Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 24 de março de 2013

Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 25. Manual de Cozinha

Arranjei hoje com um contínuo um Manual do Perito Cozinheiro, para ler durante a viagem, à falta de outra leitura edificante, instrutiva ou deleitável.

Trago a cabeça cheia de leituras de jornal, e já não me diverte nada, pelo contrário, a sarabanda cotidiana das crônicas, estudos, fantasias, comentários, bisbilhotices e descomposturas. Tenho a impressão de já haver lido isso tudo não sei quantas vezes, desde a minha vida anterior, nosremotos pródromos do jornalismo com Mr. Théophraste Renandot. É incrível como as coisas atuais caducam depressa, como as novidades são velhas, como os fatos extraordinários são vulgares.

É verdade que a impressão de perpétua velhice só se prova agudamente quando se vai descambando ladeira abaixo dos anos em enta. Mas isso apenas demonstra que o espetáculo é comprido e só se pode bem apreciar depois de lhe ter visto um bom pedaço.

O fato é que estou fazendo quaresma a respeito dessa carne-de-vaca dos prelos. Ontem, li no bonde o Livro de são Cipriano, conhecimento que me entreteve como um fruto proibido, e que valeu ao dono do volume, servente da repartição, um pacote de fumo Veado. Hoje, um dos meus colegas devia emprestar-me as Noites da Virgem, mas afinal parece que teve receio de que eu lhe extraviasse essa "mimosa jóia", e declarou-me que a não havia encontrado; mentira, pois é o seu livro de cabeceira.

Arranjei-me porém com o contínuo, que fora da repartição é cozinheiro praticante, em ocasião de festa e regabofe, e dentro da repartição aprende a arte, decora receitas e dá consultas. Seja registado em sua honra, que não preenche apenas assim o seu horário oficial: também serve o café e faz o jogo do bicho.

O Manual fez-me o efeito refrescante de um bastão de cristal japonês passado pelas têmporas em hora de dor de cabeça. Nunca eu havia provado a tal ponto a maravilhosa utilidade das leituras inúteis. A parte referente ao preparo do peru com farofa e de outras aves domésticas e selváticas parecia escrita por um estômago inspirado, tanto garbo havia na variedade dos termos técnicos, na escolha das palavras mais precisas e sugestivas, no emprego dos adjetivos mais emanteigados e olorosos, enfim na composição de um estilo todo suavemente tostado e pururuca.

Li tudo, mas com absoluto desinteresse; por um puro ato de vontade, sem que nada me obrigasse ou seduzisse, ou me prometesse o mais remoto benefício. Singular prazer, cujo valor só depois completamente reconheci. Nem sequer me era dado pensar no aproveitamento de alguma receita, porque todos os pratos de que eu gosto já são perfeitamente executados e são de sobra para uma rotação conveniente dos menus; a tal ponto que ao saborear o frango assado no domingo, já eu sinto um pouquinho de saudade da torta de palmito da quinta-feira, e vice-versa, e assim por diante.

O que havia de bom nessa leitura era o emprego tenaz da vontade num objeto indiferente, ótimo exercício; era, depois, o esquecimento de umas amofinações, porque é impossível conciliar-se a leitura atenta de uma série de receitas de assados e cabidelas com o remeximento de espinhos espirituais.

Era, finalmente, a entrevisão liminar de um vasto mundo desconhecido, o mundo da Copa e da Cozinha, da pastelaria e das Artes afins; um mundo de ocupações e preocupações, de atividades e de idealidades, com sua história, seu tesouro tradicional, sua literatura, sua arte, sua ética, sua ciência; um mundo que aí fervilha tão perto do meu e ao qual eu andava alheio como se ele fosse Marte ou Saturno!

Esta percepção da impermeabilidade dos diferentes planos da vida me calou fundo na alma, e eu me senti ainda mais pequenino.

Se eu amanhã fizesse (mera hipótese) um poema forte, ou construísse uma teoria de mecânica, ou propusesse uma nova e fecunda maneira de interpretar a história, nada disso teria a mínima repercussão no mundo da Cozinha e da Copa; nem um eco sequer do meu nome chegaria até lá. A preparação do peru com farofa continuaria a mesma; ou, se se modificasse, havia de ser por ação de um dos íncolas, inovador de talento; e a alma do artista viveria em todo esse mundo largo mais viva e mais venerada do que a Divina Comédia ou o Discours de la Méthode ou o Novum Organum cá pelo nosso. E a sua glória não sofreria contestações nem eclipses, proclamada cada dia, através de tempos sem conta, por milhares de bocas verídicas e gratas!

E o nosso pobre mundo comum é todo assim, feito de mundinhos concêntricos, que se articulam sem se confundir E nós, ai de nós! pretendemos viver "cosmicamente!"

Fonte:
Domínio Público

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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