabrochar dessa alma redolente
o incenso do meu culto, o hino do meu ritual!

Glória a Ti, só a Ti, pois é em Ti, somente,
ó Expressão Natural do Sobrenatural,
é só em Ti que encontro a invisível semente
com que, assim, frutifico em pensamento e ideal!

Glória, em Ti, alma irmã! Milagre, que conferes
a todos os que atrais e a mim, que repudias,
a alta revelação da maravilha que és!

Glória, em Ti, ao Amor! Glória, em Ti, às mulheres!
A Ti, que reduziste a glória dos meus dias
a degrau do teu Sólio, a escrínio dos teus pés!...

OSCAR LOPES
(1883-1938)

O FIM


Um de nós morrerá primeiro... Eis a verdade,
Eis o que é natural, sendo embora monstruoso!
Um ficará na terra, envolto na saudade,
Depois de o outro ir buscar o absoluto repouso.

Quem de nós transporá primeiro a eternidade?
Eu ou tu? - Quanta vez, nos momentos de gozo,
Sinto em mim a aflição dessa curiosidade
Devorar o meu ser, como um cancro horroroso!

Tu ou eu? Tu, que és linda, e que és moça, e que és boa,
Ou eu, que não sou mais do que um farrapo humano?
- Não sei o que me diz que irás na minha frente...

Irás... E eu ficarei como uma coisa à toa,
Como um cão para o qual é tudo desengano
E que chora o seu dono inconsolavelmente...

RAUL DE LEONI
(1895-1926)

DESCONFIANDO


Tu pensas como eu penso, vês se eu vejo,
Atento tu me escutas quando falo;
Bem antes que te exponha o meu desejo
Já pronto estás correndo a executá-lo.

Achas em tudo um venturoso ensejo
De servir-me de servo e de vassalo;
Perdoa-me a verdade num gracejo.
Serias, se eu quisesse, o meu cavalo...

Mas não penses que estólido eu te creia
Como um Patroclo abnegado, não:
De todos os excessos se receia...

O certo é que, em rancor, por dentro estalas;
Odeias-me, que eu sei, mas, histrião,
Beijas-me as mãos por não poder cortá-las...

RONALD DE CARVALHO
(1893-1935)

AVATAR


Antes, a alma que tenho andou perdida.
Porque mundos rolou, que mão sutil
Pôs tão nobre fulgor, e estranha vida,
Nesse bocado de ouro e barro vil?

Decerto, árvore foi: verde jazida
De ninhos, sob o céu de espuma e anil,
E foi grito de horror, na ave ferida,
E, na canção de amor, sonho febril!

Foi desespero, sofrimento mudo,
Ódio, esperança que tortura e inferna;
E, depois de exsurgir, triste, de tudo,

Veio para chorar dentro em meu ser,
A amarga maldição de ser eterna,
E a dor de renascer, quando eu morrer!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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