Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 1 de setembro de 2019

Nilto Maciel (Romos)


Os teus príncipes são como os gafanhotos, e os teus chefes como os gafanhotos grandes, que se acampam nas sebes nos dias de frio; em subindo o sol voam embora e não se conhece o lugar onde estão. Os teus pastores dormem, ó rei da Assíria; os teus nobres dormitam; o teu povo se derrama pelos montes, e não há quem o ajunte.
Naum, 17.18.


Chamou-nos de lá, do alto ou do fundo da terra, um Messias novo, uma voz interior apocalíptica, a necessidade de salvação urgente ou seja lá o que for. Abrimos os olhos, avistamos a névoa misturando-se às nuvens, o verde empalidecendo, e corremos irmanados pela estrada que leva aos píncaros da serra, lá onde os jesuítas ergueram um castelo no meio de seu feudo.

Já pisamos meio caminho de subida. Ainda avistamos a via-sacra, que não mais tocamos com os pés, para não nos comprometermos com as obras dos que fabricaram nossa desgraça. As borboletas ainda pousam sobre nossas cabeças, enchendo-as de fantasia. Recordamos as mãos invisíveis que nas noites intermináveis suspendiam nossas redes até as telhas. Embora nos firamos nas urtigas traiçoeiras, estamos catando flores silvestres, para não nos esquecermos destas cores, quando penetrarmos as grutas sem luz. Já chupamos todas as mangas que o tempo derrubou no meio do caminho e debaixo das mangueiras dos sítios que ladeiam a estrada. Já nos lavamos dez vezes nas águas apressadas e frias das levadas. Descemos, os mais afoitos, ao Poço da Moça, para nos banharmos de coragem, e pulamos as altas e gigantescas pedras por onde as águas do rio deslizam e onde as lavadeiras passam seus dias. Penetramos as hortas e devoramos as verduras que os moradores cultivam para a ceia dos padres. Como se para assistir à destruição das cidades da campina, voltamo-nos de defronte ao castelo para uma última visão da nossa, sem medo de nos convertermos em estátuas de sal. Tudo pequeno e distante.  Uma nódoa esbranquiçada no meio do verde do vale. Decididos e medrosos do passado e do embaixo, vasculhamos os três pavimentos do velho seminário e escutamos as vozes perdidas dos meninos que lá brincaram, rezaram e estudaram. Na saída, batemos a cachorra, para assustar os fantasmas que habitam a tristeza das noites. Corremos, suados e sedentos, para a bica da barragem e nos lavamos um a um. Subimos a parede e nos ensopamos de sujeira. Pelas enormes fendas as águas escorriam, ameaçando estourar a sólida parede. Por precaução, voltamos à estrada e tomamos o rumo de Caridade. Não mais uma estrada, apenas uma vereda. Cansamos mais e parávamos de instante a instante. Entretinhamo-nos a ver as grandes formigas pretas, chupávamos os coquinhos das babaçus descomunais que nascem no fundo dos abismos e vêm mostrar suas folhas no alto onde a vereda se fez, e escutávamos os cantos dos pássaros, para esquecermos os ferimentos que as pedras faziam em nossos pés. Mil vezes cansamos, mil vezes descansamos. Quando lá chegamos, mal tivemos curiosidade de escancarar as portas e janelas do casarão. Acampamos nos treze degraus e na calçada em sombra, voltados para o vale já muito distante e já muito embaixo. No quintal, porcos comiam jaca, galinhas beliscavam o chão, laranjas e tangerinas apodreciam nas árvores. Mais adiante, engenhos de cana tomados de mato. Um abandono completo. Estávamos novamente suados e sedentos. Sabíamos que havia uma bica mais no alto. Subimos por outra vereda. Encontramos uma casinha de taipa, a casa do antigo morador, desabitada e prestes a cair. No chão, uma baladeira. Voando e cantando, pássaros variados. Bebemos água límpida que escorria de um cano. A bica estava cercada. Nada mais havia a ver sobre o chão. Restava buscar as grutas. Regressamos para tomarmos a vereda perigosa que leva à Gruta dos Morcegos. Outro abismo nos esperava. Seguimos, prudentes. Tropeçamos em árvores caídas, em galhos ressequidos, em folhas de palmeiras. Chegamos à gruta e tratamos de escalá-la. A areia era negra e fina como pó de carvão. Sujos, arrastamo-nos sobre a grande pedra e partimos em busca da caverna. Espantamos os morcegos e as cordas que pendiam dos tetos de monólito e descemos pela profunda grota que leva ao interior da terra.

Nós já fomos pacatos, trabalhadores e puros. Construímos esta cidade em mais de cem anos. Alimentamos meio sertão de frutas e legumes. Exportamos café para os brancos do Sul e gênios a quem nunca erigiram uma estátua. Outrora aqui os primeiros homens da terra viviam no Éden. Depois vieram os portugueses e os jesuítas e começou nossa ruína. Odiamos-nos, matamos-nos, roubamos-nos, caluniamos-nos, atraiçoamos-nos, tornamos-nos madalenas, traímos nossos esposos e nossas esposas. Nossos comerciantes faliram nos bares, cassinos e cabarés. As moças foram desvirginadas e os moços se entregaram à vadiagem. De adoradores da Natureza, passamos a adoradores de estátuas. E, não suportando mais nossa traição, assaltamos os altares e profanamos os templos, mesmo antes da fuga dos padres, que abandonaram os conventos, os seminários e as igrejas. Esquecemos o latim, a missa, as orações e a Bíblia. E, inexplicavelmente, pisoteamos os jardins, desfolhamos os benjamins, desmatamos a serra, sujamos de sabão e sangue as geladas e límpidas águas de nossos rios, agora divididos por cercas de pau e arame aqui e acolá, margeados por cruzes e monumentos aos que roubaram os pobres, queimamos os cafezais e nos alimentamos hoje unicamente de banana e manga, que mal alimentam os poucos pássaros que não fugiram para o sertão. Derrubamos os velhos casarões ou deles fizemos bares e albergues de mulheres longínquas para nossos homens corrompidos. Erigimos por todas as cercanias casebres de taipa, fazendo de nossa cidade uma Canudos pequena. E, num passado recente, adoramos os ditadores europeus e nos destroçamos em defesa de ideais diabólicos, esquecidos de nosso verde e de nossos cento e tanto anos. Hoje, morremos raquíticos aos trinta anos, quando não nos assassinamos aos vinte ou somos levados pelas águas ardentes aos quinze, frágeis que já somos, degenerados que já estamos.

Por tudo isto, estamos fugindo, por tudo isto, temos que fugir, abandonar esta Sodoma serrana, esta Jerusalém de taipa, e nos refugiar nas grutas mais escuras e mais profundas desta serra farta.

Estamos descendo este rio, sem rumos, sem ramos, sem remos, mas rimos, rimos, rimos.

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Nilto Maciel. Tempos de Mula Preta, contos. Secretaria da Cultura do Ceará: 1981.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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