Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 15 de março de 2013

Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 19. Boa Prosa

Boa prosa, o Antônio Palhares. É curioso como há indivíduos inteligentes, perspícuos e engraçados, perdidos na multidão que não aparecem nas crônicas impressas, nem nas volantes e sonantes da gente que se conhece. De repente, surde-nos um da obscuridade e da indeterminação do vasto mundo que desdenhamos e ignoramos, e é um bicho de compreensividade, de senso, de espírito! Palhares é assim.

Conversei com ele hoje pela manhã, e nem sei dizer como me divertiu. Valeu por um livro novo que eu abrisse e folheasse, vendo as gravuras, o índice, os títulos de alguns capítulos, alguns relances de páginas. Quanta novidade, quanta frescura, quanto inesperado, e também quanto sabor de sinceridade libérrima e despreocupada, nos seus dizeres de homem sem galeria presente nem futura!

Queixei-me a Palhares dos inconvenientes da notoriedade. Não por mim, que sou um obscuro chapado e contente, mas por um amigo meu, que é uma espécie de terça parte minha, o qual muito tem sofrido por via desse flagelo. O rapaz não pode mais isolar-se, meter-se consigo, perder-se na fecunda anonímia multitudinária que lhe permitiria o descanso, o recolhimento, a respiração livre, a remodelação dos hábitos, a cura das feridas sempre abertas pela esfregação mundana: é um escravo aflito e amarfanhado das relações, das amizades, dos compromissos, das idéias que outros formaram a seu respeito, das solicitações e dos estímulos que por isso lhe vêm de todos os lados; e então padece, e geme, e desespera, porque desejaria romper com o
seu passado, deixar de ser o homem frívolo, o homem vento, o homem-inundação que tem sido, para ser um homem concêntrico e dono de si.

Palhares ouviu-me, ouviu-me, e, afinal, perguntou:

-"Mas esse moço é deveras uma inteligência sagaz, ou é uma dessas grandes inteligências bobas que há por esse mundo?"

-"Sagacíssima."

-"Pois não parece. Seria tão fácil libertar-se, isolar-se!"

-"É o que se afigura à primeira vista."

-"Precisa dos outros, efetivamente, para viver?"

-"Não; isso, não; tem a sua independência material bem segura."

-"Então, não compreendo. Por que não se retira?"

-"Impossível. Relacionadíssimo. Cheio de laços, que não se dissolvem senão quando novos laços os submergem: um homem que se procura, se aprecia, se quer, se disputa, se admira. Encantador. Como romper? Como ter a energia de quebrar brutalmente esses laços? Como repelir, quando se tem um coração brando, uma revoada de carinhos e solicitudes que nos cerca e nos assalta?"

-"Não compreendo. Para um homem se isolar, não há necessidade de movimentos bruscos, nem de fuga. Para fazer o vácuo em redor de si, gradualmente, docemente, não há senão isto: ser bom."

-"Mas ele o é. E depois, ser bom é mais um motivo para criar afetos e dedicações em redor de si."

-"Espere. Distingo. Ser bom, de uma bondade pedestre e regular, de fato, é um meio de criar afetos e dedicações em redor de si. Não é dessa bondade prática e hábil que eu falo. Eu falo da bondade íntima, profunda, plena e sossegada, que procura o bem nas próprias raízes do pensamento e da vontade, de forma que o pensamento e a vontade, quando se manifestam, já se manifestam como conseqüências exteriores, mortiças, frias, aguadas e, dir-se-ia, indiferentes de uma grande realidade latente e central que não cura de exterioridades. Compreendeu?"

-"Mais ou menos. Quer dizer uma bondade sentida, consciente, feita de compreensão e de piedade, mas que não tenta esforços por se mostrar e por atuar cá fora. Porque sabe talvez que toda exteriorização é espetáculo e todo espetáculo perverte."

-"Mais ou menos isso!"

-"Mas por que pensa que aí estaria o meio de libertação?"

-"Ora, essa! meu amigo! Pelo que vejo, não conhece os homens. Os homens só nos avaliam, nos pesam, nos apreçam pelas nossas projeções exteriores. E essas projeções, para terem valor, se hão de articular com as necessidades, os desejos, as conveniências, as aspirações dos que nos rodeiam. Valem pela soma de utilidade e de cumplicidade que levam consigo.
Mas um indivíduo realmente e simplesmente bom é o mais desvalioso dos homens. É talvez uma árvore frutífera, mas que produz frutos quando é sazão, e fora disso não produz mais nada; ali está, no seu lugar, quieta, sem movimento, sem iniciativa, sem préstimo, sem solicitudes, sem graça.
Apenas dá sombra. Uma sombra igual para todos. Mas que importa aos homens uma árvore que dá sombra! A sombra aproveita-se, quando aderga, goza-se, saboreia-se, mas não se tem nenhuma gratidão para a planta equânime que não no-la reservou para nós, que a dará ao primeiro vagabundo que a procure. Assim, a árvore de boa sombra vive realmente isolada, cercada por uma densa muralha de impenetrabilidade própria e de alheia indiferença."

"Diga ao seu amigo que faça isso."

Palhares sorriu, pôs um confeito na língua e, a remexê-lo na boca, perguntou:

-"Quer jantar comigo?"

-"Obrigado."

- "Sem cerimônia. Temos hoje lá em casa um peixe que me mandaram do litoral, um esplêndido robalo. Presente de um amigo."

-"Tem amigos amáveis."

-"Mas, naturalmente. Prestei a esse um serviço de grande importância, que só eu estava em condições de prestar."

-"Gratidão, nesse caso."

-"Qual!"

-"Esperança de novo serviço..."

-"Talvez"

-"Afeto humano!"

-"Afetos verdadeiros e sólidos! Passam depressa, nada mais fugitivo, não há dúvida; mas verdadeiros e sólidos porque se firmam na realidade viva das relações úteis. Não há outra. Dentro da vida, da vida efetiva, da vida que se vive, não há outra. É isso. É assim. Mas quer ou não quer comer o bom peixe do meu amigo?"

Fonte:
Domínio Público

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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