Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de setembro de 2019

Malba Tahan (Um Noivado em Bagdá)

    


Quando eu tinha vinte anos de idade, fui, certa vez, a Bagdá.

No dia seguinte ao de minha chegada - tendo a necessária licença do Valli (1) - armei uma grande tenda junto à praça de Otmã e preparei-me para vender aos vaidosos "bagdalis" perfumes, tapetes e as mil quinquilharias que lhe trouxera das terras longínquas da índia e da China.

    Em dado momento aproximou-se de minha tenda uma mulher, já velha, magra e esfarrapada, o rosto descoberto, o andar curto e arrastado. Depois de examinar, com o olhar distraído, talvez por mera curiosidade, as bugigangas espalhadas sobre grossos tapetes hindus, disse-me:

- Ó jovem e formoso mercador! Seja Allah o teu guia e o teu amparo! Há quarenta anos passados, um homem do teu tipo escolheu-me para esposa e tirou-me do serralho de meus pais! E a felicidade sempre me sorriu no harém (2) de meu amado!

Ao ouvir palavras tão bondosas, cuja simplicidade parecia aliar-se a uma emoção sincera, fiquei profundamente lisonjeado.

- Agradeço-vos - respondi-lhe - a expressão amável e a forma gentil do vosso salã! Seja a paz a vossa estrada e a alegria sã e perfeita a luz dos olhos de vossos filhos!

- Ualá! - acudiu a velha. - Vejo que és afável e eloquente. Desejo verificar agora se a generosidade que aflora nos teus lábios provém realmente de teu coração. Escuta, mercador: sou pobre e não tenho de meu um único dinar. Queres, ainda, assim, fazer comigo uma transação?

- Ouço a vossa proposta, senhora! - retorqui, sem hesitar. - Asseguro-vos, porém, que já está aceita.

- Dá-me, então - atalhou a anciã - um frasco de perfume. Prometo, em troca, ensinar-te alguns versos de um antigo poeta de Mossul.

Tomei de um dos mais belos e valiosos frascos de essência e entreguei-o à misteriosa criatura.

E ao tempo em que ela ocultava sob as vestes rotas, a obra-prima de um perfumista de Basra, disse-lhe:

- Aguardo ansioso o vosso pagamento, senhora!

- Oh, jovem bem dotado! - exclamou - os versos com que pretendo retribuir a tua desmedida generosidade jamais deverão desamparar os teus pensamentos. Escuta-os:

"Só é digno mil vezes da misericórdia infinita de Deus aquele que em si próprio encontra forças para resistir à tentação do pecado!"
    
E, sem mais palavra, afastou-se, o andar arrastado, impelindo para diante o cascalho do caminho.

Era a hora triste do ezzã (3).

A voz cantante do muezim (4) cego chamava os crentes à oração:

- Allah é grande e Maomé é o Enviado de Deus! Vinde à prece, ó muçulmano; vinde à prece! Lembrai-vos de que, na vida, tudo é pó, exceto Allah! Lembrai-vos de que...

Voltei-me na direção da Cidade Santa (5), retirei as sandálias, estendi o meu tapete e em Allah Onipotente, criador do céu e da terra, concentrei meus pensamentos, isolando-me da vida material e vil.

- Ualá! - acudiu a velha. - Vejo que és afável e eloquente. Desejo verificar agora se a generosidade que aflora aos teus lábios provém realmente de teu coração. Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Allah!

E o eco ressoando ao longe, nas montanhas de Kilv, parecia repetir:

- Exceto Allah! Exceto Allah!

Cinco dias volvidos achava-me descuidado junto à tenda, quando avistei um cheique que passava solene em garboso camelo que um escravo negro, seminu, conduzia vagarosamente pela rédea.

    - Cheique dos cheiques! - exclamei, dirigindo-lhe amistoso salã (saudação). - Maahaba ahlã na Sahlã na anastina! Aqui tenho à vossa disposição os únicos perfumes dignos das mulheres encantadoras do vosso harém.

O desconhecido ergueu o rosto para mim, e num sorriso afável traduziu o agradecimento com que retribuía a saudação carinhosa que acabara de ouvir.  Parecia ainda relativamente moço. Os traços enérgicos de sua fisionomia serena faziam pensar que um escudo possante de energia devia revestir-lhe a alma. Ostentava, num requinte de bom-gosto, riquíssimo keffié (6) de três pontas, todo de seda branca, com barras azuis.

O cheique fez parar o camelo, ordenou ao escravo que o fizesse apear-se do matuflê (7) e concedeu-me a honra de vir examinar de perto as ricas alcatifas que eu  vendia, com paciência e probidade, sem ferir um só versículo do Alcorão!

Quis a vontade de Allah (glorificado seja o Eterno!) que o olhar do cheique fosse incidir sobre um pequeno quadro de madeira no qual eu escrevera em belos caracteres negros os tais versos que, à guisa de pagamento, ouvira da anciã.

Mostrou-se o cheique tomado do mais vivo espanto ao se lhe deparar a legenda poética do quadro, as mãos tremiam-lhe e uma onda de acentuada palidez invadiu-lhe as faces.

    - Mercador - interpelou-me, num tom seguro e autoritário - quem te ensinou esses versos?

Contei-lhe - e não via razão para ocultar a verdade - a invulgar transação que, dias antes, fizera com a velha, repetindo-lhe fielmente as palavras gentis que dela ouvira naquela tarde!

    - Louvado seja Allah, o Justiceiro! - exclamou o cheique. - Acabo de descobrir, graças ao teu auxílio, ó mercador, o paradeiro de uma criatura que há três anos procuro pelas terras do Islã.

Naquele momento a desconfiança e a dúvida invadiram-me o espírito. Teria o infeliz cheique a razão perturbada pela loucura? Ou que sentido oculto haveria em suas palavras?

O rico muçulmano, esclarecendo o caso, contou-me o seguinte:

- Meu nome é Abd-el-Uhad, e sou filho do poeta El-Bagavi, de Mossul. Compelido pelas necessidades da vida e forçado, muito cedo, por um destino ingrato, deixei minha família e fui tentar a vida no país de Candahar, na índia, onde graças a Allah, tive um largo período de prosperidade. Passados vinte anos, como já me satisfizessem as riquezas que então possuía e também para livrar minha filha Sálua de um rajá perverso que a queria desposar, resolvi voltar ao meu velho torrão natal. Soube, chegando a Mossul, que meu pai havia falecido alguns anos antes, mas do paradeiro de minha mãe não me souberam dar notícia alguma. E há três anos que a procuro inutilmente pelas cidades e aldeias. Já desanimado, depois de fatigantes pesquisas, deliberei, a conselho de um velho imã de Basra, fazer uma peregrinação a Meca. Cheguei ontem a esta cidade e daqui pretendia partir dentro era breve, com uma caravana de xiitas (8) para o Santuário da Fé. Quis, porém, Allah, o Exaltado, que eu viesse agora encontrar na tua tenda - naquele quadro que ali está - alguns dos mais belos versos de meu saudoso pai. Não me foi difícil inferir - na narrativa que fizeste - que a misteriosa anciã que levou o teu perfume era precisamente aquela que foi a esposa única de meu pai. Na certeza de que ela se acha nesta cidade, espero encontrá-la sem mais canseiras nem jornadas.

    E, ao terminar, pousou no meu ombro a sua larga mão bronzeada e perguntou-me, como se tivesse tomado, no momento, uma resolução inabalável.

    - Quanto queres, mercador, pela tua tenda, com tudo o que nela se encontra?

    Meditei, em silêncio, durante  algum  tempo, e  compreendi  que  o  dadivoso  cheique entendia ter encontrado uma forma delicada de manifestar a sua gratidão. O céu e a generosidade do árabe - ensina um provérbio - não tem limites no possível.

- Pela minha pobre tenda - respondi, fitando-o com desembaraço - nada quero! Considerai-a, desde já, como coisa vossa! Mas pelos versos, que estão naquele quadro, quero - se for possível - a mão de Vossa filha Sálua!

A minha audaciosa proposta causou não pequena surpresa ao rico Abd-el-Uhad.

- Ó mercador! - exclamou. É singular! Acabas de pedir em casamento uma jovem sobre os predicados da qual não tens a menor informação (9). Sálua será formosa ou terá os traços deformados pela feiura?

- Cheique dos cheiques - retorqui, no mesmo instante. - Tenho sobre a beleza incomparável de minha futura noiva, duas indicações preciosas, de grande valor. Primeiro: Sálua é vossa filha!

- E qual é a outra? - indagou o cheique, lisonjeado na sua vaidade de pai.

- Houve um rajá que a desejou para esposa. Não conheço vossa filha, é certo, mas conheço muito bem os rajás; e sei que são homens que não caminham de olhos vedados pelas estradas da vida!

    - Aceito o teu pedido - replicou, risonho o cheique. - És, ó jovem, mais inteligente do que eu pensava. Dou-te minha filha em casamento e tomo-te, de hoje em diante, sob minha proteção.

Foi assim que fiquei noivo em Bagdá. O sol anunciava no horizonte azulado do Islã a hora da prece do crepúsculo.

A voz clara do muezim perdia-se em ondas vagarosas pelo céu.

E naquele momento, precisamente, em que o Destino parecia concluir a página mais feliz da minha louca existência, apontando-me o caminho da Ventura e do Amor, chegava-me aos ouvidos aquelas palavras eternas, que me arrancavam do mundo dos sonhos para a realidade triste da Vida.

    - Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Allah...
_____________________________________
Notas
1- Valli – Prefeito da cidade, governador de uma província.
2- Harém - Vocábulo derivado do árabe harã - proibido. Harém é a parte da casa de um muçulmano onde ficam suas esposas.
3- Ezzã - Oração da tarde.
4- Muezim - Pregoeiro. O muezim chama do alto dos minaretes os fiéis à oração. Os muezins, em geral, são cegos.
5- Meca.
6- Peça do vestuário.
7- Espécie de palanquim que se coloca no camelo.
8- Xiitas - Seita protestante dentro do Islã.
9- Eram, em geral, as velhas que frequentavam os haréns que davam aos namorados indicações sobre os predicados das jovens casamenteiras.

Fonte:
Malba Tahan. Os segredos da alma feminina.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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