quinta-feira, 16 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa 196 = Os tordos e a coruja

LEONARDO DA VINCI
Itália, 1452 – 1519, França

Estamos livres! Estamos livres! - gritaram os tordos certo dia, vendo que um homem apanhara a coruja - agora a coruja não vai mais nos assustar. Agora dormiremos em paz.

De fato, a coruja caíra numa armadilha e o homem a colocara dentro de uma gaiola.

- Vamos ver a coruja na prisão! - disseram os tordos, voando e cantando em volta da gaiola de sua inimiga.

Porém o homem capturara a coruja com outra finalidade, a de apanhar os tordos. A coruja aliou-se imediatamente a seu captor, que prendeu-a pelo pé e colocava-a diariamente em cima de uma estaca, bem à vista. A fim de poderem ver a coruja, os tordos voaram para as árvores próximas, nas quais o homem escondera gravetos cobertos de visgo. E assim como a coruja, os tordos também perderam a liberdade.

Moral da Estória:
Esta fábula é dirigida a todos os que se alegram quando um opressor perde a liberdade. Pois o conquistado logo se torna aliado ou instrumento do conquistador, enquanto que todos aqueles que nele confiam sucumbem a outro senhor, perdem a liberdade, e frequentemente também suas vidas.
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LEONARDO DE SER PIERO DA VINCI nasceu em Anchiano, em 1452 na Itália e morreu em Clous Lucé, em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual.

Guirlanda de Versos * 88 *



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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

Antonio Brás Constante (Automóveis - Veículos, Armas ou brinquedos?)


O automóvel. Possante. Veloz. Confortável. Símbolo ultrapassado de status social (o atual símbolo é o helicóptero, em alguns casos um avião presidencial). Esta máquina sobre rodas é o sonho de onze entre dez adolescentes. Paixão de muitos amantes por carros. Moradia para outros tantos. Transporte para vários. Motel para uns mais afoitos e meio de vida para outros que dele dependem para ganhar o pão de cada dia (com manteiga e umas fatias de mortadela).

Esta grande invenção é mesmo uma maravilha. Quanto tempo se ganhou com ela. Quanto conforto se adquiriu com os belíssimos carros que andam em nossa volta. Quantas vidas foram salvas por chegarem a tempo nos hospitais. Tantas barreiras de distâncias foram quebradas com a ajuda desses veículos incríveis, que estão sobre nosso inteiro domínio. Agindo conforme o comando de nossos braços e pernas.

Somos os senhores absolutos dos automóveis, guiando-os pelas estradas, ruas e avenidas. Eles são como uma vestimenta. Uma armadura em forma de frágil couraça. Nos remetendo aos tempos da idade média. Talvez por isso, muitos ajam como se fossem cavaleiros medievais em busca de sangue.

Jovens cheios de alegria, velhos de aparência bondosa, mulheres, homens, pais de família, pessoas religiosas, entre tantas outras que ao se verem em frente a um volante se transformam em psicopatas. Desafiando quem cruze o seu caminho, agindo como loucos. Descontrolados. Verdadeiros demônios das ruas.

O carro como arma. O carro como instrumento de execução. De impunidade. Ceifando vidas. Matando futuros. Atropelando pessoas de forma irracional. Destituindo seus condutores da alcunha de seres humanos. Passando-os para algozes de outras vidas.

Um homem, um carro e uma garrafa de álcool. Misture os três e terá em seu caminho um arauto da morte. Um ser inconseqüente, regido por uma mente encharcada de bebida e sem nenhuma consciência para com seu semelhante.

Automóveis: veículos, armas ou brinquedos? Está nas mãos de cada motorista a decisão de como usá-los.
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ANTÔNIO BRÁS CONSTANTE é um escritor, cronista e contista brasileiro contemporâneo, amplamente reconhecido no ambiente digital por suas produções literárias marcadas pelo humor satírico e pela ironia cotidiana. Embora não haja um registro público detalhado de sua data de nascimento ou de uma biografia institucional tradicionalizada pelas grandes academias nacionais, suas publicações fornecem informações precisas sobre sua trajetória literária. É um autor gaúcho, residindo e desenvolvendo grande parte de suas atividades e inspirações na cidade de Canoas/RS. Ele costuma se definir publicamente de forma bem-humorada como um "eterno aprendiz de escritor, amigo e amante da musa inspiração". Teve forte atuação na chamada "literatura de internet" durante as décadas de 2000 e 2010. Ganhou notoriedade ao publicar textos, crônicas e contos em plataformas e blogs como o Recanto das Letras, Overmundo e WebArtigos. Sua marca registrada é o uso do humor azedo, da sátira social e de reflexões irônicas sobre a modernidade (como o vício em redes sociais e e-mails) e as reviravoltas da vida cotidiana. Seu foco de atuação sempre esteve voltado à produção independente e à democratização da leitura via internet. Embora não possua grandes prêmios institucionais listados, o autor já integrou seleções de destaque popular. Sua obra alcançou o ranking dos 100 Livros de Crônicas Mais Lidos e dos 50 Melhor Avaliados na plataforma literária Skoob, uma das maiores comunidades de leitores do Brasil. Livros e Textos Publicados: Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE: Livro físico de crônicas e contos de humor. É autor de crônicas e contos populares na internet. 
A importância de Antônio Brás Constante reside na sua capacidade de desmistificar a literatura e aproximá-la do público geral através do humor cotidiano. Ao utilizar a internet como seu principal vetor de distribuição, ele se tornou um exemplo de escritor que rompeu as barreiras editoriais tradicionais. Seus textos conseguem atingir diferentes camadas sociais, servindo tanto para o entretenimento leve de leitores assíduos quanto como ferramenta de mediação de leitura e debates socioeducativos para jovens em salas de aula e projetos de reinserção social.

Fontes:
Recanto das Letras. 15.05.2006
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/156838
Biografia – sites consultados: Rubem..wordpress; Overmundo; Recanto das Letras; Olhar Direto; Web Artigos; etc.

James Joyce (Arábia)

A obscura rua de North Richmond era bastante sossegada a qualquer hora, exceto quando a meninada saía do Chistian Brother’s School. Num dos extremos, ficava uma casa desabitada de dois andares; os outros prédios, conscientes das vidas respeitáveis que neles decorriam, defrontavam-se com ar imperturbável.

O primeiro inquilino que a nossa casa teve foi um padre que morreu numa sala dos fundos. O ambiente, em todos os quartos, estava impregnado de um odor bolorento por terem permanecido fechados durante muito tempo. O de guardados, ao lado da cozinha, achava-se literalmente cheio de papéis velhos, de jornais e livros. Entre estes, encontrei alguns de páginas dobradas e úmidas: “O Abade”, de Walter Scott [1], “O Comungante Piedoso” e as “Memórias” de Vidocq [2] . Gostava mais deste último pelo fato de ter ele folhas amareladas. O quintal, inculto, que havia atrás da casa, tinha uma macieira no centro e alguns arbustos plantados ao acaso. Debaixo de um deles foi que achei a bomba que pertencera à bicicleta do inquilino anterior — sacerdote deveras benemérito que deixara em testamento, a instituições de caridade, todo dinheiro que possuía e, à irmã, a mobília de seu uso.

Nos dias curtos de inverno, a noite descia antes que tivéssemos jantado. Quando nos encontramos, depois, na rua, notávamos que os prédios estavam perdidos nas trevas. O espaço do céu, que se descobria por cima de nossas cabeças, era de uma cor violácea e, para ele, subiam os débeis reflexos dos lampiões. O ar frio espicaçava-nos, e íamos brincando até aquecer o corpo. A nossa gritaria ecoava na rua silenciosa. Atravessando, nessas brincadeiras desenfreadas, os campos escuros e lamacentos que ficavam atrás das casas (onde desafiávamos a molecada do subúrbio), íamos até as portas dos quintais sombrios e gotejantes dos quais emanava o cheiro do lixo, ou até as cavalariças diferentemente odorosas, onde algum cocheiro escovava e penteava as crinas de um cavalo, fazendo tilintar os metais dos arreios. Quando voltávamos, a luz, que saía das janelas da cozinha, iluminava a rua. Se meu tio fosse visto dobrando a esquina, escondíamo-nos num canto até que ele se recolhesse à casa. Ou, se a irmã de Mangan viesse à soleira da porta chamar por ele para ir tomar chá, nós ficávamos espiando-a para ver o que acontecia. Caso ela se conservasse à espera, dávamos por vencidos e voltávamos com passos resignados. Ela, em geral, não arredava o pé, e o seu vulto se destacava na claridade da porta entreaberta. O irmão zombava sempre dela antes de obedecê-la, e eu detinha-me a observá-los por entre as grades. O vestido da moça movia com o seu corpo e a trança solta balançava de um lado para o outro.

Todas as manhãs, eu me punha a espreitar a casa dela. O estore, corrido até quase o parapeito da janela, ocultava a minha presença. Quando ela aparecia no limiar da porta, o meu coração se alvoroçava. Corria para o vestíbulo, agarrava nos livros e a seguia. Aquela imagem estava sempre diante dos meus olhos. Quando chegava à altura dos nossos caminhos divergirem, eu apressava o passo e cruzava na sua frente. Isso sucedia, como disse, todas as manhãs: nunca lhe dirigia a palavra, a não ser por casualidade, mas bastava ouvir o seu nome para sentir ferver o meu sangue.

Evocava-lhe a imagem até nas circunstâncias mais prosaicas. Nos sábados à noite, quando minha tia ia fazer compras, levava-me na sua companhia para eu carregar os embrulhos. Caminhávamos através de ruas bem iluminadas, esbarrando em bêbados e mulheres impertinentes, ouvindo pragas de lavradores ou pregões esganiçados de caixeiros, e, às vezes, a voz fanhosa de cantores ambulantes que entoavam coisas acerca de O’Donavan Rossa, ou baladas a propósito de acontecimentos locais. Todos esses ruídos resumiam-se para mim numa simples sensação: a de conduzir-me a salvo através de uma coorte de adversários. O nome dela vinha-me aos lábios nesses momentos em estranhos louvores e orações que nem eu mesmo entendia. Tinha, muitas vezes, os olhos repletos de lágrimas (não sabia dizer por quê) e, em outras, parecia-me que, do coração, manava uma corrente que se me alastrava no peito. Pensava pouco no futuro. Não tinha a certeza de lhe poder falar mas, caso o fizesse, não sabia como lhe revelar a minha febril adoração. O meu corpo, porém, era como uma harpa, e as suas palavras, do mesmo modo que os seus gestos, assemelhavam-se a dedos que faziam vibrar as cordas sonoras.

Uma noite, fui à sala onde o padre havia morrido. Estava escuro, chovia lá fora e na casa o silêncio era completo. Através de uma vidraça quebrada, eu ouvia a chuva crivando intensamente de agulhadas a terra encharcada dos canteiros. A mim chegava a luz de um candeeiro distante, vinda da janela de outro prédio, e eu me regozijava por não ver mais nada. Os meus sentidos pareciam querer esconder-se, como se soubessem que eu fugia deles. Apertava as mãos uma contra a outra até que as palmas ardessem. “Amor! Amor!”, murmurava então.

Por fim, ela falou-me. Quando me dirigiu as primeiras palavras, fiquei tão perturbado que não soube o que fazer. Perguntou-me se eu ia ao “Arábia”, mas não me lembro se disse sim ou não. Tratava-se de uma magnífica quermesse e ela estava desejosa de ir lá.

—Por que não vai? — preguntei.

Enquanto me falava, fazia girar em volta do pulso o seu bracelete de prata. Não ia, explicou-me, porque naquela semana tinha um retiro espiritual no convento. O irmão e mais dois rapazinhos estavam brigando por causa de seus bonés, e eu fui sozinho até a grade. Ela fez força numa das barras e enfiou a cabeça na minha direção. A luz do lampião fronteiro à nossa porta alcançava-lhe a curva clara do pescoço, iluminava-lhe parte do cabelo, descia pela mão que pousava na grade e atingia ainda um pedaço do vestido — guarnição do saiote, apenas visível quando ela se movia.

—Você iria gostar — disse-me ela.

—Se eu for —respondi-lhe —, trago-lhe uma lembrança.

Quantas loucuras não desenvolvi depois daquela noite nos meus pensamentos, enquanto passeava, e o nos meus sonhos, quando dormia! Meu maior desejo era suprimir os dias que faltavam — tão cheios de tédio! Aquecia- me no silêncio da minha alma curiosa e envolvia-me num encanto de magias orientais. Pedi que me deixassem ir à quermesse no sábado seguinte. Minha tia ficou surpresa e disse que esperava não se tratar de nenhuma complicação. Na aula, respondi a poucas perguntas e notei que o rosto do professor passava da expressão de afabilidade para a de ar carrancudo. Ele desconfiava que eu estivesse me tornando peralta. Quanto a mim, era-me difícil conciliar todas as ideias que me povoavam o cérebro. Mal tinha paciência para as coisas sérias da vida. Postos entre mim e o meu desejo, os divertimentos infantis pareciam brincadeiras monótonas.

Na manhã de sábado, lembrei a meu tio que queria ir à quermesse naquela mesma noite. No momento, ele estava procurando no bengaleiro a escova de chapéus e respondeu-me laconicamente:

—Sim, rapaz, já sei.

Como ele se encontrava no vestíbulo, não pude ir à sala de visitas e permaneci na janela. O ambiente da casa me pareceu desagradável e fui andando
lentamente para a escola. O tempo continuava enevoado e o meu coração crescia de desânimo.

Quando voltei para jantar, meu tio ainda não havia regressado. Era cedo, aliás. Fiquei durante algum tempo a contemplar o relógio, mas seu ruído acabou por irritar-me, e eu saí da sala, subindo a escada e indo vagar pelos quartos do andar superior (sombrios e desconfortáveis), cantarolando para me distrair. De uma das janelas que davam para a rua, vi meus companheiros brincando. Os gritos que soltavam chegavam a mim enfraquecidos e indistintos. Encostando a testa à vidraça fria, olhei para o prédio escuro onde ela morava. Devia ter ficado ali durante cerca de uma hora, sem nada ver a não ser a figura vestida de castanho que se me representava na imaginação — aureolada pela luz do candeeiro que lhe punha em relevo ora a curva do pescoço, ora a guarnição do saiote. Desci ao rés do chão e encontrei a Sra. Mercer sentada junto à lareira.

Era uma velha faladora, viúva de um penhorista, que colecionava selos usados para fins de caridade. Tive de aturar a conversa, enquanto tomavam chá. Isto prolongou-se por mais de uma hora, e meu tio não chegava! A Sra. Mercer levantou-se para sair, lamentando não poder demorar-se mais tempo, mas já eram oito e meia e não gostava de andar na rua a horas tardias, porque o ar da noite lhe fazia mal. Depois que ela foi embora, comecei a passear na sala, de punhos cerrados. Minha tia observou:

—Acho que você tem de desistir de ir à quermesse esta noite.

Às nove horas, ouvi meu tio destrancar a porta, depois como que o senti a conversar comigo, e por fim adivinhei o ruído do cabide ao receber o peso de seu sobretudo. Todos estes sinais me eram familiares. A certa altura do jantar, pedi- lhe que me desse dinheiro para ir ao “Arábia”. Ele tinha-se esquecido!

—A estas horas já estão todos dormindo — respondeu-me.

Não achei graça na resposta. Minha tia interveio em tom enérgico:

—Dê-lhe o dinheiro e deixe-o ir. Não o atrase mais.

Meu tio declarou ter muita pena de se haver esquecido. Quis saber outra vez aonde eu ia. Informei-o de novo e ele indagou se eu conhecia o “Adeus do árabe ao cavalo”. Quando saí da cozinha, deixei-o recitando os primeiros versos da composição.

Ao descer Buckingham Street, direto à estação, levava um florim bem apertado entre os dedos. À vista das ruas cheias de compradores e cintilantes de gás, reconsiderei no objetivo de minha jornada. Tomei lugar na terceira classe de um trem quase vazio. Depois de intolerável demora, pôs-se este em marcha, mas muito devagar: arrastou-se entre casebres arruinados e passou sobre o rio cujas águas brilhavam. Na West Row Station, a multidão invadiu os vagões, mas os empregados recambiaram esses passageiros, alegando que o trem se destinava especialmente à quermesse. Continuei só no vagão deserto. Dentro em pouco, parávamos diante de uma plataforma de madeira improvisada. Desembarquei e vi, no mostrador luminoso de um relógio, que faltavam dez para dez. À minha frente erguia-se um edifício enorme, onde se exibia aquele nome de mágica.

Com medo de que a quermesse já estivesse para fechar, passei muito rapidamente pela “borboleta”, apresentando um xelim ao porteiro, um homem macambúzio. Depois, achei-me num átrio imenso cingido até meia altura por uma galeria. Quase todas as barracas estavam fechadas e grande parte da sala conservava-se às escuras. Havia ali um silêncio semelhante ao das igrejas depois de terminada as cerimônias do culto. Caminhei timidamente até o meio da quermesse. Poucas pessoas paravam junto aos balcões que ainda estavam funcionando. Por trás de um reposteiro, sobre o qual se liam em letras resplandecentes as palavras “Café Chanant”, dois homens contavam dinheiro numa bandeja. Ouvia-se o tinir das moedas.

Lembrando-me do motivo que me trouxera à quermesse, fui a uma mesa das barracas e examinei as jarras de porcelana e os serviços de chá com florinhas. À porta, uma moça conversava e ria com dois rapazes. Notei-lhe a pronúncia inglesa e ouvi por alto o que diziam:

—Qual, nunca proferi semelhante coisa!

—Ora essa!

—Sim, senhora!

—Acham que é verdade?

—Acho. Eu ouvi.

—Pois é mentira!

Notando a minha presença, a moça avançou para mim e perguntou se eu desejava comprar alguma coisa. O tom não foi muito próprio para incutir coragem. Pareceu-me que ela falava por mera obrigação. Olhei humildemente para os jarrões que, de cada lado da entrada da barraca, se assemelhavam a guardas do Oriente, e respondi:

—Não... Muito obrigado.

Ela mudou de posição alguns objetos e voltou a conversar com os rapazes. O assunto continuou a ser o mesmo. E ela ainda uma vez me olhou por cima dos ombros.

Dei mais alguns passos defronte da barraca (embora soubesse que a minha permanência ali seria inútil) para tornar mais visível meu interesse pela mercadoria. Depois, lentamente, voltei as costas e fui ao centro da quermesse. Ouvi, então, alguém gritar, do extremo da galeria, que iam apagar as luzes. A parte superior do átrio já estava, por completo, às escuras.

Levantando os olhos para essa escuridão, vi a mim próprio como pessoa conduzida pela vaidade. E os olhos arderam-me de desespero e raiva.
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[1] Walter Scott (1771 – 1832), escritor escocês de expressão inglesa, é o célebre autor do romance histórico “Ivanhoe”(1820).

[2]  Eugène-François Vidocq (1775 – 1857) é considerado o pai da criminologia. Foi um criminoso que veio a se tornar o fundador e primeiro diretor da Segurança Nacional francesa, polícia especializada em investigações criminais.
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JAMES AUGUSTINE ALOYSIUS JOYCE foi um dos escritores mais revolucionários e influentes do século XX, apontado como um dos pilares do modernismo literário mundial. Nasceu em 1882, em Dublin/Irlanda e faleceu em 1941 (aos 58 anos), em Zurique/Suíça, devido a complicações de uma úlcera duodenal perfurada. Apesar de sua literatura ser profundamente enraizada em Dublin, Joyce viveu a maior parte da sua vida adulta como um expatriado na Europa continental. Ele mudou-se em 1904 com sua companheira, Nora Barnacle. Suas principais residências foram: Dublin, Irlanda (Infância e juventude); Trieste, Itália (Onde viveu por muitos anos e deu aulas); Paris, França (O centro de sua consagração literária nas décadas de 1920 e 1930); Zurique, Suíça (Onde se refugiou durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e onde veio a falecer). Veio de uma família católica que faliu financeiramente durante sua juventude. Formou-se em línguas modernas no University College Dublin. Para sustentar sua família e financiar sua escrita no exterior, ele exerceu diversas profissões fora do mercado editorial. Lecionou inglês na escola Berlitz, em Pola e na cidade de Trieste. Trabalhou brevemente em um banco na cidade de Roma. Deu palestras e aulas sobre literatura inglesa.
Joyce tinha um espírito rebelde e rejeitava instituições oficiais. Ele não pertenceu a nenhuma academia literária tradicional. Ele recusou propostas formais e preferiu manter-se isolado de círculos acadêmicos institucionais. Nunca recebeu grandes prêmios literários em vida (como o Prêmio Nobel). Sua obra era considerada "obscena", controversa ou complexa demais pelos comitês da época. Seu reconhecimento veio por meio de intelectuais de vanguarda e patronos literários independentes.
Os livros publicados de Joyce são relativamente curto em extensão: Música de Câmara (1907) – Coletânea de poemas líricos; Dublinenses (1914) – Coletânea de 15 contos realistas sobre a paralisia social de sua cidade natal; Retrato do Artista Quando Jovem (1916) – Romance de formação semiautobiográfico; Exilados (1918) – Sua única peça de teatro de destaque; Ulisses (1922) – Sua obra-prima. Reconstrói a Odisseia de Homero ao narrar um único dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom em Dublin; Poemas, cada um por um tostão (1927) – Caderno de poesias; Finnegans Wake (1939) – Seu último e mais radical romance, escrito em uma linguagem experimental e onírica quase incompreensível.
James Joyce mudou permanentemente a forma como o romance moderno é escrito. Sua importância reside em três pontos fundamentais: 1. Aperfeiçoamento do Fluxo de Consciência: levou a técnica do monólogo interior ao seu limite. Ele conseguiu registrar no papel os pensamentos humanos exatamente como eles ocorrem: de forma caótica, fragmentada e cheia de associações livres; 2. Revolução Linguística: O autor transformou o idioma em uma matéria maleável. Misturou dezenas de línguas, criou neologismos, trocadilhos multilíngues e estruturas rítmicas inovadoras; 3. O Cotidiano Elevado ao Mito: Em Ulisses, ele provou que a rotina comum de um homem comum ao longo de apenas um dia é vasta e complexa o suficiente para se equiparar aos maiores mitos épicos da história da humanidade.

Fontes:
James Joyce. Dublinenses. Publicado originalmente em 1914, 
Biografia – sites consultados: Wkipedia; Enciclopedia Britânica; Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Escola;  James Joyce; Joyce Foundation; Revista Rascunho, etc.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 18 *


Tão pão-duro é o sujeitinho,
que até para dar risada
pede ao bondoso vizinho
a dentadura emprestada!…
A. A. DE ASSIS
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Eu não possuo riqueza,
fui pobre desde criança!
Mas dentro desta pobreza
sou rica... tenho Esperança!
ADALZIRA BITTENCOURT
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Divide aquilo que tens
com quem tem fome e padece.
A partilha dos teus bens
tem mais valor que uma prece!
ALBA HELENA CORRÊA
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O meu melhor agasalho
é o colo de minha amada,
pois quando nele me encalho
não temo o frio ou geada!
AMILTON MACIEL MONTEIRO
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"Quem espera sempre alcança!..."
- Esperar por quem ?... Por quê?...
Se a derradeira esperança,   
morreu também com você!...
ANIS MURAD
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Sonho um mundo sem arenas,
mais justo, mais solidário,
onde a paz não seja, apenas,
três letras no dicionário.
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
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Se na memória eu não falho,
o poeta, qual todo artista,
é alguém que não dá trabalho
ao doutor cardiologista...
ANTÔNIO MÁRIO MANICARDI
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Não temas portas fechadas,
nem mesmo fracassos temas;
há sempre forças guardadas
para as conquistas supremas.
CAROLINA RAMOS
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Quanto mais a idade avança,
no longo tempo a correr,
eu tenho mais esperança
e mais prazer em viver...
CÔNEGO BENEDITO VIEIRA TELLES 
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Carimbar no coração
o dom - autenticidade -
é levar à multidão
um selo de qualidade!
CRISTINA CACOSSI
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Esse aroma ...tentação,
que deixaste...traiçoeiro,
abala meu coração,
dormindo em meu travesseiro!
CYNIRA ANTUNES DE MOURA
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Por mais que a vida se oponha,
traze os sonhos junto a ti,
porque, aos olhos de quem sonha,
o Infinito...é logo ali!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
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Eu vejo a noite indo embora
com seu véu de negros laços...
Deus acende a luz da aurora
e traz o sol em seus braços!
EDNA GALLO
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Abro a janela, e a neblina
lacrimeja na vidraça...
A saudade dobra a esquina,
entra em meu quarto e me abraça.
EDUARDO A. O. TOLEDO
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Sobreviver, nesta vida,
é travar uma batalha;
--chora-se a cada partida...
- vibra-se a cada medalha!
EULINDA BARRETO
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Entre os sonhos e a lembrança,
veja a vida, em seus compassos,
colher versos de esperança
na herança dos próprios passos!
EVA GARCIA
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Quando a seca nos acossa
e o rio mostra seu leito,
a tristeza que há na roça
roça com força em meu peito!
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
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Aquele casebre pobre,
lodo em palha ornamentado,
oculta um coração nobre
que o tempo deixou marcado!
FRANCISCO MAIA
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Esperança - benfazeja
visão de um doce porvir
- algo bom que se deseja
que pode vir ou não vir.
GERALDO PIMENTA DE MORAES
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Alvorada dos meus dias
teus olhos - luzes pagãs
acendem com poesias
o céu de minhas manhãs...
GILVAN CARNEIRO DA SILVA
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No cais da vida, a distância,
eu vislumbrei, na verdade,
a acenar-me a doce infância,
com o lenço azul da saudade!
GISELDA MEDEIROS
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Se o coração de quem ama
fosse capaz de compor,
o eletrocardiograma
seria um hino de amor!
JAIME PINA DA SILVEIRA
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Escrava do teu olhar
quis fugir... mas que surpresa!
Tentando me libertar,
cada vez fico mais presa.
JANSKE NIEMANN SCHLENKER
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A minha Mãe natureza,
que nada deixa faltar,
me faz saber, com certeza
que vale a pena sonhar…
JAQUELINE MACHADO
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O murmúrio deste rio
plangente, triste a passar,
às vezes eu desconfio:
É pra meu sono embalar.
JOÃO ALFREDO P. DE LIMA NETO
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O verbo "amar” conjugado,
tem dois tempos, asseguro:
a saudade - que é o passado,
a esperança - que é o futuro...
JORGE MURAD
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Minha fonte de alegria,
meu amor, minha paixão...
Tu és, ó doce poesia,
da minha vida a razão!
JOTA DE JESUS
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Se as águas banham meu rosto,
refletindo o meu cansaço,
entrego a Deus meu desgosto
e ganho D'Ele, um abraço.
KARLA CRISTIANE BITENCOURT
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Nesta rua, onde moro,
passa a vida em liberdade;
mas não passa quem adoro
nem, de mim, passa a saudade.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
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Em parte da minha essência
já nem sei mais quem sou eu…
quando choro pela ausência
de um sonho que já morreu!
LUCÉLIA SANTOS
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Na saudade intransigente,
o coração se revolta;
a estrada diz: – Segue em frente;
o coração pede: - Volta!
LUIZ POETA
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Eu tenho razão de sobra
ao chorar o amor perdido.
Minha face sempre mostra
um vazio refletido.
LUIZA NELMA FILLUS
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Ele cai... não retrocede!...
Continua... até sozinho...
que a fibra também se mede
pelas quedas no caminho…
LUIZ OTÁVIO
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Busquei tanto a liberdade,
e hoje, no Bar da Ilusão,
me embriago de saudade
na taça da solidão!…
MARIA DE LOURDES OUVERNEY
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Na caminhada da vida,
nos momentos mais festeiros,
nessa dureza da lida,
os livros são companheiros.
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
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“Sem uma “prova de amor”
sumo de vez e te esqueço!”
-“Pois some logo: - É um favor,
porque esse truque ... eu conheço!!!“
MARIA MADALENA FERREIRA
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Bandolim, meu amigão,
sai de dentro do baú,
vem tocar uma canção
pra gente de Tambaú!
MÁRIO BELTRAME
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De esperas fiz meu passado…
E compondo a vida assim,
tornei-me um barco ancorado
no cais do porto de mim…
MARISA OLIVAES
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Eu peço ao Deus da bondade:
– Não me tire a fantasia,
pois viver só realidade
é impossível, noite e dial
NILSA ALVES DE MELO
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O meu palácio encantado
onde o ano todo é Natal,
é um quadradinho, alugado,
chamado caixa-postal.
NILTON MANOEL TEIXEIRA 
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Se quiser ser campeão,
nesta guerrilha de amor,
leve a paz no coração
e da luz, todo o esplendor!
OLGA MARIA DIAS FERREIRA
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Faço versos e no entanto
aquele amor, que é loucura,
só deixa meu peito em pranto,
ao sentir que me tortura!
SARAH RODRIGUES
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Todo bem, toda alegria,
que neste mundo se alcança,
são juros de economia
guardado pela Esperança.
SEVERINO UCHOA
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Amar; dar educação.
Amor com sabedoria
enriquece o coração
e enche a vida de alegria,
SÔNIA REGINA ROCHA RODRIGUES
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Era um sonho, tão bonito!
Nas estrelas se escondeu.
Quis voltar lá do infinito,
mas na volta, se perdeu.
SÔNIA SOBREIRA
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Teu retrato até rasguei
para fugir à verdade...
"Sem lembranças"... eu pensei,
mas ninguém rasga a saudade.
THEREZA COSTA VAL
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Garota que, muitas vezes,
com jantares se tapeia,
vai, durante nove meses,
“chorar... de barriga cheia!”
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua...
VERA MILWARD DE CARVALHO
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Contadora de meus casos
dos bons tempos que vivi!…
Saudade não marca prazos
para me ver por aqui.
WAGNER MARQUES LOPES
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Mistério que nos sustenta,
quando a vida fere e cansa…
- Quanto maior a tormenta,
maior também a esperança.
ZALKIND PIATIGORSKY 
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José Feldman (O Mistério das Lágrimas)


Dona Marli estava na sua cozinha, avental xadrez sujo de farinha, faca afiada na mão e uma montanha de legumes na pia. A salada de domingo ia ser grande: alface, tomate, pepino, pimentão, cebola, azeitonas… — porque “não tem salada que preste sem bastante ingredientes”, como ela mesma dizia.
 
Começou a picar. Tchac, tchac, tchac. E logo seus olhos começaram a arder, a escorrer, mas ela nem ligou: “é assim mesmo, coisa normal”, pensou, enxugando o rosto na manga do avental.
 
A primeira a chegar foi sua vizinha Dona Roseli, que entrou sem bater, como sempre:

— Bom dia, Marli! Vim contar que… — parou de repente, olhou para o nada, e de repente seus olhos se encheram d’água. A voz ficou toda embargada: — Ah, não sei… a vida é tão… tão bonita, né? E tão… tão triste também! — e começou a chorar alto, sem motivo aparente.
 
Dona Marli ficou surpresa:

— Mas Roseli, o que houve? Você brigou com o marido? Perdeu o cachorro?

— Não sei! — soluçou a vizinha. — De repente deu uma vontade de chorar que não passa!
 
No mesmo instante entrou o sobrinho dela, Eli, que veio pedir uma receita:

— Tia, você sabe fazer aquele bolo de cenoura… — ele também parou, respirou fundo, e os olhos dele viraram dois rios. — Nossa… sinto tanta saudade da minha infância… e da vovó… e até do meu professor de matemática que eu odiava! — e se juntou à vizinha, chorando de ombro caído.
 
Depois veio o padeiro do bairro, que entregava o pão:

— Bom dia, Dona Marli, aqui está o seu pedido… — e também caiu no pranto, apoiado na porta: — Desculpa, senhora… mas hoje eu acordei pensando que devia tratar melhor a minha sogra… e que a vida passa muito rápido!
 
Em pouco tempo a cozinha estava cheia: a costureira, o carteiro, até o padre que passava por ali e resolveu dar um oi — todos choravam, uns abraçados, outros com lenços, uns dizendo que iam mudar de vida, outros pedindo perdão por erros antigos. Ninguém entendia nada. Falavam em energia ruim, em saudade coletiva, até em maldição!
 
Dona Marli parou por um instante, limpou os olhos mais uma vez, olhou para a pilha de cascas de cebola que crescia no canto da pia, e soltou uma gargalhada tão forte que todos pararam de chorar de susto.
 
— Mas vocês são uns bobos mesmo! — disse ela, apontando para os legumes. — Não é maldição, não é saudade, não é nada disso! Eu é que estou descascando e picando quase vinte cebolas para a salada! O cheiro delas é que está fazendo todo mundo chorar!
 
Os olhares foram se voltando para a pia. A montanha de cascas parecia ainda maior agora. E um a um, eles foram passando da confusão para a vergonha, e da vergonha para a risada.
 
— Ah, então é por isso! — disse o padre, enxugando as lágrimas. — Já estava pensando em fazer missão de três dias para limpar a alma do bairro!

— E eu já ia ligar para o padre para benzer a cozinha! — completou Dona Roseli.
 
E assim, entre risadas e ainda com os olhos um pouco úmidos, todos ajudaram a terminar a salada. E na hora de servir, ninguém reclamou nem um pouco da cebola — afinal, ela já tinha dado emoção de sobra para aquele domingo.
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.)

Silmar Bohrer (Croniquinha) 164


Quando aparece aqui no rancho algum conhecido, amigo, escriba ou pensador, vou logo apresentando os meus caros companheiros de dias de data que, para os que chegam, parecem imaginários.  

Não, não são! Como nós também não somos. Aqueles não estão presentes de corpo e alma, mas têm uma presença enorme - seu legado. Junto a eles, seus livros, a gente sente a aura, ouve vozes e ausculta pensamentos que parecem emanar ali das prateleiras.  São as companhias invisíveis do dia a dia. 

Se em vida temos oportunidade de conviver com escritos, ideias, pensares e inspirações, a presença "tácita" traz reminiscências de frases especiais, histórias e estórias de que não se esquece, livros que são relíquias, levando a dias inesquecíveis. E os autógrafos, sempre desejados?!

Deles é que temos ensinamentos - a literatura como ferramenta de reflexão e transformação, como luz para iluminar as contradições do mundo, expondo as desigualdades sociais, a ganância, as mazelas, os dilemas morais da sociedade - liças, misérias, preconceitos.

Quando entramos numa biblioteca podemos bem lembrar do escritor argentino, o "bruxo" Borges, que assim disse: "Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação".
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   O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.

Interlúdio * 7 *



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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.