Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Cecy Barbosa Campos (o Bom Ladrão)


Pensava em suas crianças. Magrinhas e famintas não davam sossego à mulher que, de jovem viçosa e decidida, passara a uma sombra do que fora, com os olhos sem brilho, desgastada pela lida com os sete filhos e três abortos.

As palavras do Zé ecoavam em seus ouvidos: "Olha cara, tu é bobo. Pega um carro, leva pra oficina do Manolo, que ele te dá um dinheiro bom pelo desmanche".

Hesitava. Afinal, nunca fizera nada grande. Só pequenos furtos, quando pegava uma carteira distraída em cima do balcão, umas frutinhas no supermercado. coisas pequenas que o deixavam em perigo e não resolviam nada. Tinha, sim, que ter coragem e fazer alguma coisa que melhorasse a sua situação.

Enquanto pensava, tomou uma pinga e observou o casal que chegara no Monza cinza, estacionado quase em frente ao bar, em local proibido.

O homem começava a ficar embriagado, e a mulher, rindo muito, parecia mais "alegre" do que ele.

Saindo do bar, parou para olhar o carro e viu que a chave estava na ignição. Achou que era um sinal, e que não poderia perder a oportunidade.

"Pegar o carro e levar pro Manolo. Tudo ficaria resolvido em pouco tempo".

O motor estava bom, e o Monza, apesar de velho, funcionava perfeitamente. Empolgado, pisou no acelerador sentindo-se um herói até que, quase chegando, assustou-se com um choro de criança.

Num primeiro impulso, achou que era um dos seus filhos e, olhando para trás, verificou que, deitado no banco, estava um bebê que acordara assustado, provavelmente, pelos solavancos da estrada e as curvas bruscas que o motorista fazia.

Firmino parou o carro imediatamente. Deixou a direção e pegou o bebê, embalando-o carinhosamente. Como pai experiente, verificou que a fralda precisava ser mudada e, olhando melhor, viu que no carro havia uma sacola. Abriu-a e encontrou o que necessitava para a limpeza e troca. Acabada a função, deu conta do que acontecera: o casal resolveu beber e deixou a criança sozinha no carro. Revoltado, pegou no celular e chamou a polícia informando que deixaria o carro naquele local, a estrada que levava ao Buraco do Bode, e que o resgate devia ser rápido, pois havia uma criança no carro.

Ajeitou o bebê o mais confortavelmente possível e saiu correndo, pois não poderia ser encontrado por ali.

Fonte:
Cecy Barbosa Campos. Recortes de Vida. Varginha/MG: Ed. Alba, 2009.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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