Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Carolina Ramos (A Boneca)


Primeiros dias de férias, Cristina ajeitou a boneca na mochila, deixando para fora a cabeça loira – encaracolada. Deu a mão ao avô, que a deixaria na casa da coleguinha. Levava consigo a vontade de partilhar com a amiga a intensa alegria das primeiras horas de folga.

— Cuidado com a boneca. Aí onde está é fácil perdê-la.

— Pode deixar, vô. Está bem presa. Não vou perdê-la, não.

Cristina e o avô davam-se às maravilhas. Conversavam como dois adultos, brincavam como duas crianças.

Os dois quarteirões, que os separavam da residência procurada, não exigiam condução mais rápida que um par de sapatos cômodos e pés dispostos a caminhar.

Mãos dadas, a tagarelar, avô e neta não tinham pressa de chegar. Um vulto suspeito, seguia-os de perto.

Magro, barba crescida, mãos nervosas, o homem não deixava oculto o interesse pela cabecinha loira-encaracolada, que ultrapassava a boca da mochila presa, aos ombros da menina.

Por várias vezes, estendera a mão trêmula, num gesto fortuito de intenção não consumada. O sinal vermelho favoreceu-lhe o intento, aglomerando os pedestres à beira da calçada. Na alma do homem, brilhou luz verde. Num átimo, tinha nas mãos a bonequinha loira que, pressionada, gritou fanhosa: Mamã!

Nada mais foi preciso para que a "mamã", alertada, se debulhasse em lágrimas: — Roubaram a minha boneca!!!

Nem o peso da idade e nem mesmo os excessos de peso acusados pela balança implacável, impediram aquele avô de atirar-se, impulsivamente, ao encalço do larápio, tão logo captou o desespero da neta. Mas, foi a dor aguda da angina que lhe tolheu a arremetida, logo aos primeiros passos.

Parou, levando a mão ao peito. A ira prosseguia crescente, na perseguição ao fugitivo, pouco adiante, seguro por mãos justiceiras.

A ternura do avô afagou a cabecinha da neta que soluçava sem parar, desprezando os esforços consoladores.

Sabia bem o quanto aquela boneca representava para a neta! Fora difícil a procura e mais ainda a escolha da menina. Visitas, sucessivas, a várias lojas de brinquedos, sem que nada satisfizesse a pequena. Era como se a cada dia fossem a novo berçário para escolher, a dedo, o bebê que se integraria aos sonhos da família.

O aniversário de Cristina avizinhava-se, quando, afinal, acontecera o milagre. Os olhos da menina cresceram, iluminados, ao vislumbrarem, na vitrina, aquela boneca! Um verdadeiro encontro de almas, se alma tivesse aquela coisinha fofa, loira-encaracolada.

Satisfeito com a decisão, o avô, cheio de júbilo, nem regateara o preço. Costumava dizer: ~ Pedido de neta é lei!

Pagou alto, pagou com gosto!

Pacote nos braços, haviam saído da loja duas crianças radiantes, sem que fosse possível constatar qual das duas a mais feliz!

Um mês depois, tudo mudava. Os fatos ali estavam; — Dois homens, e seus íntimos conflitos, defrontavam-se. Um, subjugado por mãos hostis, cabisbaixo, derrotado. Outro, tinindo de raiva, sopitando a custo o impulso de distribuir tabefes,

A pontada no peito não impediu o avô de inquirir furioso: — Seu cretino! Vagabundo! Não tem vergonha de arrancar uma boneca dos braços de uma criança?! É o cúmulo! O fim do mundo!

Para abastecer a raiva, estirou o olhar furibundo até a neta que, enternurada, abraçava a boneca, devolvida por alguém que testemunhara a cena.

O olhar do larápio acompanhou o seu.

— E então? — inquiriu ainda agressivo — o que tem a dizer?

Vencendo a emoção, o homem subjugado conseguiu protestar: — Não sou vagabundo, não senhor. Estou desempregado... Não consigo trabalho... não sei mais o que fazer!

– E isso lhe dá direito de causar tanto mal a uma criança?

Pausa constrangedora antes que o homem, submisso, cabeça baixa, gaguejasse, buscando dentro de si uma atenuante:

— É que o Natal está chegando… e eu também sou avô!…

A bordoada das palavras entrecortadas de emoção, abateu-se sobre a fúria do avô de Cristina. Num instante, a raiva desceu a zero!

Constrangido silêncio e logo a capitulação:

— Tudo bem… tudo bem... Podem soltá-lo. Não vou dar queixa, não.

Vasculhou os bolsos, estendendo um cartão ao homem que o fitava agradecido:

— Procure-me neste endereço. Talvez lhe arranje trabalho.

Mais alguns dias e chegava o Natal. Festivo e bimbalhante de amor! Com ele, uma linda boneca, irmã gêmea daquela que encantara Cristina, foi bater à porta de uma casa modesta, onde a luz da esperança começava a renascer. Lar singelo, onde um outro avô e uma outra neta aprendiam a rir e a brincar juntos, como duas crianças felizes!

A brisa, a insinuar-se pelo arvoredo, soprava flautas invisíveis e a música suave parecia repetir em surdina: "Paz na terra aos homens de boa vontade.”

Fonte:
Carolina Ramos. Feliz Natal: contos natalinos. São Paulo/SP: EditorAção, 2015.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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