terça-feira, 18 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 215 *

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Trova de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 –, Porto Alegre/RS

Aquela ponte que unia
nossas vilas ribeirinhas,
une, ainda, por magia,
tuas saudades e as minhas.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Frutos e gente

Frutos e gente são iguais
Ambos acabam amadurecendo
Quem o colha deseja o fruto
Quem o acolha almeja o homem
Frutos e gente têm sabor
Somente renascem se provados
O fruto através da semente
O homem pelo milagre do amor
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Trova de 
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Por ganância de riqueza,
desrespeito, e até trapaça,
o homem queima a Natureza
com a indústria da fumaça!
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Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Arco-íris das dores 
Para Luana D’Oliveira 

Envolto em um mundo liquefeito 
O metro brotou da pena do Brado 
Correu metrificado das páginas em branco 
Ganhou vida 
Criou asas 
Voou livremente mundo afora 
Transmutou-se em... 
Um rio de lava incandescente 
Correu furiosamente para o mar 
Para jazer em ouvidos surdos 
A perde-se em mentes vazias 
Na pós-modernidade 
Na realidade líquida pós-moderna 
 
Acima de um oceano de lágrimas 
Brilha um arco-íris de dores 
Pois poeta morreu de amores 
Pela musa sagrada 
Afogado em lágrimas secretas 
 
O Aedo jaz solitário... 
Na estante virtual! 
Também jazem no mundo imaterial 
A arte e a poesia 
A musa santificada 
O estro! 
 
Jazem unidos na contemporaneidade atroz 
Em um ‘’supermercado’’ irreal... 
Que vende palavras.
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Trova de 
HAROLDO LYRA
Fortaleza/CE

Essa fumaça abismal
configura um retrocesso
atroz e paradoxal,
nas esteiras do progresso.
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Soneto de
HÉRON PATRÍCIO
Ouro Fino/MG, 1931 –, Pouso Alegre/MG

Tudo isto existe

Quando, nas tardes calmas, eu passeio 
no velho bosque que há na minha rua,
em mantos de lembranças eu me enleio...
vem a saudade – e como é bom senti-la!

De uma galhada, a brisa, num meneio,
balança um velho ramo – e o ramo oscila
querendo desgarrar-se, em justo anseio
de ser ave que pelo céu desfila.

Nessa paz, que tem forma de carícia
- e no silêncio que ela me oferece –
uma voz vem de longe, vem e insiste,

num sussurro que é mágica delícia,
para dizer-me, feito um fim de prece 
“Tudo isto existe ... porque Deus existe!”
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Haicai de
ANIBAL BEÇA 
Manaus/AM (1946-2009)

Cochicho de folhas.
Varre o vento na calçada
secas lembranças.
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Poema de
LUÍS ROBERTO ALVES MEIRA
Bauru/SP

O Baú da minha vida

No porão da minha mente,
Guardei histórias,
Fotografias e glórias;
Panfletos e um monte de asneiras,
Mais o que eu guardei mesmo;
Está em uma caixinha,
Guardado em um sótão,
Em um castelo Medieval.
Dentro de um baú, 
Escrito Astúrias,
Com letras minúsculas.
E só eu tenho a chave deste cadeado.
Ninguém maias...
Um dia eu abro e conto a vocês,
O que escondi lá dentro... 
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Trova de
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Porto Alegre/RS

Lá vai a jangada ao mar,
com ela, meu coração.
Quando, enfim, ela voltar,
voltará a inspiração!...
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Sonetilho de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Minha casa, meu amigo

Minha casa, meu amigo,
tem espaço para nós,
tem o tempo como abrigo,
tem abrigo para a voz.

Minha casa, meu amigo,
tem espelho para os sós,
tem o vento como umbigo,
tem umbigo sem os nós.

Minha casa, meu irmão,
só não tem a sua alma,
suas mãos num violão...

Minha casa, coração,
só não tem a sua calma,
violão de amigo irmão.
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Trova de
GERALDO AMÂNCIO PEREIRA
Fortaleza/CE

Da velhice não me contem
a solidão que apavora,
o que vovô sentiu ontem
eu estou sentindo agora.
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Soneto de
FERDINANDO FERNANDES
Vila das Aves/Portugal

Sorriso perdido
 
Recolho ainda os restos de um vazio
Ficados no eflúvio som dos tempos,
Janela aberta nas margens de um rio
Onde medram tristes meus lamentos.
 
O Sol que alimentava esse teu brio
Que se perdeu no gemer dos ventos,
E torna o meu anseio sempre frio
Como a vida feita de tormentos...
 
O amor que incendiou o nosso olhar
Mendiga, na esperança de encontrar
A sombra que escondeu o teu sorriso...
 
Lembro ainda o gosto do teu beijo
E a pura carne, quente de desejo
Na liberta expressão de um paraíso.
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Poema de
ALBERTO PEYRANO
Santa Fé/Argentina

Água na alma

Eu vi tuas lágrimas a correr por tuas bochechas
E essa água benta, que minha sede matou,
Chegou até minha boca num suspiro
E inundou meu coração.
 
Que felicidade sem fim senti naquele instante,
Quanto de ti passou à minha alma...
Um pássaro cantava no jardim
Sob a intensa chuva de teu amor.
 
Peguei tua mão e a fiz tocar meu rosto
E, oh, milagre!... de teus dedos
Brotaram rosas encarnadas
Que o orvalho de minhas lágrimas cobriu.
(Tradução por Ógui Lourenço Mauri)
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Trova de
GERALDO LYRA
Recife/PE

Motorista da ilusão,
pelas estradas da vida
vou deixando o coração
no adeus de cada partida!
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Poema de
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
Brusque/SC

Tristeza

Tristeza d´alma
vá para longe...
não fiques me sufocando
com esta angústia,
dor no peito
sem fim.
- De onde vens?
São tantos os motivos...
mas por que insistes em ficar?
Deixe-me ser livre... solta!
Voar bem alto
e, no infinito,
mergulhar em meu íntimo,
a sorrir com orgulho,
de uma vida prestes
a desabrochar...
tímida e imprevista.
- Por favor,
não insistas mais
em ficar.
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Trova de
GILBERTO GUERREIRO BARBALHO
São José do Mipibu/RN

Há tanta leveza e graça
no teu porte, ao caminhar,
que o vento forte que passa,
faz-se brisa ao te encontrar…
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Quadro nostálgico

Eu sou a saudade
que você deixou
na hora amarga
do seu adeus...
Sou o “TUDO”
Que restou do “NADA”;
as lágrimas dos meus 
e dos olhos seus...
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Mensagem na Garrafa 210 = Um Mundo Perfeito

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AUTOR ANÔNIMO

Um jornalista tentava escrever sobre os problemas da humanidade e os meios de superá-los, em casa, mas a inspiração não vinha. 

Sua filhinha de sete anos conversando alto com a boneca não o deixava se concentrar. Vendo sobre a mesa um mapa da terra, ele teve uma ideia:

– Queridinha, vou lhe dar um maravilhoso presente se você me ajudar. Aqui está um mapa do mundo vou rasgá-lo em mil pedacinhos e você deve formar novamente a terra como achar melhor.

E assim fez, jogando os fragmentos sobre uma bandeja. A menina pegou a peça e saiu correndo. 

O pai respirou aliviado. Agora poderia se dedicar a escrever em paz. Mal redigia as primeiras linhas, a garota estava de volta:

- Papai ganhei o prêmio!!

Estupefato, o jornalista perguntou:

- Em poucos minutos você consertou o mundo que estava totalmente despedaçado. Como fez isso?

– É que atrás do mundo havia uma figura de um homem, eu consertei o homem e o mundo ficou perfeito.

Moral pelo blog:
Para consertar o mundo, devemos primeiro consertar o próprio ser humano. As grandes transformações globais começam com a melhoria do nosso próprio caráter, atitudes e valores. Problemas complexos muitas vezes exigem que mudemos o foco para enxergar a solução óbvia que está por trás deles.
Não adianta tentar resolver os sintomas sociais (as divisões do mundo) sem antes curar a origem de tudo (o coração e a mente humana).

A. A. de Assis (Aí deu errado...)

Plantou-se uma semente programada para transformar-se em figo, outra para transformar-se em trigo, outra para transformar-se em milho, outra para transformar-se em rosa. E todas se transformaram no que previsto estava.

Uniram-se duas sementes programadas para transformar-se em garças, outras duas para transformar-se em ovelhas, outras duas para transformar-se em vaga-lumes, outras duas para transformar-se em estrelas-do-mar. E todas se transformaram conforme programado estava.

Casaram-se então duas sementes programadas para transformar-se em homens e mulheres, os quais, por sua vez, estavam programados para cuidar e desfrutar de tudo o que as demais sementes produzissem.

Na mesa estava o banquete. Juntassem-se os homens e as mulheres e seus descendentes para à vontade se servirem. 

Porém a partir daí se complicaram as coisas. No que passou a depender dos homens e das mulheres, o plano começou a não dar certo. Ele e ela fizeram tudo diferente do que estava programado. E em vez de se amar, brigaram.

Agora está difícil desapartar a briga. 

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos e deram início à crescente produção de lanças, porretes, bodoques, tacapes, facas, espadas,  espingardas, fuzis, metralhadoras, canhões, torpedos, drones, mísseis, megabombas... 

Mas você pode dizer que a maioria da humanidade é formada por gente pacata e boa. E é sim. Não conheço nenhuma estatística sobre isso, mas acredito que mais de 80 por cento são pessoas do bem e da paz, gente que trabalha, estuda, toma uma cervejinha no final da semana e não faz mal a ninguém.

O problema é que os outros 20 por cento ou vivem brigando, matando, roubando, xingando, gritando, atropelando, ou botando mais lenha nas fogueiras, com isso tirando o sossego e o sono dos demais.

O que fazer então? Sei não. Acho que podemos pelo menos pedir aos céus que amansem esses encrenqueiros todos, antes que eles completem o estrago.
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(Crônica publicada o Jornal do Povo – Maringá – 13.8.2026)
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    ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Projeto de Trovas para uma Vida Melhor (Premiados: Novos Trovadores)


 SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP, BRASIL
IVº CONCURSO, 8ª ETAPA, 
TEMA: PROBLEMA/S 
JULHO/AGOSTO: 2026

NOVOS TROVADORES. 

 1º LUGAR
Pare com esse dilema
pois não é nada sadio,
o que parece problema, 
não passa de um desafio.
Bernadete Lacerda Soares 
Itaperuna/RJ

2º LUGAR
Problemas têm solução,
basta haver inteligência,
jamais perder a razão,
manter respeito e decência.
Lilian Miranda dos Santos.
Santos/SP

3º LUGAR
Se muito insiste um problema 
em tenaz te acompanhar,   
encara logo o dilema,
para livre caminhar!   
Amanda Fiorillo
Curitiba/PR

4º LUGAR
O amor pode ser problema
quando não correspondido.
A tristeza vira emblema
de um coração ressentido.
Aluísio Félix de Farias
Parnamirim/RN

5º LUGAR
"Cada um com seus problemas!"
Tornou-se regra hoje em dia...
Não há virtudes supremas?
Acabou toda a empatia?
Carlos Rogério Vriesman
Carambeí/PR
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1ª MENÇÃO HONROSA 
Um problema sempre ensina 
o valor da persistência,
cada dor dessa rotina
lapida nossa existência.
Regina Silva do Nascimento
São José dos Campos/SP

2ª MENÇÃO HONROSA 
Teu olhar que me sacia
a sede do coração...
Dos problemas me alivia,
tal qual brisa no verão!
Carlos Rogério Vriesman
Carambeí/PR

3ª MENÇÃO HONROSA
Quando o problema aparece
o temor quer florescer;
porém, se a coragem cresce
faz a vida renascer.
Celso Capodeferro
Bragança Paulista/SP   

4ª MENÇÃO HONROSA
Dramas, conflitos espessos,
vêm para desafiar.
Problemas, quedas, tropeços,
ensinam a levantar.
Lilian Miranda dos Santos.
Santos/SP

5ª MENÇÃO HONROSA
Ainda que o mundo tema,
expansiva distopia,
solucionar o problema
é buscar diplomacia.
José Fernando Cardoso da Silva
Pindamonhangaba/SP
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1ª MENÇÃO ESPECIAL
Os problemas vêm e vão,
tais as curvas de uma estrada,
são carros na contramão
que encontramos na jornada!
Ana Mairlene Moleta Retko
Ponta Grossa/PR

2ª MENÇÃO ESPECIAL
Fazer o mal ou o bem?!
Eu resolvo seu dilema:
escolha o que ajude alguém,
não o que cause problema.
Walter Antonio Dias Duarte
Itu/SP

3ª MENÇÃO ESPECIAL
O problema: falta paz;
a raiva deve abrandar,
um sorriso é eficaz,
pra vida não desandar!
Isabel Cristina Foggiatto
Ponta Grossa /PR

Fonte:
Maria Inez Fontes Ricco
Presidente da Seção São José dos Campos, SP.

Miriane Willers (Visita (in)esperada)


Chego em casa quase à meia-noite, cansada, chateada, carente de empatia e duvidando do correto, do combinado e do justo. Com esse ânimo, espero por ele, que chega em seguida, precisamente, às 00h06. Sem bater, vai se aproximando. Vem com terno de linho e guarda-chuva. Na bagagem, traz a saudade da maresia, dos dias despreocupados à beira-mar, dos sorvetes deliciosos, da agitação, das atividades ao ar livre. Traz também novidades repetidas.

O tio solteirão, como apelidou Quintana, me avisa que, a partir de agora, os dias ficarão mais frescos e mais curtos. Nem tão quentes, nem tão frios. Nem alegres, nem tristes. Durante sua estadia de três meses, me diz que haverá dias em que poderemos andar descalços, ao sol; outros mais sisudos, nublados, cobertos de nevoeiro. Haverá noites, que vão pedir aconchego, um chá; noutras, vamos abrir janelas, sair à rua, beber um chopp no barzinho.

Ele me conta, que a medicina chinesa considera cinco elementos: terra, fogo, água, madeira e metal. E é a energia do metal que se estende sobre nós, a partir de agora, como roupa secando ao vento. Explica que ingressamos numa fase de introspecção, chamando para um olhar demorado para dentro da alma e do coração. É necessário viver esse período de transição, com serenidade e brandura. Precisamos confiar nas mudanças, aceitar com calma os desafios, acolher com delicadeza as transformações que ocorrem nas nossas vidas, no trabalho, nos relacionamentos.

É momento de voltarmo-nos para o interior, refletir, perdoar, compreender. Cuidar de nós mesmos, mesmo que esse cuidado implique não atender as exigências dos outros. E está tudo bem! É possível amar as pessoas, mesmo tendo que dizer não; não dou conta; não posso. É tempo de armazenar energias, organizar-se, respirar fundo, acatar os silêncios. Tudo é transição.

Como as folhas se desprendem é necessário desapegar-se do que magoa, irrita, do que não deu certo – me lembra ele, com calma e paciência. Libertar-se nem sempre é fácil; é doído. Mas, necessário.

Além disso, concordo com ele que é tempo de colheita. No campo e no cotidiano. Que possamos colher laranjas e tangerinas doces e coloridas de sol; ramalhetes de crisântemos e beleza; feixes de ternura; cestas de abraços, afetos e sorrisos; frascos de gratidão; tarros de esperança. Numa verdadeira festa animada, com amigos e pessoas que nos fazem bem, em qualquer estação.

À medida que se achega, vai cantarolando a canção da Ana Carolina: “ Nas ruas de outono/ os meus passos vão ficar/ e todo abandono que eu sentia vai passar/ As folhas pelo chão/ que um dia o vento vai levar/Meus olhos só verão que tudo poderá mudar”. Me deixo envolver. Quero percorrer essas ruas...

Discordo do Quintana, ele não é o tio solteirão. Carrancudo, melancólico e instável. Ele é o amigo italiano: Autunno. Elegante, charmoso, que convida à tranquilidade, à boa conversa, à leituras mais serenas de nós mesmos e do mundo. Com a luminosidade amarelada, nos leva a encarar a vida com leveza.

Com sensação de sossego, vou dormir. Logo será outro dia. O primeiro dia de outono.
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A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.

Fontes:
https://www.mirianewillers.com.br/index.php?pgn=texto&idtexto=1674
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.

domingo, 16 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 32 *

 

 Regresso e de peito aberto,
dás-me perdão às mancheias:
- quem anda no rumo certo
entende as culpas alheias…
Carlos Guimarães
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997
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Não quero morrer agora,
quero contigo viver;
quero ver chegar a hora
desse sonho acontecer!
Dalvina Fagundes Ebling
Cruz Alta/RS (?? – 2020)
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Sofrem tantos na agonia
do delírio, dito "amor";
isso tudo acaba um dia:
faz frio após o calor…
Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
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Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…
Domingos Freire Cardoso
Ilhavo/Portugal
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O desencanto magoa,
ás vezes sem compaixão,
quando a saudade agulhoa
bem fundo no coração!
Dorothy Miranda
Salvador/BA
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Despedimos no portão,
senti seu beijo gelado...
Descobri, sem ilusão,
que estava tudo acabado.
Ed Louzi
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Em sua inspirada prece
com muita serenidade
é que São Francisco tece
toda a trilha da verdade!
Eduardo Domingos Bottallo
São Paulo/SP
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Minha identidade eu vejo
no teu olhar refletida,
e tudo o que mais desejo
é ser teu amor, na vida!
Eleandra Bonatto
Santiago/RS
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Com o mais lindo sorriso
e aquele olhar da ternura,
me levaste ao paraíso
quase cheguei à loucura.
Gledis Tissot
Balneário Camboriú/SC
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Quero só o que mereço,
pelos princípios morais;
fazer festa a qualquer preço,
é sempre caro demais!
Hélio Castro
São Paulo/SP
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Por minhas inúteis fugas,
entre tormentos medonhos,
deu-me a Vida, nestas rugas,
todo o prêmio dos meus sonhos.
Helvécio Barros
Macau/RN, 1909 – 1995, Bauru/SP
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Feito o sol da madrugada,
tu chegaste de mansinho,
e minha alma enamorada
aqueceu-se em teu carinho!
Ieda Marini de Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
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Se encontrei tudo na vida,
acho que posso falar:
você é tudo querida,
o que eu queria encontrar!
Isaías Teves
Amparo/SP
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O poeta voa leve...
Além da vida e da mente,
mas teima em dizer que escreve
bem menos do que ele sente.
Jair Sales de Almeida
Tomé Açú/PA
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Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.
João Costa
Saquarema/RJ
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Unindo-me a ti pensei
"união de eternos laços"…
Hoje eu vivo como um rei
enlaçado em teus abraços!...
José Manuel Veloso Galvão
São Paulo/SP
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Até podes dizer não
mas não te esqueças, jamais,
de que, na vida, é o perdão
que faz que sejamos mais.
José Roberto Pereira de Souza
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As rugas são, com certeza,
se grande for o desgosto,
as estradas que a tristeza
vai abrindo em cada rosto!
Lavinio Gomes de Almeida
Barra do Piraí/RJ, ?? – 2009
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Pelas vias pedregosas,
com sacrifício eu subia...
mas, ao descer, colhi rosas
que me encheram de alegria!
Lourdes Borelli
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O barco dos meus desejos,
vencendo tempos e espaços,
entre carícias e beijos,
ancorou-se nos teus braços.
Luiz Machado Stabile
Uruguaiana/RS
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Coração que canta e chora,
coração tão desigual,
que não tem, até agora,
um parecido ou igual.
Maria Aparecida Pires
Curitiba/PR
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Se é virtude, ou se é defeito,
sei não... Sei que ages assim:
da mansidão do meu peito
tiras proveito de mim...
Maria de Fátima S. Oliveira
Juiz de Fora/MG
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Paixões, eu digo e sustento,
pela inconstância da forma
são dunas de sentimento
que o tempo varre e transforma!
Maria Helena O. Costa
Ponta Grossa/PR
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Alvorada, em teu regaço,
de encantos indescritíveis,
eu vejo ampliar-se o espaço
em que os tenho - são possíveis!
Marlê Beatriz Araújo
Viamão/RS
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É feliz quem faz na vida,
sem, em troca, pedir nada,
da fé — ponto de partida -
do amor - meta de chegada!
Nádia Huguenin
Nova Friburgo/RJ, 1946 -2008
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Se a amizade for além
demais, entre o gato e o rato;
sobra ao dono do armazém
um prejuízo de fato!
Roberto Nini
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A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor,
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
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Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
Trigueiro Lins
Santos/SP
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Na infância, o sumo interesse;
- calças longas, sem demora!…
(Ah, se a vida devolvesse
as calças curtas de outrora!…)
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
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Qual uma fonte de luz,
o sorriso resplandece
e tira da alma o capuz
da tristeza, que a fenece...
Wildman dos Santos Cestari
Taubaté/SP
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